Com parceria territorial do Desenrola, Coalizão de Mídias lança pesquisa sobre desinformação e consumo de notícias 

Dos territórios indígenas às periferias, o estudo ouviu mais de 1,5 mil pessoas em São Paulo, Recife e Santarém, em pesquisa que aborda justiça informacional no Brasil. Integrante da iniciativa, o Desenrola foi um dos parceiros territoriais do levantamento.
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A Coalizão de Mídias Periféricas, Faveladas, Quilombolas e Indígenas lança nesta quarta (13) a pesquisa “Dos territórios indígenas às periferias: retratos da desinformação e do consumo de notícias para reimaginar a justiça informacional no Brasil”. Ao todo, foram realizadas 1.563 entrevistas, distribuídas entre Santarém (22,20%), Recife (38,77%) e São Paulo (39,03%).

Realizada em três regiões distintas do país — São Paulo, Recife e Santarém — a pesquisa busca preencher uma lacuna de dados no campo da comunicação e coloca os próprios territórios como sujeitos produtores de dados e conhecimento.

“Decidimos realizar essa pesquisa a partir de uma ausência: sabemos pouco sobre como a informação e a desinformação operam, de fato, nos territórios periféricos”, explica Thais Siqueira, diretora da Coalizão e cofundadora do Desenrola e Não Me Enrola. “A maioria dos estudos trabalha com dados agregados que não capturam o cotidiano. A pesquisa nasce da necessidade de aprofundar esse olhar a partir de dentro”.

Metodologia: o território como protagonista

A pesquisa “Dos territórios indígenas às periferias” foi realizada em parceria com o Observatório Ibira30 e apoio da Fundação Tide Setubal.

O método de pesquisa adotado foge da lógica tradicional de “público-alvo”, o que marca um dos diferenciais do processo: a Coalizão de Mídias recrutou pesquisadores, jornalistas e comunicadores de cada localidade. Em Recife, artistas de rua e jovens mães foram treinados. Em Santarém, a coleta foi realizada integralmente em papel para respeitar a dinâmica local.

Para Yane Mendes, diretora da Coalizão, a iniciativa é um ato de soberania. “Sempre fomos vistos como ‘os dados’, como o ‘público-alvo’. Sentimos a necessidade de fazer uma pesquisa do nosso jeito, para ter munição e comprovar que a desigualdade impacta diretamente o nosso acesso à verdade. É um grito de que nossos corpos não dão conta de resolver sozinhos o problema da desinformação sem colaboração estrutural”, afirma.

Dados territoriais que servem de alerta ao jornalismo

Um dos dados da pesquisa revela que a maioria dos entrevistados nos três territórios não conhece sites de checagem de notícias. Para o grupo, o dado acende um alerta para o ecossistema jornalístico sobre as ferramentas atuais de combate à desinformação que não estão alcançando as populações mais vulneráveis, conforme levantamento.

“Isso coloca um desafio direto: não basta produzir checagem. A pesquisa mostra que essas iniciativas não estão chegando a quem mais precisa delas”, analisa Thais Siqueira. Para a diretora, o futuro do jornalismo exige uma “recalculação de rota” que privilegie o vínculo e o pertencimento. “As mídias territoriais fazem parte de redes de confiança porque os jornalistas são moradores. Existe responsabilidade com a informação que circula ali”.

Entre os dados, a pesquisa mostra as principais dificuldades relatadas pelos moradores para se manter bem informado, com destaque para Internet de baixa qualidade (8,59%), falta de acesso à internet (6,94%), ausência de dispositivos adequados (4,75%) e alto custo para acessar (4,24%). Juntas, representam 24,52% das pessoas que responderam a amostra vivendo em condições de acesso desigual às tecnologias de informação e comunicação.

