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Eleições: segregação digital pode elevar abstenção de voto nas periferias

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A ausência de políticas públicas para universalizar o letramento digital e acesso à educação midiática combinada ao consumo e oferta de internet de baixa qualidade, dependência do celular como única ferramenta para desfrutar do direito à informação e a comunicação, e a dependência de plataformas digitais de serviços para geração de renda inadequada às condições socioeconômicas das populações que dão forma ao cotidiano das periferias e favelas são características de desigualdades digitais que juntas constituem a era da segregação digital no Brasil.

Em diversos países pelo mundo, a segregação foi uma forma de separar, excluir e confinar uma população a condições sub-humanas de existência, devido a sua etnia, raça, cultura religiosa e valores culturais.

Uma das formas de segregação mais conhecida pela humanidade é a racial, que determina a cor da pele como marcador social para definir a ascensão ou estagnação social de determinados povos.

Analisar os indicadores demográficos de raça, classe, gênero, trabalho e renda de homens e mulheres e moradoras das periferias é uma forma eficaz, lógica e científica que nos permite compreender que a população preta e parda é a mais afetada por esses marcadores sociais que configuram a era da segregação digital.

Atenta a este cenário de segregação digital, Luciana Itikawa, pesquisadora do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo – USP, investigou uma série de indicadores demográficos na plataforma Geosampa, banco de dados da prefeitura de São Paulo que divulga mapas e estatísticas referentes aos instrumentos de Política Urbana e Gestão Ambiental.

Entre as várias descobertas realizadas pela pesquisadora, estão a relação entre a presença de mulheres chefes de família que residem em territórios periféricos que possuem de uma a três antenas de celular no raio de 5 a 10 quilômetros.

Nesses territórios onde a distribuição da internet móvel é precária ou inexistente, a plataforma Geosampa mostra uma grande presença de população preta e parda, que mora nas bordas da cidade, ocupando principalmente terrenos irregulares e favelas.

Além disso, o estudo de Itikawa revela que onde a ausência de sinal de internet é mais intensa, a ausência de moradores com emprego formal também aumenta, demonstrando que os empregos formalizados com carteira assinada se tornam mais presentes na região central da cidade, onde o acesso à internet segue padrões elevados de consumo e distribuição.

Neste contexto, a ausência de políticas públicas mencionadas no início deste artigo seria uma forma de segregação racial e digital promovida pelos governantes das esferas públicas municipais, estaduais e federais que possuem incidência direta e indireta na vida dos moradores da maior cidade da América Latina?

Eu considero que a resposta é sim. Os governantes são responsáveis pela transformação da exclusão digital e um cenário segregação digital, pelo fato de limitar cada vez mais as possibilidade de ascensão social da população negra e periférica, que tem a sua vida cada vez mais afetada por um economia digital que não valoriza o bem comum e o acesso a direitos sociais básicos.

Nas periferias e favelas de São Paulo há bairros onde a internet fixa ainda não está disponível para os moradores, tornando a internet móvel a válvula de escape para quem precisa de conexão com o mundo digital. Isso acontece devido ao desinteresse das grandes operadoras de telecomunicações em investir em infraestrutura nesses territórios.

Além destes fatores, novas favelas surgiram durante a pandemia, devido a extrema urgência dos moradores de ter um teto para morar, aumentando a demanda de pessoas que precisam de conexão com web. A Secretaria Municipal de Habitação revelou que em junho de 2021 surgiram 24 favelas no município entre os anos de 2019 e 2021, período onde a pandemia transformou para pior a vida na cidade.

Segregação digital e a importância do voto

O celular é a principal ferramenta de acesso à internet dos moradores das periferias e favelas, segundo a pesquisa TIC Domicílios de 2019, realizada no Estado de São Paulo. Mas durante a pandemia, até o acesso ao smartphone foi comprometido. E com isso, um movimento de descrença nas forças democráticas passou a crescer ainda mais entre essa parcela da população.

O direito de escolher novos governantes para a cidade e para o país começou a gerar uma onda de desconfiança nas populações mais vulneráveis, que estão deixando de acreditar no poder do voto.

A população negra e periférica conviveu durante mais de dois anos consecutivos sem ter o direito à alimentação básica garantido durante a pandemia de covid-19 que ainda não chegou ao final, e pensar em política de barriga vazia elimina as esperanças no amanhã para estes cidadãos que mais precisam de políticas públicas efetivas para combater as desigualdades sociais que os perseguem durante gerações.

Nas eleições municipais para São Paulo em 2020, cerca de 20% da população deixou de ir às urnas, ou seja, mais de 2,5 milhões de paulistanos desistiram de votar. Mas esse cenário se repetiu nas eleições presidenciais de 2018, momento onde quase 30 milhões de brasileiros não votaram.

Foi possível constatar e comprovar a validade desta série de marcadores sociais ao observar o diálogo de duas mulheres negras no caixa de uma farmácia no Jardim Ângela, zona sul de São Paulo, território onde eu moro há 34 anos e que me formou como sujeito histórico, jornalista e educador.

Enquanto aguardavam o registro dos produtos, uma delas, aparentando ter 30 anos exclama para a sua companheira: “Esse ano eu não voto mais, vou cancelar meu título de eleitor, e não vou usar esse negócio de biometria, deve fazer mal pra gente, além disso, os políticos só roubam a gente, não tem ninguém que preste”.

A afirmação em tom de desabafo traz à tona um contexto invisível a muitos ouvidos que poderiam escutar aquela conversa: onde, quando e qual foi o centro de pesquisas que afirmou que o formato de identificação biométrica faz algum mal à saúde? Quando o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) veio a público apresentar ou desmentir essas informações em rede nacional?

Neste caso, é notório o impacto das fake news para desqualificar a importância da biometria no contexto das eleições. Outra anomalia social contemporânea salta aos olhos: o diálogo reforça a desconfiança na política institucional motivada pelos impactos da corrupção e principalmente na escolha de novos líderes políticos.

De acordo com o Índice de Percepção da Corrupção (IPC), produzido pela organização Transparência Internacional, em uma escala de 0 a 100, o Brasil alcançou 38 pontos, mesma nota obtida no ano anterior, mas caiu duas posições e agora ocupa a 96ª posição entre os 180 países e territórios avaliados.

Segundo o IPC, o desempenho ruim do país o coloca mais uma vez abaixo da média global que é de 43 pontos, mas também abaixo da média dos BRICS (39 pontos), da média regional para a América Latina e o Caribe (41 pontos) e ainda mais distante da média dos países do G20 (54 pontos) e da OCDE (66 pontos).

Vale ressaltar que não é só no distrito do Jardim Ângela que a população negra e parda representa 60% dos 300 mil habitantes do distrito. No Brasil, 54% dos habitantes se autodeclaram pretos e pardos.

A segregação digital tem se tornando uma nova forma do racismo estrutural afetar a população negra, impondo a ela uma distorção na interpretação da realidade a sua volta, reduzindo a crença na política institucional e aprofundando ainda mais as desigualdades causadas pela falta de políticas públicas efetivas.

Enquanto esse cenário não muda, não há dúvidas quanto ao fato de que a segregação digital terá um grande impacto nas eleições de 2022, seja na tomada de decisão de anular o voto, abstenção de votar ou provocar uma votação motivada pela percepção da realidade mediada pelas fake news. Para alguns candidatos, esse contexto social é positivo, e para outros, nem negativo e nem positivo, apenas um fato histórico a ser estudado e superado no futuro, mas que futuro é esse? Para nós pretos e periféricos ‘é tudo pra ontem’, como diz Emicida.

*Ronaldo Matos é jornalista, educador, pesquisador de tecnologias da informação e comunicação em contextos de periferias urbanas, e editor do portal de jornalismo periférico Desenrola E Não Me Enrola.

