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Síndrome pós-aborto? As evidências dizem o contrário

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Há alguns anos, em um almoço de domingo na casa da avó, minha sobrinha contou que o professor de filosofia tentou organizar um debate na sala de aula. Ele queria dividir a turma em duas, de um lado quem era contra o aborto, deveria defender seus porquês. De outro, quem era a favor, deveria fazer igual. “Mas não deu certo, né? Quem vai ser contra o aborto?”, disse ela, no auge da tranquilidade de seus 14 anos. Foi um reboliço. Daqueles bons mesmo. Argumentos variados apareceram, até que alguém disse: “a mulher que faz um aborto fica traumatizada pra sempre!”

Nessa hora, ela já tinha lançado um: tia, me ajuda! E eu, que não sou psicóloga, mas gosto demais de trocar ideia, respondi que o aborto, quando feito em condições seguras e respeitosas, não é necessariamente traumático e que as pessoas têm respostas emocionais diferentes a experiências difíceis. 

No Brasil, em que o aborto está necessariamente ligado a situações de trauma, como a violência sexual, risco de vida da mulher e, em particular, a criminalização, talvez o impacto psicológico seja realmente aumentado. 

Além disso, há os casos de luto parental, como as malformações e abortos espontâneos, onde a perda de uma gestação desejada é geralmente vivida com muito sofrimento. Mas ressaltei que  era difícil mensurar, já que não temos as condições ideais para produzir dados científicos confiáveis no Brasil.

Não temos como entrevistar quem faz um aborto fora destas condições traumáticas, porque a interrupção voluntária de uma gestação ainda é crime e as pessoas precisam se esconder, mas que eu mesma conhecia várias pessoas muito felizes e confortáveis com suas decisões de abortar. 

Além disso, a criminalização faz com que não haja como garantir tratamento médico acolhedor para ninguém, já que profissionais de saúde não recebem o treinamento necessário, e quase não cuidam adequadamente nem dos abortos espontâneos, nem dos previstos em lei.

O debate sobre os supostos impactos psicológicos do aborto é muito antigo. Nos anos 1980, o tal trauma era equiparado ao dos soldados que voltavam da guerra do Vietnã. Esse mês, no entanto, um projeto de lei, apresentado pela vereadora Sonaira Fernandes, institui a “Semana de Conscientização Sobre a Síndrome Pós-aborto” para “informar e conscientizar à população da cidade de São Paulo sobre as consequências psicológicas que acometem a mulher após a realização de procedimentos abortivos”. 

Não é novidade que a extrema direita mundial seja bem avessa a evidências científicas, então é meio chover no molhado. Mas vocês me desculpem, educar sobre aborto é meu trabalho.

É comum defensores da existência da tal síndrome dizerem que é “evidente” que as mulheres se arrependem de abortar, que sofrem perda de autoestima e depressão. Mas as evidências científicas seguem dizendo o contrário.

A professora estadunidense Diana Greene Foster é autora do mais extenso estudo sobre os impactos de fazer ou ter negado um aborto na vida e na saúde mental das mulheres, feito quando o aborto ainda era legal em todo seu país. Ao apresentar os resultados, conta de um juiz que defendia a restrição no acesso ao aborto dizendo exatamente isso: era evidente, embora as evidências não existissem.

Diana e sua equipe visitaram 30 clínicas de aborto nos Estados Unidos e selecionaram quase mil pacientes que foram acompanhadas por dez anos. Essas mulheres foram separadas em dois grupos: as que fizeram um aborto e as que tiveram o seu aborto negado por estarem acima do limite de semanas permitido. O livro, Gravidez Indesejada: The Turnaway Study, foi publicado no Brasil em 2024, pela Sextante.

As mulheres tinham, no início, condições sociais e de saúde similares, e eram entrevistadas a cada seis meses, para medir suas saúde física, mental e o bem-estar de suas famílias. Durante os anos em que foram acompanhadas, contudo, suas vidas tomaram caminhos que poderiam ser atribuídos ao fato de terem ou não tido acesso ao aborto que queriam e necessitavam.

Primeiro, um maior impacto na saúde mental (como ansiedade, depressão, baixa autoestima) e saúde física (incluindo uma morte no parto) entre as que foram obrigadas a parir. Os resultados em termos sociais e econômicos também são importantes: as que conseguiram abortar eram menos impactadas pela instabilidade profissional e pobreza, além de conseguir mais facilmente sair de relações violentas.

Poder planejar a reprodução impacta sobre ter maior ou menor autonomia financeira, em poder sair de um relacionamento abusivo, no cuidado das crianças que já existem ou em seguir com os estudos, coisas que, segundo a OMS, afetam profundamente a saúde mental

Ao mesmo tempo, esse projeto de lei de SP insinua novamente que as mulheres não sabem tomar decisões informadas sobre seus próprios projetos de vida. Como se não tivéssemos a capacidade intelectual ou a estabilidade emocional necessárias para tanto, quando, na verdade, essa é geralmente uma decisão que coloca na balança finanças, saúde, família, filhos, relacionamentos e ambições de vida. E isso porque as mulheres cuidam de todo mundo, como já falei aqui antes, e é disso que trata a Justiça Reprodutiva, há décadas.

Por fim, queria fazer um convite: dia 28 de setembro é celebrado como dia Latinoamericano e Caribenho pela Legalização de Descriminalização do Aborto e o Dia Internacional do Aborto Seguro. Então, se você está em São Paulo nesse mês tão importante para feministas do mundo inteiro, não deixe de ocupar a Avenida Paulista, e participar da Marcha organizada pela Frente Estadual pela Legalização do Aborto, em frente ao MASP, a partir das 11h.

Este é um conteúdo opinativo. O Desenrola e Não Me Enrola não modifica os conteúdos de seus colaboradores colunistas.

Falta de políticas públicas agravam problemas com álcool nas periferias, apontam especialistas

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No Brasil, 45% dos brasileiros consomem algum tipo de bebida alcoólica, sendo 27% de forma moderada e 17% de maneira abusiva, segundo estudo do Centro de Informações Sobre Saúde e Álcool (CISA), que traz dados coletados até 2023. Considerando uma população com mais de 200 milhões de habitantes, isso representa cerca de 36 milhões de pessoas sob uso de álcool no país. O panorama também mostra que, entre as pessoas que declararam consumo abusivo de álcool, 59% são negras.

O sanitarista, pesquisador e redutor de danos, Allan Gomes, aponta que questões relacionadas ao uso excessivo de álcool são problemas sistêmicos. “O desemprego e a falta de oportunidade vão criando um cenário de vulnerabilidade e estresse constante. Quando não existe equipamento cultural, esportivo, de lazer, o bar se torna um ponto de lazer, [de socialização] para essa população, principalmente aquela que tem os marcadores de classe, de raça e de cor”, afirma.

Segundo Allan, fatores sociais interagem entre si e potencializam o risco de quem desenvolve este uso abusivo, que também envolve a combinação de vários fatores sociais, econômicos e culturais.

“Questões de saúde, como o uso de álcool e drogas, atingem a todos. Por isso, é essencial olhar para cada situação a partir da redução de danos, construindo junto com a pessoa a melhor resposta para aquele momento, contexto e realidade”, pontua ao citar o uso que gera prejuízo ao indivíduo e, por vezes, as pessoas do entorno.

Ele coloca que o uso abusivo de álcool pode estar relacionado a uma série de situações, como o marketing para consumo da bebida, dificuldade de acesso a equipamentos públicos, questões familiares, contextos sociais e econômicos, entre outras situações. “Existe uma naturalização muito forte do consumo do álcool que muitas vezes faz parte da vida comum. Sempre irá aparecer como elemento de socialização para todo mundo. Esse marketing que existe da indústria do álcool é muito agressivo”, coloca.

Consumo x dependência

Ao considerar que o consumo de álcool não é o problema em si, mas sim a dependência, o especialista lembra que, entre os fatores do uso abusivo, em muitos casos, está vinculado a um recurso de socialização. 

“É claro que socializar com álcool é algo comum, mas podemos problematizar [os contornos desse consumo em excesso], que afeta, por exemplo, a população de rua de forma muito diferente. A experiência de viver na rua é angustiante e pesada”, exemplifica ao citar sobre os diferentes contextos e motivações no consumo. 

“Muitas vezes, o álcool funciona como um amortecedor, ajudando a lidar com o isolamento e a falta de políticas públicas. Acaba sendo um alicerce para suportar a vida em meio à precariedade. É como uma válvula de escape”. Allan Gomes, sanitarista, pesquisador, redutor de danos em álcool e outras drogas.

Ao se debruçar sobre as estatísticas, Allan analisa que a população negra é a mais impactada. Ele pontua um acúmulo de vulnerabilidades e a principal delas, quando se trata dessa população, é o racismo nas estruturas sociais. Para os homens negros, o cenário ganha outros contornos.

A edição de 2024 da pesquisa Álcool e a Saúde dos Brasileiros do CISA, mostra que mulheres negras (pardas e pretas) são as mais afetadas por mortes relacionadas ao álcool e a população negra em geral tem as maiores taxas de óbitos atribuíveis ao álcool.

“O uso histórico da bebida alcóolica carrega estigmas [colocados sob a pessoa que consome], mas se esmiuçar [voltamos aos] paradigmas raciais. O racismo vai adoecendo, nós, homens negros, e acabamos nos retraindo. Nesse contexto, o álcool se torna uma forma de acolhimento, mas também de destruição”, ressalta.

