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Pesquisadora defende protagonismo periférico contra a violência estética das redes sociais

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Tendência, trend, modinha ou hype, seja lá qual for o nome, todos refletem o mesmo fenômeno: a cultura digital, que conecta e influencia, na mesma velocidade em que pode desacelerar reflexões. Conteúdos virais e em alta têm gerado padrões de consumo e comportamento, especialmente entre jovens e adolescentes. Alguns chegam a esconder mensagens racistas e estereotipadas que afetam a percepção do que é estilo, beleza e identidade para pessoas periféricas, e em especial, negras.

Uma pesquisa realizada em abril pelo Porto Digital em parceria com a Offerwise, mostrou que 90% dos adultos com acesso à internet acreditam que os adolescentes não têm apoio social ou emocional suficiente para lidar com o mundo digital. O estudo, inspirado na repercussão da Adolescência, transmitida pela Netflix e que abordou os impactos da vida online na vida dos adolescentes, apontou que os maiores desafios para os jovens são a depressão e a ansiedade (48%) e a pressão estética (32%).

‘‘As mídias sempre determinaram quem iria performar determinado padrão [de consumo ou comportamento], e até mesmo pessoas historicamente marginalizadas, ao ganhar visibilidade, em alguma medida, acabam reproduzindo estes padrões. Ao mesmo tempo, marcas e mídias se apropriam da estética e linguagem da quebrada, mas sem reconhecimento’’, explica Lidiane da Silva, pesquisadora e mestre em semiótica.

Tendências e racismo

Conteúdos sobre a estética “clean girl”, o look do dia, tratamentos capilares, rotina de skincare, bolsas, acessórios e centenas de produtos de luxo, se encontram com o vídeo da unha da semana, a nova tendência do modelo de calça, do procedimento estético bombástico do momento, segundo Lidiane, são exemplos que refletem padrões de consumo, estética e identidade. 

No pano de fundo dessas tendências, um dos debates é sobre o que é considerado bonito, descolado, que também se conecta com o que a mídia e as plataformas ditam como o que é desejável e valorizado. As pessoas compram e se apropriam desses estilos conforme o que é exibido. No entanto, o problema existe bem antes da chegada da internet, cita a pesquisadora, que tem se dedicado a estudar economia criativa e os modos de consumo e expressão no contexto das periferias.

“Inclusive, até falar sobre isso geralmente expõe que a pauta é levada a sério apenas quando vem de um influenciador ou influenciadora branco(a), privilegiado(a), ou quando os meios de comunicação replicam algo que o movimento negro já denuncia há anos. O movimento sempre apontou como a mídia forma padrões de beleza e estética baseados em corpos brancos, magros e ricos”, reforça Lidiane ao detalhar o perfil dos influenciadores que continuam ditando padrões e tendo mais alcance entre o grande público.

Relatório publicado em agosto de 2025, mostra que nomes como Virgínia Fonseca (26%), Nathalia Arcuri (3%), Bianca Andrade (2%), Anitta (1%) e Juliette (1%) lideram entre as mulheres, enquanto Felca (12%), Carlinhos Maia (9%), Whindersson Nunes (5%), Felipe Neto (3%) e Rodrigo Góes (2%) aparecem como os perfis masculinos mais lembrados entre os influenciadores brasileiros, segundo a pesquisa “Influenciadores Digitais 2025”, realizada pela Opinion Box em parceria com a Influency.me.

Segundo a pesquisadora, os padrões de beleza e referências culturais foram construídos para excluir corpos e culturas periféricas, e essa herança ainda influencia a forma como os sujeitos periféricos se percebem e são lidos socialmente. 

“A discussão estética para nós, pessoas negras, foi necessária, pois o racismo começou pelos brancos, [também pela] da via da [aparência]. Mas os avanços na mídia foram frágeis: as marcas só abraçaram a diversidade por lucro, não por compromisso real. A sensação de progresso é ilusória, e muitas vezes seguimos padrões explorados pela mídia.” Lidiane da Silva, pesquisadora e mestre em semiótica.

Ela observa que estilos da periferia são usados para afirmar status social, mas que esses espaços continuam violentos para a população negra e periférica. “Achamos que vencemos [ao encontramos] diversidade de corpos, tons de pele, gente preta e periférica. Mas, na real, as marcas nunca acreditaram nisso. Só viram [possibilidade de retorno financeiro] e tornaram disto tendência”.

Desigualdade de oportunidades para criadores periféricos

De acordo com a pesquisadora, embora criadores periféricos consigam gerar visibilidade e estabelecer novas referências, ainda enfrentam desigualdade de oportunidades, além de pressões sobre o que produzem e compartilham. 

“Criadores mais privilegiados, por exemplo, conseguem viver de seu conteúdo e mostrar uma vida que nem sempre é verdadeira. Já nas quebradas, a pessoa precisa trabalhar, dar conta de outras mil coisas, e ainda se esforçar para produzir conteúdo’’, afirma.

Criadores de conteúdos contam como é trabalhar com as redes sociais sendo periféricos

O impacto das redes, mesmo quando imperceptíveis, se estende especialmente aos adolescentes, que usam diariamente as plataformas digitais pertencentes às Big Techs (como TikTok e Instagram) não apenas como consumidores, mas também como personagens num espaço de construção de identidade e valores, controlado por algoritmos, ressalta. 

Nesse sentido, segundo Lidiane, as telas cumprem uma dupla função. ‘‘É comum ouvir que os pais precisam controlar o tempo de uso, mas, na prática, a realidade das famílias é outra. Muitas mães, sozinhas, acabam recorrendo às telas para manter os filhos seguros. O celular se torna uma espécie de babá eletrônica’’, esclarece, ao analisar os desafios que envolvem o uso excessivo para além da influência dos padrões de consumo e destaca a necessidade de compreender a responsabilidade das plataformas.

Protagonismo periférico

A pesquisadora destaca ainda que pesquisar academicamente, para si, está conectado ao seu próprio processo de autoafirmação, fruto da vivência na quebrada. Nascida e criada na comunidade do Parque dos Camargos, bairro localizado na cidade de Barueri, região metropolitana de São Paulo.