Tear e Poesia registra memória ancestral de mulheres negras e indígenas na arte de bordar nas periferias

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Além de promover um pensamento decolonial sobre a cultura do bordado que atravessa continentes e territórios de povos indígenas e africanos, a publicação impressa tem distribuição gratuita e está disponível em português, yorubá e espanhol.  

Atividade de bordado realizado em 2019/Foto: Divulgação Tear&Poesia

Ancestralidade africana, indígena e a cultura do bordado são temas de relatos históricos, poesias e fotografias que fazem parte do livro “Pangeia – Entre Elos – Palavra de Mulher” que será lançado no próximo sábado (12) no espaço cultural Bloco do Beco, localizado no Jardim Ibirapuera, zona sul de São Paulo.

A Coletiva Tear&Poesia de Arte Têxtil- Preta Nativa é composta por mulheres que atuam e residem há quase 20 anos na região extremo sul da cidade de São Paulo, atuando com foco em dialogar com a mulher em diáspora, tanto imigrantes africanas quanto latino-americanas e caribenhas, mostrando também semelhanças entre grafismos nativos brasileiros, indígenas, e africanos e buscando identificar semelhanças pouco estudadas e menos difundidas entre culturas originárias das Américas e da África.

Seguindo as orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e os protocolos de segurança contra a proliferação da COVID-19, o evento será realizado com um encontro presencial que marca o encerramento do projeto idealizado pela coletiva Tear & Poesia, apoiado pela Lei de Fomento à Cultura da Periferia, política pública municipal de incentivo a pesquisa, produção e difusão artística nas periferias e favelas de São Paulo.

Segundo Rita Maria, produtora cultural e co-fundadora da coletivaTear&Poesia, a pesquisa feita para a publicação busca abordar a memória, ancestralidade e tradições dos povos africanos e indígenas nas Américas e suas ramificações nas periferias brasileiras.

“O bordado tem origem profunda na África e era feito, inclusive por homens, e a gente nota essa característica na produção dos bordados. Temos exemplos como em Pernambuco com os maracatus; no Maranhão com a cultura do boi, em que os participantes assim como o boi tem suas vestes tecidas e bordadas fantasticamente, e os povos indígenas nativos de Abya Yala na américa”, conta a agente cultural, citando registros históricos presentes no livro “O menino Fula”, do escritor africano Amadou Hampâté Bâ.

A publicação do autor africano contraria pesquisas e publicações ocidentais que afirmam que o bordado é proveniente de uma cultura européia, que possui raízes profundas em nações colonizadas por países europeus.

No Brasil, a arte do bordado também se manifesta na cultura indigena, reforça Rita. “Tem uma rica tradição em bordados que a gente chama de trançados, onde se desenvolvem desenhos com fibras naturais das florestas e tem um povo, particularmente o kaxinawá (Huni kuin) do Acre Amazônico em que as mulheres desenvolvem um belíssimo trançado, um bordado primeiro tramando nos seus teares e depois desenvolvendo seus desenhos que elas chamam de “Kenê” e que são desenvolvidos só por mulheres.”

A partir desta estreita relação territorial, ancestral e cultural entre Brasil, América Latina e África, o livro apresenta um conteúdo trilíngue, visando contemplar o máximo possível as culturas envolvidas. “O Yorubá é a língua africana mais conhecida e utilizada por nós mulheres pretas desde os terreiros e que se emaranha em toda a nossa cultura, e o castelhano, é em função de termos envolvidos muitos irmãos e irmãs de outros países aqui da região de Abya Yala”, justifica a produtora cultural, explicando a decisão de traduzir o livros em portugues, espanhol e yorubá.

A cultura do bordado faz parte da história daTear&Poesia. Anterior a publicação do livro, a Coletiva desenvolveu o projeto ‘Bordando nas Bordas’, uma publicação em português, inglês, espanhol e guarani, que resgata o envolvimento desses povos, dessas culturas de países e de povos indígenas priorizando o guarani, por conta da sua representatividade como comunidade nativa. 

Dona Maria Rosário Paulo, de 73 anos, bordadeira e moradora do Parque Santo Antônio, zona sul de São Paulo (2022)/Foto: Arquivo pessoal.

O legado feminino 

A publicação “Pangeia – Entre Elos – Palavra de Mulher” conta com fotografias inéditas que registram a arte de bordar desenvolvida por um grupo de oito mulheres das periferias de diferentes gerações e nasce a partir de diversas pesquisas realizadas pelos integrantes da Tear&Poesia, tendo como prioridade as questões das mulheres pretas, indígenas, africanas e seus descendentes.

Entre essas mulheres, está a dona Maria Rosário Paulo, de 73 anos, moradora do Parque Santo Antônio, zona sul de São Paulo. Ela é mãe de dois filhos e avó de dois netos. Segundo dona Maria, o bordado já fazia parte da sua infância, onde sua mãe ensinou os primeiros passos de bordar. Foi também por meio do bordado e das oficinas oferecidas pelo projeto, que Dona Maria reconheceu sua negritude.

“Através do bordado eu aprendi muitas coisas que irei levar na minha vida para sempre. Conheci lugares e pessoas que jamais pensei que iria conhecer. Contribuiu e está contribuindo com a minha timidez. Eu me sinto muito privilegiada, sou negra e tenho muito orgulho, hoje consigo ver a nossa importância. Agradeço a Deus e a todos por ter tido essa oportunidade de participar de um projeto tão importante e necessário para manter viva a cultura do bordado”. 

Relata Dona Maria do Rosário.

Antirracista 

O projeto de pesquisa e difusão da cultura ancestral do bordado que resultou na publicação do livro “Pangeia – Entre Elos – Palavra de Mulher”, contou com a participação do príncipe nigeriano Prince Adewale Adefioye Adimula, mais conhecido como Baba Adimula, que nasceu na família Real Casa Governante de Lafogido, na cidade de Ilê Ifé, estado de Osun-Nigéria, berço ancestral dos orixás e de seus fundamentos.

Ao longo do projeto, Adimula ministrou oficinas da língua Yorubá, que recebeu mais de 300 inscrições de pessoas de diferentes estados do Brasil. Além da colaboração no processo de formação, ele também contribuiu com a tradução do livro e calendário poético para o Yorubá.

“Existe um provérbio africano que diz: ‘Um rio que esquece sua nascente um dia seca’, então traduzir este livro foi um resgate de memória dos meus antepassados, lembranças da minha vida escolar e das histórias contadas pelos anciãos. Traz aproximação, irmandade, conscientização e importância da cultura yorubá no Brasil e no mundo”, afirma o príncipe nigeriano.

Participante assíduo e defensor das questões que envolvem informações ao culto religioso e ao povo africano, desde sua chegada no Brasil, Adimula considera esse tipo de projeto uma experiência fundamental para combater o racismo e o desconhecimento da cultura ancestral africana.

“Sendo a população negra mais concentrada nas periferias, este projeto é extremamente necessário e contribui de forma positiva incentivando a comunidade, através da informação e valorização de nossa história, buscamos então neste contexto, resgatar e exaltar nosso povo, os africanos yorubanos que aqui estiveram”. 

conclui o príncipe nigeriano, ressaltando a importância de reconhecer a África como berço da humanidade.

Serviço

Lançamento do livro “Pangeia – Entre Elos – Palavra de Mulher”

Local: Espaço Cultural Bloco do Beco

Endereço: R. Bento Barroso Pereira, 2 – Jardim Ibirapuera, São Paulo – SP, 05815-085

Data: 12 de março

Horário: 10h às 14h

Entrada: Gratuita

Contato: pangeiaentreelos@gmail.com

OBS: Seguindo as orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e os protocolos de segurança contra a proliferação da COVID-19, será obrigatório o uso de máscaras. 

