Aderecista reforça protagonismo dos trabalhadores do Carnaval: “Somos um setor de imensa importância”

Moradora do Itaim Paulista, zona leste de SP, Victoria Tamazi fala sobre a potência de levar sua arte para as ruas, contribuindo com a beleza dos desfiles das escolas de samba.
Edição:
Isadora Santos

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Na contagem regressiva para o início do Carnaval, os dias foram intensos para Victoria Tamazi, também conhecida como Vycki. Aos 29 anos, a aderecista que coordena o ateliê da escola de samba Grêmio Recreativo Cultural Social Unidos de Santa Bárbara acordava cedo e se deslocava para o barracão da agremiação para garantir que tudo estivesse pronto e alinhado a tempo para o desfile, que aconteceu no dia 16 de fevereiro.

A Unidos de Santa Bárbara faz parte da União das Escolas de Samba Paulistanas (UESP), figurando no Grupo Especial de Bairros, que desfilam pela Av. Eliseu de Almeida, no Butantã, zona oeste de São Paulo. 

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“Estou alojada na quadra da escola, onde tudo acontece, finalizando os últimos detalhes para realizarmos um grande espetáculo”, contou ela durante entrevista dias antes do desfile. A aderecista, que também é musa da escola de samba, faz parte das centenas de trabalhadores que movimentam a cadeia produtiva da maior festa popular do mundo.

Nascida e criada no Itaim Paulista, distrito da zona leste de São Paulo, mesmo território em que está localizada a escola de samba, Vycki se reconhece no mundo como uma mulher preta travesti e é também uma das tantas pessoas que diariamente preservam e fortalecem o Carnaval como lugar de pertencimento, identidade e memória. 

Vycki explica que o processo começa bem antes do desfile. Segundo ela, tudo vai sendo construído ao longo do ano, com pesquisa, preparação e ajustes constantes. Para dar forma às ideias, busca referências e troca com integrantes da escola. 

“Faço pesquisas, converso, peço dicas para o carnavalesco na hora de montar algum adereço ou fantasia”, conta, mostrando como seu trabalho ajuda a manter a tradição viva a partir das trocas coletivas e do cuidado com cada detalhe, reforçando o Carnaval como espaço de identidade e pertencimento.

Cercada de muitas referências e inspirações desde cedo, ela compartilha como tudo começou. “Desde muito pequena, gostei de explorar e usufruir do meu lado criativo. Era meu sonho ser estilista quando crescesse”, destaca a aderecista que sempre gostou de estar por dentro das tendências de moda e de dar dicas, em especial, às mulheres da sua família. 

O gosto por moda ganhou novos contornos quando, ainda adolescente, passou a ajudar na escola de samba. “Aos 16 anos, passei a ajudar a confeccionar fantasias de ala na Unidos de Santa Bárbara. Daí em diante, peguei gosto pelos adereços”, fala Vycki que, pouco depois, aos 21 anos, foi contratada efetivamente como assistente de carnavalesco pela mesma escola e pôde então colocar mais do seu conhecimento em prática.

“Acredito muito que meu território influencia meu trabalho e minha [relação com o Carnaval]. Foi onde encontrei minha paixão. Mesmo não exercendo atualmente a profissão de Design de Moda, sinto que ser aderecista também é muito [gratificante].”

Vycki Tamazi, moradora de Itaim Paulista, zona leste de São Paulo, e aderecista da escola de samba Unidos de Santa Bárbara

Vendedores ambulantes, aderecistas, costureiras, escultores, pintores, maquiadoras, carnavalescos, marceneiros, seguranças, vidraceiros, entre outros trabalhadores, são exemplos de quem constrói, ao longo de todo o ano, os bastidores de uma das maiores festas populares brasileiras.

Trabalho na folia

Em São Paulo, de acordo com levantamento interno da Prefeitura Municipal, o Carnaval paulistano de 2025 registrou recorde com mais de 760 blocos inscritos, atraindo cerca de 16,5 milhões de foliões e movimentando mais de R$ 3,4 bilhões na economia da cidade. A festa incluiu desfiles no Sambódromo do Anhembi e teve a escola de samba Rosas de Ouro como campeã do Grupo Especial.

Outro levantamento interno da Prefeitura prevê que cerca de 15 mil ambulantes credenciados tenham atuado durante o Carnaval de Rua 2026, que acontece oficialmente em São Paulo entre os dias 7 e 22 de fevereiro.

Com relação aos desfiles das Escolas de Samba dos Grupos de Acesso, que tem relação com a Liga das Escolas de Samba de São Paulo, a atual campeã do Acesso I é a Tom Maior, que subiu para o Grupo Especial em 2026, junto com a Mocidade Unida da Mooca. No Grupo de Acesso II, a escola Morro da Casa Verde, uma agremiação tradicional, conquistou o título, garantindo vaga no Acesso I. 

Enquanto nas escolas regidas pela União das Escolas de Samba Paulistanas (UESP), a Uirapuru da Mooca foi a campeã do Grupo Especial de Bairros, já a União de Santa Bárbara conquistou a quinta posição na mesma categoria. No Grupo Especial de Blocos, a escola Mocidade Independente da Zona Leste, criada no Jardim Santana, foi coroada campeã. Os desfiles das escolas que pertencem a estes grupos costumam acontecer fora do sambódromo, fortalecendo o Carnaval de base, formado por blocos de rua e agremiações de bairro. 

“Somos um setor de imensa importância”, destaca Vycki sobre a contribuição dos trabalhadores nos territórios.

Neste contexto, avalia que reafirmar o Carnaval como expressão de celebração e ancestralidade negra passa pelo reconhecimento de sua história e pelas trocas cultivadas no caminho. 

“Me sinto honrada e grata em fazer parte desse mundo que é o Carnaval, aprendi muito com o tempo aquilo que não entendia antes e troquei experiências com grandes profissionais, como o carnavalesco, Jair Souza”, conta.

Ela ressalta o papel da mulher nessa construção. “Dentro do Carnaval, seguimos com carinho, dedicação e amor em tudo o que fazemos. E, enquanto mulher trans, isso é a prova da nossa força: nós, corpos trans, podemos chegar onde quisermos”, diz.

Para Vycki, o chão do território desperta um olhar sensível e influencia seu trabalho. “Hoje, na linha de frente como coordenadora do atelier da minha escola, tenho muito orgulho em ocupar este posto e colocar meu talento em prática para realizar tamanho espetáculo que é o Carnaval”, conclui.

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