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Dívida: juros rotativos, inadimplência e servidão contemporânea

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No ensaio anterior foi exposto o motivo pelo qual ter um segundo salário não significa ter uma “renda extra”, já que um segundo salário totalmente consumido por gastos e despesas essenciais à sobrevivência não gera excedente a ser investido.

Em outras palavras, o dinheiro do salário não rende. Além disso, foi exposto o que é fundamental: quem vive exclusivamente de renda vive às custas do trabalho dos outros. Assim, neste ensaio, o foco será desenvolver: como vivem estes outros? Para isso, temos três palavras-chave: inadimplência, juros rotativos e servidão contemporânea.

Inadimplência é o nome que damos à situação em que o tomador do empréstimo não consegue mais honrar seus compromissos – sua dívida. Juros rotativos, quando não se paga o valor total da fatura do seu cartão de crédito até a data de vencimento e, com isso, o saldo restante “rola” para o mês seguinte como uma bola de neve. Antes de partir para o que chamo, então, de “servidão contemporânea”, ilustremos um cenário em que inadimplência e juros rotativos operam.

Primeiro, uma das máximas do sistema capitalista é que “tempo é dinheiro”. Segundo – como já vimos – juros é “o preço do dinheiro no tempo”. Com isso, um contexto em que o juros de uma dívida só cresce e nunca é quitado significa que o tempo do tomador do empréstimo é cada vez mais alienado ao pagamento da dívida e dos juros. Dito isso, apesar de desesperador, não é incomum: 80,4 milhões de brasileiros estão inadimplentes.

O cenário que temos diante de nós é que (1) o trabalhador médio mal consegue arcar com o essencial à sobrevivência com a remuneração pelo seu trabalho, (2) tem dívidas e juros das dívidas crescentes a pagar, (3) nome sujo, pois o banco já não acredita mais que ele vá conseguir honrar seu compromisso de quitar a dívida, (4) acesso a crédito negado, (5) contas a pagar no final do mês e (6) tempo “sobrando” para além do trabalho principal, ou seja, possibilidade de trabalhar ainda mais, “fazer um bico”.

Mês após mês, aumentam-se os juros a pagar e diminui-se o tempo para se viver para além das preocupações do mundo do trabalho – além da sobrevivência (Lembrando que o salário mínimo é hoje R$ 1.404,15 com a dedução de 7,5% de INSS e a cesta básica, R$ 1.298,00.). Essa dívida cresce desenfreadamente e, consequentemente, cresce a alienação do tempo de vida do trabalhador.

O que aponto, então, como a “servidão contemporânea” é o processo de alienação por dívida do tempo realizado pelo sistema bancário capitalista.

Na prática – o sistema bancário opera uma dinâmica que funciona como um mecanismo de captura do tempo de trabalho: “(re)escraviza” pobres por dívida e aplica o efeito multiplicador no dinheiro que eles depositam em suas contas para acúmulo de patrimônio dos ricos, gerando mais renda às custas do trabalho dos pobres. Assim – a roda gira. O banco movimenta a economia nominal enquanto o trabalhador, a economia real do território.

Antes de seguir, cabe uma contextualização do peso histórico do termo “servidão contemporânea”. Na Antiguidade –  na Mesopotâmia, em Atenas e em Roma – existia a chamada servidão por dívida, quando uma pessoa que não conseguia pagar um empréstimo era obrigada a trabalhar para o credor até quitar o débito, muitas vezes envolvendo sua família. Embora o sistema atual não imponha juridicamente a perda da liberdade física, ele (re)produz uma lógica estrutural semelhante: a dívida captura tempo futuro do trabalhador. 

No Brasil, esse debate ganha contornos ainda mais específicos, porque historicamente a exploração do trabalho – antes pela escravidão racializada africana e hoje pelo endividamento massivo – incide de forma desproporcional sobre a população negra.

É importante reconhecer as diferenças fundamentais entre escravidão legal e (ciclo vicioso de) endividamento financeiro: não se trata da mesma instituição, mas da mesma moral. Ao comparar as estruturas de coerção, vemos continuidades inquietantes na forma como o trabalho de certos grupos é sistematicamente apropriado e como o acesso desigual ao crédito, à renda e ao tempo revela a persistência, reincidência e aperfeiçoamento de hierarquias raciais e econômicas de opressão.

Com o patrimônio acumulado a partir da renda, pobres financiam o estilo de vida dos ricos e os ricos financiam seus projetos a fim de reorganizar a economia real no território. Por isso, antes de pautar ideias de bem-estar, bem-viver e projetos de país, no próximo ensaio serão desenvolvidos os temas estruturais à dinâmica urbana: servidão contemporânea, cotidiano, higienização e apartheid social.

Este é um conteúdo opinativo. O Desenrola e Não Me Enrola não modifica os conteúdos de seus colaboradores colunistas

Aderecista reforça protagonismo dos trabalhadores do Carnaval: “Somos um setor de imensa importância”

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Na contagem regressiva para o início do Carnaval, os dias foram intensos para Victoria Tamazi, também conhecida como Vycki. Aos 29 anos, a aderecista que coordena o ateliê da escola de samba Grêmio Recreativo Cultural Social Unidos de Santa Bárbara acordava cedo e se deslocava para o barracão da agremiação para garantir que tudo estivesse pronto e alinhado a tempo para o desfile, que aconteceu no dia 16 de fevereiro.

A Unidos de Santa Bárbara faz parte da União das Escolas de Samba Paulistanas (UESP), figurando no Grupo Especial de Bairros, que desfilam pela Av. Eliseu de Almeida, no Butantã, zona oeste de São Paulo. 

“Estou alojada na quadra da escola, onde tudo acontece, finalizando os últimos detalhes para realizarmos um grande espetáculo”, contou ela durante entrevista dias antes do desfile. A aderecista, que também é musa da escola de samba, faz parte das centenas de trabalhadores que movimentam a cadeia produtiva da maior festa popular do mundo.

Nascida e criada no Itaim Paulista, distrito da zona leste de São Paulo, mesmo território em que está localizada a escola de samba, Vycki se reconhece no mundo como uma mulher preta travesti e é também uma das tantas pessoas que diariamente preservam e fortalecem o Carnaval como lugar de pertencimento, identidade e memória. 

Vycki explica que o processo começa bem antes do desfile. Segundo ela, tudo vai sendo construído ao longo do ano, com pesquisa, preparação e ajustes constantes. Para dar forma às ideias, busca referências e troca com integrantes da escola. 

“Faço pesquisas, converso, peço dicas para o carnavalesco na hora de montar algum adereço ou fantasia”, conta, mostrando como seu trabalho ajuda a manter a tradição viva a partir das trocas coletivas e do cuidado com cada detalhe, reforçando o Carnaval como espaço de identidade e pertencimento.

Cercada de muitas referências e inspirações desde cedo, ela compartilha como tudo começou. “Desde muito pequena, gostei de explorar e usufruir do meu lado criativo. Era meu sonho ser estilista quando crescesse”, destaca a aderecista que sempre gostou de estar por dentro das tendências de moda e de dar dicas, em especial, às mulheres da sua família. 

O gosto por moda ganhou novos contornos quando, ainda adolescente, passou a ajudar na escola de samba. “Aos 16 anos, passei a ajudar a confeccionar fantasias de ala na Unidos de Santa Bárbara. Daí em diante, peguei gosto pelos adereços”, fala Vycki que, pouco depois, aos 21 anos, foi contratada efetivamente como assistente de carnavalesco pela mesma escola e pôde então colocar mais do seu conhecimento em prática.

“Acredito muito que meu território influencia meu trabalho e minha [relação com o Carnaval]. Foi onde encontrei minha paixão. Mesmo não exercendo atualmente a profissão de Design de Moda, sinto que ser aderecista também é muito [gratificante].”

Vycki Tamazi, moradora de Itaim Paulista, zona leste de São Paulo, e aderecista da escola de samba Unidos de Santa Bárbara

Vendedores ambulantes, aderecistas, costureiras, escultores, pintores, maquiadoras, carnavalescos, marceneiros, seguranças, vidraceiros, entre outros trabalhadores, são exemplos de quem constrói, ao longo de todo o ano, os bastidores de uma das maiores festas populares brasileiras.

Trabalho na folia

Em São Paulo, de acordo com levantamento interno da Prefeitura Municipal, o Carnaval paulistano de 2025 registrou recorde com mais de 760 blocos inscritos, atraindo cerca de 16,5 milhões de foliões e movimentando mais de R$ 3,4 bilhões na economia da cidade. A festa incluiu desfiles no Sambódromo do Anhembi e teve a escola de samba Rosas de Ouro como campeã do Grupo Especial.

Outro levantamento interno da Prefeitura prevê que cerca de 15 mil ambulantes credenciados tenham atuado durante o Carnaval de Rua 2026, que acontece oficialmente em São Paulo entre os dias 7 e 22 de fevereiro.

Com relação aos desfiles das Escolas de Samba dos Grupos de Acesso, que tem relação com a Liga das Escolas de Samba de São Paulo, a atual campeã do Acesso I é a Tom Maior, que subiu para o Grupo Especial em 2026, junto com a Mocidade Unida da Mooca. No Grupo de Acesso II, a escola Morro da Casa Verde, uma agremiação tradicional, conquistou o título, garantindo vaga no Acesso I. 

Enquanto nas escolas regidas pela União das Escolas de Samba Paulistanas (UESP), a Uirapuru da Mooca foi a campeã do Grupo Especial de Bairros, já a União de Santa Bárbara conquistou a quinta posição na mesma categoria, em 2025.

No Grupo Especial de Blocos, a escola Mocidade Independente da Zona Leste, criada no Jardim Santana, foi coroada campeã. Os desfiles das escolas que pertencem a estes grupos costumam acontecer fora do sambódromo, fortalecendo o Carnaval de base, formado por blocos de rua e agremiações de bairro. 

“Somos um setor de imensa importância”, destaca Vycki sobre a contribuição dos trabalhadores nos territórios.

Neste contexto, avalia que reafirmar o Carnaval como expressão de celebração e ancestralidade negra passa pelo reconhecimento de sua história e pelas trocas cultivadas no caminho. 

“Me sinto honrada e grata em fazer parte desse mundo que é o Carnaval, aprendi muito com o tempo aquilo que não entendia antes e troquei experiências com grandes profissionais, como o carnavalesco, Jair Souza”, conta.

Ela ressalta o papel da mulher nessa construção. “Dentro do Carnaval, seguimos com carinho, dedicação e amor em tudo o que fazemos. E, enquanto mulher trans, isso é a prova da nossa força: nós, corpos trans, podemos chegar onde quisermos”, diz.

