“Há músicos que começaram no quintal de casa que hoje têm repercussão nacional e internacional. Há artistas no exterior, como alguns nos Estados Unidos, outros na França, etc. Um celeiro de músicos que passaram pelas mãos de minha mãe, também de tia Filó, dona Chica, vó Severina… através desse cuidado que ela proporcionou, esse celeiro de bambas se formou”, resume Marcelo Ercilio, conhecido por Tocão do Banjo, um dos quatro filhos, sobre a rotina no quintal da mãe, Tia Cida dos Terreiros, em São Mateus, zona leste de São Paulo.
No distrito, muitas histórias começam a partir de um mesmo nome: Maria Aparecida da Silva Tarjan. Referência cultural e afetiva para quem cresceu em São Mateus, falar de cultura, de samba e movimento negro é falar necessariamente de Tia Cida.
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Memórias periféricas na história da cidade
Responsável por abrir caminhos e inspirar trajetórias que seguem se desdobrando até hoje, ficou conhecida por sua generosidade, liderança e força comunitária que mais tarde, transformaram o território em um celeiro do samba de bambas.
Tia Cida, que mora no mesmo bairro que cresceu, revolucionou e manteve vivo o movimento musical paulistano mesmo nos tempos mais difíceis marcados pela ditadura militar no Brasil. Isto pois, fez do seu próprio quintal de casa um espaço de encontro, acolhimento e proteção.
Ali, diversos moradores, especialmente meninos negros, se reuniam para tocar, aprender e confraternizar em torno do samba, encontrando um ambiente seguro em meio às tensões da época. Com o tempo, o quintal se tornou uma segunda casa para eles e se consolidou como um importante espaço de convivência, aprendizado e fortalecimento da cultura local que continua a inspirar familiares e sambistas.
Legado que atravessa gerações
Tia Cida é filha do cantor e compositor brasileiro Blackout, famoso pelos sambas e marchinhas de Carnaval nas décadas de 1940 e 1950. Ao crescer, também se tornou cantora e compositora e formou sua própria trajetória e família, que hoje fala das marcas de crescer tendo a matriarca como referência musical e de vida, seja dentro ou fora de casa.
“Lembro de onde tudo começou, das nossas idas às igrejas, como a Igreja de São Mateus Apóstolo, na zona leste, do contato com o samba desde aquela época, do campo de futebol atrás da igreja, da casa onde se ouvia samba aos domingos, do quintal, onde muita gente se reunia. Também lembro da chácara e dos rios que frequentávamos”, recorda Tocão, que também integra o Berço do Samba de São Mateus, grupo que surgiu a partir das rodas e encontros realizados na comunidade, sobre as memórias que atravessaram sua infância até meados de 1975.
Pouco depois, em 1977, o filho de Tia Cida iniciou os estudos, quando já havia uma escola de música na região. “Minha mãe precisava trabalhar. Os irmãos mais velhos cuidavam da gente, e depois cada um foi crescendo. Em casa, minha mãe criava três filhos pequenos, mas a comunidade sempre nos ajudou muito”.
Um ano antes, em 1976, moradores começavam a estruturar a organização política e comunitária do bairro. Aos sete anos de idade, Tocão já participava das reuniões, ao lado de sua mãe.
Além do carnaval: comunidades de samba atuam o ano inteiro nos territórios
“Minha mãe, naturalmente, se tornou uma líder comunitária, pois o bairro era pequeno, com poucas casas. Fomos uma das primeiras famílias a chegar e se estabelecer ali. Ela organizava reuniões em casa para discutir questões [de infraestrutura], como os problemas com a água e energia elétrica”, lembra, destacando que outras articulações eram realizadas de forma mais discreta, devido ao tensionamento da ditadura que acabou no país, formalmente, em 1985.
“Aos 11 anos, comecei a ter mais autonomia e a me interessar mais pelas coisas. Logo, percebi que minha afinidade era com o samba. Fui acolhido por todos. Nossa casa se tornou um ponto de encontro para a música”. Foi nesse ambiente que o incentivo de sua mãe foi decisivo para que mergulhasse no mundo do samba profisionalmente.
Ainda adolescente, entre 14 e 15 anos, foi quando Tocão começou a trabalhar, mas para atuar com música, precisava ter experiência, e ainda era menor de idade, Tia Cida foi fundamental nesse cenário. “Eu devo muito a ela”, compartilha
“Minha mãe sempre me ajudou muito a estudar: comprava meus discos, fazia as contas e até conversava com a gerente de uma loja aqui em São Mateus sobre os discos que eu precisava. Ela me incentivava a estudar em vez de ficar na rua. Essa era a forma dela, acredito, de me proteger [e de demonstrar seu amor].”
Marcelo Ercílio (Tocão do Banjo), é cantor, compositor, percussionista, integrante do Grupo Berço do Samba de São Mateus e um dos quatro filhos de Tia Cida dos Terreiros.