Poeta Binho une escrita e ilustrações autorais em novo livro para crianças e adultos

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O autor conhecido pela sua trajetória de fomentar a produção literária nas periferias de São Paulo e na América Latina, por meio da criação do Sarau do Binho, lança o novo livro neste domingo (13), na Praça do Campo Limpo, zona sul de São Paulo.

O processo criativo de elaboração do livro intitulado ‘Azterketa’ surge durante o período de isolamento social, provocado pela pandemia de covid-19. (Foto: Suzi Soares)

Com um encontro literário aberto ao público e ao ar livre, o escritor e poeta Robinson Padial, mais conhecido no cenário da literatura como Binho, apresenta neste domingo (13), às 15 horas, o seu novo livro na Praça do Campo Limpo, zona sul de São Paulo.

Publicado pelo selo Sarau do Binho e pela editora Tchai, a obra intitulada ‘Azterketa’, cujo nome tem origem no idioma Elengoa e significa prova, exame e investigação, é fruto de um trabalho inovador do autor que une a experiência da escrita à produção de ilustrações autorais.

Além do livro que estará disponível para venda durante o lançamento, haverá uma exposição nos arredores da Praça do Campo Limpo, com 15 telas produzidas pelo autor para o público interagir durante o evento.

“A ideia do livro surgiu há alguns anos atrás, quando eu esbocei uma coisa de querer colorir”, conta Binho, ressaltando que esta iniciativa não evoluiu logo de cara para a criação de uma publicação.

Foi durante o período de isolamento social provocado pela pandemia de covid-19 que o autor afirma ter dado vida a construção do livro. “Na pandemia eu estive isolado um tempo num sítio, entre Campo Limpo e Juquitiba e aí fui fazendo o livro e colorindo, aí nasceu a ideia do nome do livro de um texto que eu vi num idioma antigo”, relata.

Com a proposta de ir além do publico adulto, as ilustrações do novo trabalho do autor visam dialogar também com o público infantil. (Foto: Suzi Soares)

“Esse livro é para as crianças também”

Binho é poeta, escritor e criador do Sarau do Binho, um dos movimentos literários brasileiro e periférico de maior expressão na América Latina.

A publicação é composta por poemas e versos inspirados nas ilustrações e fatos que fazem parte do cotidiano do autor e das pessoas à sua volta.

“Do ato de colorir eu fui traçando, pra poder daí brotando as poesias né? Porque enquanto você fica ali colorindo e tal, vem muitas ideias, frases e versos, né? E aí eu fui colocando isso no papel”, descreve Binho, apontando como foi parte do processo criativo de elaboração de Azterketa, livro que tem poemas e ilustrações autorais.

Entre os fatos que marcaram o processo de escrita, Binho cita situações do cotidiano como as notícias sobre o incêndio da estátua do bandeirante Borga Gato, que movimentou debates sobre a memória do Brasil na internet. Outro momento marcante lembrado pelo autor é o aniversário da irmã celebrado durante a pandemia, acontecimento que também serviu de inspiração poética para alguns trechos da obra. 

Ao comentar sobre o perfil de leitor que ele espera atingir com o novo livro, Binho destaca que tantos os temas dos poemas e versos, como as ilustrações, visam sensibilizar adultos e crianças. “Esse livro é para as crianças também, não só pra adultos. Que as crianças também possam olhar esse colorido nesse período nebuloso, tão cinzento, tão triste que passamos e que estamos passando ainda.”

Cultura popular 

Geraldo Magela, criador da Casa de Cultura Candearte, é homenageado no livro de Binho. Um dos textos ilustrados é uma ciranda de autoria de Magela. Durante o lançamento, o grupo Candearte fará uma apresentação na Praça do Campo Limpo, evidenciando a valorização do autor pelo mestre da cultura popular.

Além do Candearte, o grupo de teatro Cia. Truks fará uma intervenção artística que conta parte da história do poeta Binho. Juntamente com essas atrações, o público poderá vivenciar um sarau na Praça do Campo Limpo com a presença de diversos autores e poetas da literatura periférica.

Binho finaliza a entrevista ao Desenrola lembrando que faz exatos 23 anos que ele lançou o primeiro livro, a obra chamada de Postesia, considerada uma marco na literatura periférica. “Tem vinte e três anos exatamente que eu lancei o primeiro livro Postesia, foi em 14 de março de 1999, data essa que é o dia da poesia”, relembra ele, ressaltando que por apenas um dia essa data não se repete, já que o lançamento será neste domingo (13) de março.

Mas chegou o carnaval, e ela não desfilou!

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A periferia como protagonista do carnaval de São Paulo.

Desfile Bloco do Beco no carnaval de 2020 – Foto Maloka Filmes

“Se a única coisa que de o homem terá certeza é a morte; a única certeza do brasileiro é o carnaval no próximo ano.”

disse Graciliano Ramos (1892-1953), marcou a literatura brasileira com obras que retratam a vida do homem nordestino no sertão, em qualquer lugar que esteja ele deve estar surpreendido com o que se passa na nossa história.

As temperaturas estão altas em São Paulo, por volta dos 30 graus, o que impõe um clima de verão constante, mesmo que as férias já tenham acabado e o retorno às atividades presenciais deem o tom do retorno a vida corriqueira de uma capital, sabemos que não estamos em uma situação de normalidade.

As periferias da cidade se preparam todos os anos para o carnaval de rua que acompanha a cidade há muitos anos, promovendo a democratização do carnaval paulistano, que privatizado acontecia somente nas quadras das Escolas de Samba e no Sambódromo do Anhembi. Isso não significa que a população das periferias não participe do carnaval das Escolas de Samba, muita gente vive as duas realidades, compreendendo a potência do carnaval de rua, sem cordão, sem ticket, sem catraca.

O carnaval de rua está conectado com todas as grandes pautas, pelo menos, não vejo como exercer qualquer atividade cultural que de certa maneira não esteja conectada com a vida nas periferias, pois o espaço, como ele se articula, a mobilidade, as questões econômicas, imprimem nesse carnaval seu tema, seu ritmo e a participação da população.

Desfile do bloco Afro É Di Santo em 2020 – Foto Fernando Solidade

O carnaval traz em si a tradição comunitária, seja nas Escolas de Samba ou no carnaval de rua, esses espaços sempre forneceram formação cultural e amparo econômico às suas comunidades.

Não acredito que isso tenha mudado, porém, a profissionalização do carnaval como economia criativa reconhecida por empresas e o Estado, tem transformado os processos carnavalescos em uma cadeia produtiva, com seus elos de pré produção, produção, distribuição e comercialização, que geram empregos e sustentabilidade para o carnaval, além de muito lucro para as empresas da cidade. Em 2020, a festa movimentou cerca de 3 bilhões, cerca de 2% do PIB Paulista.

O último carnaval de rua de São Paulo foi o maior da sua história, segundo a Secretaria Municipal de Cultura, cerca de 15 milhões de pessoas, 575 blocos de rua e 615 desfiles.

Foi histórico para a cidade ter as 32 subprefeituras participando, o carnaval periférico trouxe 60 blocos de carnaval de rua em toda cidade, em nossa região cerca de 18 Blocos de carnaval saíram da Capela do Socorro à Parelheiros, mesmo com pouco fomento.

Sabemos que as Escolas de Samba e as periferias realizam um carnaval cultural, que tenta revelar artistas, fazer das artes uma fruição dinâmica com a musicalização da festa e promover o fortalecimento da cultura negra brasileira.

Entretanto, existe uma grande diferença do investimento no carnaval de rua das periferias, e das áreas nobres e centrais da cidade, que deve ser pautada como política pública. O carnaval de rua das periferias também tem sua cadeia produtiva e movimenta o ano inteiro, como ações sociais e culturais em seus territórios.

