Historicamente, o olhar hegemônico sobre as periferias impôs uma lógica de apagamento ou de estereotipação. Quando se trata da juventude periférica, esse cenário se torna ainda mais evidente: frequentemente, os jovens das quebradas são enquadrados apenas por meio de narrativas de escassez ou violência.
Segundo pesquisa do Ministério do Trabalho e Emprego, em 2025, mais de 18% dos jovens brasileiros não conseguiram estudar nem trabalhar. Mal nomeados como “nem-nem”, essa parcela da juventude escancara a falta de oportunidades específicas para pessoas com idades entre 14 e 24 anos.
A pesquisa ainda revela que 84% dos jovens que trabalham ocupam funções generalistas, que não demandam qualificação específica e a grande maioria desses jovens recebem até 1,5 salários mínimos. Com poucas chances de emprego e sem condições de continuar seus estudos, seja por falta de opções públicas ou de condições para bancar o próprio estudo na rede privada, a juventude nas periferias sofre com a ausência de perspectivas.
Esse cenário é confirmado pelo Relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, a OCDE, que em 2018 afirmou que seriam necessárias nove gerações para crianças de famílias pobres alcançarem a renda mensal no Brasil.
Acreditar na juventude, acreditar no futuro do jornalismo
No Desenrola e Não Me Enrola, desafiamos essa lógica há mais de uma década. Entendemos que não é possível falar sobre o presente e o futuro dos territórios periféricos sem garantir que os jovens façam parte dessa construção como sujeitos ativos, principalmente na comunicação.
No Desenrola, a juventude faz parte de um ciclo de formação e produção:
- Formação e Educação Midiática: capacitamos jovens das periferias para que desenvolvam o pensamento crítico diante das informações que se deparam, compreendendo o ecossistema da comunicação e utilizando o jornalismo como ferramenta de emancipação;
- Produção Participativa e Coletiva: criamos espaços de aprendizado de mão dupla. A bagagem acumulada ao longo de mais de uma década de jornalismo periférico se conecta com o olhar questionador e inovador das novas gerações.
Disputa de futuro, preservação da memória e garantia de direitos
Investir e caminhar ao lado da juventude é, acima de tudo, uma estratégia de sustentabilidade e continuidade da nossa luta. Quando um jovem periférico domina as ferramentas da comunicação, o impacto transcende a produção de um texto ou de uma reportagem.
Trata-se de uma disputa de futuro e memória. Garantimos que os saberes e as lutas históricas dos nossos territórios sejam preservados e continuados. Mais do que isso, fortalecemos a consciência cidadã para que esses jovens e seus territórios reconheçam seus direitos, cobrem o poder público e construam soluções coletivas para os problemas reais que enfrentam.
Mudar a pergunta: a juventude como agente da própria história
Ao deslocar o jovem periférico da posição de espectador para a de comunicador, promovemos uma virada metodológica e política: a realidade do território passa a ser narrada por quem vivencia seus desafios e suas potências no cotidiano. Isso garante um jornalismo com escuta atenta e profundo respeito à memória e às dinâmicas locais.
É por isso que, desde 2014, investimos na educação midiática antirracista por meio do programa Você Repórter da Periferia. Ao longo de oito edições, formamos centenas de jovens, resultando em quase 70 reportagens em vídeo e centenas de textos publicados em nosso portal.
Nessa trajetória, cruzamos com histórias inspiradoras. Muitos dos comunicadores formados levaram o aprendizado para diferentes áreas de atuação e para o exercício pleno da cidadania; outros tantos, usaram a formação como trampolim para alavancar carreiras no jornalismo.
A seguir, apresentamos a trajetória de três jovens negras formadas pelo Desenrola:
Rebeca Motta

Participou da edição de 2018, aos 24 anos, quando cursava os primeiros semestres de Jornalismo. Após o Você Repórter da Periferia, atuou com comunicação institucional e jornalismo territorial em iniciativas locais. Apresentou diversos programas, incluindo a 4ª temporada do Desenrola Aí, nosso programa de entrevistas transmitidas através do YouTube.
Rebeca foi reconhecida com premiações importantes do setor, como a Medalha Zumbi dos Palmares, honraria municipal concedida pela Câmara Municipal de Taboão da Serra, ao seu trabalho pautado no antirracismo, e o Prêmio +Admirados Jornalistas Negros e Negras da Imprensa Brasileira, em 2023.
Hellen Novais

Integrante da 7ª edição do programa, em 2023, em que ingressou aos 20 anos, Hellen cursava Jornalismo e fazia estágio em comunicação interna. Ao conhecer o jornalismo periférico promovido pelo Desenrola, apaixonou-se pela abordagem e transformou essa vivência no tema de seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), aprovado em 2025. Após concluir nossa formação, foi contratada pelo Alma Preta Jornalismo, onde produz conteúdo jornalístico para redes sociais.
Glória Maria

Glória participou do Você Repórter da Periferia em 2016, quando tinha apenas 16 anos. Após a formação, construiu uma trajetória sólida passando por veículos e instituições como a Agência Mural, Agência Pública, Instituto KondZilla e Énois. Em 2024, também foi contemplada com o Prêmio +Admirados Jornalistas Negros e Negras da Imprensa Brasileira. Hoje, formada em Jornalismo e cursando graduação de Gestão de Negócios, atua no G1 e na TV Globo.