O Desenrola e Não Me Enrola, organização de jornalismo periférico de soluções e educação midiática antirracista, lançou no mês de agosto o “Fellowship de Mudanças Exponenciais no Jornalismo”, como parte de uma nova metodologia para fortalecer o jornalismo de interesse público territorial. O programa, que conta com a participação de mídias de Pernambuco, Bahia e Pará, irá difundir no país uma abordagem inovadora de escuta qualificada e mensuração de impacto das produções jornalísticas.
O cenário do jornalismo no Brasil, mas não somente, é pautado fortemente a partir dos interesses das grandes empresas do setor de tecnologia, que controlam quais informações as pessoas têm acesso, como conta Ronaldo Matos, Diretor Executivo do Desenrola: “O Desenrola tem mais de uma década de atuação no jornalismo feito a partir das periferias. Nos últimos cinco anos, estamos vendo os desertos de informações e o analfabetismo midiático crescerem junto com a desinformação e a desconfiança no jornalismo. Diante deste contexto, a gente não se conforma com o papel submisso que as Big Techs nos impõem”, afirma.
“Se a Meta e o Google forem como a Uber, nós, jornalistas, somos os motoristas. Queremos transformar o jornalismo no Brasil para que ele opere a partir de um sistema soberano de tecnologia nacional. Esse é o papel da metodologia que desenvolvemos: ela coloca os interesses das pessoas na frente dos interesses dessas empresas.”
Ronaldo Matos, Diretor Executivo do Desenrola e Não Me Enrola
Ronaldo se refere a metodologia criada pelo Desenrola e Não Me Enrola em 2025 a partir das bases da mudança exponencial e metodologia de impacto sistêmico elaborada e distribuída em países do Sul Global, a partir do trabalho realizado pelo Centre for Exponential Change, da Índia, e aqui no Brasil pelo Centro para Mudanças Exponenciais e Instituto Beja. A partir desse novo método de produção e distribuição de conteúdo, os moradores de territórios periféricos, indígenas e quilombolas são o elo fundamental entre a notícia e seus desdobramentos.
Participam desta edição do Fellowship as mídias Conquista Repórter, de Vitória da Conquista – BA; Sargento Perifa, de Recife-PE; e Tapajós de Fato, de Santarém – PA.
Tecnologia territorial, alcance nacional
Para orientar e sistematizar os aprendizados e produções do programa, foi desenvolvida uma plataforma digital que conta com o apoio de outros atores, como os Agentes de Integridade da Informação (pessoas que realizam a escuta territorial e de impacto nos territórios) e Agentes Produtores de Conteúdo ( responsáveis pela produção jornalística orientados pelo interesse dos moradores). Essa plataforma permite a visualização das demandas coletadas em campo, a distribuição direta da produção realizada pelas mídias para os moradores e o espalhamento do impacto gerado pelos conteúdos.

Essa é a infraestrutura digital, criada com tecnologia 100% desenvolvida pelo Território da Notícia, organização que nasceu em 2021 e hoje é gerida pelo Desenrola e pela Periferia em Movimento, que une escuta comunitária e comunicação territorial para fortalecer o acesso à informação, aos direitos e à participação democrática.
“O Território da Notícia acumulou muitos saberes com a distribuição de conteúdo nas periferias de São Paulo a partir de totens digitais instalados em comércios locais. Por ano, são 4 milhões de pessoas alcançadas. No entanto, entendemos que o jornalismo no Brasil precisa de mais ferramentas que façam a notícia chegar a quem mais precisa. Por isso, inauguramos um novo marco em nossa história, testando agora no fellowship o protótipo tecnológico que oferecerá as bases da Infraestrutura Digital para o jornalismo no país”, conta Thiago Borges, Gerente de Produtos da Território da Notícia e cofundador da Periferia em Movimento.

A partir dessa nova plataforma em fase de teste, as iniciativas terão acesso a ferramentas como: Mapa de Interesses, com uma camada de escuta ativa conduzida por Agentes de Integridade da Informação, que coletam relatos, demandas e percepções da população por meio de formulários geolocalizados; mapas de calor das urgências identificadas; um banco de notícias e o gerador de pautas, que transformam demandas territoriais em produção jornalística contextualizada com pautas estratégicas voltadas ao acesso a direitos.
A plataforma também conta com um painel Avançado de Impacto, responsável por monitorar mudanças na relação dos moradores com a informação, os serviços públicos e os direitos sociais. Para além de medir alcance, a plataforma acompanha indicadores ligados à educação midiática, à confiança informacional e à transformação de práticas cotidianas.

O Território da Notícia desenvolve ainda um modelo de Inteligência Artificial (IA) generativa, que interpreta os dados para sugerir abordagens com maior ‘match’ com a população de cada local. Dessa forma, as notícias podem ser anguladas de acordo com interesses e prioridades territoriais, além da interatividade personalizada com cada morador ou moradora.
Ao unir essas etapas dentro de uma infraestrutura digital, o objetivo é assegurar que o jornalismo esteja voltado para os interesses das pessoas, que combata notícias falsas e ataque às desigualdades informacionais.
Metodologia de inovação social voltada ao jornalismo
Para implementar essa mudança no jornalismo, o Desenrola desenvolveu uma metodologia específica para impactar os atores do ecossistema de notícias, que foi implementada oficialmente em 2025, em Guaianases (na zona leste de São Paulo) , e aprimorada ao longo dos últimos meses. Rompendo com o modelo tradicional, a jornada proposta foca em escutar as pessoas, produzir conteúdo, verificar aprendizagens para produzir novamente, gerando um ciclo em espiral ascendente.

“Nossa metodologia foi desenhada de forma a garantir que a audiência, as pessoas, não sejam só o público final, que elas sejam reconhecidas como donas de saberes, de conhecimento”, conta Thais Siqueira, Diretora de Articulação Política do Desenrola e que coordena a equipe de educação midiática.
Outro destaque é o fomento à cidadania, por reconhecer que o jornalismo não se encerra com a produção da notícia, mas na reverberação desse conteúdo na vida das pessoas.
“A metodologia foi pensada para que as pessoas reconheçam no jornalismo um aliado da democracia e da participação social. No jornalismo, tradicionalmente, nosso papel enquanto jornalistas se encerra quando o conteúdo está distribuído. Nós nos perguntamos ‘qual o impacto disso na vida das pessoas?’. Em um mundo dominado pela enxurrada de conteúdos que recebemos na tela do celular, queremos que o que produzimos gere impacto, gere aprendizagem, para nós e para as pessoas”, finaliza Thais.