Para Vycki, o chão do território desperta um olhar sensível e influencia seu trabalho. “Hoje, na linha de frente como coordenadora do atelier da minha escola, tenho muito orgulho em ocupar este posto e colocar meu talento em prática para realizar tamanho espetáculo que é o Carnaval”, conclui.

Especialista orienta como agir em casos de violência sexual no Carnaval: “O primeiro passo é acolher”

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A festa que celebra a alegria e a diversidade, também exige atenção e prevenção. É o que aponta a pesquisadora e especialista em violências, Cristiane Vicente, sobre as dinâmicas de violências ocorridas durante o Carnaval que atingem, principalmente, mulheres e crianças, que em sua maioria são pessoas negras e periféricas.

A pesquisadora lembra que essas violências são antigas, mas no contexto do Carnaval, se agravam. “Costumamos cuidar destas pessoas somente quando chegam na unidade de emergência”, alerta Cristiane ao ressaltar que muitas mulheres e crianças já são impactadas por outras violências e conflitos, como conflitos armados.

“Eles cotidianamente geram consequências de longo prazo, como, por exemplo, sofrimento psíquico, que muitas das vezes vira um déficit, transtorno de estresse pós-traumático e ansiedade, depressão”, exemplifica.

Violência sexual é qualquer situação de cunho sexual que acontece pela ausência de consentimento, mas ela pode se manifestar de diferentes formas. Um estupro ou tentativa de estupro, é quando alguém força uma relação com violência ou ameaça; a importunação sexual é quando ocorrem toques físicos ou atos sem a permissão da outra pessoa, muitas vezes em espaços públicos; o assédio sexual é aquele constrangimento com insinuações ou propostas indesejadas; o abuso sexual ocorre quando a pessoa não tem condições de consentir, como no caso de crianças ou outras pessoas vulneráveis; já a exploração sexual é quando alguém lucra ou tira vantagem da sexualidade de outra pessoa.

Cristiane lembra que a violência impacta as mulheres de forma diferente de acordo com o contexto social em que estão inseridas. Nesse sentido, segundo a pesquisadora, não basta que os equipamentos de saúde e segurança pública funcionem se não estiverem devidamente prontos para acolher a vítima sem revitimização.

“Uma mulher que vive em uma favela, por exemplo, pode até acionar a Lei Maria da Penha. Mas, se ela precisa sair de casa para se proteger, para onde ela vai? Existe política habitacional suficiente? Existe rede de acolhimento estruturada naquele território? A assistência social chega? A Defensoria Pública consegue atender?”, questiona.

Violência sexual no Carnaval

A violência sexual aparece como a mais comum e geralmente as vítimas são mulheres e meninas. Dados do Instituto Locomotiva, de 2024, mostram que quase metade das brasileiras (47%) já sofreram algum tipo de violência sexual ou de assédio no contexto do Carnaval. 

Cerca de 7 em cada 10 brasileiras têm medo de sofrer assédio no Carnaval. Enquanto 73% delas têm receio de passar por essa situação pela primeira vez ou novamente. A proporção é ainda mais alta entre mulheres negras, chegando, respectivamente, a 52% e 75%. Além disso, 60% delas discordam que hoje o Carnaval é mais seguro para as mulheres e que há menos assédio que no passado. Essa percepção também é maior (65%) entre as mulheres negras.

“Quando a gente olha os dados de segurança, o que sempre aparece com muita nitidez é que os corpos negros são os mais violentados. E quando a gente recorta por gênero, as mulheres negras aparecem em situação ainda mais vulnerável. Isso nos obriga a fazer uma pergunta central: os equipamentos públicos de proteção chegam da mesma forma para essas mulheres que vivem nos territórios mais precarizados?”, destaca a pesquisadora. 

No Carnaval isso fica mais evidente, mas não começa nem termina ali. “Existe uma objetificação histórica do corpo da mulher negra. E muitas vezes há uma tolerância social perigosa, como se certos corpos fossem públicos, disponíveis. O Carnaval amplifica algo que acontece todos os dias”, acrescenta Cristiane sobre as dinâmicas do racismo e do sexismo.

“A mulher não sai na rua apenas com a roupa que veste, ela sai calculando iluminação, horário, trajeto, risco. Quando sofre violência, ainda precisa reviver o trauma repetidas vezes para provar o que aconteceu e nem sempre encontra equipamentos públicos preparados para lhe acolher”, denuncia.

De acordo com a pesquisadora, existem delegacias especializadas quando os casos envolvem teor racial e delitos de intolerância, mas ela destaca que uma única estrutura não dá conta da dimensão do machismo e do racismo estrutural.

Como agir em casos de violência?

Cristiane ressalta que o primeiro passo é acolher a vítima. O segundo é denunciar. “A gente sabe que também existe medo de se posicionar, o medo de denunciar e de sofrer represália. Mas, se acontecer qualquer situação de violência, é importante procurar ajuda imediatamente. Se houver outras unidades próximas, seja municipal, estadual, etc, acione. Se houver policial, guarda municipal, apontem o agressor. Identifiquem o criminoso. Não se cale”, incentiva.

Ela reforça que todas as unidades de saúde estão preparadas para atender, desde Unidades de Saúde da Família, Clínicas da Família, serviços municipais de saúde, Unidades de Pronto Atendimento e hospitais gerais.

“Todos devem receber mulheres que sofreram estupro, mas também homens, pessoas trans, etc. O atendimento é para qualquer pessoa vítima de violência sexual. E, se houver qualquer outro tipo de discriminação ou mau atendimento, a orientação é denunciar. Ligar para o 180 e registrar a ocorrência. O 180 é um canal nacional de orientação e denúncia.”

Cristiane Vicente nasceu na Cidade de Deus, zona oeste do município do Rio de Janeiro, atua no SUS (Sistema Único de Saúde), é mestre em saúde pública e pesquisadora sobre violências.

De acordo com Cristiane Vicente, a Ficha de Notificação/Investigação Individual de Violência Interpessoal e Autoprovocada,  utilizada em estabelecimentos públicos e privados que recebem vítimas de violência de qualquer natureza,para envio de dados ao Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), garante sigilo e proteção e deve ser preenchida corretamente.

“Essa ficha não é uma denúncia criminal e não tem caráter policial. É uma notificação em saúde que serve para produzir dados e orientar políticas públicas para que o Estado consiga dimensionar o problema, criar respostas [adequadas] e sensibilizar profissionais. O intuito não é expor ninguém”, esclarece.

Cristiane finaliza com outras orientações aos foliões. “É importante evitar andar com muitos documentos, cartões de crédito, jóias, principalmente em grandes eventos e precisa de logística mais protegida. Esse não deveria ser o foco enquanto estamos nos divertindo, mas infelizmente vivemos em um estado cada vez mais violento, por isso é importante destacar o cuidado, mas não como transferência de responsabilidade e sim como estratégia de proteção”.

Como proteger as crianças da violência durante o Carnaval

Ao identificar qualquer tipo de situação suspeita relacionada a trabalho infantil, violência física, psicológica ou situações de abuso sexual, entre denuncie:

Ligue para o Disque 100

Acione o Conselho Tutelar da sua cidade ou bairro

Você também pode procurar a Polícia Militar (ligue 190) ou buscar ajuda da Guarda Municipal caso esteja em local público.

Para canais de denúncia de violência contra a mulher, acione:

Disque 180 (Central de Atendimento à Mulher da Polícia Militar)

Disque 181 (Disque Denúncia) 

Tendas exclusivas para atendimento de mulheres nos principais blocos de Carnaval da sua cidade

Equipes de policiamento nos blocos

Delegacias de Defesa da Mulher (DDM)

Delegacia Eletrônica da Polícia Civil

Atendimento presencial em delegacias de polícia e salas DDM Online da sua cidade.

Violência doméstica: romper padrões também é um ato ancestral

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“Não fui livre enquanto alguma mulher não o fosse, mesmo quando suas correntes eram muito diferentes das minhas.” (Audre Lorde)

Olá, meus queridos leitores. Retorno para mais uma sessão, abrindo os trabalhos de 2026, agradecendo por mais um ano de oportunidades e caminhos abertos.

Inicio com um tema amplamente debatido pelas mídias e por campanhas de enfrentamento ao feminicídio. Algo que, infelizmente, nunca foi novidade para nós, mulheres, sobretudo quando atravessadas pelo recorte racial. Essa pauta me convoca a uma reflexão que venho construindo aqui com vocês: o resgate ancestral e a forma como as questões psicológicas nos atravessam no presente.

É preciso costurar o agora com uma história de perversidade construída contra os corpos femininos, especialmente os corpos das mulheres pretas. 

Lamento profundamente que ainda não compreendamos, de forma plena, os direitos humanos básicos: o direito de viver com liberdade de escolha. Ainda hoje, vidas são retiradas pela ideia de poder que alguém acredita ter sobre o corpo e a vida do outro.

Confesso que sinto iniciar o ano com este tema. Gostaria de falar apenas de assuntos leves e felizes. Mas a vida que nos atravessa e atravessa tantas mulheres, não nos permite esquecer.

O que proponho aqui é compreender, a partir de um contexto histórico, ancestral e psicológico, por que tantas mulheres permanecem em situações de risco e vulnerabilidade em relacionamentos tóxicos e violentos, mesmo diante de alertas evidentes.

Homens e mulheres são atingidos pela violência de maneiras diferentes. Enquanto os homens tendem a ser vítimas de violências praticadas majoritariamente no espaço público, as mulheres sofrem, cotidianamente, com um fenômeno que se manifesta dentro de seus próprios lares, na maioria das vezes praticado por companheiros ou familiares.

A Política Nacional de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres nos oferece um marco importante para compreender essa realidade. Ela reconhece que a violência contra as mulheres se manifesta de múltiplas formas, doméstica, psicológica, física, moral, patrimonial, sexual e atravessa todas as classes sociais, raças, idades e territórios. 

No entanto, ela se agrava quando combinada às desigualdades de gênero, raça e classe, historicamente construídas em uma sociedade patriarcal e racista.

Mais do que um conjunto de casos isolados, trata-se de um fenômeno estrutural e relacional, sustentado por relações desiguais de poder entre homens e mulheres. Por isso, a violência contra as mulheres deve ser compreendida como uma violação dos direitos humanos, exigindo não apenas punição, mas também prevenção, proteção, responsabilização e cuidado.

