A virada do calendário costuma vir acompanhada de metas individuais. Mas ao pensar na construção coletiva de sociedade, alguns territórios e moradores compartilham de necessidades em grupo. Emprego e renda, moradia, segurança, lazer e cultura são algumas demandas que atravessam a vida cotidiana. É o que relatam lideranças comunitárias, que projetam para 2026 uma agenda coletiva centrada na dignidade e garantia de direitos básicos.
Para 2026, ao falar das demandas das mulheres periféricas, Shisleni Macedo, moradora do distrito de Itaim Paulista — zona leste de São Paulo —, antropóloga, especialista em Justiça Reprodutiva, Social e de Gênero, aponta que será um ano decisivo, com eleições para o governo dos Estados, Presidência, poder legislativo, além da renovação de cadeiras no Senado Federal, o que exige articulação política por parte dos territórios.
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“Este é um momento de pensar muito sobre coletividade, sobre projetos [comunitários] e também sobre como as periferias, sobretudo em São Paulo — mas não só — descem para as eleições”, coloca.
No dia 4 de outubro, a população vai às urnas para escolher presidente, governadores, senadores e deputados. O calendário eleitoral deste ano prevê segundo turno em 25 de outubro, caso nenhum candidato ao Executivo alcance maioria absoluta.
“A gente precisa pensar sobre como construir, coletivamente, projetos políticos que não sejam apenas político-partidários, mas projetos de país mesmo, projetos de vida para as nossas comunidades que estejam realmente conectados e engajados com o que a gente constrói e vive enquanto pessoas de quebrada”.
Shisleni Macedo, antropóloga, especialista em Justiça Reprodutiva, Social e de Gênero.
Neste contexto, segundo ela, a política de cuidado se apresenta como um dos debates mais urgentes, mirando políticas públicas que beneficiem, principalmente, mulheres pretas e periféricas. “Tivemos um passo importante com o Plano Nacional de Cuidado, mas ainda é pouco”, ressalta ao lembrar que muitas atuam profissionalmente como domésticas, babás, enfermeiras e cuidadoras, mas permanecem como um grupo invisibilizado.
Isso que chamam de amor é trabalho não pago e falta de política pública
“Precisamos dar um passo além e olhar para as cuidadoras não remuneradas, que cuidam de filhos, pais, avós, idosos e pessoas com deficiência. Muitas acabam largando o trabalho para assumir esse cuidado, então é fundamental políticas que também protejam essas mulheres e garantam como elas vão se manter financeiramente”, frisa Shisleni.
Dados da Pesquisa Nacional sobre Trabalho Doméstico e de Cuidados Remunerados, realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica (Ipea) em parceria com o Ministério da Igualdade Racial (MIR), com 1.196 participantes, mostram que 69,9% das pessoas que declaram realizar trabalho doméstico ou de cuidados no Brasil são mulheres negras. O estudo também destaca que 79,6% delas se dedicam aos cuidados com familiares e pessoas dependentes. Os dados mostram ainda que 52,4% das mulheres negras que exercem função de cuidado não concluíram o ensino médio. Enquanto entre as mulheres não negras, esse número cai para 42,9%.
A antropóloga afirma que isso passa necessariamente por enfrentar o preconceito contra benefícios assistenciais, como o Benefício de Prestação Continuada (BPC), que garante um salário mínimo por mês à pessoa idosa com idade igual ou superior a 65 anos e à pessoa com deficiência de qualquer idade que comprove, em ambos os casos, ser de família de baixa renda e o Bolsa Família.
“São fundamentais para o combate à pobreza extrema e à precariedade que as nossas populações vivem e que batem com muita força em cima das mulheres”, afirma e também defende o direito de sonhar como uma estratégia de resistência e luta política e coletiva.
“Às vezes nos dá a sensação de que continuamos reivindicando as mesmas coisas há muito tempo, e parece que não avançamos. Mas podemos olhar além disso, ampliar, fazer um exercício de imaginação política: sonhar para além do básico.”
