Dívida: juros rotativos, inadimplência e servidão contemporânea

Neste artigo para o Desenrola, o economista, Júlio César Djéli, desenvolve o tema de como as dívidas viram uma bola de neve e alienam o tempo de vida do trabalhador num ciclo vicioso que reencena a moralidade colonial.
Por:
Júlio César Djéli

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No ensaio anterior foi exposto o motivo pelo qual ter um segundo salário não significa ter uma “renda extra”, já que um segundo salário totalmente consumido por gastos e despesas essenciais à sobrevivência não gera excedente a ser investido.

Em outras palavras, o dinheiro do salário não rende. Além disso, foi exposto o que é fundamental: quem vive exclusivamente de renda vive às custas do trabalho dos outros. Assim, neste ensaio, o foco será desenvolver: como vivem estes outros? Para isso, temos três palavras-chave: inadimplência, juros rotativos e servidão contemporânea.

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Inadimplência é o nome que damos à situação em que o tomador do empréstimo não consegue mais honrar seus compromissos – sua dívida. Juros rotativos, quando não se paga o valor total da fatura do seu cartão de crédito até a data de vencimento e, com isso, o saldo restante “rola” para o mês seguinte como uma bola de neve. Antes de partir para o que chamo, então, de “servidão contemporânea”, ilustremos um cenário em que inadimplência e juros rotativos operam.

Primeiro, uma das máximas do sistema capitalista é que “tempo é dinheiro”. Segundo – como já vimos – juros é “o preço do dinheiro no tempo”. Com isso, um contexto em que o juros de uma dívida só cresce e nunca é quitado significa que o tempo do tomador do empréstimo é cada vez mais alienado ao pagamento da dívida e dos juros. Dito isso, apesar de desesperador, não é incomum: 80,4 milhões de brasileiros estão inadimplentes.

O cenário que temos diante de nós é que (1) o trabalhador médio mal consegue arcar com o essencial à sobrevivência com a remuneração pelo seu trabalho, (2) tem dívidas e juros das dívidas crescentes a pagar, (3) nome sujo, pois o banco já não acredita mais que ele vá conseguir honrar seu compromisso de quitar a dívida, (4) acesso a crédito negado, (5) contas a pagar no final do mês e (6) tempo “sobrando” para além do trabalho principal, ou seja, possibilidade de trabalhar ainda mais, “fazer um bico”.

Mês após mês, aumentam-se os juros a pagar e diminui-se o tempo para se viver para além das preocupações do mundo do trabalho – além da sobrevivência (Lembrando que o salário mínimo é hoje R$ 1.404,15 com a dedução de 7,5% de INSS e a cesta básica, R$ 1.298,00.). Essa dívida cresce desenfreadamente e, consequentemente, cresce a alienação do tempo de vida do trabalhador.

O que aponto, então, como a “servidão contemporânea” é o processo de alienação por dívida do tempo realizado pelo sistema bancário capitalista.

Na prática – o sistema bancário opera uma dinâmica que funciona como um mecanismo de captura do tempo de trabalho: “(re)escraviza” pobres por dívida e aplica o efeito multiplicador no dinheiro que eles depositam em suas contas para acúmulo de patrimônio dos ricos, gerando mais renda às custas do trabalho dos pobres. Assim – a roda gira. O banco movimenta a economia nominal enquanto o trabalhador, a economia real do território.

Antes de seguir, cabe uma contextualização do peso histórico do termo “servidão contemporânea”. Na Antiguidade –  na Mesopotâmia, em Atenas e em Roma – existia a chamada servidão por dívida, quando uma pessoa que não conseguia pagar um empréstimo era obrigada a trabalhar para o credor até quitar o débito, muitas vezes envolvendo sua família. Embora o sistema atual não imponha juridicamente a perda da liberdade física, ele (re)produz uma lógica estrutural semelhante: a dívida captura tempo futuro do trabalhador. 

No Brasil, esse debate ganha contornos ainda mais específicos, porque historicamente a exploração do trabalho – antes pela escravidão racializada africana e hoje pelo endividamento massivo – incide de forma desproporcional sobre a população negra.

É importante reconhecer as diferenças fundamentais entre escravidão legal e (ciclo vicioso de) endividamento financeiro: não se trata da mesma instituição, mas da mesma moral. Ao comparar as estruturas de coerção, vemos continuidades inquietantes na forma como o trabalho de certos grupos é sistematicamente apropriado e como o acesso desigual ao crédito, à renda e ao tempo revela a persistência, reincidência e aperfeiçoamento de hierarquias raciais e econômicas de opressão.

Com o patrimônio acumulado a partir da renda, pobres financiam o estilo de vida dos ricos e os ricos financiam seus projetos a fim de reorganizar a economia real no território. Por isso, antes de pautar ideias de bem-estar, bem-viver e projetos de país, no próximo ensaio serão desenvolvidos os temas estruturais à dinâmica urbana: servidão contemporânea, cotidiano, higienização e apartheid social.

Este é um conteúdo opinativo. O Desenrola e Não Me Enrola não modifica os conteúdos de seus colaboradores colunistas

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