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“Fundamental discutir cotas de gênero”, diz economista Gabriela Chaves sobre Fundo de Reparação Econômica para população negra

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Três meses após sua aprovação pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara dos Deputados (CCJ), em Brasília, por 41 votos favoráveis e 15 contrários, a admissibilidade da PEC 27/2024, que cria o Fundo Nacional de Reparação Econômica e de Promoção da Igualdade Racial (FNREPIR) e inclui na Constituição Federal o capítulo “Da Promoção da Igualdade Racial”, segue com discussão e tramitação em andamento. 

Com o objetivo de corrigir desigualdades históricas contra a população preta e parda no país, a iniciativa busca ampliar a inclusão social e econômica da população negra, que corresponde a 56,7% da população brasileira.

Dados de 2024 da PNAD Contínua, mostram que dos brasileiros que se autodeclaram pretos ou pardos, 45,3% são pardos e 10,2% pretos. Nesse panorama, as mulheres negras representam cerca de 28,5% da população, ultrapassando 60 milhões de pessoas, e aparecem tanto como maioria nos lares brasileiros quanto como parte fundamental da força de trabalho do país.

O objetivo do FNREPIR é ser um fundo para financiamento de políticas públicas e projetos voltadas para a população negra, como ações de educação, geração de renda, fomento a iniciativas culturais e comunitárias, entre outras demandas com foco na promoção de oportunidades de desenvolvimento social, econômico e educacional.

Gabriela Chaves, economista e idealizadora da iniciativa NoFront, explica que o debate sobre a construção de um fundo de reparações econômicas para a população negra no Brasil é antigo e configura uma demanda histórica do Movimento Negro. Nesse sentido, o avanço da discussão é bem recebido pela sociedade civil, porém os valores que estão sendo discutidos em torno do fundo são preocupantes. 

“Hoje a discussão posta é de 20 bilhões de reais a serem distribuídos ao longo de 20 anos. Esse valor é praticamente irrisório diante dos danos que temos, do tamanho da população negra e da necessidade que se tem de investimento relevante”, alerta.

Ainda existem diversas etapas burocráticas e legislativas dentro do Congresso Nacional para que o projeto avance. A admissibilidade da PEC foi aprovada na CCJ, e essa é a porta de entrada. A partir disso, o texto passa por outras fases, como comissões, discussão em plenário, votação em dois turnos, até eventualmente avançar no Senado Federal.

A economista ressalta que esse trâmite é complexo e exige conhecimento jurídico e político, o que nem sempre está ao alcance de quem atua diretamente nos movimentos sociais, que atuam para garantir propostas alinhadas ao contexto da população. Como os movimentos sociais não têm poder formal para decidir os rumos de uma PEC, sua atuação ocorre pela capacidade de influenciar o processo legislativo. 

Nesse sentido, para que o Fundo de Reparação Econômica avance conforme a realidade da população negra, esses grupos precisam acompanhar de perto cada etapa da tramitação, participando das discussões e pressionando as negociações em curso. Gabriela pontua, porém, que a complexidade técnica do processo acaba limitando essa participação de forma mais qualificada.

“Há a necessidade de construir um debate sobre que recursos são esses e como se dará a distribuição desses recursos para garantir uma equidade de gênero nessa questão”, coloca ao abordar sobre a origem dos recursos e como serão distribuídos, ao frisar que mulheres negras são, historicamente, as mais afetadas pela balança tributária desigual.

Segundo ela, um bilhão de reais por ano é um valor irrisório. “A minha expectativa era que esse fundo fosse pelo menos cinco vezes maior, e nesse caso estaríamos falando de pelo menos 100 bilhões de reais.”

Um país de mulheres negras

Nesse horizonte, a população de mulheres negras é a mais impactada pelas desigualdades socioeconômicas, como explica Gabriela, que também é Diretora de Economia e Incidência da Marcha Nacional das Mulheres Negras.

Mulheres negras contam o que mudou desde a última edição da Marcha em Brasília

Levantamento do Instituto de Pesquisa DataSenado revelou as principais desigualdades sociais, econômicas e educacionais que a população de mulheres negras enfrenta no país. No Brasil, majoritariamente jovens e adultas, 18% têm entre 16 e 24 anos e 12% têm 60 anos ou mais, elas se concentram, sobretudo, em São Paulo (18%), Bahia (10%) e Minas Gerais (10%).

Em termos proporcionais, a Bahia lidera com 80% das mulheres do estado se declarando pretas ou pardas, seguida por Pará e Maranhão, ambos com 79%.

Com relação à escolaridade, 2,8 milhões são analfabetas e 11,4 milhões não concluíram o Ensino Fundamental, somando 31% do total. A maioria conclui o Ensino Médio (34%), mas apenas 14% chega ao Ensino Superior.

Isso se reflete na renda: 66% vivem com até dois salários mínimos e só um terço considera ter renda suficiente; 32% não têm renda e 34% afirmam que ela não cobre suas necessidades. Entre as que trabalham, 40% atuam em instituições públicas ou privadas, 25% para pessoas físicas e 34% por conta própria.

Nos lares, 45% vivem em casas com quatro ou mais moradores; 78% tem 78% têm filhos e 58% criam ao menos um menor de 18 anos. A maior parte reside em áreas urbanas (87%) e se declara católica (45%) ou evangélica (36%).

O levantamento revela ainda que a violência doméstica contra mulheres negras é atravessada simultaneamente por aspectos de raça, gênero e classe.

Direito à terra e acesso a financiamento

Mercado de trabalho, acesso à terra, que envolve a titulação de terras quilombolas e de territórios tradicionais, além de um programa nacional de reforma agrária, são demandas que a economista destaca como prioritárias, sendo as mulheres negras as mais afetadas por essas políticas.

“Vivemos desafios profundos, tanto no contexto urbano quanto rural, que são resultado direto de um país que criou e manteve mecanismos para impedir que a população negra tivesse acesso à terra. Isso se reflete na presença majoritária da população negra nas favelas, periferias e nos territórios de maior risco ambiental.” 

Gabriela Chaves, economista, coordenadora do NoFront e Diretora de Economia e Incidência da Marcha das Mulheres Negras.

A economista aponta ainda que o sistema financeiro brasileiro exige garantias que muitas mulheres negras não possuem, dificultando o acesso a crédito e atrasando conquistas como a casa própria. Ela defende a criação de mecanismos como microcrédito, juros reduzidos e garantias públicas, permitindo que essas mulheres obtenham financiamento ou desenvolvam seus negócios com apoio de bancos públicos e do BNDES.

“É possível pensar também em como o Estado pode se tornar esse garantidor de crédito no caso da população de mulheres negras, que têm menos garantias para dar em empréstimos e, nesse sentido, acabam pagando taxas de juros mais altas. Por isso, é possível sim, estabelecermos um fundo garantidor”, exemplifica.

O avanço da reparação econômica passa também pela inclusão da ‘economia do cuidado’, que abrange trabalhadoras domésticas e de cuidado informal, sem proteção trabalhista. Por isso, defende que o Fundo Nacional de Reparação precisa contemplar esse grupo, garantindo que as políticas alcancem também as trabalhadoras que sustentam, de maneira invisível, a dinâmica econômica do país.

“As regras de funcionamento desse fundo ainda não foram definidas, e esse é um campo em disputa. Para que haja recursos destinados à reparação do cuidado, é fundamental discutir cotas de gênero”, salienta.

Ela aponta que uma das demandas mais fortes que identificam é o endividamento, que bateu recorde em 2024 e segue em alta. “Propomos, no âmbito da Marcha das Mulheres Negras, a criação de um Programa Nacional de Alívio de Dívidas, capaz de desonerar as famílias e garantir melhor qualidade de vida. Essa pauta será encaminhada ao Ministério da Fazenda e é central em nosso manifesto”, ressalta. 

Dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) em 2025, mostra que mulheres são as mais endividadas, somando 78,1%. 

“O desafio orçamentário existe porque o Brasil enfrenta limitações fiscais desde o teto de gastos e o novo arcabouço fiscal. Criar esse fundo exigirá encontrar recursos, seja taxando super-ricos, seja revisando subsídios, diante das desigualdades na distribuição de benefícios econômicos, como os concedidos ao agronegócio.”

Gabriela Chaves, economista, coordenadora do NoFront e Diretora de Economia e Incidência da Marcha das Mulheres Negras.

Justiça tributária: Entenda por que o pobre cada vez fica mais pobre #36

Outro desafio, segundo Gabriela, está relacionado ao reconhecimento político da desigualdade racial no país, que historicamente se vendeu como uma democracia racial. Ela destaca que estabelecer um fundo nacional para a população negra não é apenas uma questão financeira, mas sim um paradigma de responsabilização do Estado brasileiro. 

“A reparação precisa vir acompanhada de reconhecimento das instituições envolvidas na escravização e nos processos discriminatórios pós-escravidão que moldam a vida da população negra hoje. Os principais entraves são econômicos, pelo arcabouço fiscal, e políticos, pela resistência de grupos que historicamente negaram a necessidade de reparação.” 

Gabriela Chaves, economista, coordenadora do NoFront e Diretora de Economia e Incidência da Marcha das Mulheres Negras.

A economista menciona que é essencial considerar aspectos de prevenção a novas injustiças socioeconômicas. “É igualmente essencial refletir sobre como esse recurso será investido na sociedade, considerando que nosso modelo de reparação é coletivo e não individual. Além disso, é fundamental garantir a implementação de mecanismos efetivos de não repetição”, diz.

Casos de trabalho análogo à escravidão, especialmente no trabalho doméstico, também são pontos de atenção ao resultar em indenizações baixas. “Pessoas que passaram a vida inteira nessa condição recebem valores insignificantes diante das violências sofridas. Precisamos repensar o cálculo, considerando o tempo de vida perdido e o real benefício econômico gerado.”

“Acredito que, a partir da mobilização da sociedade civil, podemos ampliar o valor [do Fundo de Reparação], mas estamos em um campo da disputa política, onde existem muitos fatores envolvidos”, reforça.


Moradores de Guaianases chamam atenção para o problema do lixo na região

Abaixo dela, no entanto, sacos de lixo são espalhados pela calçada. Infelizmente, uma cena recorrente nas esquinas seguintes. Nas ruas onde o lixo chega a bloquear a passagem pelas calçadas, além dos sacos de lixo, é possível ver móveis velhos, restos de comida, embalagens e até roupas velhas.

Esse problema é recorrente para a maioria dos moradores escutados pela equipe do Laboratório Você Repórter da Periferia 2.0 (VCRP 2.0), do Desenrola e Não me Enrola, em outubro de 2025.

Córrego próximo a estação da CPTM, enquanto o caminhão da coleta de lixo passa pela rua. Foto: Gabriel Zahid.

Quem é responsável pela limpeza?

A Prefeitura, por meio da Secretaria Executiva de Limpeza Urbana (SELIMP), é responsável por fazer licitações para contratar as empresas que vão recolher o lixo. Mas não é só a Prefeitura e as empresas contratadas as responsáveis pelo lixo. 

Cada morador também tem um papel crucial e precisa fazer a sua parte no descarte. Para lixos comuns, por exemplo, cada cidadão precisa colocar o que vai descartar em sacos fechados e resistentes. O lixo também precisa ser descartado na área onde os caminhões de lixo passam e próximo aos horários em que passam. Isso, para evitar  que os sacos rasguem e espalhem o lixo, ou que eles fiquem acumulados.

Placa da prefeitura posta para aviso e denúncia de descarte irregular de lixo, caracterizado como crime ambiental. Foto: Gabriel Zahid.

Fica esperto(a)!

Se o caminhão de lixo não passar na sua rua, denuncie. Ligue para a Central de Atendimento 156 para denunciar a falha na coleta. A denúncia também pode ser feita pela internet no site da Prefeitura de São Paulo.

Córrego próximo à estação CPTM com entulhos e sacos plásticos acumalados no fluxo. Foto: Gabriel Zahid.

E o lixo reciclável?

Segundo levantamento recente do jornal Bom Dia São Paulo, a capital paulista produz diariamente cerca de 20 mil toneladas de lixo. O que chama a atenção é que 40% deste montante é reciclável. No entanto, somente 7% é realmente reaproveitado.

Muitos moradores de Guaianases apontam dificuldades para reciclar o lixo. A falta de espaço em casa para separá-los e a ausência de uma coleta seletiva foram alguns pontos levantados por eles. 

Mas quem conseguiu inserir na rotina o descarte de recicláveis tem contribuído, não só para o meio ambiente, mas também colaborado com a sustentabilidade financeira de empreendimentos e trabalhadores na região.

Na rua Tristão Gago fica o Ferro Velho Rainha da Sucata, administrado por Paulo Tenório da Paixão, 46, mais conhecido na região como Alemão. Trabalhando há cinco anos com reciclagem, ele elogia a postura de alguns moradores.

“Alguns chamam os próprios recicladores para ir na casa deles retirar, até fora de dia de reciclagem, justamente para não ter esse tormento contra enchente e outros tipos de situação” – Alemão.

Alemão explica que a reciclagem é um benefício grande tanto para o reciclador, que irá ganhar seu sustento, quanto para o bairro e seus moradores, por impedir o descarte errado e colaborar com o meio ambiente, evitando também alagamentos e enchentes.

Por ser uma região com a presença de muitos córregos, ele também conta que os recicladores dão uma atenção especial a esses locais, entrando neles e retirando boa parte do lixo. 

A iniciativa contribui diretamente para evitar enchentes e alagamentos na região, já que a retirada de lixo possibilita melhorar o escoamento da água da chuva.

Recipientes de plástico despejados no Ferro Velho Rainha da Sucata. Foto: Gabriel Zahid.
Lixos e entulhos tampando a passagem nas calçadas em Guaianases. Foto: Gabriel Zahid.

No distrito de Guaianases existem três Ecopontos:

  • Rua Utaro Kanai, 374
  • Rua da Passagem Funda, 250
  • Rua Padre Nildo do Amaral Júnior, 900

Cata-Bagulho

O serviço foi criado em 2017 e é responsável por recolher gratuitamente móveis velhos, pedaços de madeira e outros objetos volumosos nas ruas da cidade. Os caminhões circulam duas vezes por mês em cada bairro, recolhendo esses itens que não podem ser destinados à coleta de lixo comum ou reciclável. O cronograma por onde eles passam é divulgado pela Prefeitura.

Se liga!

Em caso de lixo em vias públicas, é possível entrar em contato com a Prefeitura pelo telefone 156.

Esse conteúdo foi produzido por jovens em processo de formação do laboratório de produção de conteúdo Você Repórter da Periferia 2.0 (VCRP 2.0), programa em educação midiática antirracista realizado desde 2014, pelo portal de notícias Desenrola e Não Me Enrola.

Mulheres negras contam o que mudou desde a última edição da Marcha em Brasília

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Após 10 anos da primeira edição da Marcha das Mulheres Negras, segundo estimativa da organização do evento, cerca de 300 mil pessoas ocuparam as redondezas da Esplanada dos Ministérios por Reparação e Bem Viver, tornando o dia 25 de novembro uma data histórica no Brasil.

Há 10 anos, novembro também foi um mês marcante para o debate de raça e gênero na sociedade. Foi em 2015, que a primeira Marcha das Mulheres Negras reuniu mais de 100 mil mulheres negras do Brasil contra o racismo, a violência e pelo bem viver.