No campo da saúde mental, essa violência nem sempre se apresenta de forma explícita. No espaço terapêutico, tenho observado homens utilizando estratégias cada vez mais sutis de controle: manipulações emocionais, ameaças veladas, inversão de culpa e responsabilização da mulher pelo sofrimento do outro. 

Muitas vezes, essas práticas também atingem mulheres maduras e experientes, produzindo confusão psíquica, medo, perda de autoestima e fragmentação da identidade. O destino, porém, é o mesmo: a violência doméstica.

Seguimos, assim, sendo responsabilizadas pelo outro. Um outro que, de forma cruel e desumana, apenas muda a estratégia de dominação.

Diante disso, a pergunta que se impõe é: como nós, mulheres contemporâneas, podemos interromper esse ciclo e enfrentar os números alarmantes de violência e feminicídio?

Acredito que o caminho passa por olhar para trás sem repetir. 

Honrar a história de nossas mães e avós não significa reproduzir seus silêncios, mas aprender com eles. É preciso nos trazer para o centro da questão e perguntar: quais são os meus desejos? Para onde este relacionamento me conduz? O que estou repetindo a partir das minhas faltas e dores não cuidadas?

Nossas ancestrais — mulheres que viveram dores profundas e violências extremas — não desejaram esse destino para nós. Lutaram para que pudéssemos nos libertar do jugo que obrigava mulheres pretas a carregar o mundo nas costas enquanto eram silenciadas e invisibilizadas.

O culto afrobrasileiro tem histórias que mostram às Yabás (divindades femininas) que enfrentaram a opressão, se unindo e criando a sociedade Elekô (descrita em outro artigo aqui). São Deusas guerreiras que mostraram o quanto o lugar do feminino era de cuidado, mas também de fertilidade, amor próprio e de possibilidades de cura e o respeito às mulheres.


Se hoje temos escolhas, que possamos fazê-las assumindo responsabilidade não pelo outro, mas por nós mesmas, por nossas vidas e pelas histórias que precisam ser transformadas e curadas.

A dor, a perda da autoestima e a falta de autonomia podem e devem ser cuidadas por profissionais da saúde mental. Existem redes, políticas públicas e caminhos possíveis.

No Núcleo Obará, tenho acompanhado mulheres que chegam marcadas pelo medo, pela culpa e pelo silenciamento. O trabalho terapêutico, aliado aos saberes ancestrais e ao cuidado coletivo, tem mostrado que reconstruir a própria história é possível quando a mulher deixa de carregar sozinha a responsabilidade pela violência que sofreu.

Quebrar padrões exige consciência, escuta interna e escolhas coerentes com a vida que desejamos sustentar. Romper o silêncio também é um gesto de amor-próprio, de cuidado coletivo e de ancestralidade viva. Quando uma mulher escolhe viver, ela honra não apenas a si mesma, mas todas aquelas que vieram antes e não puderam escolher.

Saiba onde denunciar situações de violência contra a mulher:

Para emergências, disque 190 para chamar a Polícia Militar.

Pelo número 180, fale com a Central de Atendimento à Mulher, do Ministério das Mulheres.

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“Deixo de pagar o aluguel pra poder comprar as coisas dentro de casa”: Exclusão socioeconômica contribui com endividamento de mulheres negras

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Mercado, feira, farmácia, conta d’água e luz, leite para as crianças, fralda, açougue, aluguel, dentre outros itens e serviços básicos, são alguns dos compromissos fixos que Adriana Menezes, 35, precisa pagar todo mês. “As despesas mais altas daqui são o aluguel, a água e a luz”, relata ela, que atualmente está desempregada e conta que os boletos de cobrança não param de chegar.

Moradora de Diadema, município da região metropolitana de São Paulo, Adriana vive com seus dois filhos — um de nove anos e outro de dois anos e três meses —, conta que precisa se “virar nos trinta” para fechar as contas no fim do mês. “Sou eu a responsável por organizar tudo, as contas, a casa”, destaca.

Ela conta que em determinadas situações, precisa identificar qual a prioridade do momento. “Deixo de pagar o aluguel pra poder comprar as coisas dentro de casa e para meus filhos. Fico muito preocupada, sem saber como vou pagar o aluguel depois”, explica. 

“A responsabilidade fica toda nas minhas mãos, afinal, sou mãe solo de dois filhos. Tenho que organizar o que preciso comprar, porque tudo está muito caro, então deixo de comprar uma coisa para conseguir outra”. 

Adriana Menezes, dona de casa, mãe de duas crianças e moradora de Diadema, município localizado na região metropolitana de São Paulo.

Com os aumentos comuns de começo de ano, as contas ficam ainda mais pesadas. Para garantir que nada de essencial falte, diz que economizar cada centavo faz a diferença no orçamento. 

“Sempre no começo do ano costuma ser bem complicado. Cada ano que passa o pãozinho vai aumentando. Antes, a gente pagava 10 centavos na unidade e hoje um pão custa pelo menos 60 centavos. Está um absurdo e tem dia que eu passo um aperto enorme dentro de casa”, conta Adriana, que já atuou como ajudante geral em um restaurante industrial.

Ela conta que em 2023, período em que estava grávida, também estava desempregada. “No ano passado foi difícil de novo, pois tive alguns problemas com o aluguel aumentando, as coisas no mercado subindo, [é triste] ver o seu filho pedindo as coisas e não ter dinheiro pra comprar”, compartilha. 

Por morar perto dos serviços que fazem parte da sua rotina (mercado, creche, farmácia, dentre outros), diz que não costuma andar de transporte público com frequência. Segundo Adriana, o uso é esporádico, quando surge alguma necessidade, como, por exemplo, emergências que exigem levar os filhos ao hospital.

 “Quando vou levar as crianças ao médico, daí tenho que usar ônibus. A tarifa aumentou, de novo, para R$7,50. Caso algum dia eles fiquem doentes e eu não tenha esse valor para pagar o ônibus, já sei que terei que me virar e ver o que fazer.”

Adriana Menezes, dona de casa, mãe de duas crianças e moradora de Diadema, município localizado na região metropolitana de São Paulo.

Desde o dia 6 de janeiro, as tarifas do transporte público subiram em todo o Estado de São Paulo. Na capital, o bilhete do metrô e dos trens passou de R$ 5,20 para R$ 5,40, representando um aumento de 3,85%. Em Diadema, as linhas municipais, administradas pela empresa Suzantur, sofreram reajustes com valores subindo para R$ 4,50 no cartão SOU+Diadema (5,88% de aumento) e R$ 5,90 no dinheiro (7,28% de aumento). O vale-transporte foi reajustado para R$ 7,50. O novo valor é válido desde o dia 12 de janeiro de 2026.

Segundo relatório da Oxfam, o salário médio no Brasil, em 2022, foi de R$ 2.540, enquanto o custo médio do transporte público foi de R$ 4,80. Nesse período, quem recebia o salário médio e utilizava duas passagens por dia poderia comprometer cerca de 11% do orçamento mensal apenas com deslocamento. O problema mostrou-se ainda maior para quem vivia com um salário mínimo e para moradores de capitais e regiões metropolitanas, onde as tarifas costumam ser mais caras, com o custo do transporte podendo chegar a consumir de 15% até 20% da renda mensal.

A diademense faz parte de um grupo que é maioria no Brasil: mulheres negras, que representam 28,5% da população, ou seja, 60 milhões de pessoas.

No entanto, essas mulheres também demonstram habilidades que precisam desenvolver para lidar com esse cenário de desigualdade, para gerir e fazer render o dinheiro. A pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) de 2023, aponta que elas também são as mais preocupadas e empenhadas em quitar restrições no nome.

Até outubro de 2025, 79,5% das famílias brasileiras tinham algum tipo de dívida a vencer, o que representa o maior índice já registrado em toda a série histórica da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), realizada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), que analisou dados coletados em todas as capitais brasileiras e no Distrito Federal (DF), com aproximadamente 18 mil entrevistados. 

Apesar da alta, o levantamento apresentou uma desaceleração (0,6%) em comparação com o ano anterior (2024), que registrou 78,9% de devedores. Nesse contexto, vale ressaltar que a população negra é maioria no país, totalizando cerca de 112,7 milhões de pessoas (55,5% do total), conforme o Censo 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com os pardos representando 45,3% e os pretos, 10,2%. 

Considerando as famílias com débitos, 30,5% são consideradas inadimplentes (estão com pagamentos atrasados) e 13,2% afirmam que não terão condições de pagar as parcelas. 

Entre as dívidas mais comuns, o cartão de crédito lidera, presente em 85,1% dos casos. Seguido de carnês, citados por 16,2%, e as linhas de crédito pessoal, com 12,1%. Na sequência, aparecem os financiamentos de imóveis e carros, com 9,6%, o crédito especial, com 3,3%, e outras dívidas, com 2,6%.

Já o Mapa da Inadimplência e Negociação de Dívidas no Brasil (dez./2025) — relatório mensal divulgado pela Serasa — traz indicadores que mostram que o perfil das pessoas com o nome restrito é composto em 50,4% por mulheres com idades entre 41 e 60 anos. Na sequência, aparecem pessoas de 26 a 40 anos (33,8%) e, por fim, consumidores acima de 60 anos, que correspondem à 19,5%.

No caso de Adriana, o Bolsa Família — programa de transferência de renda do governo federal para famílias em situação de pobreza e extrema pobreza — é essencial enquanto ela está desempregada. 

“Recebo R$700,00 e com esse dinheiro pago a conta d’água, aluguel e luz, com desconto na energia que consegui no CRAS. Esse programa me ajuda muito. Consigo também comprar fralda, leite e fazer alguns bicos para complementar. Se não fosse o Bolsa Família, não sei o que seria”, conta.

Exclusão socioeconômica

Para a matemática, educadora financeira, bancária e pesquisadora sobre finanças com recorte racial e de gênero, Patrícia Marins, organização financeira não muda estrutura de desigualdade. 

“Existem limites estruturais muito claros. Segundo o IBGE, com base nos dados da PNAD Contínua de 2022, trabalhadores negros recebem, em média, cerca de 40% menos do que trabalhadores brancos no Brasil. Isso mostra que a desigualdade não nasce da forma como as pessoas organizam o dinheiro, mas da forma como a renda é distribuída.”

 Patrícia Marins é matemática, educadora financeira, bancária e pesquisadora sobre finanças com recorte de racial e de gênero.

Ao mesmo tempo, destaca que educação financeira tem um papel importante dentro do que está ao alcance da pessoa. “Ela não elimina desigualdade, mas ajuda a reduzir vulnerabilidades e ampliar autonomia.”