Políticas de cuidado como forma de prevenção ao excesso e dependência

O pesquisador ressalta a importância da rede de apoio quando existem circunstâncias de danos como reflexo do uso abusivo. Na perspectiva da política pública, através do SUS, cita os CAPS (Centros de Atenção Psicossocial), em especial os de atendimento para álcool e drogas que desenvolvem um trabalho de cuidado das pessoas com algum tipo de transtorno relacionado à bebida e outras substâncias. 

Allan lembra que o SUS oferece o Programa de Controle do Tabagismo, que promove grupos de apoio nas Unidades Básicas de Saúde. “Da mesma forma, é necessário, em termos de política pública e SUS, construir programas de educação em saúde voltados ao álcool, tanto para quem deseja parar de beber definitivamente quanto para quem quer apenas reduzir o consumo. A redução de danos é importante, pois constrói junto com a pessoa e o profissional de saúde a melhor abordagem”, explica.

“Não existe uma abordagem fixa para cuidar do álcool na saúde pública. O essencial é dialogar com as pessoas sobre o uso problemático e abusivo, que afeta inclusive as dinâmicas familiares”. Allan Gomes, sanitarista, pesquisador, redutor de danos em álcool e outras drogas.

Ele coloca alguns caminhos para enfrentar o uso problemático de álcool, como: criar campanhas de educação e saúde sem apelo punitivista ou moralista; desenvolver programas de controle e redução do consumo que envolva as UBS no território; fortalecer outros espaços de acolhimento e acompanhamento e a elaboração de uma estratégia nacional focada em promoção da saúde, ancorada nos princípios da redução de danos. 

“Existem os Narcóticos Anônimos, os Alcoólicos Anônimos, grupos de apoio comunitário que são estratégias a se considerar. Mas que eles não sejam a única resposta. A redução de danos, reconhecida pela Política Nacional de Saúde Mental há pelo menos 20 anos, ainda enfrenta muitos preconceitos, tanto entre profissionais quanto no nível da política pública. Isso porque ela é, acima de tudo, uma estratégia de direitos humanos”, destaca Allan.

Estrutura social e seus diferentes impactos  

A política para Redução de Danos é uma resolução baseada na Portaria Nacional nº 1.028, de 1 de julho de 2005, que garante saúde com liberdade e autonomia. A mesma não é contra a abstinência, mas busca pautar um uso seguro que entenda as dinâmicas que atravessam a vida das pessoas.

Astro Rafael Feraci, psicólogo e redutor de danos que trabalha junto às populações em situação de vulnerabilidade, ressalta que a abordagem precisa sair do campo teórico e se aproximar da realidade das pessoas nos territórios. “Por mais que a gente tenha muitos relatos sobre como é uma droga legalizada com a via comercial e tudo mais, falta trazer para o pé no chão. O que é necessário é uma conversa sincera e trazê-lo como uma substância, pois muitas vezes o álcool nem é visto como droga. O álcool não é visto, o cigarro não é visto, o remédio, o café que se toma não é visto como uma substância”, explica.

Entre os atravessamentos nessa discussão que envolve desigualdades, para Astro, o acesso a espaços diversos também é uma camada de debate. “Qual é o tipo de lazer que cada região periférica consegue ter? O centro de São Paulo é um lugar mega badalado, com vários acessos à cultura, ao lazer e a espaços de socialização. Ao mesmo tempo, temos pessoas que conseguem acessar esses recursos e também o outro lado: a população em situação de rua, que não tem acesso a nada”, exemplifica.

“A redução de danos traz esse olhar para a singularidade do [indivíduo]. Quando a gente ouve a pessoa, a gente consegue atender o corpo completo. Também existe um lugar estrutural onde se olha para o uso de forma muito individual, pensando na pessoa que faz uso de substâncias. Só que o uso de álcool acontece de forma coletiva, socializando num rolezinho ou na rua para amenizar a fome, o frio e outras situações”. Astro Rafael, psicólogo e redutor de danos. 

O psicólogo ressalta a necessidade de ações conjuntas que considerem as pessoas de forma mais ampla, também a partir dos atravessamentos sociais. Classe, raça e gênero são marcadores que estruturam as avaliações e uso dos espaços de saúde, como refletem os resultados da avaliação sobre os serviços de Atenção Primária do SUS, divulgada em 2025, a partir de uma amostra composta por 2.458 respostas de todo o Brasil. 

O estudo ‘Perfil dos Usuários Mais Frequentes da Atenção Primária à Saúde (APS)’, mostra que mesmo sendo a população negra – 57,1% pessoas pardas e 16,2% pretas, em especial mulheres 60,2%, a que mais busca serviços de APS, são os homens brancos que melhor avaliam o atendimento. Ainda que eles não utilizem o serviço.

“Moro na periferia de Suzano, sou transmasculino não binário, então [coloco] outros recortes também para pensar esse uso. É importante colocar que estou falando de uma perspectiva própria [pois] minha história também se atravessa a partir desse assunto”, comenta ao pontuar outras perspectivas no debate debate sobre redução de danos com populações vulnerabilizadas.

Astro alerta sobre os efeitos do estigma com as pessoas em situação de maior risco que fazem o uso excessivo a ponto de causarem danos para si e coletivamente. “Isso gera um distanciamento desumanizado. A pessoa deixa de ser vista como humana e vira ‘outra coisa’, selvagem”. Para ele, reconhecer a importância da humanização na acolhida gera construção de vínculos genuínos. 

Atendimentos públicos

Encontre endereços de unidades do CAPS AD (Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas), principal serviço, funcionando em regime de “porta aberta” para oferecer tratamento multiprofissional e acompanhamento sem necessidade de encaminhamento ou agendamento prévio: Acesse aqui

Espaços que realizam reuniões dos Narcóticos Anônimos (NA) para orientação e encaminhamento próximos ao seu endereço: Acesse aqui. O site também oferece a opção de participar de reuniões virtuais.

O NA oferece uma linha telefônica para pessoas que precisam de ajuda imediata: 0800 888 6262 ou 132. Também existe a opção de conversar pelo WhatsApp: (19) 3255-6688.

Também é possível buscar apoio do grupo Alcoólicos Anônimos (AA): Acesse aqui para localizar endereços onde são realizadas reuniões presenciais ou virtuais.

O AA realiza atendimento também através de WhatsApp, pelo telefone: (11) 94719-6531. Além de um número de Plantão Telefônico: (11) 3315-9333.

As Unidades Básicas de Saúde podem orientar e encaminhar para tratamento especializado através do Sistema Único de Saúde.

Quando a poesia é a historiadora das periferias

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Os cantos de exaltação dos territórios e de seus moradores apontam para vitórias passadas e presentes sem esquecer as mazelas que nos são impostas e a necessidade de futuros nossos.

Não é de hoje que a poesia conhecida como épica ou erudita, narra a história de alguns povos contando como suas glórias superam suas desventuras. Assim acontece com a Ilíada e a Odisseia de Homero, escritas pelo autor com base na tradição oral grega narrando as histórias de Ulisses e seus companheiros gregos na Guerra de Tróia e no retorno do “herói” à Atenas como símbolo da suposta “inteligência superior” desse povo.  

Foi assim com “Os Lusíadas”, de Luís Vaz de Camões que, no século XVI, procurava eternizar em forma de exaltação a violenta expansão e colonização portuguesa em África e Ásia, que já ocorria há dois séculos e que estava chegando à América. 

Essas são as histórias que – quando a estrutura precária de nosso sistema público de educação permite ou é superada – conhecemos nas aulas de literatura, história e em adaptações cinematográficas. Histórias que transformam violência e dominação em experiências de glórias de um povo. Que são usadas à exaustão para nos convencer da falsa superioridade branca e europeia da tal da “civilização”. 

Importante dizer que até bem pouco tempo não ouvíamos falar dos Griots e de sua capacidade de narrar as histórias de diversos povos africanos. 

Esses cantos à civilização, palavra que vem de civitas (que significa cidadão, em latim, aqueles que viviam em cidades) serviam para celebrar cidades que eram como os países que temos hoje. Nas cidades/municípios brasileiros, são inúmeros os exemplos das epopeias locais. Paulo Eiró, poeta romântico da segunda metade do século XIX, cantava as paisagens e sobrados de “sua” Santo Amaro natal (antiga cidade e hoje distrito de São Paulo) com grande nostalgia.  

Arlindo Cruz, referência do samba, recentemente falecido, também o fez cantando o subúrbio de Madureira, no Rio de Janeiro. Aqui em São Paulo, além de sambistas e rappers que cantaram territórios negros, de favelas e periferias, temos poetas que colocam nossa realidade em outro patamar, provando a sua dignidade de serem cantadas, estudadas e incensadas pelo mundo – que o diga Sérgio Vaz, hoje musealizado em exposição do Museu das Favelas.

A civitas periférica  não é considerada cidade e nem civilizada pelos “donos dela” (que se acham civilizados e civilizadores…). No entanto, para nós, ela tem sentimento, cor, inteligência, venturas e desventuras. Temos nossos griots e nossos épicos que nos dizem o tempo todo que somos parte da cidade e temos as rédeas de nosso futuro. 

Danylo Paulo, precocemente falecido em agosto do ano passado, aos 34 anos de idade, é uma dessas figuras. Além de poeta, era produtor cultural, fanzinero e grafiteiro, sendo um dos fundadores do Sarau do Vale em 2015, coletivo que atua como Casa de Cultura Popular do Jardim Iguatemi, distrito que não possui esse equipamento pela prefeitura.  

Memórias de Um São” é uma de suas obras primas. Um épico sim. Inspirado na enciclopédia da cultura periférica e popular de São Mateus, produzida por Amanda Freire e Priscila Machado durante a articulação do Fórum de Cultura de São Mateus em 2015.