Filha de mãe diarista, que criou sozinha ela e seus irmãos, o estudo foi apresentado como uma forma de transformação da realidade. “Venho de uma família que não experimentou o acesso à educação formal, uma família [de maioria] não alfabetizada. Essa ausência me fez acreditar que, por meio dos estudos, eu poderia mudar a minha vida. Eu me agarrei muito a essa ideia, desde cedo’’, divide.

Esse movimento a levou a assumir sua pesquisa de mestrado e iniciou um processo de compreensão sobre sua posição enquanto sujeita periférica na universidade e no mundo. ‘‘Passei então a citar autores que colocam a quebrada no centro da discussão, como Tiaraju Pablo D’Andrea, Neuza Santos Souza, Vilma Ribeiro, entre outros”, conta sobre o processo de construção de referências.

Ao defender que o processo de construção de referência seja protagonizado pelas pessoas dos territórios, Lidiane reforça a importância de potencializar o trabalho de quem mora na quebrada, incluindo os próprios influenciadores que vivem nelas.

”As marcas seduzem, e a gente precisa delas para viver, ter visibilidade e construir identidade [no mundo]. Porém, no fundo, isso mantém um sistema capitalista e cruel. A questão é: como potencializar nossas próprias marcas? Precisamos colocar a quebrada no centro, sem depender de um sistema que nos oprime”, afirma.

“A quebrada é tecnológica, criativa e detentora de saberes próprios. Precisamos nos apropriar disso.” Lidiane da Silva, pesquisadora e mestre em semiótica.

Lidiane ressalta que o poder define conceitos de beleza e pertencimento, e que tem muitas pessoas falando de temas importantes: “Porém, são pessoas nadando contra a corrente.”

“No fim, para nós, a sensação de avanço é sempre muito sensível. A gente acha que conquistou muito, mas esses avanços são lentos, frágeis e sempre em disputa”, conclui.

A casa: recriações de pertencimento e o reencontro de si

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Oprê ! Vinte anos pra achar a casa e oito anos tentando entender a casa que me achou. Nesses anos confusos, vi o tempo voltar, quando o “útero-roncó” me sugou e me cuspiu de volta, zerando todo o tempo que eu achava que já tinha por aqui. 

A casa é uma experiência coletiva que é replicada e reinventada em respeito aos nossos mais velhos e mais velhas. A casa não é de aluguel, não foi comprada e não é minha.

Na porta de fora dela a gente roda água sobre a cabeça e pede que nosso ori se esfrie das andanças por aí nessa eira do mundão. Entramos! Omi tutu ! 

Batemos forte na segunda porta… Toc, toc, toc! O dono dos caminhos ouve e nos recebe sorrindo. Agora sim podemos (re)entrar mais fundo na casa. Laroyê!

Mais uns passos e o dono das folhas ouve nosso chamado ao saldar as plantas e nos avisa que o banho está pronto. Suas folhas nos lambem e nós, mesmo sem esperar por surpresas, quando olhamos pro lado já estamos em outro lugar. Um lugar que ainda assim é ali onde lembrávamos que queríamos chegar. 

A dona da casa nos avista e nos conta um causo, um saber ou uma história. Algo que nos parece aleatório e que vamos refletir melhor só daqui dois meses ou sete anos. Passado o tempo que for, será a hora de agradecer a ela pelo ensinamento. Essa senhora negra, que é nossa mãe, nos aponta algo e nos pede o que sabe que podemos e saberemos fazer, senão pelo tempo que temos na casa, pelo tanto que nos permitimos aprender com ela.

Na mesa da casa, os búzios trazem vários versos e números, que chegam a nós vindos da boca da nossa mãe maior. Chegam os versos, mas não chegam só aos ouvidos, eles vem pra abraçar o nosso coração e nossa alma. Nada, simplesmente nada é simples, portanto tudo o é. Parece confuso, e é. 

Sentamos no chão da casa e aprendemos a comer com a mão, ouvir o silêncio e a dançar por dentro e por fora, vibrando e movimentando o nosso axé. Olhamos à volta e vemos que na casa há um espaço medido em metros e outro que é imensurável, que não pode ser medido. 

O chão da casa é metáfora pra terra, o teto da casa, cheio de bandeirinhas, é metáfora pro infinito, pro indizível, saberes ancestrais que chegam até a gente por meio de palavras, de cantos, de arrepios e até mesmo de sussurros soprados pelo vento por alguém que já flutuou ou flutua por ali.

No chão da casa nós dançamos, nos deitamos, embalamos nossas crianças internas e botamos nossas cabeças curvadas em devoção. Nesse mesmo chão aterramos nossas corpas e firmamos nossa busca por paciência. Nossos pés se comunicam de forma fluída com o chão, numa língua que não sabemos e que não queremos traduzir, mas que tem significados. 

Nessa casa o espelho fica do lado de dentro da gente, o ouro não vale o que valia e as matriarcas se afirmam e se combinam entrosadas. O mundo de fora, tão Ocidente e decadente, é repelido mesmo que insista muito em entrar, porque na casa cabe só aquele ou aquela que mereceu estar. A casa então não é pra todo mundo, embora esteja aberta a quem venha de coração puro. 

Foto: Aloysio Letra

Na casa temos os pés descobertos, o ori protegido e a consciência desafiada dia a dia. Saber que não se sabe nada, renascer, não tem preço, mesmo que às vezes custe muito desapego. Não é fácil aprender a dar mais do que receber. Não é pouco se dedicar sem esperar algo de volta e, por não esperar, aí sim receber.

Não há um caminho lento ou rápido pra adentrar a casa. Há caminhos múltiplos de afetos, convites e de saberes que vem da escuta e da observação. Um dia a casa simplesmente chega na gente, mesmo que a gente esteja distante dela. E quando ela chega a gente cabe nela do tamanho que somos, basta engolir o orgulho e saber mais ouvir do que falar.

Dia menos dia a nossa casa, aquela que a gente mesmo escolheu, alugou ou comprou, acaba também entrando na casa, na casa ancestral, na casa que teremos ligação mesmo depois de passar por aqui.

Na casa eu não me entendo, eu me relaciono. Na casa, irmão mais velho pode ser irmão mais novo e podemos ter quinze pais, vinte mães e ter a companhia dos nossos avós, que estarão por aqui, nos aconselhando de noite enquanto os tambores ressoam. 

