Entrevista

Psicanalista fala das dificuldades no acesso de homens negros e periféricos à saúde mental

Cleubecyr Barbosa, idealizador do projeto Racismo na Subjetividade explica a relação entre masculinidade e a saúde mental de homens negros e periféricos.
Edição:
Evelyn Vilhena

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“Existe uma ideia de masculinidade construída muito a partir do mito do homem negro. Onde o homem precisa ser sempre forte, viril e potente. Onde um homem não pode se permitir, em nenhum momento, sentir. Existe uma ideia de masculinidade construída a partir daquilo que é inalcançado”, é desse modo que o psicanalista, Cleubecyr Barbosa, 37, relaciona a masculinidade e o acesso de homens negros e periféricos à saúde mental. 

Nascido e criado no município de Nilópolis, na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro, Cleubecyr é doutor em psicanálise, com linha de formação Freudiana, e tem como foco a saúde mental para pessoas negras através de atendimento, cursos e palestras sobre o tema.

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Cleubecyr Barbosa, psicanalista e idealizador do projeto Racismo na Subjetividade. (foto: arquivo pessoal)

O psicanalista aponta que a construção de uma masculinidade idealizada é nociva para a saúde mental, pois para serem aceitos, esses homens se moldam à uma imagem insustentável de masculinidade depositada sobre eles. “O homem negro vai interagir constantemente com essa estrutura do não pertencimento. Isso que diferencia o homem negro dos outros homens”, pontua.

Cleubecyr coloca que a ideia criada de que homem não chora é uma representação forte, porque o choro representa o sentir, que se relaciona diretamente com o se permitir lidar com as próprias emoções e vulnerabilidades.

“A masculinidade passa por esse lugar do sujeito se permitir e interagir com as suas próprias questões, assumindo as suas responsabilidades, mas entendendo também as suas fragilidades. Então, uma masculinidade saudável é aquela que se sustenta nisso que o sujeito dá conta de ser.”

Cleubecyr Barbosa, psicanalista clínico.

Saúde mental e as estruturas sociais

O psicanalista cita três fatores que distanciam homens, principalmente negros e periféricos, dos cuidados com a saúde mental: elitização, preconceito e a desconstrução do ideal de masculinidade

Segundo Cleubecyr, a terapia foi colocada no lugar do erudito, do culto, do padronizado, que não consegue se adaptar às outras realidades, o que cria essa elitização. O profissional também ressalta o papel dos analistas, que devem buscar se adaptar à realidade de cada sujeito, para que o processo terapêutico tenha identificação entre ambas as partes.

“Existe muito a ideia [de que] psicanálise é coisa de rico, de madame, [que] é coisa para quem é fraco da cabeça, para quem não tem fé. Existe essa ideia equivocada em relação ao que é o processo, para quem é, e isso vai dificultando o acesso”, coloca.

O preconceito é outro fator que interfere na procura de homens negros por saúde mental. Cleubecyr relata que muitos homens fazem análise escondido, com receio de serem expostos ou descredibilizados. 

O psicanalista também aponta que o processo analítico trabalha com o oposto de tudo aquilo que a pessoa constrói para sustentar a ideia de masculinidade.

“Quando nós estamos falando de masculinidade, nós estamos falando dessa ideia de precisar ser forte, viril, potente, desse cara que não sente, e em análise é completamente o oposto. Você vai ser o tempo todo estimulado a interagir com as suas fragilidades, com seus sentimentos, a se permitir olhar e trabalhar questões que em algum momento precisou reprimir”, afirma Cleubecyr.

Outro ponto identificado por ele, é que a maioria dos homens entra no processo terapêutico a partir das suas parceiras. Essa resistência à prática é tão enraizada que dificulta, inclusive, no atendimento de meninos, crianças e adolescentes, que desde cedo buscam se sentir incluídos e pertencentes a partir desse ideal equivocado de masculinidade.

Sistema Público de Saúde

O acesso à saúde mental não se relaciona apenas a uma busca individual. Ao analisar pelo aspecto da saúde pública, esse acesso também esbarra na elitização e preconceito.

“Existe um preconceito do próprio sistema, que não dá muita importância ao cuidado mental [e] emocional. Existe uma ideia de que a psicanálise ou processos terapêuticos, não são para esses ambientes [para as periferias], então é tudo muito caro, as consultas são caras, os cursos de formação e isso inviabiliza o acesso”, afirma o psicanalista. 

No entanto, ele aponta que aos poucos esse preconceito está sendo quebrado e que projetos têm ajudado nessa questão, mas ainda assim, é necessário a atuação no aspecto de saúde pública.

“Existe a necessidade de uma estrutura pública prestando um real serviço na saúde mental, é o que está faltando”, coloca Cleubecyr, e ressalta que atualmente o que existe é um atendimento emergencial que se baseia no encaminhamento para a medicação, que tem sua função, mas não dá conta do tratamento como um todo.   

“O poder público não oferece o básico, você vai na maioria das periferias do Rio de Janeiro e não vê sistema de esgoto, sistema de educação, então o não cuidado com a saúde mental é mais um elemento que compõe todo esse não cuidado. Então realmente é um desafio estabelecer um programa de saúde mental que consiga alcançar esses homens negros da periferia”, diz.

Terapia em grupo

Desde 2021, Cleubecyr toca um projeto chamado Racismo na Subjetividade, com a proposta de falar sobre os efeitos do racismo na subjetividade negra. O projeto é conduzido junto com Terapretas, iniciativa que promove saúde mental de forma acessível para pessoas negras.

Através do projeto, os profissionais conduzem um grupo de acolhimento para homens negros, com encontros semanais, toda terça-feira, on-line e gratuito. Cleubecyr aponta que é possível alcançar o fortalecimento da saúde mental através da terapia em grupo, como a que conduz em parceria com o Terapretas. 

“O ponto principal é justamente a identificação. São histórias que se misturam. E aí as pessoas vão se percebendo acolhidos por essa ideia de identificação no sentido de não se perceberem mais sozinhas”, comenta o psicanalista.

Acesso de homens negros e periféricos à saúde mental
Cleubecyr com o grupo de acolhimento no sistema socioeducativo do Rio de Janeiro. (foto: arquivo pessoal)

O profissional relata que a partir dos encontros em grupo, até os homens que não se sentem à vontade para falar, são influenciados pela experiência e escuta, pois, às vezes, aquilo que o outro traz aciona uma identificação e desperta gatilhos positivos. Esse acolhimento e interação, mesmo sem a fala, são capazes de gerar um processo de cura.

“O processo analítico tanto em grupo, como individual, tem um fator principal que é: nós não estamos construindo esse processo para estabelecer sobre o outro um olhar de julgamento”, afirma Cleubecyr. 

O psicanalista aponta que esse processo terapêutico não tem o propósito de orientar ou aconselhar, a finalidade é construir um ambiente de acolhimento, onde os homens consigam encontrar um lugar seguro de pouso para as suas questões, algo, que por vezes, não conseguem encontrar em outra experiência.

Para participar do grupo terapêutico basta acessar o link das reuniões que acontecem às terças, a partir de 20h, disponibilizado nas redes sociais do Terapretas (@terapretas).

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