A década de 1980, reforça Tocão, foi a fase mais difícil para Tia Cida, seus filhos e parceiros de caminhada no samba. O período foi marcado por problemas com o militarismo, além de muitas dificuldades financeiras e sociais.
Ao longo de sua trajetória, ao lado da mãe, tudo foi sendo construído passo a passo, com muita persistência e paixão pelo samba. “As coisas que aconteceram aqui, pelo menos na minha família, foram naturais, sempre sem artifícios e sem querer obter vantagens. Tudo de forma muito natural para nós. E permanecemos até hoje assim, fiéis à nossa essência”.
Múltiplas atuações
Ao falar sobre a mãe, Tocão compartilha que, em casa, essa força e cuidado estava também no cotidiano com os filhos. “Eu não tive muita presença do meu pai, conheci já adulto. Então [ela] foi nossa mãe e pai ao mesmo tempo. Cresci com esse buraco [paterno] na minha vida”, diz, ao agradecer a mãe por toda a dedicação na criação dele e de seus irmãos.
“Até os dias de hoje, a Tia Cida dos Terreiros, minha mãe, apenas com um olhar mostra o que preciso fazer. Ela me ensina a ter mais paciência. Sempre tem consciência do que diz e do que sabe. Observa tudo com muita atenção, e quando a palavra surge, ela flui. Às vezes, precisa nos tranquilizar, assegurando que [tudo dará certo] e se preocupa até hoje com cada um dos seus filhos.”
Marcelo Ercílio (Tocão do Banjo), é cantor, compositor, percussionista, integrante do Grupo Berço do Samba de São Mateus e um dos quatro filhos de Tia Cida dos Terreiros.
Tocão ainda conta que existia uma certa proteção social, por ser filho de quem é, que lhe blindou de algumas das violências. “No meio do samba, por exemplo, isso me protegia. À beira de campo [de futebol] também. Quem estava ali era a Tia Cida. Todos sempre respeitaram muito minha mãe.”
O sambista ainda recorda a presença de vizinhos que ajudaram a cuidar dele e de seus irmãos em meio à maternidade solo de Tia Cida. Entre eles estava Seu João, que frequentemente se preocupava em saber se as crianças haviam se alimentado e, quando surgiam problemas, procurava entender a situação e ajudar, sendo uma rede de apoio que podiam diariamente contar.
Com a chegada de novas famílias ao bairro, em meados dos anos 1970, a casa de Tia Cida passou a ser ponto de encontro para reuniões em que vizinhos discutiam soluções para problemas da coletividade. Nesse ambiente de organização popular e convivência comunitária, também se fortaleceu a cultura do samba no território. Após concluir a faculdade de Serviço Social, nos anos 1980, Tia Cida ampliou sua atuação na educação, tornando-se diretora de escola e, por quase duas décadas, diretora da creche do bairro, com uma liderança nata.
“O samba nos deu dignidade”: Sambistas lutam para manter tradição do gênero nos territórios
“Eu cantava trechos de músicas e, muitas vezes, ela apontava que aquela canção, em específico, não era mais adequada. Era ela quem providenciava as músicas [do meu repertório]. Antigamente, quem cantava dependia muito de outras pessoas para ter acesso às canções, mas hoje a internet oferece um vasto conteúdo”, lembra Tocão.
“Minha mãe, com todo o conhecimento musical que tem, era essencial. A gente tinha um orçamento e pensava em gravar com uma cantora e outras músicas. Ela tem uma sensibilidade musical muito profunda, e esse amor pela música está no sangue”, diz.
Os filhos do quintal
O sambista e produtor musical Leandro Mattos é mais um filho de Tia Cida dos Terreiros, só que daqueles que não são de sangue, mas de caminhada. No território de São Mateus, ele bebeu dos ensinamentos e da convivência com a matriarca.
“Tia Cida entrou na minha vida do jeito que entram certos personagens de samba: pela porta da imaginação. Nem conhecia a sua casa, nem conhecia o cheiro do café passando na cozinha, nem o batuque ecoando no quintal de São Mateus. Mas já sabia que ali existia alguma coisa diferente. Culpa ou mérito das fotos no encarte do primeiro disco do Quinteto em Branco e Preto, ‘Riquezas do Brasil’ (2000)”, recorda com afeto.
Memórias periféricas na história da cidade
“Aquelas imagens me pegaram desprevenido. Nas rodas de samba na casa dela, era gente apertada, instrumento no colo, sorriso aberto, aquele clima que a gente reconhece de longe: lugar onde o samba não é visitante, é morador antigo”, diz ao compartilhar que depois veio o segundo disco do quinteto “Sentimento Popular” (2003), e novamente, lá estava ela, transformada em samba. Ele conta que o samba intitulado “Pela Graça Divina”, composição de Magnu Sousa e Maurilio de Oliveira, é uma homenagem ao seu legado.
“Foi assim que a Tia Cida começou a existir pra mim: primeiro como figura quase mítica, dessas que parecem morar no mesmo bairro onde moram as histórias do samba. A vida, no entanto, tem suas malandragens silenciosas e vai empurrando a gente devagarinho, como quem conduz um bloco pela rua, até que um dia você percebe que entrou dentro da própria história que estava ouvindo”, conta.