Desfile Bloco do Hercu em 2020 – Foto Bloco do Hercu

Em 2013, por decreto, a prefeitura de São Paulo, tornou o carnaval patrimônio cultural da cidade, promovendo assim a abertura para o surgimento de novos blocos e incentivando os existentes.

Sabemos que o incentivo é ainda muito restrito, banheiros químicos e um cachê não é suficiente para os blocos da periferia que promovem o carnaval e o samba o ano inteiro.

Esse ano ficamos com o carnaval na garganta, mas sabemos que quem ajudou a conter a crise econômica e social causadas pela pandemia durante os últimos 2 anos foram esses Blocos e suas organizações parceiras, sem políticas públicas de financiamento do carnaval. E com a pandemia, que carnaval de rua seria possível para as periferias da cidade?

Sabemos que teremos o desfile das Escolas de Samba em abril, nada se fala sobre o carnaval de rua, se haverá financiamento, se haverá diálogo para colocar as necessidades dos blocos.

Sabemos que muitos ficaram ricos com a pandemia e outros mais pobres, sabemos que a privatização da cultura é um fantasma que ronda a cidade de São Paulo, mas a periferia vai continuar cantando, pulando e batucando, nossa luta não é confete.

Coletivos propõem local de destaque para estátua de Carolina Maria de Jesus em Parelheiros

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Escultura da escritora será a segunda em todo o município de São Paulo a representar uma mulher negra.

Praça Júlio César de Campos, a praça central de Parelheiros, é onde a maioria dos coletivos culturais da região realizam os seus eventos. Foto: Erivelton Camelo / Sarauê

A Prefeitura de São Paulo anunciou em agosto de 2021, a instalação de cinco estátuas de personalidades negras: Adhemar Ferreira da Silva, Itamar Assumpção, Madrinha Eunice, Geraldo Filme, e entre elas, a da escritora Carolina Maria de Jesus.

Artistas e coletivos de Parelheiros, território onde Carolina passou seus últimos anos de vida, apontam que o local para receber a escultura da escritora deve ser a praça central do distrito, espaço com maior visibilidade e circulação de pessoas no território.

No entanto, o local para instalação da estátua de Carolina Maria de Jesus escolhido pela Prefeitura de São Paulo, através da Secretaria Municipal de Cultural, foi o Parque Linear Parelheiros, espaço no qual articuladores do território reafirmam sua importância, mas relatam não ser um local de grande visibilidade.

Além disso, apontam que não foi realizada nenhuma consulta aos coletivos e articuladores do território, e o contato feito com a Vera Eunice, filha de Carolina, se deu já com o intuito de informar que o local de instalação da escultura seria no parque.

“Em reunião, ao questionar uma das servidoras do Departamento de Patrimônio Histórico da Secretaria de Cultura, como se deu a escolha do local, com que respaldo, ela informou que foi através do ‘núcleo periférico’ que existe dentro da secretaria, núcleo esse que desconhecemos a existência e quem o integra”, afirma Joziane Sousa, integrante do Sarauê, grupo literário e cultural de Parelheiros, e uma das articuladoras do manifesto.

Joziane conta que quando os agentes culturais do território souberam da definição do local, não tinham conhecimento de quem teria escolhido o Parque Linear, e logo receberam o pedido de Vera Eunice, para compor a comissão de inauguração. Ela ainda ressalta que a filha de Carolina estranhou que nenhum coletivo do território havia integrado a comissão a convite direto da Secretaria de Cultura. 

“Carolina, mesmo quando teve condições financeiras de morar numa região nobre do bairro de Santana, nunca foi acolhida, e no imaginário da época nunca deixou de ser a “favelada”. Os seus últimos anos de vida em Parelheiros, foram num contexto de refúgio, onde ela nunca deixou de escrever, mas também nunca pode usufruir de fato dos frutos que poderia ter colhido com a sua produção literária.”

afirma Joziane Sousa, integrante do Sarauê, grupo literário e cultural de Parelheiros, e uma das articuladoras do manifesto.

Após receberem a informação da data de inauguração da escultura, que estava prevista para 13 de fevereiro, data do falecimento de Carolina, a família da escritora e o movimento cultural do território passaram a se articular e se reuniram com o subprefeito de Parelheiros, que não havia sido comunicado sobre o evento de inauguração, e buscaram contato com o Departamento de Patrimônio Histórico para reverter o local e data já definidos.

“Desde o dia 17 [de fevereiro], estamos atuando de forma muito organizada como um comitê, em torno dessa pauta para tentar reverter essa decisão da Secretaria, e no dia 21, uma das componentes do comitê entregou nas mãos da secretária Aline Torres o nosso manifesto. A mesma solicitou uma carta escrita e assinada por Vera, onde declarasse os motivos para a solicitação de troca do local, e essa carta foi entregue na secretaria dia 22 [de fevereiro]”, relata Joziane.

Ontem, dia 23 de fevereiro, o grupo recebeu uma mensagem da secretária de cultura solicitando uma reunião com os membros do comitê na sexta-feira (25).

Na carta produzida por artistas, coletivos e articuladores de Parelheiros, eles reforçam que o Parque Linear Parelheiros, local escolhido pelo Departamento de Patrimônio Histórico da Secretaria Municipal de Cultura, tem muita importância para o território, mas que o local para instalação da escultura de Carolina, deve ser a “sala de visitas” do território, na Praça Júlio César de Campos, a praça central de Parelheiros.

A articuladora Joziane reforça que a escultura da Carolina será a segunda em todo o município de São Paulo a representar uma mulher negra, sendo que a única existente até então é a estátua da mãe preta, que foi produzida em 1955, pelo artista Júlio Guerra, e retrata uma mulher negra amamentando uma criança branca.

“Carolina frequentou muito a Praça Central que na época era onde aconteciam os eventos do território, como a festa de Santa Cruz e de aniversário do bairro. A Praça de Parelheiros tem um reconhecimento histórico, e uma vez que a região passou a ser o Polo de Ecoturismo de São Paulo, a Praça também é um importante atrativo turístico”, afirma.

Joziane ressalta que é na Praça Júlio César de Campos, a praça central de Parelheiros, onde a maioria dos coletivos culturais realizam os seus eventos, uma vez que o território só passou a ter uma Casa de Cultura em 2019. Além da questão geográfica, pois a Praça é o ponto de acesso para os bairros adjacentes, como para o distrito de Marsilac, e o município de Embu Guaçu, cidade onde Carolina foi sepultada. 

“Colocar essa escultura em um local pouco movimentado, diria até que ‘escondido’ para nós mesmos, moradores do território, se assemelha como mais uma vez estabelecer que o lugar de Carolina é o ‘quarto de despejo’ que ela tão bem descreveu em sua obra. Vai contra o sentido de homenagem à obra da escritora, e também repercute de forma muito negativa nos familiares e nos admiradores de sua trajetória”

coloca Joziane.

A articuladora aponta ainda que a praça é um ponto conhecido por grande parte da população local. “Muitas pessoas ao vir aqui, nem acham que ainda faça parte da cidade de São Paulo, mas pergunte a qualquer um dos moradores, ou até para pessoas de outras regiões afastadas onde fica a Praça de Parelheiros, que elas em sua maioria saberão a localização”.

Para a agente cultural, uma das articuladoras para a alteração de local da instalação da escultura de Carolina Maria de Jesus, a não instalação na praça central do distrito, vai contra o objetivo do próprio projeto de lei que estabeleceu a produção destas obras como uma forma de exaltar a memória do povo preto e a representatividade de figuras negras dentro dos territórios periféricos: “Por que aqui em Parelheiros, Carolina não pode ocupar a nossa ‘sala de visitas’?”, questiona.