A casa que é de mais de uma família é ao mesmo tempo de uma família só. Pra partilhar, colher amor e muita fé, a casa se firma como inzo, terreiro, roça ou ilê axé. É nessa casa e em tantas outras que pedimos licença pra entrar e pra sair. Mojuba ô !

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Como as desigualdades habitacionais afetam as pessoas e os territórios? #37 

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Você sabe o que é viver com o medo constante de um dia para o outro não ter mais onde morar? De acordo com dados divulgados pela Secretaria de Municipal de Habitação, em 2023, haviam mais de 115 mil famílias vivendo em 567 ocupações na cidade de São Paulo. Ou seja, se considerarmos a média de cinco pessoas por família, seriam 575 mil pessoas vivendo em ocupações na cidade. 

Esse é o caso da Ocupação dos Queixadas, localizada em Cajamar, desde 2019. A ocupação reúne 100 famílias em um terreno de 10 mil metros quadrados. De forma autogestionada, os moradores cuidam de uma horta comunitária, galpão para assembleias, biblioteca e brinquedoteca. Porém, desde o início a ocupação sofre com ordem de reintegração de posse.

A partir da Ocupação dos Queixadas e da atuação do Movimento Luta Popular, que nessa semana falamos sobre moradia. Para esse papo, conversamos com Viviane Mendonça, moradora da Ocupação dos Queixadas e militante do Luta Popular, além da antropóloga Amanda Amparo.

Amanda ressalta a importância de olhar do ponto de vista racial para os territórios, pois são áreas compostas em 72,9% por pessoas negras, de acordo com dados do Censo 2022, que apresenta um recorte para as favelas do país. Segundo a antropóloga, a relação entre vulnerabilidade e remoção é um processo que vem desde o pós-escravidão.  

“Quando [pensamos] as ocupações, as favelas, os territórios mais empobrecidos, [percebemos] que esses são territórios compostos de corporeidade negra. Então, essa relação de remoção com essa relação de vulnerabilidade, com a agressão, isso não é de agora. Esse é um processo que se dá lá no pós-escravidão, em que as pessoas negras não sendo mais escravizadas, a contrapartida disso é que elas passam a não ter onde viver”, afirma a especialista.

Dia dos Professores: “Para nós, existe um compromisso moral em continuar acreditando e apostando na educação pública”

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“Acredito que é pela educação que a gente pode transformar, pelo menos, uma parte da nossa vida social”, é assim que João Nakacima descreve sua vivência na educação pública. Professor de Artes no EJA (Educação de Jovens e Adultos), no CIEJA (Centro Integrado de Educação de Jovens e Adultos), no distrito do Campo Limpo, zona sul de São Paulo, ele começou a carreira na rede estadual, deu aulas a alunos do ensino fundamental e médio e, desde 2019, atua exclusivamente com jovens e adultos que desejam retomar os estudos.

Seu exemplo vem de casa. João é filho de uma educadora da rede pública, Emiko Nakacima Amendola, que o levava para algumas aulas quando não tinha com quem deixar o filho. Ainda criança, ele ficava ali, sentado, absorvendo as atividades. Antes, enquanto ela cursava a faculdade de história, grávida, ele também já a acompanhava ainda na barriga. “Desde muito cedo, tive esse contato com a vida acadêmica e com o ambiente da educação pública”, divide.

O grupo para o qual o professor dedica sua vida profissional, possui 2,4 milhões de estudantes no Brasil, de acordo com o Censo Escolar 2024.

Diante de vários contextos, histórias, e de diferentes motivos que fizeram muitas pessoas interromperem o ciclo dos estudos, o professor destaca que acompanhar os alunos do EJA expõe camadas que dão ainda mais sentido ao seu trabalho. 

“O que me motiva e me mantém na EJA é ver como, apesar de todas as dificuldades, essas pessoas voltam à escola com vontade de aprender, de recuperar o tempo perdido. Muitos têm o sonho de concluir os estudos, outros querem simplesmente aprender a ler e escrever.” João Nakacima é professor de Artes no CIEJA Campo Limpo, zona sul de São Paulo.

Retornar aos estudos, segundo ele, é como um ato de coragem. “Há também estudantes com deficiências múltiplas — físicas, intelectuais — que, por muito tempo, foram tratados como invisíveis [pela educação formal]. Ver essas pessoas hoje incluídas, aprendendo coletivamente, sendo respeitadas, é muito bonito”, conta.

João lembra que os professores enfrentam inúmeros motivos para desacreditar do ensino, já que os índices educacionais revelam grandes desafios, somados ao adoecimento psíquico, à sobrecarga e às precárias condições de trabalho. Mas mantêm o otimismo diante dos desafios.

“Eu acredito que, enquanto docentes, existe um lugar de otimismo moral que precisamos preservar. Não é um otimismo cego, descontextualizado, mas um otimismo que reconhece os desafios e, mesmo assim, escolhe enfrentá-los.” João Nakacima é professor de Artes no CIEJA Campo Limpo, zona sul de São Paulo.

A base que sustenta essa sua esperança na educação pública de qualidade é, sobretudo, a potência humana. “É sobre o quanto nós, enquanto indivíduos, somos ricos nas nossas nuances, nas nossas particularidades. A educação é justamente essa ponte, essa troca constante entre quem ensina e quem aprende”, compartilha.

O aprendizado construído de forma conjunta é uma das descobertas desse caminho. “Quando a gente se permite enxergar o outro, e também a nós mesmos, dentro desse processo, percebemos o quanto há de potência em cada pessoa: a capacidade de aprender, de se experimentar, de se transformar”, reflete.

Esperançar o futuro

Na Escola Estadual Júlia de Castro Carneiro, localizada em Itapecerica da Serra, região metropolitana de São Paulo, a professora de história, Joelma Moraes, também tem apostado na educação como ferramenta de transformação de sujeitos e contextos. 

Nascida em São Roque e criada em Mairinque, ambas cidades localizadas no interior de São Paulo, ela conta que foi lá que nasceu a paixão e admiração pelos seus próprios professores. “Sempre estudei em escola pública, e como minha cidade era pequena, todo mundo se conhecia, inclusive os professores, que moravam perto das nossas casas. Para mim, isso fez toda a diferença”, lembra.