A pesquisadora, que atua com foco em mulheres negras, tem sua própria história como referência. “Cresci na periferia, sou filha de trabalhadora doméstica e vivi uma realidade onde o dinheiro era uma preocupação diária. A organização financeira não mudou o sistema, mas mudou minha relação com o dinheiro e ampliou minhas possibilidades.”

Segundo o IBGE, no Censo Demográfico de 2022, mulheres negras representam a maior parcela entre as chefes de família no Brasil. Ao mesmo tempo, a PNAD Contínua de 2022, mostra que elas concentram maiores índices de informalidade e menores salários. “Essa combinação gera uma sobrecarga financeira muito grande. Quando surge um imprevisto, muitas vezes o crédito acaba sendo o único caminho possível”, analisa. 

Patrícia ainda menciona que com a entrada de casas de apostas e jogos de azar digitais nas periferias, o crescimento das Bets no Brasil tem preocupado. “Para famílias com renda limitada, essas perdas podem comprometer gastos essenciais, pois o jogo chega com uma narrativa de ganho rápido, mas funciona dentro de uma lógica matemática que favorece a perda”.

Uma pesquisa do Datafolha, divulgada em 2024, apontou que cerca de 15% dos brasileiros já fizeram apostas online, sendo que a maior parte relatou perdas financeiras. 

Psicóloga Verônica Rosa fala sobre os impactos das apostas online nas periferias

Segundo a especialista, o racismo e a desigualdade social definem, juntos, limites claros sobre quem pode ou não usufruir de qualidade de vida. O funil se estreita ainda mais em momentos de maior instabilidade econômica. 

“São várias despesas que aumentam ao mesmo tempo. No início do ano, surgem despesas obrigatórias como material escolar, reajuste de transporte, energia e alimentação. Isso pressiona ainda mais o orçamento. O aumento do salário mínimo é importante, mas ele é rapidamente absorvido pela inflação dos itens básicos. Então o alívio existe, mas costuma ser limitado.”

Patrícia Marins é matemática, educadora financeira, bancária e pesquisadora sobre finanças com recorte de racial e de gênero.

Políticas públicas contribuem para a justiça econômica

Patrícia ressalta ainda que justiça econômica se faz com políticas públicas. Quebrar o preconceito contra benefícios e programas de transferência de renda faz parte deste caminho.

Programas de transferência de renda e subsídios em serviços essenciais têm impacto direto na redução da pobreza e na segurança alimentar das famílias. A creche pública, por exemplo, não é apenas uma política social, ela permite que mulheres ingressem ou permaneçam no mercado de trabalho.”

Patrícia Marins é matemática, educadora financeira, bancária e pesquisadora sobre finanças com recorte de racial e de gênero.

Adriana também destaca o papel da tarifa social de energia e do subsídio ao gás como auxílio para liberar parte do orçamento das famílias, que pode ser direcionado para suprir outras necessidades como alimentação, saúde e educação. “Essas políticas ajudam a reduzir desigualdades históricas”, lembra.

Patrícia indica caminhos práticos para aquela cidadã que têm direito, porém enfrenta dificuldades ou nunca acessou os subsídios. “O principal [passo] é manter o Cadastro Único atualizado. O Ministério do Desenvolvimento Social diz que ele é a porta de entrada para a maioria dos programas de transferência de renda no Brasil”, explica. 

“Fundamental discutir cotas de gênero”, diz economista Gabriela Chaves sobre Fundo de Reparação Econômica para população negra 

Ela também orienta as famílias a procurar o CRAS (Centro de Referência de Assistência Social) mais próximo do seu endereço, além de buscar informações em canais oficiais do governo.

Mesmo que o endividamento seja fruto de um problema estrutural maior, pensando em quem consegue, dentro do possível, se organizar, ela orienta sobre como regularizar dívidas e administrar a vida financeira sem cair em empréstimos abusivos. 

“O primeiro passo é entender para onde o dinheiro está indo. O cartão de crédito rotativo continua sendo uma das modalidades com juros mais altos do país. Depois disso, é essencial priorizar despesas básicas e buscar renegociação das dívidas com juros maiores. Hoje, existem programas que oferecem descontos importantes. Outro ponto fundamental é criar pequenas reservas financeiras”, orienta.

Em novembro de 2025, a Marcha das Mulheres Negras retomou a Brasília, reunindo mais de 300 mil pessoas, para reafirmar e reivindicar direitos. Dentre as principais pautas, está o Manifesto Econômico das Mulheres Negras, que discorre acerca de demandas socioeconômicas que acometem mulheres negras, impossibilitando o pleno bem-viver e qualidade de vida.

Mulheres negras contam o que mudou desde a última edição da Marcha em Brasília

A especialista, que esteve presente na Marcha das Mulheres Negras, lembrou que ver mulheres negras falando sobre dinheiro foi marcante. “Era impossível separar autonomia financeira de dignidade. Muitas mulheres relataram o quanto a falta de renda está diretamente ligada à permanência em situações de violência, à dificuldade de estudar ou até à impossibilidade de descansar”, afirma.

De acordo com a educadora financeira, sem emancipação e reparação histórica, será possível sonhar para além da lógica de sobrevivência. “As mulheres negras não querem apenas sobreviver, querem estabilidade, descanso, prosperidade e o direito de sonhar”, pontua. 

“Acredito que vivemos um momento de transição. Ainda existe uma luta urgente pela segurança financeira básica, mas também existe um despertar coletivo para ocupar espaços econômicos, produzir riqueza e mudar narrativas históricas que sempre colocaram mulheres negras no lugar da escassez”, finaliza.

Coletivos alertam para atrasos de repasses e descumprimento de diretrizes da Lei de Fomento à Cultura da Periferia

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Criada para potencializar fazedores de cultura e democratizar o acesso aos recursos públicos, há quase uma década, a partir da luta e mobilização dos movimentos culturais das periferias da capital paulista, a Lei de Fomento à Cultura das Periferias de São Paulo se tornou uma conquista histórica. Porém, agentes culturais relatam problemas nas últimas edições, desde atrasos orçamentários e descumprimento de regras do programa.

Mariana Torres* (nome fictício), representante da Rede Viva Periferia Viva, relata os atrasos na 9ª edição do programa, realizada em 2024. Ela conta que, em 2025, os coletivos receberam notificações da Secretaria Municipal de Cultura (SMC) orientando os coletivos a interromperem as atividades sob a justificativa de que só receberiam a segunda parcela em 2026. “Isso prejudica projetos e fragiliza trabalhadores da cultura na periferia”, afirma.

“As chamadas ‘pedaladas fiscais’ vêm gerando uma bola de neve na execução orçamentária há pelo menos cinco anos”, diz Mariana Torres.

O orçamento geral de 2025 destinado à Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo atingiu o total de R$ 848.440.606,00. Para o Programa de Fomento à Cultura da Periferia, especificamente neste ano (2025), o valor alocado foi de R$ 13.700.000,00, mesmo montante de 2024.

O edital de Fomento ao Forró teve a quarta edição publicada em 2023, com repasses até 2024. A seleção de novos projetos foi retomada em 2025, com a publicação da quinta edição. O mesmo ocorreu no edital de Fomento ao Samba, que teve sua segunda edição em 2023, com repasses até 2024, e a terceira edição, para seleção de novos projetos, publicada em 2025.

A representante da Rede Viva Periferia Viva cita as exigências feitas pela SMC, como a devolução de bens duráveis adquiridos a partir dos projetos — algo que não está previsto explicitamente na lei nº 16.496, que instaura o Programa de Fomento à Cultura da Periferia de São Paulo. “Quando a Secretaria altera o edital [que institui o programa] incluindo ou excluindo regras não previstas em lei, ela está legislando sobre a lei”, afirma.

Mariana ainda conta que a apresentação de antecedentes criminais por parte dos proponentes, o que impede jovens egressos do sistema prisional de acessarem a cultura, também é uma exigência que vêm sendo feita em um dos trechos do edital oficial da 10ª edição, para quem irá escrever seu projeto.

“Também houve exigência de apresentação de antecedentes criminais, sob a justificativa de impedir que pessoas acusadas de crimes contra crianças e adolescentes trabalhem com elas. É uma medida excludente, que impede jovens, muitos egressos do sistema prisional ou Fundação Casa, de acessarem arte e cultura. Essa é uma percepção racista”, acrescenta Mariana Torres.

Em resposta a um pedido de esclarecimento feito pelo Fórum de Cultura da Zona Leste, em maio de 2025, a SMC sinalizou que a solicitação de antecedentes criminais está respaldada em diretrizes do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), com base na orientação da Assessoria Jurídica. A demanda surge como cumprimento à Lei Federal n° 14.811/2024, que incorpora novos critérios para atuação de pessoas em espaços com atividades voltadas a crianças e adolescentes.

Nos últimos 25 anos, o número de pessoas presas no Brasil quadruplicou. Em 2024, o sistema prisional passou de 850 mil pessoas privadas de liberdade. Os dados levantados pelo Observatório Nacional dos Direitos Humanos (ObservaDH) e divulgados pelo Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania em fevereiro deste ano (2025), mostram que quase 70% desse total é formado por pessoas negras (soma de pretos e pardos). 

Pedidos de devolução de bens adquiridos por meio de editais

“A SMC está legislando sobre a lei. Grupos das 7ª, 8ª e 9ª edições foram convocados a devolver bens adquiridos durante o projeto, incluindo automóveis. A lei [que institui o programa] não proíbe, mas a Secretaria exige devolução ou doação”, diz a entrevistada.

O advogado Mozart Morais, esclarece que não há exatamente uma ilegalidade, mas sim uma insegurança jurídica em torno dos processos de gestão do recurso público, o que faz com que muitos coletivos não tenham total clareza sobre suas obrigações. “Os editais possuem regras específicas e rígidas com relação ao dinheiro transferido às entidades sociais”, explica. 

Segundo o advogado, se a verba foi destinada a um determinado projeto, é necessário considerar que isso precisa retornar ao Estado de alguma forma. “O que eu posso sugerir [enquanto advogado] é que haja orientação jurídica à disposição dos coletivos, mesmo que isso possa comprometer um pouco do seu orçamento, mas para evitar males maiores”, coloca Mozart. 

Ele também reforça a importância de trocas formativas: “Para que elas possam executar seus projetos e concorrer [com mais segurança] para a correta aplicação do dinheiro público, evitando surpresas maiores lá na frente [na gestão dos recursos]”, destaca o jurista ao ressaltar que existe um problema sistemático por parte do Estado em fortalecer os fazedores de cultura corretamente, algo que é uma queixa antiga do movimento. 

