“Tem festivais que 80% são homens”, denuncia a rapper Sharylaine, apontando o impacto do machismo no Rap

Entrevistamos mulheres negras que fazem parte da nova geração do rap e que atuaram no processo de construção do hip hop no Brasil, como a rapper
Edição:
Ronaldo Matos

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Sharylaine é uma rapper e produtora cultural com mais de 30 anos de carreira artística. (Foto: Acervo Pessoal)
Sharylaine é uma rapper e produtora cultural com mais de 30 anos de carreira artística. (Foto: Acervo Pessoal)

As rappers Brrioni, Preta Ary e Sharylaine, enfrentam cotidianamente o machismo no universo da indústria cultural do rap, estilo musical que consagra e valoriza o trabalho de homens negros no Brasil, mas que impõe uma série de barreira éticas e profissionais para permitir o fortalecimento de mulheres negras que atuam como mc´s na cultura hip hop.

“A dificuldade de ser mulher, preta, de quebrada e ainda escolher ser rapper é demais. Sou tirada pela sociedade por cada um desses motivos, seja tudo junto ou separado”, conta Alice Brioni, mais conhecida como Brrioni, rapper de 21 anos, moradora do Campo Limpo, zona sul de São Paulo, que tem conexão com o rap desde 2017.

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A primeira música gravada por Brrioni foi lançada em 2018 e se chama “Dissonaro”, na qual a rapper contou com o apoio de dois amigos que são homens cis e rappers, para produção musical do trabalho. A letra faz uma reflexão sobre como a sociedade seria se Jair Bolsonaro, até então candidato à presidente na época, fosse eleito, uma especulação eleitoral que se tornou realidade e mexeu com a vida das mulheres no Brasil. 

“Eu acho muito importante estar sempre retratando a política em forma de arte, seja como for, falo isso porque a política controla tudo a nossa volta né, literalmente comanda nossa vida. Se nós debatermos entre nós, tentar entender nem que seja pouco, não importa a idade, nós nunca vamos sair perdendo, pelo contrário mais um pra nós, menos um pra eles”

Brrioni, rapper e moradora do Campo Limpo, zona sul de São Paulo.
Brrioni é uma rapper da zona sul de São Paulo que teve o contato com a música iniciado a partir das Batalha do Vicente, na qual, ela é organizadora. (Foto: Mikael Silva)
Brrioni é uma rapper da zona sul de São Paulo que teve o contato com a música iniciado a partir das Batalha do Vicente, na qual, ela é organizadora. (Foto: Mikael Silva)

Além de rapper, Brrioni é modelo, poeta e cria da Batalha do Vicente, uma batalha de rima que acontece no bairro da Guarapiranga, zona sul de São Paulo. Foi neste movimento cultural protagonizado pela juventude negra e periférica que ela iniciou sua trajetória dentro do rap, através da criação de poesias, que ela apresentava nas edições da batalha. No momento, a rapper se prepara para lançar o segundo disco da carreira.

Para a rapper Sharylaine, 53, criadora do “Rap Girl’s”, em 1986, primeiro grupo de rap formado somente por mulheres no Brasil, a atitude de trazer o machismo para o centro do debate das letras de rap revela que as mulheres estão investindo em formação política e produção de conhecimento de gênero, em relação aos homens.

Com mais de 30 anos de trajetória na cultura hip hop, a rapper Sharylaine afirma que as mulheres enfrentam outro desafio: são minoria em contratações de shows, porque os contratantes em sua maioria são homens. 

“As mulheres ocupam vários papéis, estudam mais que os homens, vão além, se preparam, se produzem, enquanto o homem bota o tênis, a bermuda e o boné e vai cantar”

Sharylaine, criadora do primeiro grupo de rap feminino no Brasil
Sharylaine é criadora do "Rap Girl's", em 1986, primeiro grupo de rap formado somente por mulheres no Brasil. (Foto: Diogo de La Vega)
Sharylaine é criadora do “Rap Girl’s”, em 1986, primeiro grupo de rap formado somente por mulheres no Brasil. (Foto: Diogo de La Vega)

“Só consegue expressar como ídolo e referência um outro homem, uma coisa do macho para o macho. A gente ainda tem eventos e festivais que 80% são homens. Ainda há muita coisa a ser mudada”, argumenta a precursora do movimento hip hop no Brasil.

A presença do machismo na industrial cultural do rap impacta a vida de outras jovens artistas, como a Brrioni, que está começando na carreira, mas que assim como Sharylaine, é uma mulher negra e moradora da periferia.

“No rap, sinto o mundo botando dificuldade pra nós do começo ao fim, desde quando tu é chamada pra fazer um som e ficam te tirando de burra, mostrando como faz, até a hora que a gente mais espera, que é o momento de pisar num palco de show ou festival”, compartilha a artista, reforçando o cenário apontando por Sharylaine.

Backing vocal: o machismo velado no rap

Nascida e criada em Araraquara, município localizado no interior de São Paulo, a cantora Ariadna da Mata, conhecida no cenário do rap como Preta Ary, 36, é mãe e rapper desde 2004. Assim como Brrioni, ela é atravessada pela difícil realidade que é trabalhar com música, ao relatar que no início da carreira só fazia trabalhos como backing vocal ,abrindo shows, por ser mulher.

Vivendo no universo do rap há 19 anos, Preta Ary só conseguiu fazer carreira solo e produzir de forma independente no ano de 2018, pois até então, ela estava sempre inserida em grupos e trabalhos feitos por homens. E mesmo com uma carreira já construída e consolidada, ela se sentia insegura quando precisou tomar essa decisão, e até hoje sente essa insegurança quando precisar fazer algum novo trabalho. 

A rapper Preta Ary tem quase 20 anos de atuação na música, e ainda lida com barreiras profissionais impostas pelo machismo. (Foto: Analí Rená)
A rapper Preta Ary tem quase 20 anos de atuação na música, e ainda lida com barreiras profissionais impostas pelo machismo. (Foto: Analí Rená)

“Essas manifestações machistas eu tenho plena certeza que influenciaram muitas coisas na minha caminhada, foram sempre veladas. Eu não sou a melhor rapper do Brasil, mas eu sou boa no que eu faço”

Preta Ary, rapper no município de Araraquara

O investimento de dedicação e empenho para estudar e aprimorar a qualidade da produção dos seus trabalhos musicais fazem parte da trajetória profissional da artistas, mas segundo ela, todo esse movimento não foi o bastante para impulsionar a carreira.

“Eu poderia ter conquistado coisas, das quais pessoas que não são tão boas, ou não se dedicam tanto quanto eu, conquistaram e estão num patamar elevado justamente por que elas são homens”, afirma a rapper, enfatizando a sensação de ter que sempre disputar espaços dentro da indústria musical com homens e muitas vezes perder apenas por ser mulher.

Um dos impactos do machismo que torna a presença da mulher na indústria cultural do rap ainda mais nocivo é o fato das artistas serem gestoras da sua própria carreira, colocando em prática o empreendedorismo cultural como estratégia de sobrevivência e geração de renda.

“As mulheres precisam pensar muito todas vez que vão empreender, independente da área. Quando a gente está num lugar, a gente precisa provar o quanto a gente é boa o tempo todo. Ser mulher nesse mundo é preciso não só se preocupar com sua segurança, mas também que a gente é melhor”, finaliza a cantora.

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