Shisleni Macedo, antropóloga, especialista em Justiça Reprodutiva, Social e de Gênero
Ela reforça que é preciso se organizar de diferentes formas, como grupos de mães, coletivos e cursinhos populares. “Ter espaços para encontrar, trocar ideias e pensar o bairro juntas faz falta. Esse espaço pode ser físico ou abstrato: coletivos, redes, qualquer estrutura que permita esse encontro”, destaca.
Violência e combo eleitoral: as promessas que jamais poderão ser cumpridas
Shisleni acredita que 2026 ainda precisa ser marcado por debates como justiça reprodutiva e segurança pública. Na sua avaliação, são questões a serem pensadas a partir da realidade das comunidades, conectando direitos e proteção social.
“Espero que falemos muito de aborto este ano. Justiça reprodutiva é garantir vida digna, casa, saúde, educação, sexualidade e parto respeitoso, criar crianças sem medo, mas também o direito de não ser mãe e decidir sobre o próprio corpo, com espaços acolhedores para pessoas trans e cuidado coletivo pelas comunidades.”
Shisleni Macedo, antropóloga, especialista em Justiça Reprodutiva, Social e de Gênero
A guerra não é contra o crime, é contra as pessoas
Sonhar como ato político
A violência nos territórios periféricos é pautada pela ativista e educadora popular, Luana Oliveira da Rede Contra o Genocídio, moradora do Jardim São Luis, zona sul de São Paulo, que relaciona o direito de viver ao direito à cidade e à moradia segura.
“Como sonhar vivendo em um território extremamente violentado cotidianamente? É aí que subvertemos a lógica e resistimos. O sonho do nosso povo é deixar de ‘ter que sobreviver’ e ter o direito de viver plenamente: descansar, ser cuidadas, receber afeto e reconhecimento, e ter os filhos vivos. Será sonho ou apenas direitos fundamentais?”, reflete.
Luana afirma que o efeito da violência vai além: prejudica as relações, a circulação pelo bairro e a saúde mental. “Isso é muito perverso: matar os sonhos antes mesmo deles brotarem”, ressalta Luana.
“O que mais diferencia os sonhos [para 2026] da população negra periférica dos discursos gerais sobre segurança pública no Brasil é que, enquanto o debate hegemônico costuma associar segurança a controle, repressão e punição, os sonhos construídos nas periferias estão profundamente ligados à possibilidade concreta de viver, circular e existir com dignidade”, aponta.
A educadora fala que por meio de coletivos culturais, sociais e frentes como hip hop, funk, esporte, educação popular e redes de solidariedade, reinventam formas de existência, pois jovens negros e periféricos não se limitam ao extermínio.
“Em ano eleitoral, o debate sobre segurança pública precisa sair da lógica de ‘lei e ordem’ e colocar a vida como valor central. É essencial integrar cuidado, saúde, educação e políticas para juventude, mulheres e população negra, fortalecendo redes de proteção (CRAS, CREAS, CAPS, casas de acolhimento e serviços de enfrentamento à violência contra mulheres) e garantindo participação popular.”
Luana de Oliveira, geógrafa, educadora popular e articuladora da Rede de Proteção e Resistência Contra o Genocídio e do Fórum em Defesa da Mulher da Zona Sul.
Ela ressalta que segurança pública não é sobre “matar mais, mas fazer viver com dignidade, justiça racial e direito ao futuro”.
A análise é reforçada pela assistente social e moradora de Capão Redondo, zona sul de São Paulo, Edijane Alves. “Não há boas expectativas para esse formato de segurança oferecido para a periferia. O aumento de contingente efetivo de policiais nunca foi sinônimo de segurança para nós, pelo contrário”, diz.