Antes de se tornar professora, Joelma trabalhou no comércio. A maternidade e o desejo de ficar mais próxima do filho a levaram a mudar para a região metropolitana de São Paulo, onde encontrou oportunidades na educação. Desde 2020, leciona História para alunos do ensino médio e diz: “Ser professora é uma responsabilidade enorme, pois sempre respeitei meus próprios professores, que mostraram que a educação transforma e abre portas e janelas, muito além [daquilo que já conhecemos].”

“Atuar na educação pública é você saber que ensinar não é apenas conteúdo escolar. A gente se envolve profundamente com histórias de vida, [exerce] cuidado, atenção. Muitas vezes, o professor acaba sendo um psicólogo e até visto como uma figura materna/paterna para muitos.” Joelma Moraes é professora de história na E.E. Júlia de Castro Carneiro, em Itapecerica da Serra, SP.

Essa realidade relatada pela educadora reflete o panorama educacional do país. O Brasil registra hoje a maior população jovem da sua história, com cerca de 51 milhões de pessoas entre 15 e 29 anos (IBGE 2022), muitas delas em situação de vulnerabilidade e com menos acesso à educação e ao trabalho formal. 

Segundo o Censo Escolar da Educação Básica, realizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), em 2024, o Brasil tinha 47,1 milhões de matrículas na educação básica, uma leve queda de 0,5% em relação a 2023. A rede pública caiu para 37,6 milhões de matrículas, enquanto a privada cresceu para 9,5 milhões. No ensino fundamental, foram 26 milhões de matrículas, com maior queda nos anos finais (3,6%) do que nos iniciais (2%). No ensino médio, 7,8 milhões de alunos estavam matriculados, com 83,1% na rede estadual e 13,2% na privada, representando um aumento de 1,5% em relação a 2023.

Outro levantamento do Inep mostra que, na educação superior, 33% dos concluintes do ensino médio em 2023 se matricularam em 2024. Por tipo de rede, a proporção foi de 64% na federal, 27% na estadual e 60% na privada. No total, o Brasil contabilizou 10 milhões de estudantes no ensino superior. 

A professora conta que muitos de seus alunos vivem em contextos marcados por violência e vulnerabilidade social, o que afeta a autoestima e a crença no próprio potencial. “Quando chegam à sala de aula, procuro mostrar a eles que [mesmo o caminho não sendo igual para todos] podem transformar essa realidade. […] Podem se tornar bons profissionais e com isso garantir uma vida digna, criar uma família, conquistar sua casa. Nem todo mundo vai ficar rico, mas podem se orgulhar de ser bom naquilo que fazem.”

Ela reforça que sua própria história se entrelaça com a de muitos de seus alunos. “A gente que vem do interior, não tem essa ideia de projetar a vida para o futuro. Cresci em uma realidade mais prática, fazia o que era possível. Minha mãe, empregada doméstica, dizia que eu não poderia seguir o mesmo caminho. Então, o máximo com que sonhava era em ser uma secretária administrativa. Só depois descobri minha verdadeira vocação: ensinar”, diz.

“Eu poderia ter seguido outro caminho, mas escolhi e sigo escolhendo ser professora. Acreditei que, por meio da educação, poderia transformar vidas e ajudar a construir uma comunidade melhor”, finaliza Joelma.

A criança interior resgata a leveza que merecemos ter hoje

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No dia 27 de setembro comemora-se o Dia dos Ibejis, no dia 12 de outubro foi Dia das Crianças, qual a importância dessas datas? Será que temos que procurar por nossa criança interior? Sigo nessa sessão com reflexões relacionadas ao resgate ancestral e com o tema que propõe a celebração das crianças.

Refletir sobre a força simbólica e afetiva que é muito profunda relacionado a elas, unindo memória, psicologia, espiritualidade e ancestralidade. O que senti foi costurar lembranças da infância, a força das crianças nos terreiros, a simbologia dos Ibejis e a importância psicológica de reencontrar essa alegria.

A alegria das crianças, dos recomeços e dos desejos que buscamos realizar, pedir e conquistar, nos convida a lembrar da certeza de que existe uma criança dentro de nós — e também fora, nos pequenos que nos rodeiam e que, com sua presença, nos rejuvenescem. Eles nos trazem esperança, alegria e a possibilidade de olhar a vida com mais leveza.

Memória da infância

Quando penso na ciranda, na brincadeira de roda da ciranda cirandinha, recordo os tempos em que brincávamos na rua. Havia alegria, inocência e uma liberdade que hoje parecem ter sido esquecidas pelo estilo cheio de limitações da vida adulta.

Lembro da correria nas ruas de terra, dos bosques, das comidinhas e doces improvisados. Mesmo sem brinquedos, roupas ou sapatos, a diversão não deixava de existir. As faltas não pareciam pesar. O que preenchia a infância era a liberdade, a felicidade e a leveza.

A criança interior

Na festa dos erês, reencontramos tudo isso: cores, doces, brinquedos, correria e bagunça. O que para o adulto pode parecer exagero, para as crianças é a expressão mais pura da felicidade. E talvez essa seja a pergunta: a felicidade se perdeu no tempo ou podemos buscá-la novamente em cada abraço, em cada olhar, em cada gesto de cuidado pelas nossas crianças e por nós mesmos?

Com frequência escrevo sobre ancestrais, orixás, sentidos e sentimentos. Mas percebi que pouco falo sobre a alegria — e do quanto ela pode nos transformar. O adulto, muitas vezes, tenta apagar a criança que carrega dentro de si. E, nesse apagamento, perde o contato com sua essência pura e divinizada.

A criança interior é a força que nos lembra que a vida pode ser leve, brilhante, afetiva e cheia de encantamento. Permitir que ela se manifeste é reencontrar uma fonte de rejuvenescimento e esperança.

Ibejis: a alegria que renasce

Na tradição afro-brasileira, essa alegria é celebrada nas festas dos Ibejis — gêmeos associados à dualidade e ao princípio do recomeço. Ligados à infância, representam o brotar da vida: a nascente de um rio, o nascimento humano, o germinar das plantas.