Não podemos permitir que o primeiro monumento em homenagem à Carolina NO MUNDO, não esteja em sua devida visibilidade. E ainda que seja uma argumentação concisa e suficiente, esta carta está respaldada pelo desejo de Vera Eunice, filha da Carolina, que nos afirma com precisão: “Fazemos questão que seja em Parelheiros! Minha mãe amava Parelheiros, aqui foi feliz, se benzeu e benzeu esse chão, participava das festas tradicionais, ia ao cinema mudo e entregou o meu diploma na Escola Prisciliana”.

Nós, coletivos culturais, artistas locais e articuladores sociais do território de Parelheiros, junto aos familiares e pessoas que entendem a importância da obra e da trajetória de Carolina, viemos através desta manifestar o nosso descontentamento em relação ao local escolhido para abrigar a escultura que está sendo produzida em homenagem à escritora. Reivindicamos a instalação da estátua de Carolina Maria de Jesus na Praça Júlio César de Campos, no Centro de Parelheiros e também a participação dos agentes locais na construção do evento de inauguração do monumento.

Carolina vive, e sua luta persiste, e aqui estamos apenas como pessoas que reivindicam o local, a data e a festa que ela merece ter.

Leia na íntegra o manifesto produzido por coletivos culturais, artistas locais e articuladores sociais do território de Parelheiros: Carolina Maria de Jesus merece estar na sala de visitas! 

Posicionamento da Secretaria Municipal de Cultura 

Em contato realizado pela equipe do Desenrola, a Prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria Municipal de Cultura, informou que a escultura da Carolina Maria de Jesus já foi instalada no Parque Linear Parelheiros e está protegida por tapumes. 

“Após reunião com a secretária Aline Torres, esclarecimentos e muita conversa, os coletivos e a Vera Eunice, filha da Carolina Maria de Jesus, optaram por manter a decisão de instalar a escultura na Praça Júlio César de Campos. No entanto, a Secretaria Municipal de Cultura informou que não há recursos para a transferência da obra de local e que esses grupos teriam que se mobilizar para conseguir verbas parlamentares para que a Secretaria possa realizar as tratativas e o processo para a transferência da escultura do Parque Linear Parelheiros para a Praça Júlio César de Campos”

afirma a assessoria de imprensa da Secretaria Municipal de Cultura.

Ainda segundo a assessoria,  foi explicado aos coletivos que devido à complexidade dos serviços e de procedimentos, entenderam que será um processo moroso e, portanto,  a Secretaria não tem previsão para a nova instalação. 

“A partir dessa decisão, a inauguração do dia 4 de março de 2022 foi cancelada, as contratações artísticas foram suspensas e o contrato dos tapumes foi renovado, até que se decida como manter a obra no local enquanto não há a transferência da obra. Em respeito aos movimentos a obra será inaugurada quando todos os trâmites legais forem solucionados”, finaliza a assessoria.

Movimentos periféricos ocupam Theatro Municipal de São Paulo

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Como parte da programação do centenário da Semana de Arte Moderna de 22, movimentos literários periféricos se apresentam em atividade gratuita no Theatro Municipal de São Paulo.

 

 Hoje (14), a partir das 19h, os poetas e artistas do Sarau do Binho, Sarau das Pretas e As Clarianas, ocupam o Theatro Municipal de São Paulo como parte das atividades em comemoração ao centenário da Semana de Arte Moderna de 22. O evento também terá a participação do rapper Rappin’ Hood como mestre de cerimônias.

Os ingressos são gratuitos e estarão disponíveis para retirada a partir das 17h, sendo limitados 1.500 lugares, conforme a lotação do espaço. Seguindo as recomendações dos órgãos de saúde, para participar do evento, é necessário apresentar documento, o passaporte da vacina, utilização de máscara e álcool gel.

“Fazer nossa cantoria e celebrar nossa existência naquele terreiro que também é nosso”, afirma o grupo musical As Clarianas, formado pelas atrizes e cantoras Martinha Soares, Naloana Lima e Naruna Costa, e pelos músicos Giovani Di Ganzá e Fefê Camilo.

Com forte conexão com as periferias, o movimento literário dos saraus estará representado pelo Sarau do Binho e Sarau das Pretas, ocupando o equipamento cultural localizado no centro da cidade.

Ingressos gratuitos limitados ao número de lugares (entrada livre)

Classificação Livre

Duração total 90 minutos

“Estamos criando o protocolo integrado da primeira infância”, diz supervisora da assistência social da M´Boi Mirim

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Os distritos do Jardim Ângela, na zona sul e Brasilândia, na zona norte de São Paulo são os primeiros territórios da cidade a realizar  ações do projeto integrado com as secretarias de governo do município junto a organizações da sociedade civil, que atuam nas periferias combatendo as desigualdades sociais que afetam principalmente mães solos e crianças na primeira infância.  

A partir de um olhar crítico para políticas públicas de assistência social nas periferias de São Paulo direcionadas para primeira infância, período que vai do 0 a 6 anos nas crianças, Luciane Farias, supervisora dos Serviços de Assistência Social da M´Boi Mirim, compartilhou com o Desenrola os desafios para atender o crescente número de famílias e crianças em situação de vulnerabilidade social do distrito Jardim Ângela, zona sul de São Paulo.

Uma das estratégias adotadas pela Secretaria de Desenvolvimento e Assistência Social de São Paulo está sendo a implantação do protocolo integrado de políticas públicas para a primeira infância.

A iniciativa surge a partir do Marco Legal da Primeira Infância, conjunto de normas que coloca as crianças de 0 a 6 anos no centro da atenção do poder público, para desenvolver projetos que promovam políticas e qualificação de profissionais para atender esse público.

Segundo Farias, o protocolo integrado da primeira infância visa aproximar ainda mais o trabalho das secretarias de governo que atuam diretamente com a primeira infância das organizações da sociedade civil e movimento sociais que atuam nos territórios periféricos, agindo contra as desigualdades sociais que afetam os moradores locais.

Uma das políticas públicas de assistência social que tem colocado em prática o protocolo integrado da primeira infância é o SASF – Serviço de Assistência Social as Famílias, no qual a supervisora conta que o Jardim Ângela conta com quatro unidades, onde cada uma tende cerca de mil famílias em situação de alta vulnerabilidade.

Um dos objetivos do SASF é fazer um diagnóstico das necessidades básicas das famílias, para encaminhar para serviços especializados das áreas de assistência social, saúde, educação, entre outros.

É a partir do SASF que o serviço de assistência social desenvolve o programa Criança Feliz, que visa oferecer uma série de serviços públicos para crianças amenizar o impacto das desigualdades sociais na vida das famílias, um cenário que se agravou ainda mais com o contexto da pandemia de covid-19.

Além disso, o SASF vem lidando diretamente com casos de mães solo desempregadas que enfrentam uma série de dificuldades para conseguir manter uma estrutura básica para os seus filhos. É partir deste contexto, que os serviços de assistência social atuantes nos territórios periféricos buscam oferecer uma rede de proteção para crianças e suas famílias.

Mas Farias deixa bem claro: “O território da M´Boi Mirim tem 79 serviços de assistência social, é o segundo maior distrito, ficando atrás apenas da Subprefeitura da Sé”, aponta ela.

A supervisora dos serviços de assistência social da M´Boi Mirim enfatiza que mesmo com essa estrutura de atendimento aos moradores do território, a quantidade de serviços é insuficiente dado o número de habitantes que hoje já ultrapassa 300 mil pessoas, fato que torna o aumento de demanda uma constante no cotidiano de quem está na linha de frente atendendo as famílias e crianças da região.

“Como criança não vota, ela não é prioridade do Estado”, diz conselheiro dos direitos da criança

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A série direitos invisíveis traz uma entrevista especial com Carlos Alberto Churras, Conselheiro Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente, que  reflete e aponta uma série de lacunas em políticas públicas  e direitos  essenciais ao desenvolvimento integral da infância nas periferias e favelas.  