Para além do acesso em si, outras desigualdades foram levantadas, como dificuldade em identificar se a informação é verdadeira (17,41%), falta de tempo (16,27%), frequentemente relacionada a rotinas exaustivas, múltiplas jornadas de trabalho e dinâmicas desiguais que afetam sobretudo mulheres, pessoas negras e moradores de territórios periféricos, e o excesso de informações (15,37%), que pode gerar sobrecarga e dificultar a seleção de conteúdos confiáveis.

Também se destaca barreiras como falta de interesse (11,25%), linguagem difícil (7,65%) e pouca informação sobre bairro/comunidade (6,35%), o que segundo a pesquisa aponta para desafios relacionados à relevância, acessibilidade linguística e contextualização das informações.

A pesquisa também revela que a busca por notícias é motivada principalmente por necessidades práticas da vida cotidiana, principalmente conectadas ao território. Entre o motivo mais citado está “entender o que acontece no meu bairro” (16,77%). Também se destaca fatores ligados à tomada de decisão (14,70%), ao compartilhamento de informações com outras pessoas (11,94%) e para discutir e ter assuntos em conversas (11,60%). O interesse por política e economia (11,08%), por temas de cultura (9,63%), o uso instrumental da informação para cursos, empregos e oportunidades (9,45%) e atividades de trabalho ou estudo (8,06%), também aparecem. 

Recortes de gênero, raça e clima

O estudo utilizou a interseccionalidade para entender as nuances do consumo de notícias. Em Recife, observou-se que as mulheres são as principais buscadoras de serviços públicos e educação, reflexo da dupla jornada e do papel de cuidado. Os tipos de informações procurados em Recife variam, com destaque para buscas por políticas e atualidades (15,1%) e saúde e bem-estar (15,8%), além de lazer e esportes (8,7%).

Em Santarém, o interesse por questões climáticas e ambientais é significativamente superior ao de São Paulo, evidenciando como a pauta da justiça climática é urgente nos territórios do Norte. No município, há maior centralidade em temas relacionados ao bairro/comunidade (17,2%), notícias nacionais e internacionais (13,1%), educação (10,6%) e emprego, trabalho e renda (10,3%).

Já em São Paulo, os desafios da inteligência artificial e da sobrecarga informacional apareceram com mais força entre os jovens, enquanto os idosos demonstraram ser mais cautelosos, recorrendo a redes de confiança pessoal antes de compartilhar conteúdos.

As entrevistas realizadas com os moradores de São Paulo mostram o interesse por informações sobre programação cultural (10,4%), educação (10,7%), emprego e renda (10,3%) e notícias nacionais/internacionais (11,8%).

Uma ferramenta de transformação social

Segundo Yane, a Coalizão de Mídias entrega este estudo não apenas como um documento acadêmico, mas como uma ferramenta política para filantropias, universidades e tomadores de decisão.

“Estamos disponibilizando uma ferramenta de transformação social. É um convite para as instituições chegarem junto e escutar o povo”, diz.

Sobre a Coalizão de Mídias

A Coalizão de Mídias Periférica, Favelada, Quilombola e Indígena foi fundada em maio de 2023, no contexto pós-pandemia.

Como uma associação civil sem fins lucrativos, ela atua em âmbito nacional e internacional, e reúne organizações comprometidas com a democratização do jornalismo e da comunicação, e pela valorização das narrativas oriundas de territórios historicamente marginalizados.

Em coletivo, a atuação se dá a partir de três pilares: incidência política de articulação local e nacional, trocas de saberes de tecnologias ancestrais de comunicação e jornalismo, e na produção de conteúdos jornalísticos.

A Coalizão de Mídias é formada por iniciativas de 6 estados brasileiros, são elas: Periferia em Movimento (SP), Desenrola e Não Me Enrola (SP), A Terceira Margem da Rua (SP), Frente de Mobilização da Maré (RJ), Fala Roça (RJ), Rede Tumulto (PE), Mojubá Mídias e Conexões (BA) e Coletivo Jovem Tapajônico (PA).

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