O advogado, Mozart, aponta que erros podem acontecer, muitas vezes, por falta de orientação jurídica ou apoio institucional. “Se um coletivo precisa comprar um carro para [deslocamento] nas atividades, ele precisa ficar sabendo que ao final da execução do projeto esse dinheiro terá que retornar, seja em forma de dinheiro ou em forma de bem durável (devolução do próprio veículo). Então, é melhor que se preveja no projeto que o transporte seja feito de transporte público ou de alguma outra forma, por exemplo. Se isso for inviável, os coletivos precisam rever a escrita do projeto”, alerta.

Representantes dos movimentos culturais apontam que a SMC tem feito diferentes negociações sobre os bens adquiridos. Alguns desses bens podem permanecer com determinadas coletividades, como celulares e computadores, quando há permissão por parte da Secretaria. Outros tipos de bens, como automóveis, precisam ser devolvidos. 

Eles colocam que a SMC tem sido seletiva ao decidir que alguns coletivos podem ficar com os bens e outros não, sendo pouco transparente, o que interpretam como uma forma de perseguição institucional a determinados grupos.

O que diz a Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo

As regras sobre devolução ou manutenção dos bens foram detalhadas pela Coordenação de Fomentos e Cidadania Cultural (CFOC), da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo (SMC), em um pedido de informação realizado pela equipe do Desenrola. Segundo o órgão, artistas, coletivos culturais e demais proponentes apoiados pelo Programa de Fomento à Cultura da Periferia podem ficar com os equipamentos comprados com recursos públicos ao fim dos projetos, desde que comprovem o uso coletivo desses materiais e tenham a prestação de contas aprovada.

A CFOC aponta que a legislação específica não fala diretamente sobre o assunto, no que se refere aos bens adquiridos com recursos públicos, e que sua destinação está regulamentada pelo artigo 36 da Lei Federal nº 13.019/2014 (Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil – MROSC).

A resposta destaca que a Lei Municipal nº 16.496/2016, que criou o programa, autoriza que o dinheiro do fomento seja usado para estruturar as ações culturais, inclusive com a “compra de equipamentos e outros materiais permanentes”. Na prática, isso inclui itens como som, luz, computadores, móveis e outros recursos que ajudam a manter oficinas, apresentações e a continuidade das atividades nos territórios.

A lei, porém, não explica diretamente o que deve ser feito com esses bens quando a parceria termina. Quando há problemas, como inexecução do projeto aprovado ou rejeição da prestação de contas, os coletivos precisam devolver os recursos e os equipamentos, entre outras penalidades.

“Em caso de inexecução do projeto aprovado ou de rejeição da prestação de contas, o coletivo e seus integrantes serão considerados inadimplentes perante a Prefeitura Municipal de São Paulo, sendo impedidos de formalizar ajustes de qualquer natureza, receber qualquer apoio, financeiro ou não, e se se inscrever em quaisquer editais da Prefeitura por um período de 5 (cinco) anos ou até o ressarcimento integral ao erário dos valores recebidos”, diz um dos trechos.

Já quando o projeto é considerado executado corretamente — com prestação de contas aprovada —, a Secretaria menciona que existe a possibilidade de os materiais continuarem com os grupos. Regras federais e municipais determinam que o destino dos bens deve ser definido ao final da parceria. 

Apesar de a norma prever, como padrão, a incorporação ao patrimônio público, também permite a doação à organização da sociedade civil parceira, dos bens remanescentes que sejam úteis à continuidade de ações de interesse público. Isso significa que, se os equipamentos continuarem sendo usados em atividades culturais abertas à comunidade, podem permanecer com o grupo. Para isso, as coletividades precisam apresentar um inventário com a lista dos bens envolvidos e justificar o pedido na prestação de contas final de cada projeto. A Secretaria analisa caso a caso. 

“A devolução ou manutenção dos equipamentos depende de análise técnica da SMC, pautada nos objetivos e finalidade públicas do Programa de Fomento à Cultura da Periferia, no plano de trabalho executado e na justificativa apresentada pela coletividade parceira. Em geral, sempre que caracterizado que a permanência dos bens com o coletivo contribui para a continuidade das ações culturais no território — e que tais bens permanecerão vinculados ao interesse público — a legislação prevê a possibilidade de sua doação ou cessão de uso, mediante os trâmites formais necessários”, diz em resposta ao pedido de informação. 

A Secretaria Municipal de Cultura também informa que, desde 2024, não é permitida a compra de bens que gerem custos permanentes ou que passem a fazer parte do patrimônio pessoal do responsável legal. 

“Assim, caso seja necessária a devolução de bens adquiridos, ou que não cumpram o estabelecido na vedação estipulada, a destinação dos bens adquiridos deverá respeitar os critérios de doação à organizações da sociedade civil que possuem atividades congêneres ao objeto deste edital; e que tenham em seu estatuto de formalização cláusula de inalienabilidade”, reforça o retorno enviado pela SMC. 

Coletivos e projetos prejudicados

Caso o artigo 6º da lei – que prevê investimentos em pesquisas, formações e acompanhamento contínuo – fosse plenamente cumprido, haveria um acesso maior a diferentes linguagens culturais, beneficiando um público amplo, é o que aponta a agente cultural, Mariana. 

“Há barreiras de acesso, mobilidade e linguagem que excluem muita gente. […] Dentro das nossas periferias, temos muita gente competente, profissional e desenrolada, mas isso não é considerado, e diz muito sobre as deficiências do orçamento público cultural [em São Paulo]”, afirma.

Multiartista, produtor e articulador cultural pelo Fórum de Cultura da Zona Leste, Paulo Martins* (nome fictício), destaca que a luta dos movimentos culturais periféricos ainda é pelo cumprimento integral da legislação. 

“A periferia não chegava nesses editais. Foi preciso criar uma política pública que fosse lei, política de Estado, e não de governo”, explica ao frisar que a lei garante participação de representantes da sociedade civil em pé de igualdade com indicações políticas. 

Ou seja, uma das principais conquistas do movimento social é que a lei garante que artistas, especialmente periféricos, integrem o corpo técnico e decidam em igualdade sobre a distribuição de recursos, aprovação de projetos e as políticas culturais.

No entanto, a execução prática apresenta questões como atrasos em repasses financeiros de editais que reflete na execução das atividades, falta de acompanhamento técnico, dificuldade de acesso para coletivos que submeteram projetos ou que foram aprovados em edital pela primeira vez. “Desde 2020 fazemos essa provocação na comissão de seleção, mas nunca houve formação voltada ao Fomento à Cultura das Periferias”, lembra Paulo.

O artista também ressalta a ausência de dados e desigualdades territoriais: “Os mapas divulgados pela Secretaria [acerca dos territórios contemplados pelo Fomento], nem sempre seguem padrões consistentes. Coletivos da zona leste, por exemplo, são prejudicados pelo baixo acesso a informações gerais sobre como participar dos editais públicos”.  

Pesquisa aponta centralização de recursos culturais na cidade de São Paulo 

Ele aponta um sub atendimento técnico com coletivos da 9° edição que receberam a primeira parcela. “Não têm reunião de acolhimento. Ou seja, têm o dinheiro, mas não podem executar o projeto”, explica.

Paulo explica que o problema não é a falta de verba, mas a ausência de equipe para usá-la corretamente. 

“A Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo prefere ‘queimar grana’, pagando mais um coletivo do que estruturar estudos e formações. O ideal seria ter formadores distribuídos pelas regiões, com acompanhamento completo. Hoje, tudo está centralizado por preguiça e falta de vontade política.” Paulo Martins é multiartista, produtor, articulador cultural e membro do Fórum de Cultura da Zona Leste.

Outras políticas públicas culturais, segundo ele, também sofrem atrasos, como o fomento às comunidades de samba. “Em 2023, o projeto não teve liberação da verba. Houve consulta pública, mas a Secretaria não se posicionou nem correu atrás do orçamento para cumprir a lei”, relembra o produtor cultural.

O Desenrola e Não Me Enrola ouviu os entrevistados em setembro de 2025, que relataram atrasos nos repasses. Em janeiro de 2026, período de publicação desta reportagem, os pagamentos foram realizados, após um período de instabilidade no cronograma previsto. Eles afirmam que as incertezas comprometeram o planejamento inicial dos projetos.

Impacto no território

Outro grupo da zona leste de São Paulo, existe há 16 anos e é um dos coletivos paulistanos que nunca acessaram os recursos relativos ao Programa de Fomento à Cultura da Periferia. Luana Souza* (nome fictício), uma das fundadoras da iniciativa, que trabalha o teatro junto às juventudes periféricas, explica que, ao começar as atividades não havia equipamentos culturais no bairro para a população local. “Criamos então as nossas próprias articulações, pensando no teatro periférico”, compartilha.

O coletivo passou por dois ciclos de pesquisa (2008-2016), produzindo espetáculos com desdobramento de gênero, raça e classe. Para levantar recursos, venderam rifas e contaram com apoio de amigos.

“Chegamos ao Parque São Rafael sem público, fizemos imersão, conversamos com moradores, fomos à Feira Livre, à avenida principal, às casas da vizinhança, para recolher depoimentos e levantar dados. A partir disso, construímos um espetáculo sobre a fundação do bairro e realizamos um cortejo pelo território”, conta sobre o trabalho do grupo.

Apesar de terem se inscrito em editais públicos, como o Programa VAI, no qual receberam orientação técnica para aplicação no edital, nunca foram aprovados em nenhum. 

Atualmente, o coletivo mantém a sede e as demais despesas de forma totalmente independente. “O nosso aluguel custa em torno de R$ 1.500 […]. Chegamos a submeter projetos que foram avaliados como não relevantes para o território. O nosso grupo recebeu notas baixíssimas. Como a Secretaria determina o que é relevância em uma periferia?”, provoca.

“A cultura funciona como prevenção social. Se houver mais verba, podemos produzir mais arte e fortalecer a economia local.” Luana é artista e moradora da zona leste de SP. 

Falta de suporte e reconhecimento de artistas periféricos

Luana ainda critica a demora e a falta de funcionários da Secretaria. “A resposta para dúvidas demora, mesmo com contratos milionários sendo feitos dentro da Cultura. É importante contratar pessoas aprovadas em projetos para orientar sobre a burocracia e oferecer formações inclusivas”. 

Ela destaca a necessidade de que, em geral, os editais públicos realizem as formações em horários mais acessíveis para a rotina dos trabalhadores da periferia. “[Cursos] não podem ser apenas em horários excludentes, como 10h ou 14h, porque a periferia é trabalhadora e precisa conciliar estudo, trabalho, ensaios e reuniões”, coloca.