A grande celebração acontece em 27 de setembro, Dia de Ibejis, quando doces, caruru, vatapá e bolinhos são oferecidos às crianças e aos frequentadores dos terreiros. Os Ibejis são a divindade da brincadeira, da alegria e da infância.

Um convite

Talvez possamos incorporar esse olhar para dentro nas festas e comemorações anuais. A criança pode ser o princípio de recomeço e de flexibilidade da mente. Mas, distantes dessa essência, deixamos que a rotina e as obrigações tornem a vida cinza, pesada, sem graça.

Com este artigo, desejo convidar você a reservar alguns minutos do seu dia para rir, brincar, se alegrar consigo mesmo. Busque sua felicidade. Faça algo que te divirta. Permita-se não levar a vida tão a sério — hoje!

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Direito ao brincar: a criatividade que desafia a falta de espaços

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Mês de outubro chegou e já pensamos logo no Dia das Crianças, aquelas resenhas, festividades, brinquedos e distribuição de presentes que sempre rola na quebrada. Você sabe quais espaços de lazer realmente existem na comunidade para que essas crianças possam se divertir para além desse dia único?

Enquanto bairros centrais de São Paulo concentram praças bem cuidadas, áreas verdes e equipamentos de lazer, na comunidade a realidade é outra, ruas estreitas, poucos espaços públicos e quase nenhuma estrutura voltada para a infância.

Para muitas crianças a rua, a quadra e o campinho acabam sendo os únicos cenários possíveis para brincar. O campinho de terra, ainda que sem alambrado, se transforma em estádio, um ponto de encontro onde a molecada se diverte.

Segundo dados da Prefeitura de São Paulo, a cidade conta com um pouco mais de mil praças públicas distribuídas nos 96 distritos. A concentração, no entanto, é desigual, enquanto bairros centrais e de classe média recebem mais manutenção e investimentos, distritos periféricos convivem com praças abandonadas, sem iluminação ou brinquedos sem condições de uso. Há comunidades inteiras sem nenhum espaço de lazer formal. Isso no dia a dia afeta diretamente a qualidade de vida dessas crianças.

O brincar, que deveria ser garantido, acaba sendo um exercício de resistência, com muita criatividade elas fazem ruas vazias virar pista de carrinho de rolimã, a calçada se transforma em tabuleiro de amarelinha riscado com giz improvisado, os campinhos viram grandes estádios onde rolam as melhores disputas entre meninos e meninas, onde o objetivo é ganhar o grande prêmio, que é um refrigerante de dois litros. Nessa simplicidade e com poucos recursos, as crianças inventam mundos inteiros através da imaginação.

Foto: Juh Na Várzea

Ainda assim, na quebrada vemos essas crianças florescer em risos, invenções e brincadeiras que surgem da forte arma que a infância periférica tem : A criatividade. Um lembrete de que é nessa força inventiva que a periferia mantém viva a essência do ser criança. Que 12 de outubro seja, em muitas quebradas, um dia para aproveitarem e se divertir com esses eventos destinados a elas, Mas, que nós, nos dediquemos para que essa felicidade possa permanecer também nos outros dias.


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Bancos comunitários combatem desigualdade de acesso ao crédito nas periferias

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Enquanto os bancos tradicionais dificultam o acesso ao crédito para pequenos empreendedores e pessoas de baixa renda no Brasil, os bancos comunitários Palmas, localizado na periferia de Fortaleza, e Paulo Freire, localizado na Cidade Tiradentes, zona leste de São Paulo, estão reduzindo taxas, criando moedas digitais, facilitando acesso ao crédito e fortalecendo empreendedores locais.

Uma das pessoas impactadas por essas instituições financeiras comunitárias é Márcia Rodrigues, 52, moradora do bairro Jangurussu, em Fortaleza, que se tornou empreendedora do ramo de alimentos com o apoio do banco Palmas, instituição financeira comunitária, após conseguir acesso ao crédito necessário para iniciar e expandir o empreendimento “Bolo Bolo”.

Ela conhece o banco Palmas desde os anos 2000, quando trabalhava como coordenadora em uma creche comunitária, que também era um centro de nutrição. Nessa época, Márcia não recebia nem um salário-mínimo e para complementar a renda ela começou a aprender a cozinhar.

Com o apoio de cursos oferecidos gratuitamente pelo Banco Palmas, ela conseguiu estruturar um novo ramo de atuação profissional, passando a fazer tortas de frango, bolos e salgados para vender na porta de casa.

“O dinheiro para fazer isso era tão pouco. O que entrava a gente tinha que comprar [os ingredientes] novamente, e essas coisas não têm um retorno a curto prazo, porque você tem que investir. Aí eu pensei: ‘vou procurar o banco Palmas para ver se consigo fazer um empréstimo’.” relembra a empreendedora.

Ela conseguiu esse empréstimo para investir no empreendimento. “Eu cheguei a fazer [empréstimo de] até R$ 5.000. Então, [o negócio] deu uma guinada, porque eu pude fazer bastante coisa com esse valor. Eu fui comprando os equipamentos”, aponta a empreendedora.

Emanuel Kayro de Souza Costa, funcionário da Bolo Bolo. (foto: arquivo pessoal)

Márcia menciona que ela solicitava o crédito, empregava o dinheiro arrecadado, e o que ela conseguia de retorno era usado para pagar o empréstimo, o lucro servia para continuar os trabalhos. Com o tempo, ela abriu uma lanchonete e contratou três funcionários, gerando renda e trabalho na região.

Moeda própria e tarifas mais baixas

Segundo Joaquim Melo, criador do Banco Palmas, a instituição financeira comunitária é a primeira no Brasil. A iniciativa tem uma atuação inovadora por lançar o E-dinheiro, primeira moeda digital brasileira criada com o objetivo de promover inclusão econômica de pessoas de baixa renda, como a dona Márcia, criando uma plataforma digital para operar a moeda com juros mais baixos no acesso ao crédito e outros serviços bancários, em relação aos bancos tradicionais.

Ao criar essa estratégia, o banco foi desenvolvendo uma série de processos que vão na contramão da cultura de instituições financeiras tradicionais, que se baseiam em taxar praticamente todos os serviços utilizados pelos consumidores.