Neste texto o heroísmo é de São Mateus, e São Mateus são seus moradores, cidadãos-criadores do seu lugar.

Cidade ainda fronteira, com suas novas ocupações surgindo. Cidade rapper, cidade graffiti, cidade teatro. Cidade violência policial e urbana. Cidade que produz conhecimento que melhora nossa visão de mundo, de nossas opções, mas sem incentivo para chegar onde deveria. Franja onde o cheiro do Aterro Sanitário, o São João, fustiga nossas narinas. 

Lugar onde reina a poesia, com Sarau do Vale, Seu Camilo, Urbanista Concreto, Slam São Mateus e suas jovens poetas, apesar de todas as amarguras. Romantismo, glória? Não. Temos aqui o épico pé no chão, que pega o busão lotado e parado na avenida, mas quer o transporte vazio, confortável e rápido. Que sofre com o aterro, mas quer os parques. Que foge do tiro e sonha com a paz. Que celebra sua cultura, seus produtores, mas lamenta o subfinanciamento. Não tem como não lembrar que essa era a essência do Danylo.  Amor por São Mateus sim, cego jamais. 

Quando chegamos à zona sul, distrito do M’Boi Mirim, Jardim Ibirapuera, terra do sanfoneiro Escurinho do Acordeon, da líder comunitária e professora Tia Maria e de um Bloco do Beco que toma a Salgueiro do Campo, principal rua do bairro, todos os anos nos carnavais, colocamo-nos a escutar a poetisa e moradora Jenyffer Nascimento (uma das maiores escritoras e arte-educadoras desse país, vale ressaltar) ironizando poeticamente a identidade implementada pela burocracia do Estado que apaga as mulheres negras e periféricas.  

Jenyffer Nacimento. Minidocumentário Identidade Quebrada. IbiraLab, 2023.

Que as trata, e os demais moradores das quebradas, como número de RG, CPF, foto, documento, estatística sem passado, presente ou futuro, destinados a produzir riqueza para outros. Sem vida criativa no seu bairro. Esse canto dos supostos anônimos, sem importância, mas com muito brilho no olhar é o fio que conduz o minidocumentário Identidade Quebrada, produzido em 2023 por jovens do curso de audiovisual do IbiraLab, braço audiovisual do Bloco do Beco, articulado pelo cineasta e poeta Daniel Fagundes, também colunista nesta casa.  

Um épico gerando outro. Se Tróia tem filme, porque o poema Identidade não pode ter um também?  Nele, as identidades esvaziadas pelos números e estatísticas são reveladas pela própria Jenyffer (Jê), por Antônio Luiz (Buldog), David (Mc Zô), Arnaldo (Pastel) e José Claudemir (Caburé), apelidos que revelam sua popularidade e capacidade de circulação no bairro.  

Cada personagem e sua história de vida são parte dos espaços e atividades que ajudam a sustentar e transformar no Jardim Ibirapuera (poesia, bateria do Bloco do Beco, funk, futebol de várzea e bar), no bairro em construção, antes longe de tudo e hoje cada vez mais intenso, periférico e central, ventura e desventura se misturam. Construção permanente.

Enquanto os cantos coloniais celebram aquilo que para nós é desgraça de cinco séculos, nossos griots fazem o épico da autoconstrução, da sobrevivência que passa pela realização de alguns sonhos, ainda de necessárias reformas, reconstruções, expansões, revoluções. 

Uma epopeia que sofre no trem, passa calor na falta de árvores, espera na fila do SUS,  foge das enchentes mas já tem a ciência de passados e presentes erguidos que já conseguimos cantar e repensar coletivamente. 

Vale a pena ler (e assistir), por inteiro, essas duas epopeias periféricas. 

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Nova edição do Você Repórter da Periferia 2.0 cria laboratório de jornalismo de soluções a partir da zona leste de São Paulo

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O Desenrola e Não Me Enrola, organização de jornalismo periférico de soluções e educação midiática antirracista, realiza uma nova edição do Você Repórter da Periferia 2.0, com o objetivo de implementar uma metodologia inovadora de cobertura jornalística baseada na coleta de dados do território de Guianases, na zona leste de São Paulo, para produzir reportagens que facilitam o acesso a direitos sociais.

O programa foi criado com base numa visão estrutural sobre a dificuldade da juventude negra e periférica de acessar o mercado de trabalho de jornalismo e comunicação.  De acordo com a  pesquisa “Raça, gênero e imprensa: quem escreve nos principais jornais do Brasil?”- Gemaa/UERJ, a distribuição racial dos colaboradores dos 3 principais jornais do país – Folha de S. Paulo, Estadão e O Globo – é similar. em todos,  brancos são maioria entre os produtores de conteúdo, representando, na média, 84% do total. Em contraponto, o Desenrola e Não Me Enrola reúne  65,6% de inscrições de pessoas negras nas edições anteriores de programas de formação midiática. Desse total, 39,3% eram pessoas pretas e 26,3% pardas. Com isso, fica evidente a desigualdade do quadro funcional em empresas jornalísticas quanto à diversidade racial, já que existe amplo interesse de pessoas negras e periféricas na área da comunicação.

Partindo dessa motivação, o Você Repórter da Periferia 2.0 está em um território específico: “escolhemos Guaianases porque o bairro está entre os 10 piores distritos com infraestrutura digital de acesso a internet na zona leste de São Paulo”, argumenta Thais Siqueira, co-fundadora do Desenrola e Não Me Enrola, citando um dado do Mapa das Desigualdades da Rede Nossa São Paulo. 

Thaís lembra a força de atuação de coletivos no território.“Além disso, é um território rico em memória e atuação de coletivos e organizações sociais que buscam combater as desigualdades sociais que afetam a região. Queremos ser um parceiro nesta jornada de ampliar o acesso a direitos da população, por meio do jornalismo de soluções”, diz. 

Vitória Guilhermina, moradora do Rio Pequeno, na zona oeste de São Paulo, entrou no Você Repórter da Periferia aos 18 anos, em 2018, sem imaginar que o jornalismo se tornaria sua profissão. “Apesar de adorar fazer perguntas, não gostava de jornalismo”, conta Vitória. 

Vitória Guilhermina foi aluna do Você Repórter da Periferia em 2018. Hoje, ela atua como assitente de coordenação de Articulação e Educação Midiática. Foto: Gabriel Zahid.

Após a experiência, ela mergulhou na área, produziu reportagens, filmes e oficinas sobre memória dos territórios e produção audiovisual em diversas periferias de São Paulo. Influenciada pela experiência transformadora do Você Repórter da Periferia, hoje ela faz o curso de Educomunicação na USP.

Vitória atua na assistente de coordenação do Desenrola e Não Me Enrola, fato que ampliou a sua visão sobre o projeto. “Você Repórter da Periferia 2.0 é jornalismo de interesse público, vamos descobrir o que está sendo discutido nas quebradas, o que as pessoas querem saber. Fui formada em conexão com meu território e agora estou numa posição de decisão e co-criação coletiva”, explica.

Com início previsto para setembro, o programa tem um formato híbrido e de laboratório de jornalismo que incentiva a investigação dos territórios com autonomia e visão de dados. Nesta edição, sete jovens que já passaram por formações anteriores integram a equipe de reportagem. 

“A meta é fomentar o jornalismo que nasce dos territórios articulado diretamente com as comunidades, lideranças e moradores, produzindo informação como um direito fundamental”, conta.

O Você Repórter da Periferia 2.0 será realizado em parceria com a plataforma Território da Notícia, solução tecnológica gerida pelo Desenrola e Não Me Enrola e Periferia em Movimento, que distribui conteúdos jornalísticos por meio de totens digitais em comércios periféricos, conectando produção e circulação de notícias locais. 

A iniciativa faz parte um projeto piloto que está conectado com as reformulações do Desenrola e Não Me Enrola, preparadas ao longo desse ano com o objetivo  de aperfeiçoar e ampliar o impacto da cobertura jornalística baseada em direitos, gerar e cruzar dados, fortalecendo a participação direta dos moradores no acesso à informação.

O Desenrola e Não Me Enrola, juntamente com a Periferia em Movimento, faz a gestão da Território da Notícia, iniciativa de solução tecnológica que distribui notícias de 14 veículos periféricos por meio de 16 totens em 10 distritos da cidade de São Paulo. Foto: Território da Notícia / Gsé Silva.

‘‘Deu uma nova realidade para muitas pessoas de periferia”: artistas apontam o papel político do rap nos territórios

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Elemento central da cultura hip hop, através das letras que, geralmente, apresentam discussões sobre raça, classe, violência policial, entre outras demandas, o rap passou a influenciar o debate público a partir de questões políticas e sociais.

No Brasil, o movimento surgiu no final da década de 1980. O país, ainda nos reflexos do regime militar, vivia intensas tensões sociais, enquanto a cultura de rua ganhava força e o rap se espalhava cada vez mais nos territórios. Em São Paulo, foi nas praças da Rua 24 de Maio, próximas à estação do Metrô São Bento, que o gênero começou a tomar forma, consolidando-se mais tarde como uma expressão artística popular. 

A rapper, cientista social, ativista e produtora cultural, Rubia Fraga, é uma das principais referências do rap nacional. Pioneira na cena, ela formou o grupo RPW em 1991, atuou em coletivos como Minas da Rima, Hip Hop Mulher e atualmente integra a Frente Nacional de Mulheres do Hip Hop. Desde 1989, se define como uma operária do movimento e destaca que a trajetória do rap é marcada por lutas contínuas, sendo uma expressão legítima de resistência e emancipação social. 