Uma década depois, a capital do país volta a ser palco desse movimento de luta, colocando também em pauta a reparação histórica. Nesse tempo, muitas mudanças aconteceram no aspecto social, político e no que se refere a acesso a direitos. Como, por exemplo, a nova Lei 15.142, de 2025, que mudou de 20% para 30% a reserva de vagas oferecidas em concursos públicos e em processos seletivos da União para pessoas pretas, pardas, indígenas e quilombolas. Ou a decisão do Supremo Tribunal Federal, que em 2021, reconheceu o crime de injúria racial imprescritível e a sanção da lei que tornou a equiparação constitucional.

Ana Luísa, 33, moradora da capital de São Paulo, não esteve presencialmente na Marcha de 2010, mas participou de um dos comitês que construiu a delegação de Uberlândia, município em que morava na época. Em 2025, acompanhando a mobilização direto de Brasília, ela conta que marcha pelas mulheres negras da sua família.

Mãe, tia e avó são as suas principais referências de força, luta e protagonismo. “É por elas que eu estou aqui, que eu cresci, vivi, acessei vários lugares e posso estar presente nesse movimento hoje”, conta.

Ela é diretora do Instituto Geni, organização do terceiro setor que apoia governos na implementação de políticas públicas para as mulheres com foco gênero e interseccionalidade, e conta que, para os próximos 10 anos, espera a redução significativa da violência contra pessoas negras de forma geral.

“A violência é algo muito doloroso que atravessa a nossa experiência. Então, se a gente conseguir lidar um pouco com isso, eu sinto que a gente consegue também destravar outras partes da nossa existência.”

Ana Luísa, 33, moradora de São Paulo.

Assim como Ana, a assistente social, e moradora do município de Simões Filho, na Bahia, Esther Marcos Santiago, 42, mesmo sem estar presente na Marcha de 2015, contribuiu na sua construção. Nesse período, ela diz que enxerga avanços, sobretudo, ao se tratar de mulheres na política e em locais de poder, como na gestão, nos municípios, enquanto prefeitas, vereadoras e deputadas.

Entre 2014 e 2024, a presença de mulheres negras em cargos eletivos cresceu, mas ainda de forma lenta. No Congresso, elas passaram de 2% em 2014 para 5,7% na Câmara em 2022 — um avanço ainda distante da realidade demográfica do país. Nos municípios, o movimento também é tímido: menos de 1% das prefeituras eram lideradas por mulheres negras em 2016, e 4,3% em 2024. Nas câmaras municipais, a proporção subiu de 15,3% em 2016 para 39,3% entre as mulheres eleitas em 2020.

No total de eleitos nos municípios, a participação delas passou de 4,8% para 7,2% entre 2016 e 2024. Mesmo com 5.006 mulheres negras eleitas em 2024, o crescimento de apenas 2,5 pontos percentuais em oito anos evidencia como barreiras estruturais seguem limitando o acesso dessas mulheres aos espaços de poder.

Mas, segundo ela, ainda tem muito o que avançar, principalmente quando se trata da morte de mulheres. “Lésbicas são as mulheres que mais morrem. Mulheres negras, trans, lésbicas. Então esse avanço a gente precisa pra ontem na nossa sociedade”, diz. 

“Nós tivemos alguns avanços concretos, contudo, ainda existe o racismo, o sexismo, sim. A gente consegue perceber isso. Porque a gente não percebe a diferença da paridade, da participação, sobretudo nos espaços de poder, relacionada à questão de gênero. 

Esther Marcos Santiago, 42, assistente social, moradora de Simões Filho, Bahia. 

Na sua primeira vez na marcha, em 2025, Maria Fernanda Silva, 25, moradora de Brasília, conta que, enquanto psicóloga preta, compreende a importância da construção da identidade a partir do coletivo, por isso, também marcha pela saúde mental da população negra.

“Hoje eu percebo que a gente consegue alcançar alguns espaços a mais, tanto na questão da representatividade, tanto na construção da identidade. No entanto, a gente segue passando ainda por micro violências que estão vindo nas partes veladas. Eu confio muito nesse empoderamento, tanto na questão da autoestima, mas no posicionamento também da gente construir saberes que envolvem tanto as tecnologias ancestrais, quanto ocupar espaços.” 

Maria Fernanda Silva, 25, psicóloga, moradora de Brasília.

Para ela, a demanda principal de muitas mulheres negras é a exaustão e a dificuldade de descansar. “Então quando a gente fala da saúde mental da população preta, principalmente as mulheres, a gente tem que focar bastante na questão do afeto. Mas o afeto também como empoderamento, não só aquela questão do afeto romântico. Nesse autoafeto, o poder do descanso, ter uma rede de apoio para que essa pessoa também possa descansar”, diz. 

Edineia de Fátima Santos, 59, moradora de Curitiba e integrante do Movimento Nacional da População de Rua, avalia que houveram avanços, mas reforça sobre a importância de olhar para a diversidade de questões que envolvem as mulheres negras. “A realidade é que as mulheres pretas se empoderaram numa gigantesca organização para poder reivindicar as pautas que nos foram roubadas. Mas no geral, faltam muitas pautas [a serem] colocadas”. 

“[Por exemplo], o direito das mulheres em situação de rua, a violência que as mulheres sofrem dentro desse governo que não tem políticas públicas para essas mulheres que são abandonadas pelo Estado, pelo município e até pelo governo federal. Não tem pautas para esse tipo de mulheres. Mas, no geral, estamos avançando”, coloca.

Maria Fernanda lembra que toda sua construção enquanto mulher negra não é só para si, é fruto das gerações anteriores e construção para as que virão. “E é importante fazer esse recorte da idade, porque embora algumas questões sejam diferentes por causa da geração, ainda assim somos todas mulheres pretas. Então, temos a mesma característica, o nosso sofrimento tem a mesma raiz”, finaliza.

“Terra é proteção”: a luta de mulheres negras africanas por justiça climática na COP30

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Bridget Masikati desembarcou em Belém – sede da COP 30 –  com a responsabilidade de milhares de histórias nas costas. São mulheres que levantam às 4h da manhã para buscar água em nascentes cada vez mais distantes, que replantam suas roças três, quatro vezes porque as chuvas não vêm ou chegam violentas demais, que perdem filhos para a desnutrição enquanto a seca se estende. Mulheres negras, rurais, zimbabuanas — invisíveis nas negociações climáticas globais, mas na linha de frente da crise.

Ela é da Vila Mukanganwi, no distrito de Bikita, no Zimbábue, onde os riachos de sua infância secaram e a nascente que nunca falhava agora só corre após chuvas generosas. Cresceu vendo viúvas sendo expulsas de suas terras e filhas impedidas de herdar o solo que ajudaram a cultivar até o mesmo acontecer com sua mãe, após a morte do pai. Foi esse golpe que a transformou em ativista — e a levou até a COP 30. Para ela, crise climática e desigualdade de gênero são inseparáveis.

Atualmente, como parte da organização Women & Land in Zimbabwe (Mulheres e Terra no Zimbábue), Bridget trabalha em comunidades rurais para garantir que mulheres tenham acesso à terra, defendam práticas agroecológicas e construam resiliência climática a partir do que sabem fazer melhor: cuidar. Ela chegou em Belém com uma mensagem urgente para os líderes mundiais reunidos na Amazônia: sem direitos fundiários para mulheres, não existe justiça climática possível.

Gabi Coelho – Você cresceu na Vila Mukanganwi, no Zimbábue. Como era esse lugar na sua infância? E como está hoje?

Bridget Masikati – Quando criança, Mukanganwi era cheia de vida. Riachos claros cruzavam a vila, nascentes perenes alimentavam nossas hortas, e da porta da nossa cozinha buscávamos água de um canal desviado que fluía de uma nascente que nunca secava. Nossa casa tinha um enorme pomar com diferentes árvores frutíferas. Era uma paisagem onde as pessoas viviam em harmonia com a natureza, a vila era conhecida como um celeiro, com diversidade e chuvas confiáveis.