Em 10 de dezembro, muitos países celebram o Dia Internacional dos Direitos Humanos, uma data que celebra a oficialização da Declaração Universal dos Direitos Humanos, realizada pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1950, com a proposta de democratizar o acesso a direitos sociais em todo o mundo.

Mas qual é o significado desta data para as famílias moradoras das periferias e favelas que estão vivendo em alta vulnerabilidade social, que compromete inclusive o desenvolvimento dos seus filhos na primeira infância, essa fase da vida que vai do 0 aos 6 anos, na qual as crianças precisam de cuidados essenciais que garantam o desenvolvimento do organismo, cognitivo e social.

À frente da gestão de projetos sociais que visam garantir acesso aos direitos humanos para proteção de crianças e adolescentes nas periferias e favelas do Jardim Ângela, distrito da zona sul de São Paulo, que possui 60% da população que se autodeclara preta ou parda, Carlos Alberto Churras elenca uma série de questões que impactam o pleno desenvolvimento das crianças no território.

Diante da sua experiência como Conselheiro Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente de São Paulo, Churras enfatiza que conhece bem o ambiente de desenvolvimento de políticas públicas voltada para a infância, e ressalta que o poder público não valoriza a infância porque criança não vota. 

Outro contexto que marca a trajetória do gestor de projetos sociais é a sua vivência no campo de atendimento às famílias em situação de alta vulnerabilidade social na pandemia de covid-19, através do seu trabalho na Sociedade Santos Mártires, organização que tem mais de 30 anos atuando pela garantia de direitos a moradores do distrito do Jardim Ângela, zona sul de São Paulo.

Segundo Churras, os programas de transferência de renda ajudaram muito as famílias, mas esse tipo de direito social não pode ser pontual, e sim permanente, atuando como uma política de Estado e não de gestão governamental. Esse cenário, segundo ele, irá afetar ainda mais o desenvolvimento de crianças nas periferias, devido à falta de comprometimento do poder público.

Carlos Alberto Churras é gestor de projetos sociais e conselheiro do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente. (Foto: Ronaldo Matos)

“Toda criança deveria ter uma renda”

Carlos Alberto Churras já foi presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente e hoje atua como Conselheiro.

 Ao lidar com todo tipo de situação de conflito em diversas fases do desenvolvimento das crianças, seja na primeira infância ou na adolescência, o conselheiro municipal dos direitos da criança e do adolescente, enfatiza que o racismo e as desigualdades sociais afetam principalmente as crianças negras nas periferias e favelas.

Segundo ele, são as acrianças negras as mais vulneráveis, pois são elas que estão no farol fazendo trabalho infantil, que são presas e mortas pelas forças do estado, e por vivenciarem ao longo da vida uma série de violências, as políticas públicas tendem e não garantir o direito a proteção integram da vida dessas crianças.

“A criança negra é a que tá mais vulnerável

O gestor de projetos sociais aponta o impacto do racismo e das desigualdades sociais na infância.

Consciente da importância de construir um futuro menos agressivo e mais acolhedor para fortalecer o núcleo familiar nas periferias e favelas, Churras enfatiza que para além das políticas públicas, a alegria também é um direito humano.

Ele acredita que a alegria precisa ser garantida, pois no atual contexto social, ser um morador da periferia é também conviver com uma série de tristezas e incertezas que minam as suas expectativas de vida e vontade de viver de crianças, adolescentes, jovens e adultos. 

Fome, morte e desinformação: a bomba relógio na saúde mental dos moradores das periferias

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Com o avanço das desigualdades sociais, fake news e a desinformação, terapeutas analisam os impactos destes problemas estruturais na saúde mental da população periférica durante a pandemia de covid-19. 

O cemitério São Luís, localizado na zona sul de São Paulo, passou por uma intensa transformação de paisagem durante a pandemia de covid-19, devido ao grande número de covas abertas. (Foto: Menino do Drone)
Em um levantamento sobre perspectivas de vacinação da juventude periférica, realizado em setembro de 2021, pela equipe de reportagem do Desenrola, identificamos que entre os 44 jovens que participaram do levantamento, 18 deles trouxeram apontamentos e queixas em relação à saúde mental ao perguntarmos qual a maior diferença que eles notaram em si mesmos comparado o período antes e durante a pandemia.

“Sinto que minha saúde mental decaiu durante a pandemia. Me senti por diversas vezes insegura, sem uma utilidade. Precisava de um emprego e não conseguia. Realmente incapaz! Tive problemas com ansiedades e afins”

Esse é relato de uma jovem de 23 anos que participou do levantamento realizado pelo Desenrola em setembro deste ano.

Além do aumento da fome, desemprego, mortes e outras tantas desigualdades, a pandemia também aumentou a proliferação da desinformação e fake news.

Diante deste cenário, conversamos com duas psicólogas que atuam com a população periférica, para discutir essas questões e traçar perspectivas sobre como esse contexto de desigualdades sociais e digitais afetou e ainda impactará a saúde mental dos moradores.

Segundo Thainá Aroca, psicóloga clínica, psicanalista em formação e integrante da rede PerifAnálise, um grupo de terapeutas que atuam nas periferias da zona leste de São Paulo, os filhos da classe trabalhadora já enfrentavam uma realidade difícil anterior à pandemia. 

“O jovem periférico acaba tendo que enfrentar diretamente as dificuldades e os problemas de casa e assumir uma responsabilidade dentro de casa e ter uma preocupação financeira da dinâmica de casa, acabam tendo que contribuir com a renda da família para não serem despesas”

Thainá atua na linha de frente de combate aos transtornos da saúde mental da população negra e periférica durante a pandemia de covid-19.

Impactos da desinformação 

Para Rosimeire Bussola, psicóloga atuante no SUS, psicanalista e também integrante da PerifAnálise, a pandemia mostrou os riscos das notícias falsas e o quanto podem gerar mortes.

“Enquanto nação, são as autoridades porta-vozes dos acontecimentos a nível social, são essas figuras que têm a responsabilidade de transmitir à população de modo seguro os acontecimentos”, enfatiza ela.

“Podemos ver o horror, o despreparo e desserviço causado por essas pessoas, incluindo principalmente o Presidente da República, que fomentou mentiras, desqualificou o trabalho científico”

Rosimeire Bussola reconhece o impacto da desinformação gerada por líderes políticos nos moradores das periferias.

A psicóloga ainda complementa: “Motivou a população a se aglomerar, criando um ambiente de risco e fazendo uso das notícias falsas para validar as suas falas”, analisa Rosimeire, e afirma que com posturas como essa, geraram dúvidas e incertezas que influenciam pessoas a comportamentos de risco.

“Perdi muito do pouco que tinha de controle da minha saúde mental, e com a atual conjuntura econômica do país e todo esse turbilhão de informações, digamos que influenciou um pouco no meu cotidiano e na ansiedade”

Esse é outro relados de um dos jovens que participaram do estudo realizado pela nossa equipe de produção de dados

Devido ao avanço do desemprego entre moradores das periferias, a fome avançou em muitos territórios, fato que aumentou a demanda de atuação das ações solidárias realizadas por movimentos sociais. (Foto: Thiago Fernandes)
Rosimeire pontuou ainda sobre o excesso e a busca de informações em fontes seguras, o que pode também influenciar na saúde mental. “Me parece que dá a falsa impressão de que quanto mais eu souber menos exposto serei, entretanto, num contexto de disseminação de notícias falsas, será necessário uma dupla atenção em relação a quem traz a notícias e que conteúdo é esse, para assim quem sabe, se proteger desses riscos.”