“[É uma forma] de protesto, denúncia e contestação. Até a ostentação é um grito do jovem preto periférico, das mulheres, das manas e monas, que querem também usufruir das boas coisas. É um desabafo.” Rubia Fraga, cientista social e integrante da Frente Nacional de Mulheres do Hip Hop.

Rubia destaca que o rap é um retrato atual da sociedade brasileira e faz parte da emancipação das periferias, das lutas sociais, raciais e de gênero. “A geração dos anos 80 fala do seu cenário, a dos 90; dos 2000. Em 2025, a geração atual traz críticas com novas roupagens e formas de expressão. Isso é ótimo. É preciso revitalizar o discurso do rap para que ele dialogue com o povo, principalmente com as juventudes”, coloca.

Embora as formas de opressão tenham se transformado, a cientista social pontua que ainda vivemos em um país colonizado, escravocrata, que cultua a misoginia, homofobia, transfobia e o racismo, lutas pautadas de diferentes formas pelo movimento. 

“As elites e a extrema direita criam novas ferramentas com o passar do tempo. O samba foi criminalizado, a capoeira foi tratada como vadiagem. O rap passou pelo mesmo com muitos shows interrompidos pela polícia, muitos artistas presos. Hoje, também vemos isso acontecendo com o funk. A origem social é a mesma. Faz parte de um projeto de opressão”, afirma.

Os quatro elementos

O dançarino e ativista Nelson Triunfo, considerado precursor do breaking dance no Brasil, também destaca que o hip hop, especialmente o rap, sempre foi resistência às diversas formas de marginalização. Ele lembra os primeiros passos dados para a construção de uma consciência crítica coletiva nas periferias. “Fomos descobrindo as coisas brincando, misturando dança com capoeira e trazendo isso para o hip hop”, conta. 

“Quando os jovens começavam [a escutar o som], a pegar os passos [de breaking], percebia que eles ficavam mais à vontade e abertos para [o diálogo]. Era nesse momento que chegava mostrando que existiam outras possibilidades, que estudar era muito importante”, relembra. 

O artista conta que na época, muitos jovens começaram a dançar em grupo, dar aula e, naturalmente, viraram multiplicadores da cultura. Ele que já era ativo no campo quando o reconhecimento do rap ainda era impensável, cita sobre as transformações e desafios enfrentados ao longo das décadas, e menciona que com o tempo surgiram outras vertentes, como o trap. 

“O hip-hop já é livre por natureza, inclusive, ainda difícil de ser compreendido por muitos, pois não é uma só cultura. Tem várias expressões: A dança, que já dialoga com a capoeira. A pintura, que vem das artes plásticas. O canto, a criação lírica, o DJ. Você pode não saber cantar, mas pode dançar. Pode não dançar, mas saber pintar. A gente tem muitas ferramentas nas mãos.” Nelson Triunfo, dançarino e educador popular.

Após alcançar muitas pessoas nos anos 1990, o movimento se espalhou pelo Brasil e contribuiu para o nascimento de vários projetos sociais. “Naquela época, ainda não existia celular, então, quando algo passava na TV, todo mundo via. O povo assistia televisão para aprender. De repente, o Brasil inteiro estava dançando breaking”, recorda Nelson.

A visão do hip hop como ferramenta de transformação social foi o que norteou toda sua militância em Diadema, cidade berço das atividades promovidas por Triunfo. “Quando a gente começou o trabalho em Diadema, o cenário era pesado. Todo mês morria alguém. Uma vez, apenas em um mês, morreram três moleques [da quebrada]. Vieram com a ideia de chamar o prefeito, trazer a polícia para a favela. E eu falei: ‘Não, pelo amor de Deus! Não faz isso!’ A gente aqui sabe conviver com a quebrada, mas não com a polícia dentro da nossa atividade”, cita.

No final dos anos 1980, Nelson Triunfo iniciou, em escolas de Diadema, um trabalho com oficinas que reuniam os quatro elementos: rap, grafite, DJ e breakdance.

Conhecido por animar rodas de dança em pontos marcantes do centro paulistano, como o Theatro Municipal e a Praça da Sé, foi chamado pelo então prefeito José de Filippi Jr. (PT) para ministrar aulas e oficinas culturais aos jovens diademenses, o que acabou fortalecendo ainda mais seu vínculo com a cidade e com a juventude periférica, consolidando sua importância na difusão do hip hop em Diadema.

“Quando eu chegava para dar aula de dança na escola, os alunos me reconheciam e contavam como tinham gostado da aula. Na [aula seguinte], perguntavam: ‘Você se lembra de mim?”, relembra com nostalgia como o hip-hop contribuiu para enriquecer a educação e fortalecer o envolvimento cultural e comunitário dos alunos.

Novos fazedores de cultura

Com o tempo, novos agentes passaram a contribuir com o legado construído ao longo de anos. Jean Triunfo, por exemplo, que cresceu ouvindo Racionais MC’s, Facção Central, Sabotage e outros nomes da cena, conta que o rap forjou sua identidade e senso de pertencimento, o que também o levou a atuar em uma das vertentes do movimento. 

Jean esteve à frente da gestão da Casa do Hip Hop de Diadema de 2020 a 2024, equipamento cultural que fez parte da sua infância. “Minha vida inteira foi naquele espaço. Lá é minha segunda casa. Tenho lembranças até hoje do meu pai me acordando e me chamando para irmos até lá, onde eu passava o dia inteiro dançando, cantando, brincando, pulando”, conta.


“Meu pai nunca me obrigou a nada. Ele sempre foi muito versátil: Canta, compõe, faz de tudo, mas nunca falou ‘você tem que seguir esse caminho’. Eu escolhi ser MC, fazer beatbox, jogar basquete. Isto veio das referências ao meu redor. Em tudo que crio, seja um projeto, uma ideia, um trabalho coletivo, sempre penso se isso vai realmente fazer diferença na vida das pessoas”, conta Jean, que também é filho de Nelson Triunfo.

Atualmente, Jean lidera a On Fire Streetball Brasil, iniciativa que une basquete de rua, ações sociais e a preservação de espaços públicos em diferentes comunidades periféricas. Ele também é produtor no rap, fortalecendo a cena musical.

Pedagogia do rap

O rap enquanto processo de aprendizado, coletividade e incentivo para construção de sonhos é o que Letícia Reis destaca. Assistente social e organizadora da Batalha da VR, ela referencia o gênero como ferramenta de transformação. “Esse é o nosso trabalho: fazer com que essas crianças, jovens e adolescentes, através do hip hop, venham até a gente e saibam que podem ser o que quiserem”, afirma.

“Às vezes a criança está ociosa, mas tendo uma batalha de rima, [ela] cola e começa a ver que pode ter sim possibilidades [na vida]. Se quiser ser um MC, um DJ, grafiteiro, um dançarino de breaking, que hoje é até modalidade olímpica, ela pode;” Leticia Reis, assistente social, produtora cultural e organizadora da Batalha da VR.

Influenciada pelo seu avô, que realizava projetos sociais na região onde mora, no Parque Jd Santa Madalena, na zona leste de São Paulo, Letícia passou a frequentar batalhas de rima e atualmente integra a batalha da VR e a batalha do Badá, em Heliópolis. Ela também lidera o Projeto Raça Neguita. “Assim como meu avô plantou essa semente em mim, eu planto no meu filho para que ele também possa, lá na frente, plantar [nos filhos dele]”, diz.

Letícia ressalta que as batalhas de rima também são espaços de expressão e troca, mas ainda sofrem muito preconceito. “A gente ocupa espaço público por direito, faça chuva ou faça sol. É um trampo social, onde a gente leva cultura, lazer e entretenimento, que deveria ser obrigação do Estado, mas muitas vezes somos nós que fazemos isso”.

Renata Martins, conhecida como Mc Caramelo, articula as ações junto com Letícia e comenta de um novo momento que o rap vive. “A internet veio pra fortalecer uma nova geração, uma nova história, mas não podemos nos esquecer da base, do porquê tudo começou”, afirma. 

“O rap é um protesto social. Para [o sistema] e para quem vê de fora, é fácil julgar o que o povo periférico produz, tratando a nossa arte como crime. O rap é o grito dos esquecidos. Somos um povo que sobrevive fazendo milagre.” Renata Martins, Mc, fotógrafa e organizadora da batalha da VR.

Renata pontua que o rap deu uma nova realidade para muitas pessoas nas periferias, e acredita que o movimento de mulheres encabeça uma revolução. “A força da mulher dentro do rap é gigante”.

“O rap hoje traz [novas formas]. Já temos também o trap, outros caminhos, outras vivências. Eu sou daquelas que acredita que a gente pode mudar, se reinventar, se adaptar, mas sem perder a essência: o rap raiz, o rap nacional e de protesto”, finaliza Letícia.

Felizs celebra memória e resistência em 11ª edição com programação literária na zona sul de São Paulo

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A FELIZS – Feira Literária da Zona Sul consolida-se como um dos principais eventos do calendário cultural paulistano ao chegar à sua 11ª edição. De 19 a 27 de setembro, a programação gratuita ocupará escolas, bibliotecas, centros culturais, o Sesc Campo Limpo e outros espaços da zona sul. Nascida do desejo de reunir e valorizar os artistas e escritores da periferia da região, a feira tem a literatura como sua linguagem central, promovendo um intenso intercâmbio cultural.

Resistência e memória no território

Com o tema Memória e resistência: “a luta não é para hoje é para sempre”, a edição de 2025 presta uma homenagem especial a Ana Dias, símbolo de resistência popular no território. Ativista, educadora popular e liderança de grupo de mães, viúva de Santo Dias, líder operário assassinado em 1979 durante a ditadura militar, em um piquete em Santo Amaro, Ana assumiu o compromisso de manter viva sua memória e luta.

