“Liberdade, justiça racial e de gênero”: o que move os sonhos das mulheres nos territórios

Mulheres negras e periféricas refletem sobre o ato de sonhar como um exercício de coragem e imaginação.
Edição:
Isadora Santos

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“Eu escolho sonhar, pois sonho pela liberdade. E não é só liberdade no sentido literal, mas ser livre de passar por necessidades, com minha identidade racial e de gênero assegurada”, afirma a estudante de Direito e Relações Internacionais Dandara Zainabo, 28, sobre os sonhos que a movem individualmente e também a outras mulheres negras e periféricas. 

Dandara, que também é diretora da associação Mama Thula, organização que oferece suporte jurídico para comunidades vulneráveis, nasceu no interior do Rio de Janeiro e atualmente mora na comunidade do Complexo do Mandela, localizada em Manguinhos, na Zona Norte da capital carioca. Ela cita sua própria vivência para referenciar o ato de sonhar como uma prática emancipadora e de transformação social.

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O mesmo sentimento aparece nas palavras da professora de geografia, Tatiane Barreto, 43, moradora de Itaim Paulista, distrito da zona leste de São Paulo, que entende o ato de sonhar como um exercício de esperança e de construção de futuro, mas lamenta que, no cotidiano das mulheres nos territórios periféricos, muitos desses sonhos acabem interrompidos ou pausados. 

“Sempre fui muito sonhadora, desde a infância, e cresci com minha mãe sendo também essa pessoa muito sonhadora. Infelizmente, hoje convivo com várias mulheres cujos sonhos ficaram pelo caminho, pois se sentem desesperançosas quanto a realizar seus sonhos”, diz Tatiane.

Mesmo com sonhos individuais e coletivos, por vezes se sente enfraquecida para buscá-los. “A realidade do meu território é muito dura, pois fazemos parte de uma classe social que ficou às margens das políticas públicas e isto interfere na realização deles”, pontua.

“Para minha própria vida, no trabalho, desejo voltar a ser funcional. Tenho o trabalho que sonhei, porém, por interferência das desigualdades, fui minada e, novamente, meus sonhos foram enfraquecidos. Com relação ao descanso, gostaria muito de poder ter um período de férias apenas para ter um descanso mental, que a mim foi negado durante toda a vida”, complementa Tatiane que, atualmente está afastada do trabalho por questões de saúde mental. 

Sonhos individuais e coletivos

Também sonhadora e ativa desde cedo, Dandara Zainabo começou a se articular ainda no ensino médio. “Usufruí das políticas públicas municipais e estaduais, enquanto secundarista. Foi ali, no movimento estudantil, que nasceu o meu ativismo”, relembra sobre as greves estudantis e ocupação das escolas do Estado do Rio de Janeiro, reflexo das ocupações de 2015 que ocorreram em São Paulo. 

“A primeira escola que ocupamos no Rio foi a Mendes de Moraes, na Ilha do Governador. Ganhamos uma liminar na Justiça e conseguimos algumas articulações que estruturam muito do que as escolas do país são hoje”, lembra ela mencionando que já se passaram uma década deste marco. “São dez anos que também estruturam a minha vida enquanto ativista”.

“Com o tempo, o Rio de Janeiro começa a me trazer várias dores. Não era fácil. Pensar em 2016 era pensar numa presença policial muito grande [nos territórios]”, acrescenta ao falar que a possibilidade de sonhar, ou não, plenamente perpassa pelas dinâmicas cotidianas das periferias e favelas e pela resistência da organização comunitária.

Nesse sentido, segundo ela, entender estas dinâmicas envolve compreender as interseccionalidades. “Quando falamos de interseccionalidade, falamos de corpos que vão ser mais ou menos afetados”, explica a ativista que atua facilitando o acesso à justiça, especialmente para mulheres negras e trans.

Controle dos corpos para impedir sonhos

Ao analisar a violência e a opressão social contra pessoas negras e periféricas, a carioca coloca que para que mulheres negras, trans e travestis possam sonhar livremente, é preciso primeiro pensar um novo modelo de justiça e encarceramento.