Informações do 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, publicado em 2025, mostram que as mortes decorrentes de intervenção policial tiveram aumento de 60,9% em 2024 no Estado de São Paulo. Em comparação com os dados de 2022, os dois primeiros anos da gestão do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, apresentaram um aumento de 91% na letalidade policial.
Ao propor um caminho inverso, Edijane menciona que segurança pública precisa estar alinhada a demais políticas públicas. “O Estado não pode se fazer presente na base do medo. O Estado precisa estar presente na oferta de cuidado e possibilidades, o que nunca aconteceu”.
“Um Estado que garanta uma educação de qualidade, o acesso à saúde e a cultura não vai precisar investir em armas ou contingente militar. O discurso progressista da esquerda precisa avançar para prática ou continuaremos sob o legado de coronéis políticos que dominam os territórios periféricos desde sempre.”
Edijane Alves, assistente social.
Necessidades básicas atendidas também é cuidado com saúde mental
Ao pensar sobre saúde mental, também é preciso considerar os pilares que compõem os direitos básicos das pessoas, como saúde, emprego, segurança, cultura e lazer. É o que coloca o psicólogo Everton Mendes, idealizador do coletivo Pluriversais, dedicado a discurtir saúde mental entre homens negros.
“Quando isso estiver estruturado, podemos começar a falar sobre outros atravessamentos existentes em saúde mental”, coloca ao citar os fatores estruturais de maior impacto na saúde integral da população periférica.
De acordo com Everton, que é morador da zona leste de São Paulo, o acesso a crédito e empregos também são fatores determinantes. “Temos também as Bets que chegam nas periferias como uma possibilidade de complementação de renda que, de acordo com tudo o que estamos percebendo, vem despotencializando [sic] ainda mais as estruturas das famílias periféricas”, afirma.
“As periferias sempre buscaram lazer e formas de lidar com o desamor das elites, mas hoje as redes sociais agravam a depressão e ansiedade ao individualizar o sujeito. Voltar a estar em comunidade funciona como um antídoto paliativo. Fala-se em reeducação alimentar, atividade física e reorganização de rotinas, mas para quem sai de casa às 6h e retorna às 23h, é pouco lógico.”
Everton Mendes, psicólogo e idealizador do coletivo Pluriversais, voltado à discutir saúde mental entre homens negros.
Com a proximidade das eleições, a saúde mental das populações periféricas é ameaçada pela violência, discursos de ódio e desinformação. Segundo Everton, entender propostas, se informar e reconhecer opiniões diferentes ajuda a lidar melhor com o período, enquanto notícias falsas aumentam a vulnerabilidade das comunidades.
“Em 2022, no grupo que conduzo, fizemos uma enquete sobre o candidato a prefeito. 95% escolheram um de esquerda e apenas uma pessoa, um candidato de direita. Ao problematizarmos, entendemos que ele fazia parte de um movimento de moradia, e via no candidato de direita melhores condições para seu movimento, o que ajudou todos a compreenderem seu voto”, revela.
“Sonhamos em viver bem. Ter liberdade para o ir e vir, comer sem preocupação, receber um salário juntos, dormir e acordar com segurança, ter um tênis e uma roupa legal, poder ir pra praia, cuidar da família. Ou seja, o que a quebrada deseja ainda é que haja garantia dos direitos básicos humanos.”
Everton Mendes, psicólogo e idealizador do coletivo Pluriversais, voltado à discutir saúde mental entre homens negros.
O ano traz sonhos antigos também para a educação pública. O papel da escola será formar cidadãos críticos, capazes de agir sobre desigualdade social, racismo, machismo e crises ambientais, avalia o professor e conselheiro Rubens Baldini, morador do distrito do Campo Limpo, localizado na zona sul de São Paulo, que destaca a necessidade de valorização dos professores e melhores condições de trabalho.