Hoje a história é diferente. Muitos riachos encolheram ou secaram, e a nascente que antes nos dava água o ano todo agora corre apenas após boas chuvas. O desmatamento e as mudanças climáticas erodiram o solo. As estações são imprevisíveis — as secas se estendem por mais tempo, as chuvas chegam tarde e violentamente, e ondas de calor queimam as plantações. O pomar ainda está de pé, mas a paisagem mais ampla mudou da abundância para a incerteza.

As mudanças climáticas transformaram tarefas básicas em batalhas diárias. As mulheres agora caminham mais longe por água, lenha é escassa e falhas nas colheitas são comuns. Chuvas erráticas forçam replantios repetidos, aumentando o trabalho sem rendimento. A desnutrição aumenta, as cargas de trabalho também e o estresse se acumula. As mudanças climáticas não são abstratas, são realidade vivida. Dignidade perdida, cultura perdida, redes perdidas e aumento do fardo do cuidado.

O que te fez decidir lutar pelos direitos das mulheres? Tem uma história pessoal por trás disso?

Meu despertar veio tanto das minhas observações de infância quanto de uma experiência familiar dolorosa. Crescendo, eu constantemente via violência contra mulheres, especialmente viúvas sendo expulsas de suas casas, ou filhas tendo negada a terra que ajudaram a cultivar. Era comum ouvir os anciãos dizerem: “Uma mulher não tem terra.”

Isso se tornou pessoal durante os últimos dias do meu pai. Depois que ele faleceu, alguns líderes da vila cobiçaram nosso pomar, fruto de anos de trabalho árduo, e queriam realocá-lo para seus filhos. Minha mãe foi repentinamente tratada como hóspede em sua própria terra. Ver ela lutar por dignidade e sobrevivência quebrou algo dentro de mim. 

Eu não suportava ver minha mãe sofrer sozinha, e me vi defendendo a própria terra que nos criou. Esse momento acendeu o verdadeiro ativismo e alimentou a energia nas comunidades com as quais trabalho na Women & Land in Zimbabwe.

Que tipo de resistência você enfrenta nesse trabalho?

Trabalhar em uma comunidade patriarcal nunca é fácil. Alguns homens se sentem ameaçados por mulheres empoderadas e desafiam abertamente nossas reuniões. Líderes tradicionais às vezes resistem à ideia de emitir terras para mulheres. 

Enfrentamos ataques verbais, acusações de “destruir famílias” e pressão para desistir. Até algumas mulheres mais velhas que cresceram sob normas de gênero rígidas nos alertam para ficarmos em silêncio.

As mulheres realizam a maior parte do trabalho agrícola, mas possuem menos terra. Sem terra, elas não têm garantia, controle ou poder de decisão. Investimentos inteligentes para o clima, como irrigação, bancos de sementes, agrofloresta, são mais difíceis de implementar quando a terra é insegura. A desigualdade aprofunda a vulnerabilidade climática.

Mas permanecemos firmes. Mostramos às comunidades os benefícios econômicos e sociais quando as mulheres têm terra: mais comida, melhores rendas, crianças mais saudáveis e redução da violência.

A gente ouve falar muito de financiamento climático nas COPs. Quanto disso chega de fato nas mãos das mulheres rurais?

Uma quantia insignificante do financiamento climático agrícola chega às mulheres no campo. Isso se deve à burocracia, falta de documentação, estruturas rígidas de financiamento e comitês dominados por homens que bloqueiam o acesso. A maioria dos fundos fica no nível nacional ou institucional.

A maioria dos esquemas de crédito de carbono e monoculturas “verdes” em larga escala prejudica as mulheres rurais. Eles ocupam terras comunais, restringem acesso a pastagens e lenha, e raramente compartilham benefícios. Esses projetos aprofundam a desigualdade, reduzem a biodiversidade e minam a soberania alimentar. As mulheres se beneficiam mais da agrofloresta controlada pela comunidade e sistemas de cultivo diversificados do que dos modelos corporativos de “crescimento verde”.

Apesar de tudo, que soluções vocês estão construindo para enfrentar a crise?

Apesar dos recursos limitados, as mulheres estão liderando soluções inovadoras: preservação de sementes indígenas e bancos de sementes, agroecologia, captação de água através de diferentes formas, hortas comunitárias alimentadas por bombas solares, plantio de árvores e restauração de campos degradados. Essas soluções são de baixo custo, sustentáveis e enraizadas no conhecimento vivido.

Uma das nossas maiores vitórias coletivas através da WLZ inclui apoiar mulheres rurais a adquirir mais de 200 hectares de terra para projetos de desenvolvimento em grupo. Para muitas mulheres, esta foi a primeira vez que tiveram acesso seguro à terra que era delas, não emprestada, não controlada por homens, não ameaçada por despejo. Uma mulher me disse: “Esta terra restaurou minha dignidade. Meu marido costumava me bater por pedir dinheiro. Agora eu alimento minha família.”

Em Belém, conhecendo a realidade das mulheres amazônicas, o que te chamou atenção nas semelhanças entre as lutas de vocês?

As mulheres amazônicas e as mulheres rurais zimbabuanas enfrentam ameaças semelhantes: grilagem de terras, extrativismo, desastres climáticos e controle patriarcal. Ambas defendem territórios ricos em biodiversidade. Ambas se organizam além das fronteiras. Ambas detêm conhecimento ancestral crítico para a justiça climática.

Irmãs na Amazônia e em todo o Brasil, sua luta é nossa luta. Continuem defendendo suas florestas, rios, sementes e comunidades. Sua coragem nos inspira. Estamos juntas em solidariedade, de Bikita à Amazônia, do Zimbábue a Belém, enraizadas como as árvores mais antigas, inabaláveis pelas tempestades, crescendo mais fortes a cada estação.

Integrante da organização Women & Land in Zimbabwe (Mulheres e Terra no Zimbábue), Bridget trabalha em comunidades rurais para garantir que mulheres tenham acesso à terra, defendam práticas agroecológicas e construam resiliência climática. Foto: Arquivo pessoal.
Este conteúdo foi produzido no contexto da COP 30, realizada em Belém, durante os dias 10 a 21 de novembro de 2025.


Futebol de várzea: times unem lazer e transformação social na zona leste de São Paulo

Da escolinha para crianças às ações sociais, e até mesmo aqueles momentos em que a galera se junta para um churrasco no campo, a união de moradores, torcedores, familiares, equipe técnica e diretoria, comprova a potência do futebol dentro e fora das quatro linhas.

Clubes tradicionais como o Botafogo de Guaianases, o Princesa Futebol Clube e o Vila Minerva, em Itaquera, são exemplos de como os times de várzea têm, ao longos dos anos, ocupado o papel do Estado ao suprir a ausência de alternativas esportivas e educacionais para os moradores.

“O futebol me salvou e é essencial pra molecada sair da rua. A educação começa pelo esporte.”Juliano Pereira, 38, jogador do Princesa Futebol Clube

Fundado em 1955, com muita mobilização de seus frequentadores, recentemente o campo do time, localizado na rua Luís Mateus, passou por um processo de revitalização. O campo do time deixou o terrão para dar lugar ao gramado sintético, além de receber postes de iluminação.

Décadas de resistência e diversão

Fundado no mesmo ano que o Princesa, o tradicional Botafogo de Guaianases completou 70 anos em abril. Ele foi fundado por Admardo Armond, um carioca que se mudou para São Paulo. 

Boa parte dos moradores da região conhecem ou já tiveram contato com o time e suas principais atividades, que acontecem na sua sede na rua Alexandre Monat, 166 ou no CEU Jambeiro.