Marcela Alves* (nome fictício), uma das representantes de um coletivo de Itaquera, zona leste da cidade, conta que, apesar dos desafios, já acessou o Programa de Fomento à Cultura da Periferia (em 2021 e 2024), mas destaca que a dificuldade de escrever projetos reflete a dinâmica geral dos editais públicos. “É um verdadeiro chá de canseira, somos direcionados de um setor para outro. Geralmente, quem acessa editais é quem escreve bem ou tem [algum assessoramento]”, diz acerca dos processos de seleção. 

“Mesmo com formação e experiência, muitos artistas da periferia não são reconhecidos, sendo colocados ainda neste lugar de ‘amadorismo’. E quem mora na periferia acaba sendo punido por falta de informação ou suporte.” Marcela é artista e moradora da zona leste de São Paulo.

O grupo que Marcela faz parte atua com pautas sobre meio ambiente e mulheres nos territórios, e luta para acessar financiamento público. “Por anos [eu e o coletivo em que atuo] ficamos distante desse acesso, sem tentar nos candidatar ou participar de projetos públicos”, aponta.

As inscrições da 10ª edição do Programa de Fomento à Cultura da Periferia de SP, que originalmente deveriam ter sido abertas em junho, começaram em agosto. Inicialmente, o prazo de inscrição iria até o dia 26 de setembro. No entanto, poucos minutos antes do encerramento, foi prorrogado por mais um mês, estendendo o prazo até 27 de outubro.

A prorrogação é interpretada por alguns coletivos como uma estratégia para adiar o processo de seleção, e consequentemente, o uso de recursos do orçamento de 2025, assim colocar a execução para o próximo ano. 

“É um efeito dominó: fechando as inscrições só em outubro, iniciando a avaliação dos projetos e formando a comissão para dar notas em novembro, os meses seguintes – dezembro e janeiro – praticamente inviabilizam o uso do orçamento deste ano. É muito óbvio que essa foi uma manobra também para postergar a execução do orçamento”, conclui Mariana.

* A Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo (SMCS) e a Coordenação de Fomentos e Cidadania Cultural (CFOC), responsável pelo Programa de Fomento à Cultura da Periferia, não responderam aos demais questionamentos do Desenrola e Não Me Enrola até o fechamento da reportagem. O espaço segue aberto. 

*Os entrevistados preferiram não se identificar. Os nomes foram alterados para preservar a identidade, segurança e privacidade das fontes.

Brincar na Onde?

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Durante as férias escolares a rotina muda, as crianças na quebrada passam a ocupar ainda mais as ruas, calçadas e pracinhas. Para as famílias sem opções de lazer acessíveis, esses espaços públicos se tornam o principal, e às vezes o único lugar possível para brincar. É ali que as férias acontecem de verdade.

As pracinhas, porém, revelam um contraste duro entre o que deveriam ser e o que de fato são. Escorregadores quebrados, balanços sem assentos, aparelhos de ginástica quebrados, parafusos soltos, brinquedos interditados pelo tempo, não por placas de aviso, mas pelo abandono. O espaço que deveria oferecer segurança e alegria acaba impondo riscos diários a quem só quer brincar. 

Aqui na Cohab de Taipas, zona noroeste de São Paulo, na praça Jonatha Santos da Silva, podemos ver os brinquedos quebrados, faltando partes, e faltando até grades de segurança para as crianças não caírem para o lado. A frustração de muitas mães e pais em chegar e ver que naquele espaço sua criança não poderá usufruir de todos os brinquedos com tranquilidade. Não se trata apenas de entretenimento, mas de direito. 

Quando esses espaços estão deteriorados, o impacto vai além do visual, atinge a saúde física, o desenvolvimento social e a segurança das crianças. 

A ausência de manutenção não é um problema novo, tampouco pontual. Ela revela uma lógica de prioridades que historicamente empurra os bairros periféricos para o fim da fila. Enquanto parques centrais recebem reformas, iluminação e novos brinquedos, muitas pracinhas de quebrada seguem invisíveis nos mapas de investimentos públicos. 

Direito ao lazer seguro para além do ano eleitoral

Mas como sabemos bem, neste ano teremos eleições, e por um acaso (tão óbvio) podemos ver nos próximos meses umas movimentações na quebrada, visitas técnicas e promessas de campanha, apresentadas como ações rápidas e de impacto direto na vida da população: limpezas mais frequentes nas ruas, nas praças, podas de árvores, pinturas de guias, revitalização dessas pracinhas, iluminação mais adequada. Medidas estratégicas essas, tomadas pelo interesse de diálogo direto com as famílias para obtenção de votos.

Para além do calendário eleitoral, a manutenção desses espaços representa uma demanda objetiva. Em um ano decisivo, que possamos olhar para nossas quebradas e reivindicar a forma como o poder público vai responder a essas faltas, principalmente se o cuidado com a infância periférica será tratado como compromisso permanente ou apenas como pauta circunstancial.  

Este é um conteúdo opinativo. O Desenrola e Não Me Enrola não modifica os conteúdos de seus colaboradores colunistas.

Em ano de eleição, lideranças destacam agenda de ações que não sejam apenas político-partidários

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A virada do calendário costuma vir acompanhada de metas individuais. Mas ao pensar na construção coletiva de sociedade, alguns territórios e moradores compartilham de necessidades em grupo. Emprego e renda, moradia, segurança, lazer e cultura são algumas demandas que atravessam a vida cotidiana. É o que relatam lideranças comunitárias, que projetam para 2026 uma agenda coletiva centrada na dignidade e garantia de direitos básicos. 

Para 2026, ao falar das demandas das mulheres periféricas, Shisleni Macedo, moradora do distrito de Itaim Paulista — zona leste de São Paulo —, antropóloga, especialista em Justiça Reprodutiva, Social e de Gênero, aponta que será um ano decisivo, com eleições para o governo dos Estados, Presidência, poder legislativo, além da renovação de cadeiras no Senado Federal, o que exige articulação política por parte dos territórios. 

“Este é um momento de pensar muito sobre coletividade, sobre projetos [comunitários] e também sobre como as periferias, sobretudo em São Paulo — mas não só — descem para as eleições”, coloca.

No dia 4 de outubro, a população vai às urnas para escolher presidente, governadores, senadores e deputados. O calendário eleitoral deste ano prevê segundo turno em 25 de outubro, caso nenhum candidato ao Executivo alcance maioria absoluta. 

“A gente precisa pensar sobre como construir, coletivamente, projetos políticos que não sejam apenas político-partidários, mas projetos de país mesmo, projetos de vida para as nossas comunidades que estejam realmente conectados e engajados com o que a gente constrói e vive enquanto pessoas de quebrada”. 

Shisleni Macedo, antropóloga, especialista em Justiça Reprodutiva, Social e de Gênero.

Neste contexto, segundo ela, a política de cuidado se apresenta como um dos debates mais urgentes, mirando políticas públicas que beneficiem, principalmente, mulheres pretas e periféricas. “Tivemos um passo importante com o Plano Nacional de Cuidado, mas ainda é pouco”, ressalta ao lembrar que muitas atuam profissionalmente como domésticas, babás, enfermeiras e cuidadoras, mas permanecem como um grupo invisibilizado.

Isso que chamam de amor é trabalho não pago e falta de política pública

“Precisamos dar um passo além e olhar para as cuidadoras não remuneradas, que cuidam de filhos, pais, avós, idosos e pessoas com deficiência. Muitas acabam largando o trabalho para assumir esse cuidado, então é fundamental políticas que também protejam essas mulheres e garantam como elas vão se manter financeiramente”, frisa Shisleni. 

Dados da Pesquisa Nacional sobre Trabalho Doméstico e de Cuidados Remunerados, realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica (Ipea) em parceria com o Ministério da Igualdade Racial (MIR), com 1.196 participantes, mostram que 69,9% das pessoas que declaram realizar trabalho doméstico ou de cuidados no Brasil são mulheres negras. O estudo também destaca que 79,6% delas se dedicam aos cuidados com familiares e pessoas dependentes. Os dados mostram ainda que 52,4% das mulheres negras que exercem função de cuidado não concluíram o ensino médio. Enquanto entre as mulheres não negras, esse número cai para 42,9%.

A antropóloga afirma que isso passa necessariamente por enfrentar o preconceito contra benefícios assistenciais, como o Benefício de Prestação Continuada (BPC), que garante um salário mínimo por mês à pessoa idosa com idade igual ou superior a 65 anos e à pessoa com deficiência de qualquer idade que comprove, em ambos os casos, ser de família de baixa renda e o Bolsa Família. 

“São fundamentais para o combate à pobreza extrema e à precariedade que as nossas populações vivem e que batem com muita força em cima das mulheres”, afirma e também defende o direito de sonhar como uma estratégia de resistência e luta política e coletiva.

“Às vezes nos dá a sensação de que continuamos reivindicando as mesmas coisas há muito tempo, e parece que não avançamos. Mas podemos olhar além disso, ampliar, fazer um exercício de imaginação política: sonhar para além do básico.”

Shisleni Macedo, antropóloga, especialista em Justiça Reprodutiva, Social e de Gênero 

Ela reforça que é preciso se organizar de diferentes formas, como grupos de mães, coletivos e cursinhos populares. “Ter espaços para encontrar, trocar ideias e pensar o bairro juntas faz falta. Esse espaço pode ser físico ou abstrato: coletivos, redes, qualquer estrutura que permita esse encontro”, destaca.

Violência e combo eleitoral: as promessas que jamais poderão ser cumpridas 

Shisleni acredita que 2026 ainda precisa ser marcado por debates como justiça reprodutiva e segurança pública. Na sua avaliação, são questões a serem pensadas a partir da realidade das comunidades, conectando direitos e proteção social. 

“Espero que falemos muito de aborto este ano. Justiça reprodutiva é garantir vida digna, casa, saúde, educação, sexualidade e parto respeitoso, criar crianças sem medo, mas também o direito de não ser mãe e decidir sobre o próprio corpo, com espaços acolhedores para pessoas trans e cuidado coletivo pelas comunidades.”

Shisleni Macedo, antropóloga, especialista em Justiça Reprodutiva, Social e de Gênero 

A guerra não é contra o crime, é contra as pessoas

Sonhar como ato político

A violência nos territórios periféricos é pautada pela ativista e educadora popular, Luana Oliveira da Rede Contra o Genocídio, moradora do Jardim São Luis, zona sul de São Paulo, que relaciona o direito de viver ao direito à cidade e à moradia segura. 