Ana Maria do Carmo Silva – Ana Dias. Foto: Acervo Pessoal

Militante nas Comunidades Eclesiais de Base, ela e o marido haviam migrado do interior para o Jardim Ângela no fim dos anos 1960, engajando-se nas causas dos trabalhadores urbanos e rurais. Desde lá, Ana mantinha atuação política ao lado de outras mulheres, organizando Clubes de Mães como o do Jardim Santa Margarida e participando do Movimento do Custo de Vida, que enfrentava as políticas econômicas da ditadura.

“Mesmo alvo de ameaças, manteve-se firme, afirmando a importância da luta coletiva e da memória, por isso a nossa escolha e mulheragem ”, frisa Silvia Tavares, educadora e produtora da Felizs. Ana Dias segue atuante no Comitê Santo Dias, ao lado dos filhos Luciana e Santo Filho, promovendo atos públicos no local onde o marido foi morto.

A proposta desta edição da FELIZS é estabelecer as continuidades entre a experiência do período ditatorial e os dias atuais nas periferias, refletindo sobre a luta contínua por direitos e voz. “Eventos como a FELIZS, que dão visibilidade para autores independentes expressarem suas questões, são de suma importância para a literatura nacional, pois trazem um panorama alternativo e inclusivo”, destaca Diane Padial, idealizadora da feira.

A programação, construída para valorizar todos os artistas, inclui saraus, encontros com autores, shows, performances, conversas literárias e oficinas. Entre os nomes confirmados estão Ana Dias, Bel Santos Mayer, Lilia Guerra, Cidinha da Silva, Jennyfer Nascimento; Marcelino Freire e shows de Lenna Bahule com Ermi Panzo, Grupo Cupuaçu, Jonatas Petroleo, Grupo Candearte, Bloco Afro É Di Santo, Vitor da Trindade e Geraldo Magela. O tradicional Sarau do Binho também se apresentará, e desta vez terá uma apresentação extra no Museu da Língua Portuguesa.

Sarau Poesia de Todo Canto no Sesc Campo Limpo. Foto: Divulgação/Felizs

Incentivo à leitura

Uma das iniciativas de maior impacto da FELIZS é a Moeda Literária, criada em 2018. O projeto direciona recursos para que estudantes, professores de escolas públicas e mediadores de leitura possam adquirir livros diretamente dos expositores durante a feira. “Conseguir oferecer esse benefício fortalece a produção e difusão de obras literárias”, explica Suzi Soares, produtora curadora do evento. Em 2024, R$25 mil em Moedas Literárias circularam no evento, e a meta para este ano é alcançar R$40 mil, fortalecendo ainda mais a economia criativa local. A campanha de arrecadação está aberta na plataforma Benfeitoria.

Cédulas da Moeda Literária que movimenta a economia criativa e incentiva a venda de livros na periferia do Campo Limpo, zona sul de São Paulo. Foto: Thais Siqueira.

Serviço

FELIZS – Feira Literária da Zona Sul
19 a 27 de setembro
Mais informações pelo site e pelo Instagram.

O silêncio ancestral como estratégia de cura e resistência

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Nesta sessão, proponho uma reflexão sobre o silêncio — esse movimento interno que muitas vezes nasce de incômodos, dores ou sentimentos que preferimos não revelar. Contudo, para além dessa dimensão, o silêncio pode também ser compreendido como um espaço fértil de introspecção e autoconhecimento. Ele nos conduz a um encontro profundo com nós mesmos e com uma força ancestral que costumo evocar em nossas sessões, onde a escrita se torna ferramenta para compreender outras dimensões de nossa cultura e resgate de memória.

Muitos de nós não cultivamos o hábito de reservar tempo para o recolhimento, porque vivemos em uma sociedade que não nos permite parar. 

Nesse ponto, o silêncio também ganha um aspecto cultural e religioso. Recordo, por exemplo, a experiência do roncó, em que o recolhimento ritualístico convida à introspecção diante do sagrado. Nesses momentos, aprendemos a não permitir que o mundo externo invada nosso espaço interno, preservando-o como território de cuidado, cura e ressignificação.

O silenciar, portanto, pode ser compreendido como prática de cura interior, capaz de nos elevar a um grau mais profundo de autoconhecimento e de conexão com o sagrado. É também um modo de lidar com dores que não conseguimos verbalizar de imediato, criando espaço para sua transformação.

Entretanto, como psicóloga, não posso deixar de observar o silêncio que se impõe às mulheres diante das violências sofridas. Muitas vezes, o que não é dito se prende na garganta, sufocado pela vergonha, pela humilhação ou pelo medo. 

Esse silêncio, que deveria ser refúgio, torna-se também mecanismo de sobrevivência diante das tantas violências que atingem os mais vulneráveis. Até mesmo no espaço terapêutico — pensado como seguro — nem sempre é simples romper esse silêncio que guarda feridas de infância, de mulheres, ou mesmo de homens ensinados a suportar em silêncio como prova de força.

O silêncio, portanto, é ambivalente: pode ser fonte de poder interior, mas também de auto penalidade. É complexo e multifacetado, exigindo de nós sabedoria para discernir quando calar e quando falar.

Assim como o caçador que, na paciência silenciosa, consegue atingir seu objetivo, precisamos aprender a usar o silêncio como estratégia para ir mais longe. Há momentos em que calar é contemplar o sagrado, ouvir a alma, reconhecer o próprio tempo de amadurecimento. Em outros, é necessário romper o silêncio, erguer a voz e enfrentar os algozes.

Percebo, portanto, que o silêncio é parte constitutiva de nós. Ele se revela quando falamos demais sem nos ouvir, quando precisamos aprender a escutar a nós mesmos para lapidar nosso caráter. Ele também se manifesta como gesto de respeito, reverência e conexão com o sagrado — como nos ensinaram nossos ancestrais.

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“O Movimento Negro Unificado é uma escola de formação”,  destacam ativistas sobre protagonismo do MNU na luta contra o racismo no Brasil

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Greves, marchas, ocupações, denúncias e centenas de mobilizações foram encabeçadas ao longo de mais de quatro décadas pelo Movimento Negro Unificado (MNU), que nasceu em 1978, em resposta às violências intensificadas pela ditadura militar no Brasil. A geógrafa especialista em educação para as relação étnico-raciais, ativista e intelectual Regina Lúcia, uma das militantes que compõem a vanguarda do MNU, relembra sua trajetória, destaca retrocessos e principais marcos, especialmente para as pessoas negras periféricas.

“Estes 47 anos foram, em primeiro momento, um desvelamento do racismo no Brasil, desmascarando a dita democracia racial e colocando às claras que o Brasil era um país racista. O MNU foi sempre ponta de lança para as lutas e conquistas”, afirma Regina ao relembrar momentos que marcaram a história da luta negra.

Segundo a ativista, muitas conquistas do movimento negro chegaram às periferias. “Foi [muito importante] para a população negra, pobre, periférica, poder sonhar e ver seus filhos entrarem nas universidades. A briga pela regularização dos quilombos, a propagação da cultura negra e a lei 10.639, que embora ainda não esteja sendo aplicada na sua totalidade, já produziu muito material retratando acerca da nossa história e de nossa contribuição neste país, mas também para a história mundial”, lembra.

Ela também cita as cotas no serviço público, nas universidades públicas e privadas e a política de atenção integral à saúde da população negra. “Tudo isso configura conquistas, mas ainda existe luta para ser feita”, acrescenta a militante, que destaca o genocídio contra a população negra como, ainda, o mais importante desafio.

“[O] genocídio não está só na morte pela bala da polícia, do Estado, mas na negação à saúde, à alimentação. E há um fenômeno mais recente, um fato que tem se agravado: o suicídio, em especial, de homens negros jovens, muitos já chegando na fase da universidade. O suicídio é mais um produto do projeto de genocídio”. Regina Lúcia, ativista e intelectual do Movimento Negro Unificado (MNU).

A tomada de uma consciência crítica racial que contemple todas as dimensões e que desenhe futuros possíveis a partir da luta coletiva, é o que Regina espera ver garantido para seus netos.

“Eu já ouvi muito dos meus filhos, há alguns anos, que estava na hora de parar, que eu já tinha lutado muito, mas hoje eles entendem que não dá para parar. Já participei de muita luta, de muitas construções, mas o que [sigo acreditando] é que não dá para retroceder”, afirma Regina que já possui mais de 50 anos de militância política, sendo 30 anos de militância no movimento negro organizado.

Estrutura organizada a partir de territórios

A compreensão de que a população negra é diversa — seja em termos territoriais, educacionais ou políticos — foi o fio condutor que guiou a organização político-social do movimento, buscando dar conta dessa pluralidade presente no Brasil conforme as transformações históricas ao longo dos anos. A estrutura se organiza a partir do território em que cada militante está inserido, seja no trabalho, na educação ou em outras frentes de atuação. 

A partir daí, a mobilização permanece nos municípios e nos estados brasileiros, com distribuição de núcleos temáticos que possuem independência de ação, mas que seguem diretrizes bem delimitadas para incidir nacionalmente, inclusive, na política institucional.

Já no campo internacional, o movimento constrói articulações diversas, especialmente com organizações negras, coletivos de vítimas da negligência e violência de Estado, como movimentos de mães que perderam seus filhos e também aquelas que lutam pela libertação de familiares, inclusive do cárcere, em diferentes partes do mundo. 

Nesse sentido, Regina ressalta que, para o movimento social, estas alianças são compromissos inegociáveis de solidariedade e unidade na luta: “Precisamos derrotar o racismo enquanto política de controle da humanidade e enquanto política de reprodução do capital”, diz.