O projeto social da escolinha de futebol é uma forte vertente dos trabalhos realizados pelo time. Nele, participam cerca de 600 crianças entre 5 e 16 anos, onde aprendem os fundamentos do esporte e, por vezes, têm a oportunidade de participar de peneiras e campeonatos de clubes profissionais.

Moradora da região, Débora Ferrari é professora e coordenadora da escolinha de futebol do Botafogo de Guaianases. Foto: Andressa Barbosa

A coordenadora e treinadora, Débora Ferrari, 41, afirma que o time acolhe crianças de diferentes perfis e sem distinções. Ela também alerta para que os pais acompanhem a evolução dos filhos no esporte. 

“Vejo crianças de 5 anos que vem sozinha treinar. É importante que os pais acompanhem, incentivem e tenham vivência com os filhos”, diz.

Um passo de cada vez

A falta de investimento e patrocínio é uma das principais reclamações de quem está nos bastidores dos times da várzea. “Falta estrutura, falta apoio. A gente faz o que pode, não tem investimento nem ajuda de custo. Às vezes, tira do próprio bolso para manter o time”, conta o técnico do time Vila Minerva, Davi Nascimento, 27. 

Luiz Oliveira Chagas, 61, e Einstein Jesus Teixeira da Costa, 73, mais conhecidos como Luizinho e Nego, são do Botafogo de Guaianases, e ressaltam que órgãos públicos deveriam investir e divulgar mais as iniciativas da várzea.

No time, vez ou outra os responsáveis dos alunos da escola comunitária de futebol precisam arcar financeiramente com gastos voltados para uniforme, alimentação e transporte em dias de jogos fora do campo do CEU Jambeiro.

Luizinho e Nego fazem parte da velha-guarda e participam de quase todas as atividades promovidas pelo time. Foto: Andressa Barbosa

Luizinho também foi o responsável por criar categorias 50+ dentro do Botafogo de Guaianases, possibilitando que jogadores mais antigos retornassem ao campo. 

“Antes diziam que era comédia o cara com 50 anos jogar bola. Hoje tem até jogador de 83 anos […] Times tradicionais [que não estavam ativos] voltaram a jogar por causa das categorias 50 e 60. Então o futebol continua vivo.” – Luiz Oliveira Chagas, do Botafogo de Guaianases

Nego, presidente da velha guarda e integrante do clube desde 1966, acredita que tais práticas são responsáveis por dar ao Botafogo o status de time respeitado no universo da várzea paulista.

Esse conteúdo foi produzido por jovens em processo de formação do laboratório de produção de conteúdo Você Repórter da Periferia 2.0 (VCRP 2.0), programa em educação midiática antirracista realizado desde 2014, pelo portal de notícias Desenrola e Não Me Enrola.

Jornalismo e ritmo: Hip-Hop e celebração das negritudes como marco cultural e comunicacional

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A gente se reconhece nas ruas, nos becos, nos palcos e nas praças onde o hip-hop pulsa. Essa cultura, que há mais de quarenta anos se afirma como uma das expressões mais potentes das periferias urbanas, é também uma lente e um método que orienta a forma do Desenrola e Não Me Enrola de se comunicar, investigar e contar histórias. E está intimamente ligada às resistências e celebrações das negritudes.

Com tudo isso, marcamos o 20 de novembro – Dia da Consciência Negra e o associamos ao 12 de novembro – Dia Mundial do Hip-Hop.

Ambas as datas remontam as formas de pessoas negras, periféricas e de grupos socialmente marginalizados estarem no mundo. A celebração da negritude e de uma manifestação cultural urbana e das quebradas é marcada pela urgência de falar, de disputar narrativas e de criar caminhos próprios rumo à denúncia de violações e à efetivação de direitos sociais. Assim foi com o rap, com o graffiti, com o break, com o DJ e com o conhecimento — os cinco elementos que formam essa cultura viva e insurgente.

Thais Siqueira e Ronaldo Matos, cofundadores do Desenrola e Não Me Enrola, ao lado do rapper Dexter, em abril de 2013, durante a coletiva de imprensa e gravação do DVD do artista. Essa foi uma das primeiras coberturas produzidas pelo Desenrola.

Da mesma forma, articulações históricas e de denúncia de racismo, além de análises de fenômenos da branquitude estão ligados ao preciso reconhecimento das marcas coloniais e de uma sociedade constituída por hierarquizar raças.

Assim, nosso jornalismo se estrutura sobre o princípio de tomar a palavra, questionar o olhar hegemônico e dar visibilidade às múltiplas existências que constroem os territórios populares.

A palavra como lança e instrumento de transformação

Assim como o MC transforma sua vivência em verso e denúncia, o jornalismo que fazemos transforma a experiência coletiva das quebradas em narrativa e reflexão. As matérias  contam o cotidiano dos bairros, as reportagens sobre cultura, educação e políticas públicas, ou as entrevistas com artistas e ativistas, todas partem da mesma ética: a de que a palavra é ferramenta de transformação social.

Como cantam os Racionais MC’s em ‘Capítulo 4, Versículo 3’: “A palavra tem poder, pode curar, pode ferir, pode salvar ou destruir.”

Esse verso sintetiza muito do nosso fazer jornalístico — a palavra como ponte, resistência e libertação. O microfone do MC e o bloco de notas do repórter nascem do mesmo desejo de comunicar o que o sistema insiste em calar.

Jornalismo é resistência

O hip-hop nos ensinou que comunicar é resistir. Nos anos de 1980 e 1990, as rádios comunitárias e os bailes de rap foram espaços de denúncia e organização política. Hoje, esse legado inspira novas linguagens: podcasts, vídeos, blogs e reportagens que continuam desafiando o silêncio imposto às periferias.

O Desenrola nasce dessa energia — de quem entende que o microfone, a câmera e o texto são extensões de uma luta histórica por visibilidade e autonomia. Assim como o hip-hop, o jornalismo periférico é coletivo, criativo e insurgente.

Parte da cena, parte da história

Não estamos apenas ao lado da cultura das periferias — somos parte dela. Assim como não focamos apenas nas mazelas das populações marginalizadas, nos direcionamos com olhos e ouvidos atentos ao legado do povo preto diaspórico. Nosso jornalismo integra a cena cultural que retrata. As pessoas que compõem nossa equipe participam de rodas de rima, batalhas, iniciativas de arte e educação popular. Caminhamos junto de artistas, produtores, comunicadores e educadores que cotidianamente têm no hip-hop um projeto coletivo de existência.

Estar inserido nesse circuito nos permite produzir uma comunicação que fala de dentro, com afeto, pertencimento e compromisso político. O Desenrola é parte do circuito cultural que narra o que vive e vive o que narra.

Registro feito por Thais Siqueira e Ronaldo Matos, cofundadores do Desenrola, durante o show do grupo Versão Popular, durante a Virada Cultural, em maio de 2013. O grupo era formado por artistas da zona sul de São Paulo.

Nós por nós: narrar é resistir

Ao longo dos anos, cobrimos batalhas de rima, oficinas culturais, saraus e coletivos que fazem do hip-hop um território de formação e cidadania. Mas mais do que tema de pauta, o hip-hop é um modo de fazer. É ritmo, é oralidade, é estética e é política. Está no nosso jeito de apurar, de escutar e de construir a notícia a muitas mãos — com o compromisso de romper estigmas e fortalecer a autoestima das quebradas.

Assim como entendemos a intersecção do Dia da Consciência Negra como potente catalisador da construção de um futuro possível baseado na igualdade racial, justiça social e valorização da diversidade no Brasil.

Se o hip-hop diz “nós por nós”, o nosso jornalismo afirma: narrar e celebrar é resistir.
Contar histórias a partir das negritudes e das periferias é reafirmar que a comunicação popular tem valor, que o saber produzido nos territórios é legítimo e que a cultura é também uma forma de política.