“As taxas de juros são menores, a análise do crédito é mais rápida, não é obrigado ter cadastro limpo, tem acompanhamento e tu vai ter estratégia de comercialização [no caso dos empreendedores]. No banco tradicional o crédito serve para ele [o banqueiro] ganhar dinheiro. No banco comunitário o crédito é uma estratégia de desenvolvimento do território, ou seja, a gente empresta dinheiro para o bairro crescer”

Joaquim Melo, fundador do Banco Palmas e criador da E-dinheiro.

O fundador do Banco Palmas explica que embora cada banco comunitário tenha autonomia para decidir uma taxa de juros, há um protocolo que estabelece que seja cobrado “uma taxa de no máximo até 1%, para poder ficar abaixo do que é praticado no mercado”. Ele explica que essa taxa de juros está estabelecida com base na Lei da Usura 22.626, de 7 de abril de 1933.

Enquanto os bancos comunitários adotam a taxa de juros de 1% ao mês para fornecimento de crédito pessoal, os principais bancos comerciais brasileiros têm uma taxa média de 7,94% ao mês, segundo estudo mensal do Procon- SP, divulgado no mês de fevereiro de 2024.

Neste contexto, Márcia, a empreendedora de Fortaleza, ressalta: “não tenho mais conta em banco comercial”. Ela justifica essa mudança de cultura com o exemplo de sua mãe. “Todo mês na conta da minha mãe vem R$ 60 descontado só da taxa de manutenção, mesmo recebendo um benefício pelo INSS. Isso é um absurdo para um trabalhador.”

Ela conta que na plataforma E-dinheiro esse tipo de taxa não existe e menciona as diferenças nas cobranças de taxas entre os diferentes tipos de bancos.

“Eles não me cobram nenhum tostão. A única coisa que eles cobram é R$ 1 pelo pagamento de boleto de até R$1.000, e acima [desse valor] é R$ 2.”,

Márcia Rodrigues é empreendedora e cliente do banco comunitário Palmas.

Atualmente, a dona do “Bolo Bolo” não precisa mais pegar crédito para investir em seu negócio, mas continua utilizando o banco comunitário para fazer as demais operações bancárias. “Eu recebo o E-dinheiro no meu negócio e eu também pago as minhas contas com eles no banco Palmas, compro em outros comércios do bairro também, porque é uma mão lavando a outra”, comenta a empreendedora.

Bancos comunitários combatem desigualdade de acesso ao crédito nas periferias
Márcia em seu empreendimento “Bolo bolo” localizado no Conjunto Palmeiras, em Fortaleza. (foto: arquivo pessoal)

No Brasil, a E-dinheiro é a primeira e por enquanto a única moeda social digital. Dos 152 bancos comunitários que existem no país, 98 são cadastrados na plataforma. Para aderir ao uso dessa moeda é necessário que o banco comunitário esteja localizado no mesmo bairro ou município da pessoa interessada em abrir uma conta, pois o uso da moeda social é destinado ao território.

Segundo o criador do banco Palmas, todo lucro gerado no banco comunitário é investido no próprio território. Essa é outra regra que tem que ser cumprida por todos os bancos dessa rede. Um exemplo desse investimento é o curso de culinária que a Márcia fez, e é desse jeito que o desenvolvimento social ocorre.

Banco Paulo Freire

Na Cidade Tiradentes, distrito da zona leste de São Paulo, o banco Paulo Freire também usa o E-dinheiro, como uma ferramenta para viabilizar a inclusão econômica de moradores da região, proporcionando que mesmo as pessoas endividadas, desempregadas, com o nome listado no serviço de proteção ao crédito (SPC), de baixa renda consigam acessar o crédito, para empreender ou consumir em comércios locais. 

“Elas conseguem pegar o crédito sim. Mesmo aquela família que a gente sabe que tem mais dificuldade de pagar, a gente parcela [a devolução] em mais vezes, e procura ser bem acessível”, conta Maria das Dores Ferreira, 52, que é mais conhecida como Dora no território, e que além de pedagoga, é gerente do banco Paulo Freire. 

Dora enfatiza que diferente das demais instituições financeiras, nos bancos comunitários é possível obter crédito, mesmo quando a pessoa não está com a condição financeira ideal.

De modo geral, os pré-requisitos e os benefícios de acesso ao crédito se igualam tanto para o empreendedor como para o morador que procura o banco comunitário, conforme diz Joaquim. “O acompanhamento, o aconselhamento, o controle de inadimplência, prazo maior para você poder pagar, tanto serve para um como para o outro”, pontua.

No banco Paulo Freire, a avaliação para liberação de crédito é feita pelos associados que estão na gestão do banco. “A gente vê o quanto a pessoa recebe, o quanto que ela gasta e tenta ajudar ela a ter o controle da própria renda. Tem vezes que a pessoa nem precisa pegar um empréstimo, porque ela só não está sabendo usar direito o dinheiro que tem. Em outros momentos, a gente empresta e acompanha”, comenta Dora sobre o processo de empréstimo.

A gerente do banco menciona que a confiança e a relação de proximidade com as pessoas é um ponto crucial para que a concessão e a devolução do crédito ocorram. “Quando a família não consegue pagar no prazo estipulado, a gente vai conversar com ela e estende, por exemplo, se tem que pagar em três meses, ela paga em seis o empréstimo. Assim a pessoa consegue ter o dinheirinho dela e consegue devolver pra gente.”

Os bancos comunitários têm uma renegociação de dívida mais flexível, que leva em consideração as condições sociais e financeiras das pessoas. “No Brasil, no começo de 2023 estava em 45% a inadimplência, ou seja, quase cinco de cada 10 pessoas não conseguiam pagar suas dívidas [no banco comercial]. No banco comunitário, a gente fala de 2%, ou seja, menos de uma pessoa por cada 10.”, aponta Hamilton Rocha, coordenador e articulador da Rede Paulista de Bancos Comunitários.