“Temos nos engajado em todas as lutas na defesa da vida, especialmente, das mulheres negras no Parlamento, pela indicação de mulheres negras ao STF, ao STJ, por exemplo”.

Regina Lúcia, liderança no Movimento Negro Unificado (MNU).

Nova geração, luta antiga

Aos 25 anos, a jovem estudante de Ciências Sociais da Universidade de Brasília (UNB) e pesquisadora sobre trabalho escravo contemporâneo, Brenna Vilanova, representa uma nova geração de militantes do MNU. Filha de uma trabalhadora doméstica e neta de nordestinos, ela diz que carrega na própria história a marca das desigualdades que atravessam a população negra brasileira.

Durante a pandemia de covid-19, a aproximação se estreitou. Em 2022, oficializou então sua filiação ao Movimento Negro Unificado em uma data simbólica. “Fiz a filiação em uma comemoração do dia 20 de novembro (Dia da Consciência Negra). Foi uma experiência muito gostosa de viver, não porque seja gostoso militar, pois a gente lida com muita dor, mas porque simbolizou um acolhimento, uma reconstrução de casa, de lar, que nós, pessoas negras, precisamos”, relembra.

Desde então, tem se dedicado especialmente a organizar a juventude negra dentro do movimento social Brasiliense. “Faço parte desta geração mais nova e tenho conseguido trazer outros jovens para dentro do MNU, [articulando] essa perspectiva de continuidade. Aprendo, todos os dias, com os mais velhos, mas também puxo os meus iguais e os meus mais novos. É isso que repito muito e sempre: o MNU, para mim, é uma escola de formação. Quando a gente aprende, a gente também tem que ensinar. É essa continuidade do legado, sem mudar a essência do MNU, mas renovando a forma de se organizar conforme o tempo em que a gente vive”.

“Temos dificuldade de trazer esses meninos negros para organização [político-social] que estão expostos à precarização do trabalho, falta de tempo. Ao mesmo tempo em que conseguimos colocar jovens negros dentro da academia, ainda falta alcançar muita gente que está nas quebradas: as mães negras, aquelas trabalhadoras que seguram tudo sozinhas”.

Brenna Vilanova, militante pelo MNU, estudante de Ciências Sociais e pesquisadora sobre trabalho escravo contemporâneo.

A compreensão da luta coletiva e construção de conhecimento faz parte do repertório da pesquisadora ao citar a ex-coordenadora nacional do MNU, Ieda Leal: “Certa vez, Ieda falou algo que me marcou profundamente: ‘eu não estava na escadaria em 1978, mas eu estava na carta de princípios’. Eu também me sinto assim. Nunca estive nas escadarias do Theatro Municipal junto com o MNU, em seu começo, mas sempre me senti pertencente”, compartilha. 

“Quando o movimento escreveu sobre a criança negra, sobre a juventude negra brasileira, sobre trabalho digno, eu estava ali. Eu sou fruto desse diálogo potente que o MNU faz”, destaca a jovem se referindo ao ato de fundação do MNU, realizado no dia 7 de julho de 1978, nas escadarias do Theatro Municipal de São Paulo.

Brenna menciona os contextos que representaram gargalos ao longo das décadas de construção coletiva, bem como os desafios atuais e futuros que enxerga com preocupação. “O MNU se funda denunciando o namoro do Brasil com o Apartheid. E até hoje a gente segue nessa estratégia internacional. O problema é que, ao mesmo tempo em que avançamos devagar no combate ao racismo, surge essa onda da extrema-direita, que é a nossa principal ameaça”, coloca.

“Quando você flexibiliza o discurso, quando libera conteúdo racista nas redes sociais, como o Elon Musk fez, por exemplo, isso se transforma em violência concreta nas periferias. Onde corpos negros não têm proteção social nem judicial, a violência aumenta”, ressalta Brenna sobre o avanço da extrema-direita.

Mesmo reconhecendo conquistas, como a lei de cotas e sua recente renovação, a ativista chama atenção para contradições existentes, inclusive, em governos progressistas. “Foi com o presidente Lula que [sancionamos] as ações afirmativas, mas, ao mesmo tempo, houve frustração quando não houve a indicação de uma mulher negra ao TSE. Mais uma vez ficamos de fora. Isso mostra como o povo negro no Brasil ainda precisa construir sua política sozinho”, observa.

“O Movimento Negro Unificado é uma escola de formação, e que a gente construa com os nossos mais velhos, com os nossos anciães, mas também com a juventude e com as crianças negras, pois é isso que irá garantir a continuidade dessa luta”.

Brenna Vilanova, militante pelo MNU, estudante de Ciências Sociais e pesquisadora sobre trabalho escravo contemporâneo.

Para ela, é a memória, somada à resistência que renova a esperança do povo negro para o fim do racismo como estrutura social. “Para quem veio antes, é só saudação e gratidão. Eu piso devagarinho neste caminho que foi aberto. E para quem está chegando, digo que o importante é pisar também, ocupar o lugar, se organizar”, finaliza.

Retrato de um punk, preto e periférico

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Como seu próprio vulgo indica, Regicida (matador de reis) nunca se acomodou ao lado dos poderosos, não fez e não faz concessão quando o assunto é o enfrentamento das desigualdades e da cultura racista e nazifacista que sempre rondou sua existência e a própria construção desse país.

Na matéria de hoje, na coluna que eu, Daniel Fagundes, mantenho aqui no Desenrola, decidi fazer de um modo diferente e entrevistar, dessa vez sem câmeras, esse jovem tiozinho de 40 anos, referência do nosso cinema periférico, preto e anarquista. Um importante realizador do que chamamos de cinema nacional, aquele cinema que revela as entranhas de um país que o nega historicamente em suas narrativas. Um cinema que não para, tendo ou não tendo recursos, pois a urgência das histórias e da forma de agir com a câmera não é pautada pelas armadilhas do capital.

Regicida é pai do Oruan, nasceu em Salto de Pirapora, mas cresceu na periferia da capital paulista, especificamente no bairro da Brasilândia, onde conheceu a cena cultural e de onde apontou pela primeira vez suas lentes para enaltecer o povo de luta do seu bairro e de outras quebradas. Entre seus filmes estão “Unindo Quebradas”, “25 de Julho – Feminismo Negro Contado em Primeira Pessoa”, “Metaleiras Negras”,  “Um Breve Relato” e “Confluências”, esse último, além de ser seu mais recente trabalho, é uma obra que resume de forma brilhante o pensamento do mestre quilombola Antônio Bispo e por consequência resume também a proposta política do cinema do próprio autor, confluir favelas, quilombos e aldeias. E como diria Nego Bispo, quando isso acontecer o ‘asfalto vai derreter!’.

Foto: Arquivo Regicida

Como iniciou nas artes, qual o primeiro contato com o mundo cultural?

Iniciei nas artes a partir do desenho, na escola eu era bastante dedicado nas aulas de artes e pegava tarefas extras com a professora que era desenhista, aprendi técnicas diferentes das que haviam no currículo escolar, disso caminhei para observar mais pinturas e fotografias.

Cabe comentar aqui que no ano de 2015 Regicida desenvolveu junto de Sônia Bischain e Enver Padovezzi o livro “Olhares da Brasa – Fotografia, Cultura Daqui”, uma linda homenagem em fotografias do território da Brasilândia. Conheça no link: (CLIQUE AQUI)

Como ingressou no movimento anarcopunk?

Desde muito cedo eu conheci o rolê Punk por estar nas ruas com o pessoal do Hip-Hop, andei com os UBC e alguns pixadores do bairro, na época sentia falta de um grupo organizadamente anarquista, logo me vi fazendo rolê com os punks e com isso me inseri nos ativismos políticos e manifestações de rua, onde fui inserido nos conceitos do AnarcoPunk.

Como iniciou a caminhada no audiovisual?

Audiovisual sempre foi para mim a ferramenta mais eficaz para acessar as pessoas, em comparação ao livro ou ao teatro e assim como as rádios, entendi que para falar com as pessoas eu precisava usar dessas ferramentas. Já fui zineiro, dos meus 13 anos de idade até os 26 produzi e co-produzi 4 zines e cada um com muitas edições. Com a gana de acessar mais pessoas resolvi encarar o caminho de aprender a gravar, roteirizar e editar, sou autodidata e com meu primeiro filme “Unindo Quebradas- AnarcoRap em São Paulo” vi que tinha potencial em acessar lugares e pessoas que meus zines ainda não haviam alcançado. Sempre destacando que a linguagem é uma poderosa ferramenta pedagógica e por trabalhar com educação popular e social sempre tenho audiovisual junto comigo nesses momentos.

Foto: Sonia Regina Bischain/Arquivo Regicida

Como vem pensando sua atuação no audiovisual desde o começo até agora? Quais os avanços e quais os principais desafios?

Eu começo no audiovisual de forma autodidata e forjando meus equipamentos para as produções acontecerem, passo por me estruturar e fundar uma produtora periférica e afro-indígena de audiovisual libertário a Do Morro Produções. Observando meus passos e refletindo sobre eles consigo criar métodos de ação e estruturo o ciclo de roteirizar assuntos, produzir gravações e exibir para o público, pois além de tudo venho conseguindo manter durante alguns anos um cineclube aqui na norte.

Entendendo a diferença que os cineclubes fazem na difusão das produções periféricas e mesmo contraculturais como as feitas por punks, pessoas do Hip-Hop e grupos ativistas no geral, nesse processo me desafiei a fundar um festival internacional de filmes, junto com minha irmã Marina Knup, o “Festival do Filme Anarquista e Punk de São Paulo”.