No cruzamento entre o beat e a palavra, entre o microfone e o bloco de notas, seguimos construindo pontes. O hip-hop ensina que falar da periferia é também falar com a periferia — e é esse diálogo que faz do Desenrola e Não Me Enrola um projeto vivo, coletivo e transformador.

Em Guaianases, projetos impactam autonomia e a vida de quem envelhece na periferia

“Eu tinha diabetes, colesterol, pressão alta. Hoje, está tudo normal”, conta o baiano Leonídio Neto Chagas, 70 anos, aposentado e morador de Guaianases há 50 anos. 

Incentivado inicialmente pela filha, ele participa do projeto Dia Total, realizado de forma gratuita no Parque Linear Guaratiba, e se sente motivado a manter a frequência nas atividades com o apoio dos colegas.

“O pessoal trata todo mundo igual, seja novo ou velho. Todo mundo abraça como se fosse uma criança. É como se fosse uma família e uma casa”, conta

Reconhecido como destaque do bairro, o projeto existe há mais de 10 anos e mostra como iniciativas comunitárias fortalecem a saúde física e mental de quem envelhece na periferia.

“Estava depressiva por ter me aposentado e uma amiga me indicou o Dia Total. Fui muito bem recebida”, relata Margarete Pereira de Abreu, 52 anos, que frequenta o projeto há seis anos.

Professora aposentada e moradora de Guaianases, Margarete Pereira de Abreu, 52 anos, encontrou no projeto Dia Total acolhimento e motivação após a aposentadoria. Foto: Jéssica Calheiros

Desde então, sua rotina passou por uma grande transformação: ela sai de casa todos os dias às 5h30 para participar das atividades, também começou a frequentar a academia e a pedalar na praia. 

No entanto, ela aponta os desafios enfrentados pelos frequentadores. “O parque era muito sujo. Quando chegamos aqui, limpamos todo o espaço, e agora ele tem respeito. Mas é muito complicado: os banheiros são fechados e praticamente não há policiamento nenhum.” Apesar das dificuldades, ela reforça que o local segue sendo um espaço de acolhimento e superação.

“Hoje, [os frequentadores] entendem que o calo da mão e o suor da testa trazem pra gente o que a gente mais precisa: a coragem, a determinação, a força, a garra, a luta, a esperança — e a esperança não do esperar, a esperança do esperançar.” – Felipe Bezerra, idealizador do Projeto Dia Total.

Felipe Bezerra, diretor na SME-SP e idealizador do projeto Dia Total, atua como mentor emocional e dedica-se a transformar vidas por meio do cuidado e da empatia. Foto: Jéssica Calheiros.

Transformar a vida da comunidade foi o que motivou João Gabriel, 40 anos, a criar e manter, junto com seu primo Rodrigo Augusto, a Academia Black Brothers. “Nosso maior público no projeto é da terceira idade, e 90% são mulheres”, diz. “Aqui no bairro, esse é um público que não têm incentivo ao esporte, não tem apoio.”

Empresário e morador de Guaianases, João Gabriel, 40 anos, criou a Academia Black Brothers ao lado do primo Rodrigo Augusto para oferecer ao bairro as oportunidades que ele gostaria de ter tido na adolescência. Foto: Jéssica Calheiros.

Oportunidade para os frequentadores, mas também para quem programa as atividades. Na Academia Black Brothers, Geraldo Gabriel do Nascimento, de 71 anos, ministra aulas de boxe, incluindo turmas voltadas para pessoas idosas. 

Ele começou a praticar o esporte em 1971, aos 14 anos, e chegou a competir em competições amadoras, mas precisou interromper a prática ao servir na Aeronáutica. Após se aposentar, retomou o boxe na academia do filho. “Essa minha volta é só com o intuito de passar um pouquinho do que aprendi e manter um bom condicionamento físico.”

“Estou com 71 anos, tenho uma vida plena, normal, eu faço de tudo. Graças a Deus, tenho uma ótima saúde. Acredito que os esportes trazem muitos benefícios e são necessários na vida das pessoas.”

Aos 71 anos, Geraldo Gabriel do Nascimento, morador de Guaianases, compartilha sua paixão pelo boxe como professor na Academia Black Brothers. Foto: Jéssica Calheiros.

É preciso mais do poder público

Criada em Guaianases, a psicóloga Mariana Félix, especialista em psicologia organizacional e clínica, explica que a falta de políticas públicas voltadas à população idosa é um problema que afeta diretamente a saúde mental desse grupo.

“Os idosos sofrem muito com a solidão. Nas periferias, faltam centros de acolhimento e atividades voltadas a esse público. São políticas que não são levadas a sério pelos governantes, e, sem atenção adequada, muitos acabam depressivos e sem o respaldo da família, sendo, por vezes, abandonados”, destaca.

Ela explica que o acesso limitado aos cuidados básicos e à informação agrava ainda mais essa realidade, e reforça que a inclusão dos idosos em espaços de convivência é essencial. 

Seu Antônio, conhecido carinhosamente como Toto, é um dos destaques do projeto Dia Total. Foto: Jéssica Calheiros.

“A atividade física é benéfica para todas as idades, mas especialmente para os idosos, pois ajuda a tonificar os músculos e aumenta a disposição. Além disso, estimula neurotransmissores como serotonina, noradrenalina e dopamina — substâncias ligadas ao prazer, à regulação do humor e à memória.”Mariana Félix, especialista em psicologia organizacional e clínica

Para participar, basta chegar ao parque no horário das atividades e se juntar ao grupo. As aulas são gratuitas e abertas a todas as idades!

Esse conteúdo foi produzido por jovens em processo de formação do laboratório de produção de conteúdo Você Repórter da Periferia 2.0 (VCRP 2.0), programa em educação midiática antirracista realizado desde 2013, pelo portal de notícias Desenrola e Não Me Enrola.

Técnica sustentável, ‘upcycling’ ainda é vista com preconceito na periferia, diz estilista

É essa a proposta do upcycling, técnica de reaproveitamento de resíduos têxteis, transformando tudo num produto novo com maior valor funcional e estético. Tudo isso, sem a necessidade de reprocessamento dos tecidos, o que reduz gastos com energia e consumo de água. Incrível, né?

Apesar dessas vantagens, a técnica é vista com certo desprezo pelas pessoas, segundo Luã Ayo Ayana, 25 anos, educador, produtor criativo e artista têxtil há mais de 8 anos.

“Se não é novo, então não presta, não tá valendo, vai estragar, é ruim […] Eu já escutei muita coisa assim. Ainda tem muito preconceito dentro da própria periferia”, diz Luã, morador da Chácara Santana, no distrito Jardim São Luís, na zona sul de São Paulo.

“As pessoas têm muito preconceito e não querem dar um valor justo para uma peça. Pagariam um valor alto numa peça de uma marca famosa, mas não pagariam R$100 numa peça de upcycling porque a enxerga como lixo.” – Luã Ayo Ayana, educador

Da quebrada para a quebrada

Nas periferias de São Paulo, o upcycling em si ainda não é amplamente disseminado como mercado da moda, mas Luã lembra que suas técnicas sempre estiveram presentes culturalmente nesses territórios, que, por falta de condições financeiras, sempre precisaram achar alternativas para se vestir.

“Essa ideia de pegar roupas antigas e transformar é uma coisa que eu já vejo na quebrada faz muito tempo”, diz.

O que pode confundir muita gente é o uso do termo em inglês: upcycling, em português, significa “reciclagem”. Neste sentido, explica Luã, quando pensado no mundo do mercado da moda no Brasil, hoje tem se discutido o uso de outros termos para tornar a técnica mais acessível no país.