“Proteger crianças LGBTs é dever coletivo”: Em Sapopemba, grupo atua por garantia dos direitos de crianças e adolescentes LGBTQIAPN+

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“Sapopemba [onde estamos], é um território de muita luta social. Queremos resgatar quem foram as pessoas, especialmente, as crianças LGBTQIA+ que construíram a história do bairro. É sobre disputar a narrativa e o imaginário”. É assim que Lígia Gimenes, psicóloga e coordenadora do Coletivo Enu Itan, explica sobre o trabalho que o grupo desenvolve, desde 2023, em defesa das infâncias LGBTs, no distrito de Sapopemba, localizado na zona leste de São Paulo.

Pensar em cada criança como um indivíduo repleto de sonhos e particularidades é uma das características da iniciativa. No coletivo, os próprios jovens planejam e conduzem atividades,  como a produção de um podcast — da roteirização à edição final —, aulas de capoeira angola e momentos de pintura. Cada proposta busca valorizar e fortalecer as singularidades das crianças e adolescentes, com propostas que respeitem seu tempo, interesses e diferentes formas de aprender e de se expressar. 

O Enu Itan promove diversas atividades socioculturais —  fixas e rotativas —, pensadas para estimular o protagonismo das crianças e adolescentes de 11 a 19 anos, como oficinas de Vogue, rodas de conversa e outras vivências culturais, no CEDECA (Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente) Sapopemba. Entre as ações do grupo, recentemente, os educandos participaram da produção de um documentário e tiveram a oportunidade de dialogar com pessoas LGBTs mais velhas, com o intuito de promover troca intergeracional. 

Geralmente, o público chega ao coletivo a partir de pontes criadas no território, como escolas, serviços sociais, ações comunitárias ou pelo próprio CEDECA.

No final de 2022, as fundadoras do coletivo buscaram financiamento para consolidar a atuação. Nesse processo, Lígia diz que passaram a refletir sobre a importância da memória como ferramenta de disputa política e social, o que desdobrou-se na ideia do documentário.

“Não é novidade que as histórias que se contam sobre pessoas LGBTs geralmente são muito tristes. Então a gente começa a pensar na necessidade de recuperar histórias, de fazer o processo de resgate de memória. Um processo que foi apagado”, ressalta Lígia ao contar sobre as diferentes frentes de atuação.

Em Sapopemba, o bairro Fazenda da Juta foi um dos territórios historicamente construídos pelas mãos dos próprios moradores, mas há poucos registros da contribuição das pessoas LGBTQIA+ que passaram por ali, é o que afirma a psicóloga. “Recuperar essas memórias é uma forma de [retomada], de disputar politicamente o lugar das narrativas e do imaginário.” 

Demanda territorial

Foi através da articulação da Lígia e de outras quatro trabalhadoras do CEDECA (Centro de Defesa da Criança e do Adolescente), todas moradoras da região, que o Enu Itan foi criado. O trabalho do grupo começou a partir do acompanhamento do caso de uma jovem trans, moradora de Sapopemba que, aos 14 anos, iniciou seu processo de transição de gênero. 

Inicialmente perceberam que a adolescente estava sofrendo uma série de violações de direitos, como transfobia, em diferentes espaços, como na escola, em suas casas e nas ruas. Lígia, que já trabalhava em um serviço de proteção à vítima de violência, foi acionada para oferecer cuidados a esta adolescente. “Passamos cerca de um ano e meio acompanhando de perto a situação, identificando diversas situações de violência e precariedade no acesso à educação, à saúde, em seu convívio familiar e comunitário”, compartilha sobre a jovem que atualmente tem 18 anos e segue recebendo assistência.

A realidade da adolescente atendida pelo Enu Itan reflete a experiência compartilhada por inúmeros membros da comunidade ainda nesta fase da vida.

A Pesquisa Diversidade Espro 2024 ouviu 3.257 jovens entre 14 e 23 anos, sendo 36% LGBTIs, e revelou que 53% deles deixaram de frequentar o ambiente familiar e 60% evitaram públicos por preconceito. Além disso, 36% se afastaram da escola, 41% de espaços religiosos e 20% do trabalho.

Lígia conta que foi identificada a ausência de políticas públicas mais amplas voltadas para crianças e adolescentes trans e para jovens LGBTs de modo geral. Neste contexto, a dificuldade dos serviços institucionais em acolher esses jovens foi um dos desafios. “Temos uma atuação mais local, porém também está aberto a acolher jovens de outros territórios. Estamos na zona leste, mas temos conosco jovens que vêm da zona sul, por exemplo”, conta.

Protagonismo das infâncias 

Ela explica que as atividades são construídas em diálogo com as crianças, valorizando seus saberes e seguindo a educação popular. Ela afirma que o papel da equipe é orientar de forma conjunta. Em audiência pública recente sobre direitos das crianças e adolescentes, mostraram grande protagonismo, marca da metodologia do CEBEC. Na ocasião, relataram tanto experiências positivas, como espaços de convivência e aprendizagem que cultivam no território, quanto desafios e violações que enfrentam, como negligência e falta de acesso a direitos básicos (saúde, educação, lazer, etc).

“Para pensar as nossas práticas, bebemos muito da fonte dos movimentos sociais. Inclusive, o nome ‘Enu Itan’, que em iorubá significa ‘boca da história’, foi uma escolha inspirada no campo epistemológico das matrizes africanas, nos saberes de preservação de uma tradição, para refletir sobre o que significa ser LGBT enquanto parte de um processo de continuidade”, descreve Lígia, que reafirma a importância de potencializar a existência de pessoas LGBTs.

“Pessoas trans, lésbicas, gays, bissexuais não nascem e nem começam sua trajetória de identidade aos 18 anos. Todas têm uma infância que merece ser reconhecida e respeitada.” 

Lígia Gimenes, psicóloga e uma das fundadoras do Coletivo Enu Itan, em Sapopemba, zona leste de SP. 

Ao mesmo tempo, lembra que os desafios não se restringem à identidade. “Quando falamos [desta população], não podemos reduzir o cuidado apenas ao respeito ao nome social ou ao acesso à hormonioterapia. Crianças LGBT+ também vivem em casas que alagam, em favelas sem saneamento, em contextos de violência doméstica, etc. É preciso lembrar que são sujeitos sociais como todos os outros, atravessados por raça, classe e território.”, reforça. 

