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Inteligência periférica: Como é ser mulher, mãe e empreendedora na quebrada sem o suporte do Estado?

Na quarta reportagem da série "Inteligência periférica", contamos a história da artesã Thamyrys Tamer, que participava de muitos eventos com seu trabalho, mas com o início da quarentena precisou se readaptar e buscar novas formas de vender seus produtos.


Thamyrys Tamer Gonçalves, 30, usa uma das técnicas mais antigas que existem: o crochê, que é a sua fonte de renda. A empreendedora gere o Ateliê Herança de Vó, que confecciona peças de decoração usando fios de resíduo têxtil, produzindo desde cestos a almofadas, no Jardim Joana D'arc, Tremembé, na zona norte da cidade.

"Eu já trabalho na área informal praticamente há dez anos, e atualmente vivo apenas do meu negócio, eu sou parda e acredito que em relação a cor eu não sofra tanta negligência diretamente, eu acho que tem mais haver com meu gênero, as pessoas acham que não, mas a questão da mulher ser independente, mãe e solteira pesa muito no mercado", compartilha a artesã.

A decisão de sair da carteira assinada para Thamyrys vem do fato de conseguir sobreviver e sair do ciclo de ser um robô de grandes empresários. "Eu comecei a trabalhar informal, como autônoma, porque eu me via muito como um robô em um período da minha vida. Quando eu encontrei um meio de ter uma renda extra informal, me fez sair um pouco dessa robotização, e conseguir sobreviver com um pouco de flexibilização."

Para Tamer, o governo acaba fazendo com que as pessoas desistam de suas ideias e projetos devido às burocratizações que impõem para os profissionais se formalizarem no mercado. "Acho que para qualquer pessoa que está começando a empreender hoje e para quem está empreendendo a mais tempo, o que falta é encontrar um passo a passo, o governo enche de burocracia, não tem uma informação clara, é a aquela famosa expressão parece que eles dificultam justamente para fazer com que você pague o pato", coloca a profissional.

A pandemia gerou uma queda de mais de 90% dos eventos que o ateliê participava. Antes se sustentava principalmente com a venda para os eventos, mas com a crise da covid-19 começou a focar suas vendas de forma totalmente online e pelas redes sociais.

"Com a pandemia, realmente foi um surto, porque quando o mercado de eventos ia começar a aquecer que seria em março, parecia um boliche, vários eventos um atrás do outro caindo, cancelando, sem previsão de retorno. A renda foi de 100% para 10%, não era mais nem pra dar certo, era pra sobreviver mesmo, aí a gente começou a buscar outros meios de ter um retorno financeiro estando dentro de casa", relata a empreendedora.

A artesã enfatiza que o poder público não está ajudando em nada o comerciante neste momento, e sem isso a economia só tende a quebrar. "O governo deveria ajudar nesse momento, mas continua dificultando muito, acho que tem que partir deles essa informação clara, e auxiliar o empreendedor, fazer com que ele caminhe, desenvolva e cresça, porque é esse empreendedor que vai custear boa parte dos impostos, ajudar a população na economia, na saúde, na educação".

Thamyrys Tamer, artesã. Arte: Flávia Lopes

A pandemia trouxe uma demanda de criar estratégias para alavancar as vendas no mundo online. A artesã conta que precisou ter mais foco nas vendas online, pensar com mais familiaridade em cadastrar produto, criar estratégia de venda e criar produtos novos: "As pessoas em casa começaram a reparar melhor que elas precisam de itens para decorar e organizar a casa, ter esse olhar mais crítico para o lar delas, e aí com isso gerou uma demanda maior de vendas".

Para Thamyrys, muitas pessoas se agitaram com a reabertura e volta de algumas atividades, mas o olhar mais humano para o lar, enxergando a casa como seu templo, seu lugar de reconhecimento e de paz, continuou o mesmo.

"Com isso as minhas vendas continuaram no mesmo patamar, e ainda eu consegui ter alguns picos de venda, com as datas especiais como dia das crianças. A black friday, o natal, então eu já to vendendo coisas de natal desde de setembro, porque as pessoas já querem começar a decorar, a se sentir em um ambiente confortável, as minhas vendas aumentaram nesse período", compartilha a artesã que acredita ter sido o ponto de partida do aumento de suas vendas as pessoas terem se familiarizado e enxergado benefícios na compra online, evitando ir até o estabelecimento.

Após alguns meses se readaptando ao novo cenário que a pandemia gerou, a artesã contratou três profissionais para auxiliar na produção e relata que hoje conseguiu mudar o olhar para o seu trabalho de apenas um serviço ou produto que estava fazendo para gerar renda, para pensar também no sentido de um negócio, e fazer crescer.

"Para empresa crescer como um todo, eu precisava começar a enxergar que eu precisava de uma produção maior para dar conta da demanda, e aí eu comecei agora uma formação com mulheres, que também são mães, que também não tem como sair porque dependem de ficar em casa", conta Thamyrys.

Além de gerar renda para sua família, a artesã passou a ter uma equipe: "Que nem agora, eu tô com uma mulher que ela precisa cuidar da mãe que tem alzheimer, eu tenho uma outra mãe trabalhando comigo que tem três filhas pequenas, então eu comecei a pegar pessoas do mesmo tipo de realidade que eu, que precisava trabalhar, que era mãe solo, precisavam estar em casa, então comecei a buscar pessoas que tem esse tipo de anseio de precisar de uma renda, mas não ter como trabalhar fora, para me ajudar com a produção", finaliza.

Na próxima reportagem, compartilhamos a última história da série "Inteligência periférica" de 2020. Você vai conhecer a Valdirene Rodrigues, costureira e moradora de Sapopemba na região leste de São Paulo, que durante a pandemia passou a produzir um dos itens essenciais para sair às ruas depois da chegada da covid-19, as máscaras de tecido.

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Sábado, 16 Janeiro 2021

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