Arquivos comunitários e de periferias precisam existir para nos ajudar a reexistir!

Representantes de periferias, favelas e movimentos sociais ocupam a 2ª Conferência Nacional de Arquivos e garantem propostas históricas para a preservação de memórias historicamente negligenciadas pelo Estado.
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Depois de algum tempo sem aparecer por essas quebradas jornalísticas, peço licença para dar um relato de uma experiência marcante que tive entre os dias 26 e 28 de maio: a 2ª Conferência Nacional de Arquivos, realizada em Brasília. Organizada por arquivos públicos, privados, comunitários e de movimentos sociais em etapas municipais e estaduais, a conferência teve coordenação do Arquivo Nacional e do Ministério da Gestão e Inovação nos Serviços Públicos (MGI).

Repercutida pelo próprio evento como um marco, a presença de arquivos comunitários e de movimentos sociais, muitos deles localizados em favelas, periferias, quilombos, territórios indígenas e ribeirinhos, além dos organizados por grupos LGBTQIA+, resultou em importantes conquistas. 

Entre elas, a validação de propostas como o reconhecimento desses acervos na Lei Geral de Arquivos, a constituição de fundos públicos para sua manutenção e o fortalecimento de parcerias com universidades e órgãos públicos, respeitando a autonomia das organizações. Propostas de políticas públicas cuja construção e efetivação será cobrada por esses grupos.

Estive lá junto à Rede de Acervos, Memórias e Movimentos Sociais, articulação nacional de arquivos comunitários que, desde 2023 reivindica políticas públicas para esse campo, representando o coletivo que ajudo a construir desde 2018: o Centro de Pesquisa e Documentação Histórica Guaianás (CPDOC Guaianás), que atua há 12 anos entre os distritos do Lajeado, Guaianases, Cidade Tiradentes e São Mateus, na Zona Leste de São Paulo.

Reunindo histórias de vida de trabalhadores, fotografias doadas por moradores, jornais locais e de movimentos sociais, entre outros materiais, o coletivo utiliza esse acervo em roteiros históricos pelos bairros, oficinas e exposições de lambes nas ruas. O objetivo é incentivar os moradores a refletirem sobre seu cotidiano e sobre a caminhada coletiva na construção urbana das lutas sociais e atividades culturais de seus territórios, já que são eles próprios que produzem e compartilham os materiais preservados pelo coletivo.

Assim como o CPDOC Guaianás, outros coletivos também estiveram conosco na conferência. Entre eles, o Arquivo Dona Orozina Vieira, do Complexo da Maré, no Rio de Janeiro; o CPDOC Pirambu, de Fortaleza, dedicado à história das remoções sofridas pela população local; e o Zumvi – Arquivo Afrofotográfico, de Salvador, responsável pela preservação de registros da trajetória do movimento negro baiano, entre outros.

Em São Paulo, também integrante da rede, destaca-se o Centro de Memória Queixadas (CMQ), coletivo formado em 2020 por mulheres de Perus dedicado a preservar a memória das lutas trabalhistas dos operários da Fábrica de Cimento Portland Perus e das mobilizações populares lideradas por mulheres pautando saúde, moradia, educação e memória no território. Muitas outras experiências não aparecem aqui, mas certamente serão relatadas por essas bandas em outras oportunidades.

Representantes de Acervos Comunitários comemoram momento da aprovação de propostas do grupo na Conferência / Foto: Luan Gomes

A Conferência Nacional de Arquivos, assim como outras conferências de participação social, reuniu técnicos, arquivistas, pesquisadores e trabalhadores para debater as condições dos arquivos brasileiros, incluindo infraestrutura, acesso à informação pública, memória como direito e aperfeiçoamento da legislação do setor.

Sem apoio financeiro nacional permanente, os arquivos públicos dependem da verba e da vontade política de estados e municípios, o que faz com que seu funcionamento seja precário em boa parte do Brasil.

Somando-se a essa luta, os acervos comunitários trouxeram a demanda de comunidades cujos documentos que produzem sobre violências sofridas, lutas por direitos, conquistas coletivas, práticas culturais e produção de conhecimento geralmente não são preservados pelo Estado que tem como fundamento arquivístico registrar e preservar suas próprias atividades.

Nossos arquivos impulsionam atividades de educação popular e escolar, fortalecem a visibilidade dos territórios e produzem memória e propostas de sociedade. As dificuldades para guarda e conservação dos documentos, bem como para aquisição e manutenção de sedes, continuam sendo as maiores demandas. 

Apesar disso, a autonomia dos coletivos e a permanência dos arquivos nas mãos das comunidades são pautas inegociáveis. Não é possível haver uma Política Nacional de Arquivos sem preservar as experiências de vida de trabalhadores, negros, periféricos, indígenas, LGBTQIAPN+ e movimentos sociais no chão em que pisam.

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