Ela reconhece que há diferenças no cuidado, mas ressalta que existem mais pontos em comum quando se olha para desigualdades estruturais. “Principalmente quando olhamos para classe, território e raça”. Para ela, o cuidado oferecido a crianças das periferias é muito distinto daquele destinado a crianças brancas de escolas particulares, com acesso a médicos e outros recursos.

Marcos legais

A psicóloga destaca que, para além da dimensão afetiva e emocional, a atuação do Enu Itan se respalda em marcos legais, sobretudo no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e na Constituição Federal. Nesse sentido, as estratégias de cuidado são pensadas com base nos dispositivos legais que já existem.

Lígia explica que, mesmo sem citar de forma direta as crianças LGBTQIAPN+, o artigo 5º da Constituição Federal garante que nenhuma criança ou adolescente pode sofrer qualquer tipo de opressão. Isso, segundo ela, oferece uma base sólida para a defesa dos direitos dos jovens LGBTQIAPN+, mesmo que a legislação não mencione explicitamente “crianças dissidentes de gênero e sexualidade”, o entendimento jurídico é de que elas também estão protegidas.

“[Da mesma forma], o ECA prevê que é papel da sociedade proteger as crianças e os adolescentes. Portanto, também é papel da sociedade proteger crianças lésbicas, gays, bissexuais e trans.”

Lígia Gimenes, psicóloga e uma das fundadoras do Coletivo Enu Itan.

“Se olharmos para a política do Sistema Único de Saúde (SUS), seus três princípios — equidade, universalidade e integralidade — já temos respaldo suficiente para que todos os trabalhadores do SUS desenvolvam trabalhos referentes à criança e ao adolescente”, diz acerca dos processos moralistas e inconstitucionais que vulnerabilizam crianças e adolescentes travestis e transexuais.

Ela reforça que o Enu Itan aposta em um viés educacional sobre aspectos dos direitos humanos e cidadania. “Os jovens e suas famílias buscam ajuda na rede ou em outros espaços. A gente realiza muitas formações sobre como lidar com as famílias, como auxiliar [no processo de afirmação de identidade], como pensar frente ao judiciário, à comunidade escolar e à educação infantojuvenil”, destaca.

Articulação de eventos em unidades CÉUs, em Fábricas de Cultura e outros espaços são algumas das ações do grupo, que mesmo não encontrando aprovação em todos os espaços, ainda assim tem muita adesão e compreensão.

 “O que vemos é que os trabalhadores expressam um desejo real de instrumentalização, de conseguir dar conta e produzir cuidado [de forma qualificada].”

Lígia Gimenes é psicóloga e uma das fundadoras do Coletivo Enu Itan.

“O campo de defesa da infância e adolescência é consolidado há muitos anos. O campo de defesa de direitos LGBTs também. Mas nós, enquanto movimento LGBT, muitas vezes não nos arriscamos a falar sobre. Elas existem. No Enu Itan, a gente vem fazendo essa reflexão: precisamos pensar e falar para além da discussão adultocêntrica que dita ‘com que idade uma criança pode ser quem é’”, finaliza.

Justiça tributária: Entenda por que o pobre cada vez fica mais pobre #36

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Você sabe como são cobrados os impostos no nosso país? Sabe como isso afeta o quanto sobra do seu salário no fim do mês?

No Brasil, a maior carga tributária é cobrada sobre o consumo, na forma de impostos indiretos, ou seja: em taxas quando compramos mercadorias, sejam elas roupas ou alimentos. Nesse sentido, as taxas afetam a população de formas diferentes. 

Atualmente, nosso sistema de tributação é o regressivo, isso significa que, proporcionalmente, quem recebe menos, sente de forma mais significativa o peso dos tributos, mesmo pagando o mesmo preço em determinado produto, em comparação com alguém que ganha mais. 

Por exemplo, se uma pessoa que recebe R$ 100.000,00 compra uma calça jeans de R$ 200,00, que tem um imposto ICMS de 31,45% – o que representa R$ 60,96 do seu preço – esse valor é aproximadamente 0,07% da renda dessa pessoa em forma de taxas. Já para quem recebe um salário mínimo (R$1.518,00), comprar dessa mesma calça representa em torno de 4,3% dessa renda apenas em impostos.

No episódio 36 do Cena Rápida, convidamos a Eliane Barbosa, professora do curso de Administração Pública da Unilab no Ceará e também diretora da Plataforma Justa, para explicar sobre a desigualdade no sistema de cobranças brasileiro. Também participa Douglas Belchior, professor de história e diretor do Instituto de Referência Negra Peregum, que em agosto de 2025, junto com diversas organizações e movimentos sociais, lançou a campanha Justiça Tributária, Já!

Esta reportagem foi produzida com apoio do Território da Notícia como parte da campanha Justiça Tributária, Já!

Custo de vida na quebrada: o básico pesa no bolso

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O aumento dos alimentos tem pesado nas mesas das famílias periféricas, que precisam fazer malabarismos, se virando, para poder fechar o mês. O salário mínimo não acompanha a inflação, e quem vive de bico, trabalho autônomo/informal, sente ainda mais o impacto.

Segundo dados do DIEESE (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos), hoje o ideal de salário mínimo para uma família de até 4 pessoas, que vive na quebrada, se manter durante o mês com o básico seria de R$ 7 mil reais. Salário esse que está bem longe da realidade de muitas famílias.

Na feira e no mercado se tenta negociar até o último centavo, trocando misturas mais caras pelas mais baratas, e muitas vezes deixando de lado o que antes era o básico: fruta, leite, café. Comprando no pingado o que dá para levar.

Esse aumento no preço da comida escancara um Brasil desigual, enquanto no centro da cidade os carrinhos estão cheios e o delivery nunca para, na quebrada a mãe precisa escolher entre comprar mistura ou pagar a conta de luz.

Sempre sobra para a quebrada ter que se virar. Mas até quando? Até quando a comunidade vai ter que se equilibrar na corda bamba, improvisando na panela, enquanto bancos e grandes empresas batem recorde de lucro? 

A dignidade não pode ser privilégio. Viver para além do básico é direito, não favor. O problema não é só a alta dos preços, é a desigualdade que insiste em deixar a periferia com as sobras de um país que não garante justiça social. 

Este é um conteúdo opinativo. O Desenrola e Não Me Enrola não modifica os conteúdos de seus colaboradores colunistas.