Os caminhos do samba, através do seu compadre Gerson Martins Dias, o levaram até São Mateus e quando menos percebeu, lá estava ele frequentando assiduamente o quintal que antes era só fotografia de encarte. “Agora era mais do que isso: estava convivendo com ela”, recorda emocionado.
“Tia Cida não é dessas pessoas que aparecem com diploma de professora de música debaixo do braço. Nada disso. Ela faz outra coisa e muito mais difícil: cria o ambiente. A casa dela é um desses lugares onde o samba parece nascer naturalmente, como goiabeira no quintal. Ninguém planta exatamente e quando percebe, já tem fruto, sombra e passarinho.”
Leandro Mattos, cantor, compositor, sambista e produtor musical, teve sua trajetória musical formada a partir de Tia Cida dos Terreiros, em São Mateus, zona leste de SP.
Segundo Leandro, foi naquele espaço, que entendeu cedo o que nenhum conservatório ensina: “o samba não é só música, o samba é memória que anda, é comunidade, resistência, festa e acima de tudo, cuidado.”
Respeitar quem veio antes foi outro ensinamento que forjou o sambista. “No mundo da música, especialmente quando somos jovens, existe muita ansiedade para aparecer, para provar valor, para acelerar os processos, mas Tia Cida ensinava outra lógica. Ela nos mostrava que o samba é uma corrente longa. Cada um segura um elo. Ninguém é dono da corrente. Ela também ensinava algo que hoje eu entendo ainda mais: o talento só floresce onde existe acolhimento”, diz.
O sambista também conta sobre o olhar da Tia Cida para os jovens do território. “Às vezes a pessoa nem acreditava em si mesma ainda, mas ela já acreditava.”
Para ele, quem olha de fora, pode ver apenas uma roda de samba, um projeto cultural ou um espaço comunitário. No entanto, existem dimensões que somente quem vivenciou percebe: Tia Cida construiu um território de pertencimento.
“Em muitas periferias, os jovens crescem ouvindo o que não podem ser. Em São Mateus, pelo trabalho dela, muitos começaram a descobrir o que podiam se tornar. Tudo acontecia de forma natural, sem discursos grandiosos, com foco em cuidar das pessoas”
Leandro Mattos, cantor, compositor, sambista e produtor musical, teve sua trajetória musical formada a partir de Tia Cida dos Terreiros, em São Mateus, zona leste de SP.
Entre as lembranças, conta como ela sempre observa tudo em silêncio. “Às vezes a roda estava acontecendo, música rolando, gente conversando e ela ali, olhando. Parecia simples, mas era um olhar de quem estava zelando pelo ambiente. Como uma guardiã”, diz.
“Em um show que fizemos juntos, mediado pelo mestre Moisés da Rocha, ela me disse algo que ficou guardado comigo: ‘meu filho, o samba precisa de gente que cuide dele.’ Aquilo ficou ressoando dentro de mim, pois cuidar do samba não é só tocar bem, escrever arranjos ou produzir discos. É cuidar das pessoas que fazem o samba existir”, acrescenta sobre os ensinamentos.
Hoje, olhando para a sua trajetória, Leandro carrega muito do legado da matriarca em seu trabalho e na forma como se relaciona com a vida, com o território e com o samba.
“Na casa da Tia Cida, o samba acontecia porque antes de qualquer pandeiro existir ali, existia uma coisa muito mais importante: gente sendo acolhida e quando isso acontece, o samba nasce, se cria, senta na cadeira e começa a batucar na mesa.”
Leandro Mattos, cantor, compositor, sambista e produtor musical, teve sua trajetória musical formada a partir de Tia Cida dos Terreiros, em São Mateus, zona leste de SP.
Quase aos 90 anos, Tia Cida testemunha a continuidade do seu legado e luta. “Quando vejo a nova geração chegando com as crianças, jovens sambistas, sinto claramente que aquilo que ela construiu não termina nela. Pelo contrário, está apenas se multiplicando”, diz Leandro.
Tocão conta que, depois de um longo período de dedicação e trabalho, a família hoje vive um momento de maior cuidado com a mãe. Tia Cida, que se aproxima dos 90 anos de vida, agora recebe mais atenção para preservar sua saúde física e também poder descansar contemplando os frutos de seu trabalho. Ela ainda comparece a algumas rodas de samba, além de ceder entrevistas, participar de bate-papos e outros encontros, de forma pontual. No território, mantém a proximidade com quem cruza pelo caminho, oferecendo seu carinho e sabedoria, mas principalmente, de casa, tem se colocado no lugar da observação, acompanhando o que construiu.
“Temos nos dedicado mais a proteger minha mãe. Antes havia muita correria com trabalhos e compromissos. Hoje está tudo mais tranquilo, mas somos gratos por tudo que nasceu aqui em casa, de onde saíram tantos músicos e projetos”, ressalta.