“A gente ‘catou’ esse termo, mas para mim sempre faltou uma coisa mais brasileira que conversasse mais com o meu corpo, que é o corpo dissidente. Daí eu conheci o termo ‘transmutação’, dentro de um curso do ateliê Vou Assim. Depois disso, eu comecei a me apropriar desse termo”, explica.

Luã em desfile da Casa de Criadores para o ateliê Vou Assim + DCRLHS em 2024. Foto: Arquivo pessoal.

Hoje, existem movimentos para que a transmutação têxtil chegue a mais pessoas nas quebradas, a fim de difundir essa técnica. “Meio que esse ‘babado’ de passar para frente o conhecimento para que ele seja difundido. […] Na Fábrica de Cultura Jardim São Luiz tem um curso de moda, que lutaram muito para conseguir fazer acontecer”, explica Luã.

Estilo e sustentabilidade andam juntos

Temas como sustentabilidade e estilo precisam andar lado a lado. Afinal de contas, ser consciente não impede ninguém de se sentir bem e estiloso. Além disso, achar técnicas sustentáveis na moda é uma emergência climática. 

Estima-se que o mundo gere hoje cerca de 92 milhões de toneladas de resíduos têxteis por ano, e o Brasil, 4 milhões de toneladas anuais, segundo dados da Fundação Ellen MacArthur, ONG internacional.

Luã e alunos tirando medidas durante aula de transmutação têxtil. Foto: Arquivo pessoal.

Técnicas como o upcycling ou transmutação têxtil ajudam na redução de resíduos têxteis que vão parar em aterros sanitários e impactam o meio ambiente.

Desta forma, podemos dizer que o upcycling é também um movimento de contra-cultura da moda, uma vez que se opõe ao consumo rápido e descartável, propondo uma moda mais consciente e personalizada. Esse movimento acabou se tornando símbolo de uma cultura alternativa adotada por movimentos artísticos socioambientais.

E aí, conta pra gente, já conhecia essa técnica? Como a moda upcycling pega aí na sua quebrada?

Esse conteúdo foi produzido por jovens em processo de formação do laboratório de produção de conteúdo Você Repórter da Periferia 2.0 (VCRP 2.0), programa em educação midiática antirracista realizado desde 2013, pelo portal de notícias Desenrola e Não Me Enrola.

O sonho como caminho de cura

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A sessão de hoje me trouxe uma pergunta que ecoa fundo: Quais são os seus sonhos?  Você se pergunta sobre isso?

Em uma sessão de terapia, essa questão surgiu enquanto eu refletia sobre os sonhos dos meus ancestrais — e sobre como estamos conectadas a eles. Pensei no que temos realizado, no que demos continuidade, e também naquilo que eles começaram e não puderam terminar. Alguns, talvez, tenham sido obrigados a matar dentro de si o desejo de sonhar.

É estranho olhar para a vida por esse ângulo. Tudo parece ter uma continuidade, ou ao menos desejamos que tenha. Mas é preciso reconhecer o caminho que nos trouxe até aqui — e o que se perdeu ao longo dele.

O maior desafio, para mim, é olhar o presente e perceber quantos sonhos se esvaziaram… ou morreram por falta de fé — fé em algo, fé em nós mesmos.

Para quem, como eu, busca ligar os pontos, é inevitável entender: somos um elo entre os que vieram antes e os que virão depois. Muitos dos nossos ancestrais sofreram, foram privados de sonhar, e tiveram como única missão sobreviver — manter os seus vivos.

Mas a vida não deveria se resumir à sobrevivência.
Nosso povo, no entanto, conhece bem essa realidade. Se perguntarmos aos nossos pais, aos que ainda resistem e seguem vivos, talvez muitos nem saibam dizer quais eram seus sonhos — talvez nunca tenham podido pensar nisso.

E se os sonhos foram arrancados, mortos ou esquecidos… como retomar essa força de desejar? Como realizar o que eles desejaram e não puderam? Como sonhar de novo, no presente?

Nessas horas, recorro aos deuses, aos Orixás, àquela energia que alimentava a força dos meus ancestrais para seguir em frente. E segue me alimentando, Eles buscavam construir algo que os mantivesse vivos — e neles, eu encontro espelho e alimento.

Os Orixás sabem das coisas

São capazes de nos enxergar, de nos mover e nos lembrar o que é viver. Alimentam em nós o sonho e o sentido, e nos lembram que sonhar é um direito humano.

Sou uma dessas pessoas — uma mulher que acredita que é possível transformar dor em amor. Acredito que os deuses afro-brasileiros viveram na terra, que tinham poder, que eram natureza, e que construíam coletivamente. Assim nos contam os Itans.

Hoje, porém, esquecemos nossa conexão. E tentar vencer sozinha é difícil — precisamos de outras pessoas.
Mas quando nos conectamos aos ancestrais e aos deuses, algo poderoso acontece.

Nas últimas semanas, senti a presença de Oxóssi em cada vivência. Ele trouxe um impacto psicológico e metafísico profundo, e foi assim que comecei a sessão de hoje questionando sobre os sonhos. Percebi que alcancei o meu próprio sonho através dessa conexão: cultuando esse Orixá, reencontrei o sentido de desejar.

Muitas pessoas relatam o mesmo — e esse é o desafio:
seguir buscando conexão com o passado, sem se aprisionar nele.
Relacionar-se com a ancestralidade para criar novos caminhos.
Desafiar a mente e o coração a trilhar uma estrada de luz e cura.

Integrar passado, presente e futuro como um espiral —
um movimento de relações que nos cura e nos permite desejar ser mais do que sobreviventes da história imposta pelos colonizadores.

“Sonhar é lembrar o que o tempo tentou apagar.
É chamar pelo nome os que vieram antes e sentir seus passos dentro dos nossos. Sonhar é deixar que o tambor do coração bata no mesmo compasso do tambor do mundo.

É abrir os olhos da alma e perceber que o impossível é só o que ainda não foi sonhado junto. Que Oxóssi nos ensine o caminho da floresta —
onde cada raiz é memória,
cada folha é esperança,
e cada respiração é um novo começo.”

Que este novembro nos convoque a desenrolar os sonhos adormecidos. A lembrar que somos continuidade viva, herança em movimento. Que não nos contentemos em apenas resistir, mas aprendamos a florescer por nós, pelos nossos, e por todos os que ainda virão sonhar através de nós.

Este é um conteúdo opinativo. O Desenrola e Não Me Enrola não modifica os conteúdos de seus colaboradores colunistas.

“Impomos às infâncias periféricas a cultura do cuidado e trabalho infantil”, reflete educadora sobre adultização de crianças das periferias

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Em agosto de 2025, o debate sobre adultização mobilizou a sociedade em diferentes camadas. Ao considerar os diversos recortes sociais e econômicos, as infâncias periféricas são afetadas por violências simbólicas e práticas dentro desse tema, seja no âmbito familiar, escolar ou comunitário, como conta a educadora Giselle Santos. 

A especialista afirma que nos últimos anos, a partir dos estudos sobre as infâncias, tem sido incômoda a forma como crianças e adolescentes vêm sendo expostos publicamente de maneira desigual e, muitas vezes, sem cuidado ético. “Há uma superexposição que acontece sem que eles sejam ouvidos, sem que possam dizer se concordam ou não com o uso de suas imagens e histórias”, destaca Giselle, que é especialista em educação e tecnologia.

 “A adultização acontece quando impomos às infâncias e juventudes um amadurecimento precoce, abrangendo diversas questões: sexualização, cobrança de consumo, responsabilidades domésticas, entre outras.” 

Giselle Santos é educadora e pesquisadora sobre tecnologia, inovação e infâncias.

Para além da exposição, ela aponta que existem outros modos de adultização das crianças que atingem, principalmente, aquelas que vivem nas periferias, problema que não é novo e reflete práticas coloniais. Gênero, raça e classe, segundo Giselle, também determinam como a adultização das crianças é percebida. 