Nesses meus quase 20 anos de produções e organizando espaços voltados para a linguagem, percebi que os formatos mudaram bastante e as pessoas que querem acessar essas produções são outras, se mantivermos os mesmos costumes da minha geração e das gerações que vieram antes de mim, vamos acabar falando para nós mesmos e esse é um desafio que venho tentando enfrentar.

De que forma o seu envolvimento com a cultura anarcopunk é importante para o que você produz no campo audiovisual?

Alguns fundamentos que trago do AnarcoPunk me balizam para caminhar com minhas criações no audiovisual, e não falo apenas sobre os filmes. Fundar o Festival em São Paulo foi importante para diversas movidas pelo mundo, o que Marina Knup e eu iniciamos em 2012, de fundar o primeiro festival no Brasil voltado para produções punks e contraculturais, acabou inspirando outras organizações a entenderem que também podiam e hoje temos diversos outros festivais e mostras de audiovisual pela América Latina, que difundem material audiovisual punk, anarquista ou mesmo libertário.

Aproveite e fale mais do festival do filme anarquista e punk de São Paulo.

Então, como eu disse, o Festival surgiu em 2012 e o encerramos na sua 11ª edição, no ano passado [2024]. Anualmente reunimos de 30 a 40 produções de todo o planeta, alguns materiais que nunca haviam sido exibidos no Brasil foram trazidos para cá por nós, porque os parceiros mundo afora viram no festival um espaço potente onde poderiam exibir com qualidade seus filmes. Vimos coletivos de vídeo sendo criados para poderem produzir e exibir conosco, alimentamos uma chama que nossos cineclubes não estavam mais alcançando. Junto com Elaine Campos, Juliano Angelin, Ruivo Lopes, Clayton João e Joaquim Santos mantivemos uma boa bagunça todo mês de dezembro, mês que acontecia o festival.

O que você pensa sobre o discurso comum que coloca o punk e até a cena rock de forma mais ampla como um movimento de maioria branca?

Quem não conhece a própria história não saberá de onde veio e até mesmo para onde pode caminhar. O Rock é preto, nascido do Blues e desenvolvido por Sister Rosetta, tudo que se criou depois dela é uma disputa de discurso. Assim como o samba, a capoeira, a religiosidade e as tecnologias civilizatórias, tudo que foi concebido pelos africanos e as africanas em diáspora acabou sendo cooptado, de forma a se dizer que é branco para ser aceito pelos brancos e eles poderem consumir sem assumir o quanto temos a oferecer de cultura, história e filosofia.

Logo, acreditar nesse discurso de que o rock é musica de jovens brancos e o punk é uma cena de homens brancos é só mais uma idealização de consumo para mercantilizar fenômenos culturais de potência que são feitos por não brancos, e quem pensa o contrário está de chapéu atolado.

Como você tem feito o enfrentamento do racismo na sociedade pelo lugar do anarcopunk?

Meu enfrentamento vem através do resistir cotidianamente de cabeça erguida, Punk é ação direta e dá o exemplo prático sobre como existir sem se render a cultura do consumo, ir contra as relações mercadológicas e toda cosmofobia instaurada a gerações em nossas mentes.

Nem sempre estou blindado às questões que me atravessam, da mesma forma que atravessam meus pares e parentes pretos, indígenas e periféricos, mas sigo vivo com a Do Morro Produções, onde tenho esse foco no registro arquivista das memórias de militâncias periféricas libertárias.

E o Coletivo Malungo que se organiza a partir do propósito de forjar ambientes pedagógicos para se pensar sobre o quanto o racismo e a cosmofobia está impregnada nas estruturas educacionais e criar meios legais e até ilegais para a superação da visão  eurocêntrica que banaliza nossas vidas  cotidianamente, principalmente na educação e nas instituições escolares.

Você está há 17 anos no audiovisual, fazendo trabalhos autorais e colaborando com outras produções do cinemão também. Faça um levantamento breve dos principais trabalhos que você realizou e destes outros que atuou e, se possível, diga quais obras que mais curtiu trabalhar.

Assino meu primeiro trampo solo em 2008 e de lá para cá tenho cerca de 30 produções minhas ou que fiz parte. Unindo Quebradas (2008) é uma das que mais me marcaram, não apenas por ser minha primeira, mas também por ter conhecido muita gente durante as gravações (um dia lanço a continuação já gravada, mas nunca editada).

Feminismo Negro Contado em Primeira Pessoa (2013) é meu maior trabalho até hoje, me levou para lugares que nunca pensei estar e me fez crescer um pouco mais como ser humano. Tenho um curta sobre minha mãe onde me vi num desafio de registrar uma das pessoas que mais admiro, mas esse trabalho não quis lançar abertamente. Fiz fotografia para produções que estão na Netflix, Amazon e GloboPlay e me orgulho disso, assim como estar no catálogo da TodesPlay e AfroFlix. Poderia citar algumas produções feitas junto a grupo de jovens durante os cursos que promovo, mas deixo aqui a curiosidade para quem está lendo ir atrás.

No momento, meu último trabalho lançado é um curta que produzi sobre Antonio Bispo a partir do convívio que tive com ele. Fui feliz em ter durante alguns anos esse mano para trocar ideias, tomar cachaça, discutir e discordar em vários pontos, mas sempre aprendendo algo novo, com isso consegui registrar um pouco do Bispo lavrador, pai, avô e querido na cidade que morava, e não apenas o quilombola pensador cosmológico que nos deixou um grande legado em seus livros. “Confluências” (2020) trás parte desses registros que fiz em sua comunidade no Piauí, espero conseguir lançar um próximo trabalho mais amplo, que terá mais um pouco desses momentos que gravei com ele em vida.

Assista “Confluências”: https://www.youtube.com/watch?v=fi-4T8tdYDY

No momento político atual, como você acha que o audiovisual, o cineclubismo, a comunicação independente podem ampliar possibilidades de engajamento social nas quebradas? Quais experiências você tem conhecimento hoje que são boas referências nesse sentido?

Poderia citar algumas referências sobre como as quebradas estão avançando, mas quero pontuar apenas a APAN (Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro), pois mais pessoas precisam ter ciência que esse espaço existe e está muito ativo. Não vou comentar o que é a APAN, porque novamente quero que as mentes curiosas que estão lendo esse meu relato corram atrás de saber.

Quais os planos futuros de trabalho, de carreira, o que você tem pensado deste ponto em diante?

O futuro é algo que pouco penso sobre como será enquanto Do Morro Produções, pois vejo que se não mudar a forma de se fazer ficarei nostálgico e não é meu objetivo, quero falar para as gerações mais novas e talvez artisticamente não consiga, mas sei que tenho algo a dizer que os interessam, qual vai ser o formato ou a linguagem ainda estou tentando formular, mas passado um longo processo de depressão e agora recém saído desse buraco que a doença nos coloca, me vejo de novo nas pistas e disposto a voltar a botar fogo por aí, pois o regicídio está por vir.

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“Isso tem a ver com o fato de ser um projeto periférico”: pesquisa aponta centralização de recursos culturais na cidade de São Paulo

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Sentados no chão, reunidos em círculo, um dos jovens se direciona até o centro da roda para apresentar sua fala. Quem está ao redor observa e incentiva, assim o espaço vai ganhando movimento e forma. Essa é parte da rotina de apresentação teatral dos integrantes do coletivo Usina dos Atos, que mesmo com o desafio do financiamento, desde 2009, desenvolve projetos que unem arte, formação e impacto social na região da Cidade Tiradentes, Guaianases e São Mateus. 

A principal atividade do grupo é o Projeto Primeira Cena, criado em 2010, que envolve formação de jovens a partir de técnicas de teatro e dança, com duração de um ano. Em paralelo, participam de oficinas de política, comunicação e literatura.

Cai Teixeira, articuladora cultural e um dos mobilizadores, conta que já realizaram sete edições, com 17 turmas e 19 trabalhos artísticos circulando por diferentes territórios, com jovens da Cidade Tiradentes, Grajaú, Sapopemba e Campo Limpo. Muitas ações aconteceram no que chama de “guerrilha cultural”, sem recursos. “A última edição com recurso foi a sétima, entre 2022 e 2023. De 2009 a 2019, praticamente não tivemos financiamento, apenas em 2012 conseguimos algum apoio. Nesse período, tudo que fizemos foi na base de mobilização própria”.

Em 2019, a maioria das pessoas do coletivo conciliava outros trabalhos com as atividades do grupo, ano que Cai saiu do emprego fixo para se dedicar integralmente à iniciativa. Foi nesse momento que a produtora passou a estudar sobre captação de recursos.

O coletivo existe há 16 anos, sendo 11 registrado com CNPJ, pensado para captação. As atividades acontecem em parceria com espaços públicos ou ocupações. O Primeira Cena, projeto de arte-educação, ocorre principalmente no CEU Inácio Monteiro, na zona leste, parceiro desde 2011 e considerado o mais constante. Ao longo dos anos, as ações também já passaram por outros equipamentos, como o CEU Cidade Dutra, CEU Três Lagos, CEU Casa Blanca e a EMEF Miguel Ferreira, na zona sul, além da ocupação Mateus Santos, em Ermelino Matarazzo. 

“Começamos a buscar cursos e certificações importantes para acessar editais e financiamentos. A partir daí, conseguimos recursos algumas vezes e, em 2022 e 2023, acessamos o FUMCAD, que é um recurso muito bom, mas difícil [de acessar]. Com ele, conseguimos implementar o projeto em quatro regiões diferentes, atingindo o maior número de jovens simultaneamente”, relembra Cai.