“Como sonhar vivendo em um território extremamente violentado cotidianamente? É aí que subvertemos a lógica e resistimos. O sonho do nosso povo é deixar de ‘ter que sobreviver’ e ter o direito de viver plenamente: descansar, ser cuidadas, receber afeto e reconhecimento, e ter os filhos vivos. Será sonho ou apenas direitos fundamentais?”, reflete.

‘‘Nossa principal reivindicação ainda é o fim da morte de nossos filhos’’: mulheres negras marcham por reparação e bem viver 

Luana afirma que o efeito da violência vai além: prejudica as relações, a circulação pelo bairro e a saúde mental. “Isso é muito perverso: matar os sonhos antes mesmo deles brotarem”, ressalta Luana.

“O que mais diferencia os sonhos [para 2026] da população negra periférica dos discursos gerais sobre segurança pública no Brasil é que, enquanto o debate hegemônico costuma associar segurança a controle, repressão e punição, os sonhos construídos nas periferias estão profundamente ligados à possibilidade concreta de viver, circular e existir com dignidade”, aponta.

A educadora fala que por meio de coletivos culturais, sociais e frentes como hip hop, funk, esporte, educação popular e redes de solidariedade, reinventam formas de existência, pois jovens negros e periféricos não se limitam ao extermínio. 

“Em ano eleitoral, o debate sobre segurança pública precisa sair da lógica de ‘lei e ordem’ e colocar a vida como valor central. É essencial integrar cuidado, saúde, educação e políticas para juventude, mulheres e população negra, fortalecendo redes de proteção (CRAS, CREAS, CAPS, casas de acolhimento e serviços de enfrentamento à violência contra mulheres) e garantindo participação popular.”

Luana de Oliveira, geógrafa, educadora popular e articuladora da Rede de Proteção e Resistência Contra o Genocídio e do Fórum em Defesa da Mulher da Zona Sul.

Ela ressalta que segurança pública não é sobre “matar mais, mas fazer viver com dignidade, justiça racial e direito ao futuro”.

A análise é reforçada pela assistente social e moradora de Capão Redondo, zona sul de São Paulo, Edijane Alves. “Não há boas expectativas para esse formato de segurança oferecido para a periferia. O aumento de contingente efetivo de policiais nunca foi sinônimo de segurança para nós, pelo contrário”, diz. 

Informações do 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, publicado em 2025, mostram que as mortes decorrentes de intervenção policial tiveram aumento de 60,9% em 2024 no Estado de São Paulo. Em comparação com os dados de 2022, os dois primeiros anos da gestão do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, apresentaram um aumento de 91% na letalidade policial.

Ao propor um caminho inverso, Edijane menciona que segurança pública precisa estar alinhada a demais políticas públicas. “O Estado não pode se fazer presente na base do medo. O Estado precisa estar presente na oferta de cuidado e possibilidades, o que nunca aconteceu”.

“Um Estado que garanta uma educação de qualidade, o acesso à saúde e a cultura não vai precisar investir em armas ou contingente militar. O discurso progressista da esquerda precisa avançar para prática ou continuaremos sob o legado de coronéis políticos que dominam os territórios periféricos desde sempre.”

Edijane Alves, assistente social.

Necessidades básicas atendidas também é cuidado com saúde mental 

Ao pensar sobre saúde mental, também é preciso considerar os pilares que compõem os direitos básicos das pessoas, como saúde, emprego, segurança, cultura e lazer. É o que coloca o psicólogo Everton Mendes, idealizador do coletivo Pluriversais, dedicado a discurtir saúde mental entre homens negros.

“Quando isso estiver estruturado, podemos começar a falar sobre outros atravessamentos existentes em saúde mental”, coloca ao citar os fatores estruturais de maior impacto na saúde integral da população periférica. 

De acordo com Everton, que é morador da zona leste de São Paulo, o acesso a crédito e empregos também são fatores determinantes. “Temos também as Bets que chegam nas periferias como uma possibilidade de complementação de renda que, de acordo com tudo o que estamos percebendo, vem despotencializando [sic] ainda mais as estruturas das famílias periféricas”, afirma.

“As periferias sempre buscaram lazer e formas de lidar com o desamor das elites, mas hoje as redes sociais agravam a depressão e ansiedade ao individualizar o sujeito. Voltar a estar em comunidade funciona como um antídoto paliativo. Fala-se em reeducação alimentar, atividade física e reorganização de rotinas, mas para quem sai de casa às 6h e retorna às 23h, é pouco lógico.”

Everton Mendes, psicólogo e idealizador do coletivo Pluriversais, voltado à discutir saúde mental entre homens negros.

Com a proximidade das eleições, a saúde mental das populações periféricas é ameaçada pela violência, discursos de ódio e desinformação. Segundo Everton, entender propostas, se informar e reconhecer opiniões diferentes ajuda a lidar melhor com o período, enquanto notícias falsas aumentam a vulnerabilidade das comunidades. 

“Em 2022, no grupo que conduzo, fizemos uma enquete sobre o candidato a prefeito. 95% escolheram um de esquerda e apenas uma pessoa, um candidato de direita. Ao problematizarmos, entendemos que ele fazia parte de um movimento de moradia, e via no candidato de direita melhores condições para seu movimento, o que ajudou todos a compreenderem seu voto”, revela.

“Sonhamos em viver bem. Ter liberdade para o ir e vir, comer sem preocupação, receber um salário juntos, dormir e acordar com segurança, ter um tênis e uma roupa legal, poder ir pra praia, cuidar da família. Ou seja, o que a quebrada deseja ainda é que haja garantia dos direitos básicos humanos.”

Everton Mendes, psicólogo e idealizador do coletivo Pluriversais, voltado à discutir saúde mental entre homens negros.

O ano traz sonhos antigos também para a educação pública. O papel da escola será formar cidadãos críticos, capazes de agir sobre desigualdade social, racismo, machismo e crises ambientais, avalia o professor e conselheiro Rubens Baldini, morador do distrito do Campo Limpo, localizado na zona sul de São Paulo, que destaca a necessidade de valorização dos professores e melhores condições de trabalho.

Para Rubens, “os professores buscam tanto os institutos federais porque essas carreiras garantem salário compatível com a titulação, dedicação exclusiva ao ensino e à aprendizagem, e ainda permitem atuar em pesquisa e extensão, aquele tripé que é fundamental para a educação, embora nem sempre seja reconhecido”, considera.

“Na educação básica, muitas vezes, o foco acaba ficando muito mais na perspectiva do ensino do que propriamente do aprendizado, o que é até contraditório. […] Quando falamos em valorização da carreira docente, não estamos falando somente de remuneração, mas de estrutura de carreira, dos prédios, condições de trabalho, da qualidade e da disponibilidade de instrumentos pedagógicos que permitam efetivar a atuação docente. O principal ponto-chave: a valorização do professor”, acrescenta.

Para ele, outro ponto importante é a educação de crianças e jovens da Educação Especial. “Temos visto um aumento significativo no número de crianças laudadas e, junto com isso, uma pressão social crescente pela ampliação dos serviços voltados às pessoas com deficiência”, afirma o educador ao destacar que apesar de leis como o Estatuto da Pessoa com Deficiência e a obrigatoriedade do ensino de Libras, a realidade das salas de aula ainda precisa de materiais pedagógicos e tecnologias assistivas para superar barreiras de aprendizagem.

Direito à moradia

Garantir terra e moradia, reconhecer famílias em ocupações e avançar na regularização fundiária são expectativas de muitas famílias da quebrada. “Sem regularização, serviços públicos não chegam: faltam pavimentação, saneamento e coleta de lixo. No extremo leste, onde moro, o caminhão de lixo sequer entra. A ausência do Estado é constante, e a justificativa é a irregularidade do território”, diz Silvia Jerônimo, conselheira tutelar e ativista dos movimentos de moradia.

“A moradia tem que ser entendida como acesso à cidade. Com o valor oferecido hoje pelo auxílio dado pelo governo do Estado [de São Paulo], as famílias não conseguem custear um imóvel próprio próximo à região do centro, onde elas moravam, onde tinham a rede de apoio, onde construíram histórias e vínculos na favela do Moinho, por exemplo”, destaca a conselheira tutelar, moradora do bairro Jardim Santo André, no distrito de São Rafael, zona leste de São Paulo.

“Muitas pessoas perdem essa rede de apoio com esse reassentamento que foi oferecido, e isto prejudica [a rotina e bem-estar]. O que eles querem é gentrificar aquela região, por interesse público e privado, o que consequentemente faz com que essas famílias tenham que sair do local onde moram”, acrescenta sobre a Favela do Moinho, ocupada por cerca de 880 famílias, em São Paulo, que em 2025 passou por um processo de reassentamento iniciado pelo governo do Estado, com apoio federal, para transferir moradores a moradias e implementar um parque urbano no local.

Como as desigualdades habitacionais afetam as pessoas e os territórios? #37 

“Dentro do cenário que a gente vive hoje, essa mudança de tirar a família daquele local e já colocar numa casa própria e digna, é um sonho. Então, pelo menos, seria necessário um auxílio-aluguel robusto e justo, para que essas famílias possam custear o condomínio, custear o espaço e ter acesso a serviços, não ficando somente no extremo da periferia de cada cidade”, coloca Silvia.

“A política de moradia precisa ser feita com a construção de centros habitacionais, para que essa família não fique só no auxílio-aluguel, mas fique realmente em um imóvel que seja seu, que esteja no nome dela, que tenha fácil acesso à escola, aos serviços e que garanta o direito à cidade.” 

Silvia Jerônimo, conselheira tutelar e militante nos movimentos populares de luta por moradia.

Para ela, o recente aumento do salário mínimo para R$ 1.621,00 não vai impactar, de fato, a capacidade das famílias de garantir o aluguel e uma moradia digna na favela. “Com esse valor, nem mesmo a própria alimentação está garantida. Enquanto não houver uma política pública social real que contemple essas famílias, não vamos sair [deste ciclo]”, finaliza.


Salário: sobrevivência, falsa renda e dívida

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A coluna 1000 termos, 1000 temas tratará de desenrolar diversos assuntos do “economês”, aliando opinião e letramento. O objetivo é estreitar a relação da quebrada com o debate econômico e, assim, cumprir um papel tático de formação política. Este primeiro ensaio trata de mostrar por que salário e renda são coisas distintas – mas antes, um breve contexto:

  • Com um salário mínimo de R$ 1.518,00 – e dedução de 7,5% de INSS – temos que o orçamento doméstico de um trabalhador médio é estimado em R$ 1.404,15; e
  • Com a cesta básica custando R$ 1.285,92, quase a totalidade do salário (91,57%) está comprometida estritamente com as necessidades vitais básicas do trabalhador: comer e se manter limpo.

