São Paulo: a locomotiva quebrada do Brasil

Com mais de 150 mil pessoas em situação de rua e indicadores de violência alarmantes, a capital paulista mostra sinais de pane estrutural sob o peso da negligência pública.
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São Paulo é descrita como locomotiva ou exemplo brasileiro há muitas décadas, mas o que essa descrição carrega? Como realmente vivemos por trás das propagandas feitas pela Prefeitura e pelo Governo do Estado? Quais oportunidades essa cidade oferece aos seus cidadãos?

Atualmente a realidade de São Paulo é de uma locomotiva furada ou que funciona com muitas dificuldades. Entre os problemas que a população enfrenta, estão: mobilidade urbana, acesso à moradia, violência, desemprego, educação e sobrevivência em uma cidade que já enfrenta o caos referente à falta de planejamento para funcionar com 11,9 milhões de habitantes (Censo 2022).

É importante sinalizar que esses problemas são sentidos de diferentes formas, a depender dos acessos de cada pessoa; ou seja, um morador da região de Moema, bairro nobre da zona sul, sentirá esses desafios de maneira distinta de um morador do Jardim Capela, no extremo sul da cidade, ou talvez nem os sinta.

Também devemos lembrar que o Brasil é o décimo quarto país mais desigual do mundo. O 1% mais rico recebe 30,8 vezes mais que os 50% mais pobres, segundo dados publicados pelo  Mapa da Desigualdade (2025). 

Motor em pane: a locomotiva para

Em 4 de março desse ano, o G1 publicou uma matéria alarmante divulgando dados do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCE-SP), segundo o jornal, apenas na capital paulista há 34 obras públicas paralisadas, com contratos que somam mais de R$ 542 milhões. O valor não inclui gastos extras com manutenção e segurança dessas estruturas. Ainda segundo os dados divulgados, em todo o estado de São Paulo existem 267 obras públicas paradas, com contratos que ultrapassam R$ 1,33 bilhão.

A problemática da falta de planejamento e do uso indevido do dinheiro do contribuinte também se evidencia nas questões relacionadas à mobilidade urbana. Nos últimos anos, com as privatizações realizadas nas principais linhas de trem e metrô da cidade, a população enfrentou trens pegando fogo, descarrilamentos, atrasos frequentes e falhas inaceitáveis. Todos esses problemas aumentaram significativamente após a privatização.

Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

Um exemplo disso é a ENEL (empresa que assumiu os serviços referentes à distribuição de energia elétrica na cidade em 2018), que nos últimos anos deixou partes da cidade sem luz por mais de 72 horas em mais de uma ocasião. Um serviço público não pode ser visto como forma de gerar lucros, e a ENEL vem nos provando que entregar esses serviços às empresas não resolve o problema, mas o agrava. 

Quem não se lembra da briga declarada entre o atual prefeito, Ricardo Nunes, e a ENEL? Se nem o próprio poder público resolve as pendências referentes à energia da cidade, quem as resolverá? A nossa locomotiva está arranhada, enferrujada e falhando.

Entre os outros colapsos da cidade, estão o acesso à moradia digna e o acesso ao trabalho seguro, desafios que se interligam. Os dados levantados pelo Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), mostram que o aumento da precarização do trabalho pós-pandemia e o aumento do custo de vida fez diversas famílias pararem nas ruas do estado mais rico do Brasil, que hoje concentra 41% da população de rua do país, somando 150.958 mil pessoas.

O Mapa da Desigualdade (2025) confirma os dados do observatório, mostrando uma enorme desigualdade na oferta de trabalho formal, enquanto a região da Sé ocupa o primeiro lugar em relação à oferta de empregos formais, a realidade da Cidade Tiradentes é outra, o que foi classificado no desigualtômetro com o um valor de 222,8 vezes. Sendo assim, não há um desafio isolado, mas diversos desafios que se interligam e aumentam as tensões vivenciadas pela população. 

Em relação à violência, o coeficiente estimado de mortalidade de jovens (15 a 29 anos) por homicídio e intervenção legal, calculado por 100 mil habitantes, evidencia uma desigualdade territorial expressiva no município. Tomando o bairro do Itaim Bibi como referência — onde o indicador é igual a 0 — observa-se que no Capão Redondo o coeficiente alcança 39,4, enquanto na região da Sé atinge 133,9.

Enquanto em regiões de maior renda não há registros de morte nesse indicador, territórios centrais e periféricos demonstraram uma realidade cruel e letal aos jovens. Segundo a classificação do desigualtômetro, a diferença chega a 31,6 vezes, evidenciando uma profunda desigualdade socioespacial.

A educação também passou por profundas mudanças nos últimos anos, especialmente no ensino médio. Com a expansão do Programa de Ensino Integral, as desigualdades referentes ao acesso de estudantes periféricos que estudam e trabalham aumentaram, segundo à Rede Escola Pública e Universidade (2021): As pesquisas desenvolvidas até aqui apontam que o PEI tem contribuído para a reprodução das desigualdades educacionais e socioespaciais da rede estadual paulista. Isso se sustenta, de um lado, na localização e na distribuição das escolas PEI em áreas de baixa vulnerabilidade social; de outro, na indução de mudanças no perfil socioeconômico dos estudantes dessas escolas, com a presença de um fenômeno que poderíamos denominar de “expulsão velada”, uma forma de exclusão escolar.

Diversas pesquisas e pesquisadores, incluindo eu, realizaram estudos em escolas do programa e afirmam que há algo, no mínimo, equivocado no planejamento, na forma como o projeto foi apresentado e no que ele se tornou hoje, tanto para os estudantes quanto para os professores, que vivenciam um cenário de pressão e precariedade.

Sem eixos e se movendo: São Paulo está colapsando

São Paulo colapsou e está colapsando diante de todos nós. O poder público finge não saber, distrai-se dos verdadeiros problemas e culpabiliza a população pela ausência de um trabalho efetivo que não realiza. A locomotiva do Brasil se move, piorando a vida dos cidadãos, e todos nós aprendemos a nos adaptar a uma cidade que funciona pela metade e que a cada dia amplia as desigualdades vividas por todos nós.

A prefeitura e o governo do estado trabalham juntos para mover uma locomotiva que está quebrada!

Peixes mutantes invadindo o congresso
Vomitando poluentes com o logotipo impresso
B e R, quem é do mangue não esquece
As vítimas perecem, as famílias enlouquecem
O caranguejo gigante decepando seus corpos
Aniquilar suas famílias, jogá-las aos corvos

Chuva Ácida, Criolo, 2006

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