O trajeto inicia às 5h da manhã, em um percurso a pé de 15 minutos, para embarcar no ônibus sentido Terminal Grajaú. Próximo ao ponto final, o segundo transporte do dia é o trem da linha 9 – Esmeralda com destino a estação Pinheiros, que é o local da baldeação para a linha 4 – amarela do metrô.
De lá, a baldeação seguinte é da estação República até o Anhangabaú, na linha 3 – vermelha, até chegar na saída do Largo São Francisco, no Centro, e assim caminhar até a faculdade. “Ou, como geralmente faço por questões de segurança e policiamento, ir até a estação da Sé e caminhar por qualquer uma das saídas até a faculdade”, pontua.
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Esse é parte do cotidiano da estudante de Direito, Sarah dos Santos Pimenta, 21, moradora do bairro Parque Novo Grajaú, zona sul de São Paulo, que concilia trabalho e estudos, no centro da cidade.
A rotina da estudante vai de encontro à experiência de muitos moradores da capital. Dados da pesquisa Viver em São Paulo (2024) mostram que, em média, os paulistanos gastam 2 horas e 30 minutos por dia em seus trajetos. Entre quem depende do transporte público, esse tempo chega a quase 3 horas, exatamente a média diária de Sarah.
O levantamento também comparou outras nove capitais brasileiras, ouvindo pessoas com 16 anos ou mais, das classes A, B, C, D e E, que moram na capital há pelo menos dois anos. O tempo médio de trajeto subiu para os moradores do Centro da cidade de São Paulo (+13 minutos) e das zonas Sul (+22 minutos) e Oeste (+14 minutos), enquanto caiu nas regiões Leste (-21 minutos) e Norte (-15 minutos).
A privatização do transporte público #16
Entre os usuários do transporte coletivo, os deslocamentos duram, em média, 2 horas e 47 minutos — 10 minutos a mais que no levantamento anterior. Quem utiliza automóvel, por sua vez, gasta cerca de Dados do estudo Economia Criativa e Carnaval de Rua, de 2023, liderado pelo Bloco do Beco/Ibira 30, apontam que, na zona sul da cidade, os blocos periféricos/comunitários, em sua grande maioria, são recentes, criados principalmente a partir dos anos 2010. Apesar da relevância cultural e social, muitos ainda funcionam com alto grau de informalidade. 2 horas e 28 minutos, 18 minutos a menos do que em 2023.
Há pouco mais de dez anos, em 2014, os trajetos na cidade tinham duração semelhante. Segundo o levantamento, isso evidencia uma dificuldade histórica do poder público em enfrentar o problema e investir de forma consistente em infraestrutura e mobilidade urbana.
Mais tempo no trajeto, menos qualidade de vida
A jovem conta que nos dias em que vai direto para o trabalho, o percurso é maior. “Na linha esmeralda desço na estação Presidente Altino e faço baldeação para a linha prata até a Barra Funda. Lá, pego qualquer ônibus que passe na frente do Fórum em que trabalho”, conta sobre esse outro percurso que, por depender apenas do trem, dura duas horas.
Sarah tenta equilibrar a rotina que começa na ida à faculdade pela manhã e com estágio no período da tarde, além de conciliar um curso extracurricular de idiomas à noite em uma escola na região onde mora. Em um dia de estudos e trabalho, ela fica em média de 17 horas fora de casa, sendo que chega às 21h30.
Além de chegar tarde em casa, a estudante ainda precisa cuidar das necessidades básicas, como higiene e alimentação, além de preparar marmita e organizar os demais itens do dia seguinte antes de conseguir descansar. Quando consegue se deitar para dormir, muitas vezes já passa das 23h. Poucas horas depois, precisa sair de madrugada para recomeçar os desafios do dia.
“Geralmente, estou cansada demais no transporte para usar o tempo de forma produtiva. Tento me sentar para dormir, e, quando não consigo, fico alerta a tudo para não ter problemas no transporte público com homens, como acontece com muitas mulheres.”
Sarah dos Santos Pimenta, 21, estuda na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (USP), trabalha na Barra Funda e é moradora do Parque Novo Grajaú, na zona sul de SP.
A estudante ressalta que a rotina intensa, a privação de sono e o tempo gasto no deslocamento impactam diretamente na sua qualidade de vida e desempenho acadêmico. Com o deslocamento prolongado, sobra menos tempo para dormir com qualidade e também para estudar fora da sala de aula.
Na prática, segundo ela, o ideal seria conseguir dedicar períodos específicos para cada atividade. No entanto, o tempo gasto no trajeto e o cansaço acumulado ao longo da rotina acabam comprometendo o equilíbrio entre estudos e descanso. Sarah fala que mesmo durante o período no transporte, que poderia ser usado para adiantar leituras ou tarefas, as condições do percurso e o desgaste físico e mental dificultam esse aproveitamento.
Sarah conta que, enquanto colegas de classe conseguem aproveitar melhor o tempo por viverem em regiões centrais, ela, que mora na periferia, sente diariamente o peso da distância na produtividade e no processo de aprendizagem.
“Três horas do meu dia poderiam ser dedicadas à atividade física, a me preparar melhor para as aulas, ter mais sono e até a passar tempo de qualidade com a minha família, que, apesar de morar na mesma casa, só consigo ver para dar boa noite e, às vezes, nem isso, por causa do cansaço de todos.”
Sarah dos Santos Pimenta, 21, estuda na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (USP), trabalha na Barra Funda e é moradora do Parque Novo Grajaú, na zona sul de SP.
Sarah lembra que são os moradores da periferia os que mais sofrem com as dificuldades de acesso a transporte público de qualidade e gratuito. “Ainda assim precisa trabalhar nas regiões centrais, onde se concentra a maior parte dos investimentos estatais”, diz.
“Tudo isso serve ao propósito da burguesia de nos manter cansados o suficiente para não termos tempo de buscar informação, e muito menos de questionar, reforçando um ciclo que nos mantêm reféns das bases do sistema capitalista, sem possibilidade de ascensão [social]”, diz.
Tarifa zero no transporte público: é possível?
Ela coloca a gratuidade e qualidade do transporte público como prioridade e aponta: “Com a privatização em massa, essa realidade é quase utópica.”
“Apesar de cansada, não sou só eu que estou passando 3 horas no transporte para ter mais oportunidades, é a minha base toda que lutou para que eu pudesse estar onde estou, então independente do cansaço, não posso parar até conseguir melhorar a minha realidade e a deles”, finaliza.