A psicóloga Thainá ressalta que embora nas periferias a realidade do acesso à internet e outras garantias sociais ainda sejam muito precárias, ela percebeu em sua experiência clínica, que no momento de distanciamento social durante a pandemia, foi na internet que muitos jovens encontraram espaço de troca e conversas, como uma fonte de refúgio e respostas para a insegurança gerada pela pandemia e a falta de gestão pelas autoridades do país gerou na população de modo geral.

“O acesso às informações acabou se tornando uma ‘faca de dois gumes’ digamos assim, ao mesmo tempo que informou e trouxe algumas respostas importantes para a população, gerou sobrecarga, uma vez que fruto de uma má gestão estatal a população mais vulnerável se viu sem outras alternativas de articulação a respeito daquilo que estava sendo informado”, aponta a psicóloga.

Políticas públicas 

Ao analisar o cenário no qual os moradores das periferias, mulheres, pessoas pretas e lgbtqia+, foram a população mais afetada pela pandemia, fake news e desinformação, Rosimeire Bussola afirma que para pensar uma melhora da saúde mental dessa população, é preciso pensar no fortalecimento das políticas públicas, na garantia do acesso aos serviços do SUS e do SUAS – Sistema Único de Assistência Social.

“Ao acessar esses serviços, à população pode ter um espaço de promoção e prevenção de saúde, tratamento dos agravos deixados pela pandemia e informação construída de modo comunitário, pois esses serviços estão nos territórios, conhecem a realidade local, e juntos com a população pensam estratégias de cuidado”, explica a profissional. 

“Já havia um quadro de ansiedade antes da pandemia, mas no ano de 2020 tudo se agravou e passei pela depressão. Foi um momento extremamente difícil. Havia tantas preocupações, era um caos mundo afora. Muita gente morrendo, medo de familiares e amigos se tornarem vítimas do vírus, ao mesmo tempo que lutava para me manter firme nos estudos, e como não conseguia, me sentia horrível. Desenvolvi a compulsão alimentar como nunca antes (já sofria de transtorno alimentar). Enfim, foi realmente um ano horrível. Porém, hoje venho melhorando de pouco em pouco, me sentindo mais forte a cada dia”

Relato de uma jovem de 17 anos, moradora da zona sul de São Paulo.

Thainá alerta que a piora da saúde mental da população periférica também faz parte de um cenário anterior à pandemia. “É importante ressaltar que as consequências da piora da saúde mental da população periférica percebida na pandemia não está exclusivamente relacionada com o início da pandemia da covid-19, mas sim está ligada ao agravamento de todas as restrições de acesso e estado de exceção que essa população já convive diariamente, antes mesmo da covid-19”, aponta a psicóloga.

Ele lembra que em 2020, o Ministério da Saúde, baseado no documento “Diretrizes para um Modelo de Atenção Integral em Saúde Mental no Brasil”, pretendeu revogar portarias que organizam os serviços em Saúde Mental, no sentido de minar o funcionamento dessas políticas e focar em hospitais e ambulatórios psiquiátricos, enfraquecendo a atuação do CAPS, por exemplo.

Após décadas de implementação da RAPS – Rede de Atenção Psicossocial que estruturam a reforma psiquiátrica brasileira, a RAPS é apoiada na liberdade e na socialização de pessoas em sofrimento psíquico.  A psicóloga ressalta que pensar saúde mental junto com a população periférica é também defender os serviços de saúde pública e denunciar ataques à Rede de Atenção Psicossocial

“É defender políticas de cuidado em saúde mental veementemente contrários à lógica racista, classista e punitivista em que estrutural e historicamente são fundadas prisões e manicômios. É defender o SUS e sua transversalidade de atuação”

A terapeuta da Rede PerifAnálise valoriza o legado do Sistema Único de Saúde – SUS, pelo fato de ser a principal serviço de acesso a saúde pública no país.

Thainá pontua que os coletivos e movimentos sociais periféricos foram os mais interessados em pensar ações de suporte e assistência para a quebrada nesse momento de crise. “Só demonstra o abismo de que os interesses do Estado não só não contemplam as realidades periféricas, assim como as negligência, sendo que é papel do Estado a garantia de acesso a direitos básicos à população de modo geral”.

“Minhas crises de ansiedade aumentaram, eu tive um momento de quarentena que faltou muito pouco para ter um surto. Fiquei o máximo que pude em casa, mas em algum momento temos que sair”,  relata jovem de 21 anos, moradora da zona sul de São Paulo, que respondeu ao nosso levantamento de dados sobre saúde mental.

As psicólogas analisam que o atual cenário é preocupante e o futuro é duvidoso, por estarmos vivendo num contexto de retrocesso e desinvestimento nas políticas públicas de saúde, especialmente na saúde mental, além do desmonte das políticas já existentes.

“Alertamos que para que a saúde mental dos jovens periféricos possa ser cuidada, é importante que haja acesso aos serviços públicos que garantam atendimento à saúde mental”, reforçam as profissionais da saúde mental.

Pandemia de desigualdades viola direito ao convívio familiar de crianças nas periferias

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Em busca do sustento para os filhos, mãe solo enfrenta diariamente uma jornada tripla, que transforma a filha adolescente em responsável pelo irmão de cinco anos, que nessa faixa etária de idade não tem acesso a serviços públicos de educação infantil.  

Com a chegada da pandemia, as mães solo nas periferias de São Paulo se desdobraram para manter uma estrutura de cuidados com os filhos. Essa é a história da Irenilza Soares da Cruz, 46 anos, moradora do Cidade Ipava, bairro localizado no distrito do Jardim Ângela, zona sul da cidade.

Irenilza é conhecida carinhosamente como “Tuca” no território onde mora. Ela é mãe de cinco filhos, entre eles estão Thaís, 27, Stephanie, 21, João Pedro,14, e Thayná de 12, adolescente responsável por cuidar do irmão mais novo, o Luiz Fernando de cinco anos.

Baixa renda e jornada tripla 

Segundo o Mapa da Desigualdade de 2021 da Rede Nossa São Paulo, a remuneração média mensal de um trabalhador com emprego formal no distrito do Jardim Ângela é de $2.450,00, mas o salário que Irenilza recebe por mês não chega a um terço desse valor.

“É difícil manter a casa só com um salário, porque vem conta de água, de luz, perua escolar. Então a gente vai fazendo como pode, esse mês compra uma coisa, mês que vem compra outra e assim vai”, conta Irenilza.

O fato de Irenilza deixar seus filhos sozinhos não se trata somente da confiança que tem em Thayná, mas também da necessidade de manter a casa e comprar o alimento para a família.

“Com esse dinheiro que minha mãe pagaria pra outra pessoa cuidar, ela tá juntando pra comprar as coisas pra dentro de casa” explica a adolescente.

Irenilza trabalha em três lugares diferentes, um deles é o seu bar que fica próximo da sua casa na Cidade Ipava. (Foto: Flavia Santos)

“Quando eu chego do trabalho, vou lavar uma roupa, porque o resto das coisas minha filha mais nova já fez”

Irenilza é mãe de cinco filhos, uma dele é o Luiz de cinco anos.

Enquanto isso, a mãe se divide em três trabalhos: atuando como boleira, atendendo os clientes do seu barzinho e ainda realizando a venda de cosméticos como parceira da Avon. A Tuca foi casada por 16 anos, mas hoje se encontra separada e ela não poupa esforços para dar o melhor aos seus filhos.

Essa jornada tem sido ainda mais pesada e cansativa, pois a renda dela tem sido insuficiente para fazer as compras do mês, fato que a obriga a trabalhar em diversos lugares e ter pouco tempo para conviver com os filhos.

De segunda-feira a sexta-feira, Irenilza sai às cinco da manhã de casa, e a partir deste momento sua filha Thayná de 12 anos começa a cuidar das atividades domésticas e da criação de Luiz, seu irmão mais novo.