Com acesso ao financiamento, as ações do grupo expandiram: realizaram a publicação de dramaturgias, lançamento do podcast “Diversamente” e estruturação de uma biblioteca digital, mesmo o valor não sendo suficiente para garantir recurso fixo aos jovens e para manter a sustentabilidade de todas as atividades. Um exemplo é o livro digital Periferia Esperança, que reúne a peça criada por jovens do Projeto 1ª CENA, da Usina dos Atos. A publicação funciona como registro e divulgação da dramaturgia periférica.

O FUMCAD é um fundo municipal voltado a projetos sociais que atendam especificamente crianças e adolescentes, com recursos destinados por pessoas físicas e jurídicas via imposto de renda e gestão do conselho municipal. Diferente da Rouanet, que é uma lei federal de incentivo à cultura e permite que empresas e pessoas físicas apoiem diretamente projetos culturais aprovados pelo Ministério da Cultura, com foco na produção e difusão artística.

O coletivo já escreveu para ambos, mas não obteve aprovação nas etapas finais da Rouanet. “O Primeira Cena foi aprovado pelo Ministério da Cultura, via Lei Rouanet, mas travou justamente na etapa de captação do recurso, o que mostra que, de fato, o [dinheiro] não chega para nós, na periferia. O projeto é de cerca de 2 milhões de reais, um recurso bastante significativo, só que não conseguimos atrair empresas para apoiar. Quando chega nesta etapa, e inclusive ainda está apto para captar e temos tentado articular, não avançamos”, diz. 

“Isso tem tudo a ver com o fato de ser um projeto periférico, de não ter a visibilidade de artistas conhecidos ou de alguma instituição com nome mais forte e reconhecido”. Cai Teixeira, articuladora cultural e uma das mobilizadoras

Desigualdades no acesso à incentivos culturais

Maior concentração de recursos voltados à cultura no centro de São Paulo. É isso que os dados da pesquisa realizada pela Associação Cultural, Recreativa e Esportiva Bloco do Beco e o Observatório Ibira 30 mostram. O material traz um mapeamento sobre a distribuição dos recursos captados pela Lei Rouanet – mecanismo federal de incentivo cultural via renúncia fiscal, na cidade de São Paulo, entre 2014 e 2023, criado em parceria com a Fundação ABH e com a Universidade Federal do ABC (UFABC).

Entre os indicadores que evidenciam os padrões estruturais do financiamento cultural, é possível identificar que 88,86% dos recursos foram captados por projetos de regiões centrais da cidade de São Paulo, que abrigam 17% da população. Já nas periferias, onde vivem mais da metade dos paulistanos, foi distribuído 1,38% do total de recursos.

Segundo o estudo, projetos periféricos sofrem disparidades desde a submissão das propostas até a aprovação e captação de recursos, o que se relaciona com barreiras técnicas e institucionais. Ou seja, a lei existe, mas praticamente não chega. Quando chega, não é na sua totalidade.

Marcelo Zarzuela, um dos pesquisadores do Ibira 30, aponta que as leis de incentivo, em especial a Rouanet, precisam ser repensadas para incluir quem está fora do radar e promover soluções protagonizadas pelos territórios. “De fato, existe uma desigualdade imensa. A gente imaginava que ela estaria mais centro-periferia, mas não esperávamos que fosse tão grande. Essa concentração acontece em regiões específicas, como o chamado ‘corredor da cultura’, onde estão localizados os grandes centros culturais que ditam muito do que é cultura em São Paulo”, afirma ao citar sobre áreas periféricas que recebem 1,38% de todo o recurso, mesmo representando 50% da população da cidade. 

O pesquisador destaca que apesar do recurso ser público, quem decide para onde vai o dinheiro são as empresas. Em razão dessa estrutura, os equipamentos de maior porte não apenas são os maiores da cidade em termos de visibilidade, mas também os mais articulados com as empresas incentivadoras neste processo.

“Se a empresa decide para onde vai o dinheiro e esses equipamentos conseguem dar mais qualidade para contrapartida do que uma organização de periferia, com certeza o recurso será alocado lá, pois as empresas também trabalham com essa perspectiva da visibilidade [dos seus negócios]”, explica Marcelo sobre o processo que reforça os ciclos de exclusão cultural.

“Não se pode pensar que uma lei existe para reproduzir as mesmas desigualdades que a gente enxerga na cidade. Essa [Rouanet] é uma lei que está reproduzindo, historicamente, as mesmas desigualdades que a gente tem e já conhece”. Marcelo Zarzuela, pesquisador e um dos coordenadores da pesquisa desenvolvida pelo Ibira 30.

O pesquisador aponta que, a partir do cruzamento de dados, identificaram os locais de concentração do recurso. “Percebemos que as coisas se casam: domicílio em situação de precariedade é onde não se capta Rouanet. Educação de mais qualidade é onde se capta mais”.

Fatores raciais cruzam com marcadores socioeconômicos. Bairros periféricos identificados com alto índice de pobreza e infraestrutura precária, como Cidade Tiradentes, São Mateus e Jardim Ângela, concentram a maior parte das favelas, enquanto distritos centrais recebem a maior parte dos recursos. No Jardim Ângela, 53,3% das residências são favelas; em Moema, 0%. Pinheiros (IDH 0,942) captou R$ 1,2 bilhão, enquanto Parelheiros (IDH 0,680) não teve projetos aprovados.

A pesquisa aponta a divisão da cidade de São Paulo que está organizada em 96 distritos, distribuídos em 32 subprefeituras. São mais de 11 milhões de habitantes e cerca de 570 mil (média de 5%) vivem na região do M’Boi Mirim, território em que a pesquisa se aprofunda, que inclui os distritos Jardim São Luís e Jardim Ângela. 

A região do M’Boi Mirim, registrou 10 projetos que captaram recursos na última década, sendo 0,02% do total da cidade. Capão Redondo e Campo Limpo, que abrigam 9,39% da população, representam menos de 1% do montante arrecadado, com 35 projetos que captaram.

A concentração de recursos se dá principalmente em um raio de 5 km ao redor do centro expandido de São Paulo, o que representa 98% do total investido, com destaque para Pinheiros, que entre 2014 a 2023, responde por 20,36% de toda a captação municipal. 

A Lei de Fomento à Cultura da Periferia, resultado da luta dos movimentos culturais periféricos, busca um modelo oposto: 70% dos recursos devem ser alocados à Área 3 (regiões periféricas com alta vulnerabilidade social e domicílios com baixa renda); 23% à Área 2 (regiões intermediárias em termos de domicílios de baixa renda) e 7% às Áreas 1 e 4 (centro e demais regiões com menor vulnerabilidade), com redistribuição conforme vulnerabilidade social.

Na prática, em São Paulo, existem territórios que recebem maior apoio estatal. Exemplos de grandes proponentes na Rouanet incluem: MASP – Museu de Arte de São Paulo (R$ 235,7 mi), Fundação OSESP (R$ 190,7 mi), Fundação de Apoio à USP (R$ 176,5 mi), Fundação Bienal (R$ 154,2 mi), Museu de Arte Moderna de São Paulo (R$ 113,4 mi), todos localizados na área 1. 

Após aprovação, os projetos entram na fase de captação de recursos privados, etapa que depende da mobilização do proponente. A efetivação do recurso favorece quem tem redes consolidadas e conhecimento dos circuitos culturais. Mesmo São Paulo, que lidera nacionalmente em captação, apresenta grandes desigualdades territoriais. O Mapa da Desigualdade mostra que viver em certos distritos impacta diretamente o acesso a direitos básicos e serviços públicos.

Marcelo ressalta que muitas pessoas nas periferias deixaram de escrever projetos para a Lei Rouanet, pois até tiveram ações aprovadas, mas sem captação, isso pela dificuldade de ter acesso a um portfólio de empresas. 

“Um passo importante é uma coalizão pensando em ajudar a mobilizar as organizações periféricas a voltarem a escrever projetos para a Lei Rouanet”, sugere. Outro fator que o pesquisador coloca é que, a desigualdade constatada através da pesquisa, também tem relação com o que é considerado ou não cultura. 

Cai, da Usina dos Atos, afirma que existe uma tendência de enxergar arte apenas como grandes shows e eventos, o que apaga outras linguagens. Para ela, é necessário políticas públicas que incluam todas as formas de expressão artística, especialmente aquelas produzidas nas periferias. “Apesar de ser importante, a Lei Rouanet é muito excludente. Para muitas pessoas, ela parece tão complexa que nem tentam enviar projetos”. 

“O poder público, especialmente as prefeituras que deveriam investir mais em ações formativas voltadas para os artistas e coletivos, oferecendo espaços para que eles aprendam a elaborar projetos e entendam os processos necessários. Em paralelo, [as organizações] têm um papel fundamental neste processo, apoiando artistas e coletivos a se desenvolverem na arte e na cultura”, avalia a articuladora cultural.

Ela aponta que o movimento e agentes culturais periféricos se organizam em busca de políticas públicas que têm sofrido cortes, atrasos e descontinuidades.“Em paralelo, não deixamos de produzir nossa arte e cultura. Continuamos fazendo e existindo, muitas vezes com recursos próprios, juntando um pouco daqui, um pouco dali, ou mesmo sem edital, resistindo e promovendo transformação nas periferias, a partir daquilo em que acreditamos”. 

“No sentido financeiro ainda é difícil, porque as pessoas merecem receber pelo trabalho que realizam. Mas, felizmente, resistimos. Continuamos produzindo, fazendo arte, transformando, educando pessoas, construindo [novos olhares] e exercendo incidência política-cultural”, finaliza.