Dito isto, o que fazer quando quase todo o seu salário é consumido com gastos essenciais e ainda assim há aluguel e contas a pagar? Duas são as respostas possíveis: (1) quando não consegue pagar o que precisa com o salário que tem e há tempo disponível, busca-se um segundo trabalho, porém, quando não há tempo vago, (2) recorre-se ao crédito. Em ambas as circunstâncias, temos pontos relevantes a tratar:

Salário não é renda e crédito é dívida.

No primeiro cenário, um segundo trabalho (fixo, temporário ou pontual) implica num segundo salário que pode ou não ser totalmente consumido. Quando isso acontece, o salário não se torna renda, já que todo o dinheiro foi gasto, não sobrou nada. Quando há um excedente, mas esse valor não foi investido, também não se torna renda, pois o dinheiro não rendeu, ele sobrou. Renda é dinheiro que rende. 

Quando há um excedente e esse excedente é investido, aí sim, o salário se torna renda. Por isso, salário não é renda, pois nem todo salário rende. Assim sendo, termos como “renda extra” não fazem sentido quando empregados ao salário de um “bico” temporário, por exemplo. Esse apontamento é importante porque “viver de renda” não é viver do trabalho, mas financiar seu custo de vida apenas com os rendimentos dos juros de investimentos realizados. Por esse motivo, quem vive de renda não trabalha, mas vive às custas do trabalho dos outros.

Nessa mesma toada, desvendemos o segundo cenário. O crédito por si só nada mais é do que “crer no que é dito”. Isto é, trata-se de um acordo em que o credor acredita que, no futuro, o tomador irá pagar pelo empréstimo e o tomador assume esse compromisso e tem obrigação de pagar. Mas qual a garantia do credor (aquele que acreditou) de que o tomador irá pagar? 

Antigamente se dava um fio da própria barba, em geral do bigode, como símbolo de honra, compromisso, retidão e idoneidade. Daí a origem de expressões como “esse negócio foi fechado no fio do bigode” ou “fulano é bigode”. Logo, o tomador está em dívida com o credor e, como esse credor poderia muito bem investir esse dinheiro, há um custo adicional nesse acordo, nessa transação, nessa troca: os juros. Os juros são o preço do dinheiro no tempo. Com isso, parte do tempo de trabalho do tomador fica comprometido com o pagamento tanto do valor emprestado como dos juros. 

Dada a atual conjuntura – com 81,2 milhões de brasileiros endividados segundo o Serasa (órgão referência na proteção ao crédito, com um extenso banco de dados do histórico de crédito dos consumidores brasileiros) – trataremos no próximo ensaio dos termos: dívida, juros rotativos e inadimplência.

Este é um conteúdo opinativo. O Desenrola e Não Me Enrola não modifica os conteúdos de seus colaboradores colunistas.

Pesquisador afirma que Programa Pé-de-Meia é avanço, mas não resolve abandono escolar nas periferias

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O Programa Pé-de-Meia acaba de completar seu segundo ano de implementação, com a proposta inédita, em larga escala, no Brasil, de vincular incentivo financeiro à permanência escolar dos estudantes de escolas públicas que estão cursando o ensino médio. O programa oferece mil reais por ano para aqueles que mantêm frequência mínima de 80%, além de bônus de 200 reais para quem prestar o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

Até o final de 2024, mais de 4 milhões de jovens haviam sido beneficiados pelo programa, que busca promover a permanência e a conclusão escolar dos estudantes, evitando que abandonem os estudos. Os dados de 2025 ainda não foram publicados pelo Ministério da Educação, que em janeiro do ano passado, distribuiu aos estudantes quase R$800 mil através do Pé-De-Meia, de acordo com informações do Portal da Transparência

De acordo com dados do IBGE, no Brasil, em 2023, o percentual geral de jovens de 18 a 24 anos que não concluíram a escola era de quase 60%, sendo destes 71,6% alunos pretos e pardos, em comparação com 27,4% de brancos. Entre os adolescentes de 15 a 17 anos, mais da metade não concluiu o Ensino Fundamental. Entre os homens, o abandono escolar ocorre, principalmente, para trabalhar. Já a gravidez, o trabalho e as responsabilidades domésticas aparecem como os principais motivos da evasão das mulheres.

Cleverson José, educador, pesquisador e doutorando em educação na Universidade Federal do Paraná (UFPR), que se dedica a estudar o Ensino Médio desde 2018, afirma que apesar da abrangência do Pé-de-Meia, ainda é cedo para avaliar plenamente os resultados efetivos desta política pública, já que é necessário um prazo mínimo de cinco anos para obter resultados mais sólidos. 

O que já é possível avaliar sobre o programa?

De acordo com o pesquisador, uma avaliação mais ampla do impacto do programa depende dos dados fornecidos pelo MEC (Ministério da Educação), que incluem informações sobre os estudantes, suas escolas, municípios, estados e outros indicadores, como gênero e raça.

O MEC liberou os dados apenas em novembro de 2024, com publicação no Portal da Transparência em julho de 2025. Mas há uma limitação: informações sobre menores de 18 anos não são públicas, e os dados disponíveis abrangem apenas estudantes maiores de idade, representando uma parcela menor do público-alvo. Isso cria um desafio para avaliar o programa.

Informações gerais publicadas no site do ministério no mês de julho de 2025 mostram que ao longo do primeiro ano, quatro milhões de estudantes foram beneficiados pelo programa. Também foram repassados mais de R$ 10 bilhões para 5,6 milhões de estudantes no país, número que é maior por reunir tanto os beneficiários atendidos no primeiro ano do programa quanto os novos estudantes incluídos em 2025.

Para receber o benefício, o estudante precisa ter no mínimo 80% de frequência. Segundo o pesquisador, este tipo de indicador não é algo novo, pois em alguns estados brasileiros já existem iniciativas similares, como o programa Todo Jovem na Escola, no Rio Grande do Sul desde 2021, e o Bolsa Presença, na Bahia, lançado em 2022.

Para além do incentivo financeiro

O Programa Pé-de-Meia pode ser dividido em dois momentos distintos. O primeiro período vai desde a fase inicial de discussão e elaboração da lei, aprovada em 2024, até o início efetivo da implementação, em março do mesmo ano. 

Nesse estágio, a política ainda estava concentrada quase que exclusivamente nos repasses financeiros, partindo do pressuposto de que o incentivo monetário seria suficiente para garantir a permanência dos estudantes na escola. A proposta ainda não incorporava estratégias pedagógicas ou acompanhamento mais próximo dos alunos, limitando-se à dimensão econômica do recurso.

Desde fevereiro de 2025, o Ministério da Educação reconheceu a necessidade de ampliar a perspectiva do programa, incorporando estratégias pedagógicas de monitoramento. 

“Esse acompanhamento ainda está em debate e em formulação entre o MEC e as secretarias estaduais, mas deve chegar às escolas em breve. O Ministério reconhece que apenas o incentivo financeiro não garante a permanência; é necessário haver estratégias complementares dentro das escolas”, destaca.

“É fundamental acompanhar os estudantes de forma direcionada, identificando situações que possam levá-los a abandonar a escola — por exemplo, um aluno com 80% de frequência, mas próximo do limite, com notas baixas ou histórico de reprovação”. 
Cleverson José é professor e doutorando em educação na Universidade Federal do Paraná (UFPR)

Para Cleverson, “diversos fatores devem ser analisados em conjunto para avaliar melhor a probabilidade de um aluno deixar a escola ou o programa”, analisa. Ele ainda destaca que o programa não garante acesso a oportunidades futuras.

O pesquisador explica que, ao término do ensino médio, o estudante pode não ter trabalho formal nem acesso à universidade, e os rendimentos acumulados da poupança serão insuficientes para custear estudos ou outras necessidades. “O Pé-de-Meia cumpre um papel de “mínimo garantido”, útil, mas claramente limitado diante das demandas reais dos jovens beneficiados”, avalia. 

“Quando pensamos no contexto das escolas públicas, a necessidade desse acompanhamento é maior nas escolas periféricas ou localizadas em municípios menores, onde estão concentrados os estudantes em contextos mais vulneráveis”. Cleverson José é professor e doutorando em educação na Universidade Federal do Paraná (UFPR)

Segundo ele, pesquisas de políticas anteriores, como o Bolsa Família — que beneficia muitos estudantes do Pé-de-Meia — mostram que os alunos das escolas públicas tendem a precisar de um acompanhamento mais próximo e contínuo para permanecerem na escola.

No entanto, reforça: “Existe uma série de problemas de infraestrutura nas escolas. Por exemplo, a equipe de professores ou de pedagogos muitas vezes têm contratos temporários. Ou seja, um professor pode não permanecer três anos no ensino médio, e o pedagogo não estará acompanhando o mesmo estudante durante esse período”. 

Cleverson ressalta que mesmo considerando a dinâmica natural da escola, existem urgências que frequentemente limitam ou impedem esse acompanhamento. “É uma questão importante de se pensar”, diz.

“O Programa Pé-de-Meia garante quem já está matriculado, mas não necessariamente reverte a exclusão daqueles que já saíram. Esse é mais um limite na concepção do programa”, finaliza o pesquisador. 

Incentivo financeiro para o Ensino Superior

Em anúncio recente, o governo federal lançou um novo programa de incentivo financeiro para atrair estudantes para os cursos de licenciatura e para a carreira docente na rede pública. Segundo informações do Ministério da Educação, o Pé-De-Meia Licenciaturas oferece bolsa de R$ 1.050 para estudantes matriculados em cursos presenciais que tenham obtido nota média igual ou superior a 650 pontos no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e ingressem no curso através do Sisu, Prouni ou Fies. 

Os inscritos poderão sacar imediatamente o valor de R$700, enquanto R$350 serão depositados em uma poupança vinculada, liberada após o ingresso do beneficiário em uma rede pública de ensino em até cinco anos. 

De acordo com o MEC, o programa foi criado em um contexto de baixa atratividade da docência no Brasil, marcada por notas de corte inferiores às de carreiras como Direito e Medicina, além de altas taxas de evasão nos cursos de licenciaturas, que chegam a 73% em cursos como Física e 53% nos cursos de pedagogia. Um dos principais objetivos do Pé-De-Meia Licenciaturas é atrair estudantes com melhor desempenho e busca reduzir a desistência ao longo da graduação e estimular a entrada de novos docentes nas redes públicas.