“Quando eu chego do trabalho, vou lavar uma roupa, porque o resto das coisas minha filha mais nova já fez”, relata Irenilza, apontando o papel da filha nos cuidados com a organização da casa.

Thayná tem 12 e está cursando a sexta série. De segunda-feira a sexta-feira, ela cuida do irmão mais novo, Luiz de 5 anos, para a mãe conseguir se dedicar à três frentes de trabalho, que compõe a renda da família. (Foto: Flávia Santos)

A violação do convívio 

Com a rotina puxada, ela relata que às vezes não consegue aproveitar o tempo com as crianças, mas que sempre se esforça para fazer algo diferente e estar mais perto da família.

“Tem dias que eu não consigo ter um tempinho pra eles porque eu chego muito cansada, mas o que eu consigo fazer com eles quando posso eu faço”, afirma.

O tempo para Irenilza é tão curto que ela não consegue participar das reuniões escolares dos filhos, porque os horários da escola não se encaixam na sua rotina, e suas filhas mais velhas também não conseguem ir porque trabalham.

Atuando desde 2011 como conselheira tutelar na região da M’ Boi Mirim e Jardim Ângela, Silvana Farias, de 50 anos, comenta que pandemia obrigou as mães solo a abandonar o emprego ou a deixar seus filhos em casa sozinhos para assegurar o trabalho e a renda da família.

“Aumentou os casos de mães que não sabiam como ter que trabalhar e não ter com quem deixar os filhos, foi complicado pois de qualquer forma a mãe era orientada e aconselhada que mesmo diante de tudo o que estava acontecendo, os filhos teriam que ter a supervisão de parentes ou vizinhos, sendo assim alguns conseguiram, outros abandonaram seus empregos”, relata a conselheira.

A conselheira destaca que esse cenário impacta ainda mais o convívio e a afinidade que precisa ser desenvolvida entre pais e filhos. “As famílias de hoje já não têm convívio algum, os pais têm pouco tempo para os filhos e de certa forma atrapalha no crescimento enquanto indivíduo, pois os conselhos que tínhamos antigamente poucas famílias trazem consigo para passarem este conceito de geração em geração”, explica.

“Entre 0 e 3 anos e 11 meses a criança tem a creche com período integral, mas entre os 4 e 5 fica sem esta assistência”

Silvana Farias é conselheira tutelar há 10 anos e tem vasta vivência com atendimento a mães solo no Jardim Ângela. 

Silvana ressalta que a situação vivenciada por Irenilza, que tem um filho de cinco anos, afeta outras mães e famílias de todas as periferias de São Paulo, pois na primeira infância fica mais difícil conseguir um equipamento público de educação infantil com vagas abertas para essa faixa etária.

“Entre 0 e 3 anos e 11 meses a criança tem a creche com período integral, mas entre os 4 e 5 fica sem esta assistência, e com 6 anos pode ser inserido nos Centros de Crianças e Adolescentes (CCAs), só temos estas políticas públicas para auxiliar nesta fase da infância, não existe equipamentos públicos que poderiam atender com esta idade, isto é uma das dificuldades que temos”, conta a conselheira tutelar.

Nesse contexto, a pandemia contribuiu para o aprofundamento de problemas que antes eram pontuais entre as famílias do território. “Com certeza as famílias da periferia foram as mais afetadas neste período de pandemia, as denúncias por ‘abandono de incapaz’ aumentaram bastante”, aponta ela, argumentando que o abandono de crianças só aumentou porque as mães não tinham com quem deixar os filhos.

Felizmente, esse não é o caso da família de Irenilza, mas segundo a conselheira tutelar, muitos pais perderam seus empregos durante a pandemia, gerando um aumento significativo no atendimento do conselho tutelar da região.

“Quanto a questão financeira, muitas destas famílias perderam seus empregos e ficaram à mercê do auxílio emergencial, na nossa região muitas ONGs e movimentos acabaram auxiliando as famílias” diz a conselheira, reconhecendo a importância das ações solidárias que aconteceram na região, para garantir principalmente acesso a alimentação.

Embora tenha pouco tempo para conviver, Irenilza faz questão de ser uma próxima para a filha adolescente. (Foto: Flávia Santos)

Filhos sozinhos na pandemia 

Irenilza conta que a preocupação que sente em deixar seus filhos mais novos sozinhos é grande, não só pelo fato de a qualquer momento algo pode acontecer, mas principalmente porque ainda são crianças.

“Eu saio pra trabalhar, mas com aquela preocupação, que pode um fio ter um curto, o mais novo de 5 anos pode engasgar, porque ele é uma criança que se engasga muito. Então a gente sai para trabalhar, mas com aquele pensamento, sabe?”, desabafa.

Segundo Irenilza, a pandemia só piorou a preocupação com os filhos, porque as crianças nesse período ficaram mais doentes, e como ela não pode faltar no serviço, a insegurança toma conta dos seus pensamentos que focam na saúde das crianças e o medo de estar longe de casa.

Responsável por cuidar do irmão de cinco anos, Thayná está cursando a 6ª série na Escola Municipal Professor Edvaldo dos Santos Dantas. Ela conta que é raro os momentos que consegue se encontrar com seus amigos.

“Mesmo chegando cansada, minha mãe chega e brinca com a gente”

Thayná considera a mãe como uma grande amiga.

Mesmo na adolescência, Thayná já demonstra um amadurecimento em relação a situação da mãe e com os cuidados do seu irmão mais novo. “Minha relação com eles é muito boa. Eu sinto que estou tendo bastante responsabilidade né, cuidar assim, sendo tão nova”, diz a estudante.

Apesar de não ter tempo para conviver com os amigos da escola, ela conta que sua mãe todos os dias se torna sua melhor amiga, elas conversam e brincam bastante juntas. “Mesmo chegando cansada, minha mãe chega e brinca com a gente quando consegue, ela é muito brincalhona”, revela Thayná.

A partir dos relatos de Thayná, que demonstram o impacto de cuidar do irmão mais novo nas suas relações sociais com outros jovens da mesma idade, convidamos a psicóloga Thaís Ferreira,32 anos, formada pela Universidade Metodista e que atende famílias das periferias, para analisar suas respostas.

A terapeuta enfatiza que numa situação como essa vivenciada pela adolescente é de suma importância manter uma relação sadia e próxima entre pais e filhos. “Uma criança que acaba tendo que cuidar de outra, infelizmente ambos perdem aquele momento que precisavam ter com os pais, já que alguns acabam se responsabilizando pelo outro filho”, avalia a psicóloga.

“Oriento muito sobre atividade física para os adultos e para as crianças, o brincar, ter rotinas, mas cuidado com o excesso de telas digitais”

Thaís Ferreira é psicóloga com experiência em atender famílias em situação de vulnerabilidade social nas periferias. 

Ela aponta que os impactos na saúde mental que envolvem essas situações de mães solo se intensificou durante a pandemia, afetando ainda mais o cotidiano das famílias. E que isso é tratado com cuidado caso a caso, mas que em sua maioria, as orientações e conselhos passados se assemelham.

“Eu sempre oriento as famílias a se ‘reinventar’, se adaptar, entender que foi algo que não estava no nosso controle, e então não podemos dominar a situação”, explica.

Ela esclarece que em situações de confinamento e perda de relações sociais, a prática de exercícios físicos ajuda no alívio da ansiedade e da depressão. O que ajuda bastante também é o desapego das tecnologias e redes sociais, tirar um tempo para si mesmo e praticar atividades que gosta.

“Oriento muito sobre atividade física para os adultos e para as crianças, o brincar, ter rotinas, mas cuidado com o excesso de telas como tablet, celular, televisão e games”, finaliza a terapeuta,