“Uma criança [negra e periférica] sozinha, fora da escola, às dez horas da noite, passa despercebida. Em contrapartida, se colocarmos uma criança branca na mesma situação, imediatamente surge a narrativa de ‘criança perdida’”, afirma.

Diferentes formas de adultização

Entre 2023 e abril de 2025, o Ministério do Trabalho resgatou cerca de 6.372 crianças e adolescentes do trabalho infantil no Brasil: 2.564 em 2023, 2.741 em 2024 e 1.067 nos primeiros meses de 2025. No total, 86% dos casos envolviam formas de exploração relacionadas a atividades com graves riscos ocupacionais e sérios prejuízos à saúde e ao desenvolvimento integral de crianças e adolescentes.

Sobre o perfil das vítimas, a maioria são meninos (74%), e 26% são meninas, sendo que 91 tinham até 13 anos, enquanto 4.130 tinham entre 16 e 17 anos. As principais atividades em que o trabalho infantil foi identificado são comércio, alimentação, oficinas mecânicas, agricultura e pecuária.

“Crianças de favelas e periferias constantemente são tratadas como trabalhadoras, com um falso rótulo de pequenas guerreiras. São empurradas para uma cultura do cuidado desde muito cedo, onde precisam cuidar, por exemplo, daquele irmão mais novo, vender algo na rua para ajudar na renda da casa, etc. Essas crianças crescem [num contexto de] normalização da vulnerabilidade.”

Giselle Santos é educadora e pesquisadora sobre tecnologia, inovação e infâncias.

A pesquisadora destaca que o ciclo da adultização é constantemente reforçado pela ausência do Estado, especialmente em territórios marcados por uma arquitetura punitivista e pela falta de espaços de lazer ou proteção social, o que faz com que a vida das crianças seja moldada desde muito cedo.

“Enquanto comunidades periféricas criam sua própria rede de sobrevivência – acesso à água, luz, escola – as crianças seguem vítimas diretas dessa ausência do Estado que deveria garantir creche, transporte e políticas públicas para que a escola seja um espaço de cuidado, especialmente na ausência daqueles responsáveis que precisam trabalhar.” 

Giselle Santos é educadora e pesquisadora sobre tecnologia, inovação e infâncias.

Falta de acolhimento e proteção deixa crianças e adolescentes vulneráveis

Para Giselle, o problema ainda é atravessado pela forma como o cotidiano familiar, escolar e comunitário frequentemente negligencia o cuidado com as crianças e adolescentes.

“Muitas escolas e outros espaços de ensino ignoram ou atropelam direitos fundamentais previstos no ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), tratando a imagem e a participação de estudantes como algo disponível para uso automático”, explica.

O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) estabelece que família, sociedade e Estado, de forma conjunta, têm a responsabilidade de proteger crianças e adolescentes de quaisquer abusos e/ou negligências. Isso significa que todos devem assegurar sua dignidade, vida, saúde, educação e liberdade, protegendo-os de exploração, violência e descuido, conforme o Artigo 227 da Constituição Federal.

“Quando falamos em ‘passar por cima dos direitos’, estamos falando de um conjunto de garantias legais — como o direito à privacidade, ao consentimento, o uso ético e à proteção da imagem — que deveriam vir sempre em primeiro lugar”, específica.

A educadora defende que o direito ao brincar e a interação social são pilares fundamentais no desenvolvimento socioemocional de crianças, influenciando sobretudo a construção de vínculos duradouros e habilidades na primeira infância.

Em contextos de vulnerabilidade — seja pela precariedade de cuidados, pela falta de proteção social ou pela exposição precoce às tecnologias — o desenvolvimento pleno das crianças acaba limitado. 

“Desde a infância, o direito ao brincar, à experimentação e à expressão livre vai sendo controlado, tornando-se atividade dirigida. Até o direito à imagem passa a ser mediado. Dessa forma, direitos como o de uma educação plena acabam disputando espaço quando a tecnologia se sobrepõe ao que deveria ser prioridade”.

Giselle enxerga um avanço nesse debate, no entanto, ressalta que apenas a visibilidade das redes não são o suficiente para frear o avanço da adultização. Para ela, é importante ressaltar que a adultização não acontece de uma única forma e que a percepção popular não pode se limitar à ideia de isso acontece somente quando a criança quer se comportar como um adulto.

Ela ainda reforça que, apesar de se chocarem com o tema por meio das redes sociais, muitas pessoas continuam a explorar o trabalho infantil em outros ambientes. 

“É curioso perceber que muitas pessoas que entraram nessa discussão são as mesmas que contratam menores de idade para trabalhar como babá e acham isso natural”, afirma. 

Legislação e ambiente digital

Em agosto, o Congresso e o Senado Federal aprovaram o projeto de Lei nº 2.628, que estabelece regras para tentar combater a adultização de crianças no ambiente digital, seja por redes sociais, sites, programas e aplicativos, jogos eletrônicos ou plataformas específicas. O texto foi sancionado pelo presidente Lula (PT), no dia 18 de setembro de 2025.

Giselle analisa que o projeto de lei é um passo importante, mas alerta que é preciso criar canais acessíveis de denúncia e investir em conscientização para que crianças e adolescentes reconheçam situações de abuso e vigilância, quando estão sendo controladas por abusadores, especialmente nas redes.

Além disso, há necessidade de simplificar e popularizar as explicações sobre o funcionamento da lei, para que seus efeitos cheguem de fato à população. 

“Eu aposto na pedagogia da fofoca: a gente cria interesse pelo assunto, leva a informação de forma acessível, sem perder a profundidade. No debate sobre o ECA Digital, isso significa mostrar como falar sobre o projeto de lei, acompanhar seu andamento e discutir a aplicação da lei já em vigor, tornando o tema próximo da realidade das pessoas”, propõe.

Ela explica ainda que os riscos tecnológicos aparecem como consequência de uma série de carências anteriores. “As crianças passam a ser monitoradas por câmeras de reconhecimento facial, seus deslocamentos são acompanhados, e imagens acabam até em sistemas de segurança pública, podendo ser usadas para associá-las a situações ou delitos que não cometeram”, frisa ao alertar sobre a falta de procedimentos claros. 

“Não temos uma cultura de protocolo e sim reação. Vê qualquer B.O., qualquer caso que aparece — vazamento de foto, criança assediada na internet — e a gente corre para ‘resolver’. Mas não existe um protocolo sistematizado”, alerta Giselle.

Nesse sentido, ela aponta que proteger crianças e adolescentes de abusos e violências envolve cinco passos essenciais: 

  • Detectar o risco e entender o que está acontecendo; 
  • Responder rapidamente para interromper a exposição e proteger a criança;
  • Documentar as evidências de forma sigilosa, sem compartilhar imagens;
  • Denunciar às autoridades competentes, como direção da escola, polícia, conselho tutelar ou Ministério Público; 
  • Direcionar ou escalar o caso, acompanhando todo o processo até a resolução. 

Além disso, as práticas ancestrais são estratégias que ajudam a construir uma proteção mais próxima e efetiva. “Nos esquecemos daqueles rituais de conversa: depois de assistir a um desenho, a criança conta o que entendeu ou por que gostou. Sentar em roda, ouvir os mais velhos. Fortalecer a rede de apoio protege tanto quanto qualquer recurso digital”, coloca.

“Se a gente troca 10 minutos de tela por 10 minutos de conversa, já estamos criando confiança e vínculo. Não é sobre saber tudo de tecnologia, e sim criar um ambiente onde o diálogo exista, e aí sim dá para introduzir o digital de maneira consciente. Essa rede protege, cuida e fortalece, caso algo dê errado”, conclui.

Casos de trabalho infantil, maus-tratos, negligência ou outras violações dos direitos de crianças e adolescentes podem ser denunciados de forma anônima e gratuita pelo Disque 100.