“O sistema prisional é de punição. Além de paralisar a possibilidade de socializar, ao sair da cadeia, ele ainda consegue [condicionar] a sua vida a partir de um processo que te apaga novamente [aos olhos da sociedade]. Este processo dialoga muito com o que fizeram com nossos ancestrais”, frisa Dandara, que se debruça sobre legados históricos de resistência diante dos processos de violência física e simbólica que afetaram a população negra ao longo da história da escravidão no Brasil.

Retomar o protagonismo, a cultura e a memória do país, para ela, é um ato emancipatório. Nesse contexto, Dandara tem pensado estratégias e práticas de incidência tanto nacional como internacionalmente.

Em abril, Dandara viajará à África do Sul para lançar um aplicativo de acesso à justiça em territórios de favelas. A agenda inclui o lançamento oficial do projeto junto a articuladores políticos e governanças locais na Cidade do Cabo. Ela também deve visitar instituições que atuam no sistema penitenciário local para dialogar sobre como o trabalho de advocacy da organização tem sido implementado, com objetivo de propor um novo olhar ao sistema prisional.

“Para uma pessoa negra, por exemplo, poder sonhar é poder olhar todos os dias, no final da tarde, e imaginar que, mesmo estando encarcerado, a liberdade é algo que bate de manhã. E quando eu digo liberdade batendo na manhã, é porque, todos os dias, antes dos senhores de engenho acordarem as pessoas escravizadas para trabalhar no cacau ou na plantação de algodão, elas já estavam acordadas. Ou então, nem conseguiram dormir. Ficavam olhando o sol nascer. E, quando o sol vinha, acreditavam que o mundo podia nascer de novo”, reflete.

“Quando a prisão me encarcerou, ela não me fez sonhar, mas, ao mesmo tempo, ela não me tirou a perspectiva de ter esperança de um dia estar liberta. E a perspectiva de liberdade é algo sonhado por toda pessoa negra. Quando você nasce negro, você nasce com o sonho de ser livre. Isso tem um simbolismo muito forte para nós”.

Dandara Zainabo, diretora da associação Mama Thula, moradora do Complexo do Mandela, em Manguinhos, zona norte do Rio de Janeiro, estudante de Direitos e Relações Internacionais.

Cultivar a ancestralidade para conquistar a liberdade

Ainda sobre as aspirações, sobretudo de mulheres negras na vida e na militância, Dandara reforça que cultivar a ancestralidade é um ato de continuidade. “Acredito que nossos ancestrais pensavam assim, e que mães negras, mesmo diante da violência obstétrica, por exemplo, ao parir, têm esperança de que o mundo irá proteger seu filho, de que o mundo não vai  violentá-lo mais”.

A ocupação de espaços de forma coletiva, a conquista de uma reparação socioeconômica, a possibilidade de reescrever a história do país a partir das escrevivências nos territórios, são outros exemplos de sonhos coletivos citados por ela. 

Já a geógrafa Tatiane Barreto menciona o desejo de que outras meninas e mulheres negras tenham a oportunidade de usufruir de saúde mental, bem-viver e espaços de prestígio, para que rompam os ciclos de sofrimento vividos por suas famílias.

“Sonhar sendo uma mulher negra é algo doloroso, pois o sentimento é sempre de tentativa. O que eu mais desejo é que meninas e mulheres negras se tornem donas de si, que possam realmente ser incluídas em todas as áreas profissionais e que sejam mulheres que recebam afeto verdadeiro para que [vivam] felizes.”

Tatiane Barreto, professora de geografia e moradora do Itaim Paulista, distrito localizado na zona leste de São Paulo.

A professora também aponta sobre o racismo nesse debate. “O racismo atinge de uma maneira tão malvada nossas vidas que passamos a questionar quem somos. Mas [estimaria] muito que meninas e mulheres pretas pudessem realmente conquistar os espaços que, há muito tempo, nos tiraram”, finaliza.

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