Para Rubens, “os professores buscam tanto os institutos federais porque essas carreiras garantem salário compatível com a titulação, dedicação exclusiva ao ensino e à aprendizagem, e ainda permitem atuar em pesquisa e extensão, aquele tripé que é fundamental para a educação, embora nem sempre seja reconhecido”, considera.
“Na educação básica, muitas vezes, o foco acaba ficando muito mais na perspectiva do ensino do que propriamente do aprendizado, o que é até contraditório. […] Quando falamos em valorização da carreira docente, não estamos falando somente de remuneração, mas de estrutura de carreira, dos prédios, condições de trabalho, da qualidade e da disponibilidade de instrumentos pedagógicos que permitam efetivar a atuação docente. O principal ponto-chave: a valorização do professor”, acrescenta.
Para ele, outro ponto importante é a educação de crianças e jovens da Educação Especial. “Temos visto um aumento significativo no número de crianças laudadas e, junto com isso, uma pressão social crescente pela ampliação dos serviços voltados às pessoas com deficiência”, afirma o educador ao destacar que apesar de leis como o Estatuto da Pessoa com Deficiência e a obrigatoriedade do ensino de Libras, a realidade das salas de aula ainda precisa de materiais pedagógicos e tecnologias assistivas para superar barreiras de aprendizagem.
Direito à moradia
Garantir terra e moradia, reconhecer famílias em ocupações e avançar na regularização fundiária são expectativas de muitas famílias da quebrada. “Sem regularização, serviços públicos não chegam: faltam pavimentação, saneamento e coleta de lixo. No extremo leste, onde moro, o caminhão de lixo sequer entra. A ausência do Estado é constante, e a justificativa é a irregularidade do território”, diz Silvia Jerônimo, conselheira tutelar e ativista dos movimentos de moradia.
“A moradia tem que ser entendida como acesso à cidade. Com o valor oferecido hoje pelo auxílio dado pelo governo do Estado [de São Paulo], as famílias não conseguem custear um imóvel próprio próximo à região do centro, onde elas moravam, onde tinham a rede de apoio, onde construíram histórias e vínculos na favela do Moinho, por exemplo”, destaca a conselheira tutelar, moradora do bairro Jardim Santo André, no distrito de São Rafael, zona leste de São Paulo.
“Muitas pessoas perdem essa rede de apoio com esse reassentamento que foi oferecido, e isto prejudica [a rotina e bem-estar]. O que eles querem é gentrificar aquela região, por interesse público e privado, o que consequentemente faz com que essas famílias tenham que sair do local onde moram”, acrescenta sobre a Favela do Moinho, ocupada por cerca de 880 famílias, em São Paulo, que em 2025 passou por um processo de reassentamento iniciado pelo governo do Estado, com apoio federal, para transferir moradores a moradias e implementar um parque urbano no local.
Como as desigualdades habitacionais afetam as pessoas e os territórios? #37
“Dentro do cenário que a gente vive hoje, essa mudança de tirar a família daquele local e já colocar numa casa própria e digna, é um sonho. Então, pelo menos, seria necessário um auxílio-aluguel robusto e justo, para que essas famílias possam custear o condomínio, custear o espaço e ter acesso a serviços, não ficando somente no extremo da periferia de cada cidade”, coloca Silvia.
“A política de moradia precisa ser feita com a construção de centros habitacionais, para que essa família não fique só no auxílio-aluguel, mas fique realmente em um imóvel que seja seu, que esteja no nome dela, que tenha fácil acesso à escola, aos serviços e que garanta o direito à cidade.”
Silvia Jerônimo, conselheira tutelar e militante nos movimentos populares de luta por moradia.
Para ela, o recente aumento do salário mínimo para R$ 1.621,00 não vai impactar, de fato, a capacidade das famílias de garantir o aluguel e uma moradia digna na favela. “Com esse valor, nem mesmo a própria alimentação está garantida. Enquanto não houver uma política pública social real que contemple essas famílias, não vamos sair [deste ciclo]”, finaliza.






