Opinião

Carta aberta aos vestibulandos de 2025

Um chamado para jovens periféricos celebrarem as pequenas vitórias diante da pressão para passar no vestibular.

Leia também:

No início desta coluna costumava escrever com certa frequência sobre educação, mas nos últimos meses a vida tem me tomado tanto tempo que pouco consigo sentar para realizar uma escrita digna de todos os meus leitores. Nesse tempo em que a vida parece correr, ela também me afirma que não podemos nos deixar levar pelas narrativas e pela dureza do escolher.

Desde muito cedo, jovens de periferia têm suas trajetórias atravessadas por diferentes experiências; uma delas é o trabalho. Na adolescência, o trabalho passa a assumir um papel central para jovens periféricos, não somente para o auxílio da subsistência da família, mas também para o acesso a lazer e independência, por exemplo.

ASSINE NOSSA NEWSLETTER

Cadastre seu e-mail e receba nossos informativos.

Sendo assim, o estudo se torna uma das únicas formas de um jovem periférico acessar uma realidade diferente, e com isso vem também uma pressão: não ter tempo para esperar e não ter tempo para errar. Ser aprovado em uma universidade, por vezes, é o sonho de ter um trabalho mais digno e, nessa realidade, parece não haver tempo para erros.

Contudo, querido jovem, os vestibulares são feitos para excluir; a verdade é que as universidades não são acessíveis a todos e que o estudo ainda é tratado como privilégio em nosso país. Pesquisando com jovens, sendo jovem, percebi que o tempo tem sido uma disputa e que cada vez mais vivemos em meio a tantas transformações que as adaptações que fazemos para sobreviver acabam sendo uma pedra para alcançar nossos sonhos.

Assim, a saúde mental e física dos estudantes de periferia fica completamente comprometida, não há outra opção senão fazer dar certo, mas e quando já estamos dando certo? Nossa vida não inicia na universidade; até lá já vivenciamos tantas coisas que nosso olhar para o próprio estudo muda. 

Em uma realidade em que o trabalho é central, o estudo secundário e a vida uma urgência, a saúde não entra em nossa conta. Não contamos as horas em que ficamos em pé em um ônibus cheio, dos dias fazendo janta ou do final de semana limpando a casa. Funções reprodutivas e questões de gênero também assumem um lugar importante; desde cedo jovens rapazes assumem um papel ligado ao sustento do lar, já as jovens moças realizam todo o trabalho doméstico e de cuidado. Algo que também ocupa boa parte do tempo e impede os estudos assíduos.

Jovens LGBTQIAPN+ sofrem diversas violências dentro e fora de casa, sem rede de apoio e, por vezes, precisam ocultar quem são de sua própria família. Jovens negros e negras possuem desafios ligados ao racismo estrutural: dificuldade de acesso ao mercado de trabalho, violência policial e hipersexualização.

Nos últimos anos, a juventude periférica também tem sido atravessada pela informalidade no trabalho, acesso a subempregos em que possuem múltiplas funções e sem uma perspectiva esperançosa em relação ao seu futuro. 

A solução seria estudar mais? Se esforçar mais? Perder noites e saúde?

Não. O intuito dessa carta é dizer para vocês que, infelizmente, pela política focada em exclusão, não há universalização do ensino público universitário. E que esse processo é pensado para nos fazer duvidar, mas não podemos, não devemos.

Olhem o vestibular como uma ponte entre vocês e a universidade, utilizem o conhecimento como munição constante para observar a realidade em que vivem e peçam ajuda.

Hoje na periferia temos alguns lugares com uma rede de apoio, lugares de lazer e cultura; não abdiquem da poesia, do funk, do rap, das rodas onde brilham, dos lugares que trazem força. Não se tranquem, estudo se faz com movimento, não se permitam serem saqueados pelo uso de substâncias sem cuidado, não busquem fuga, entendam o caminho.

Ao verem as notas, orgulhem-se. Eu sei que o tempo nos pede urgência, mas precisamos pensar: e tudo o que já fizemos? Um livro em nossa mão já é uma viagem, sem volta. Não desistam, eu tirei 547 como nota final do primeiro ENEM que fiz; no mesmo ano passei nas duas fases da UNESP e hoje sou pesquisadora em nível de mestrado na Universidade Federal de São Carlos, no campus de Sorocaba. 

Aqui a afirmação é: uma prova não define sua inteligência ou até onde pode chegar. Você, assim como eu, pode realizar duas provas ao mesmo tempo e obter resultados diferentes. Justamente porque realizar uma prova dessa magnitude depende de inúmeros fatores. E nós chegarmos lá já é um passo enorme. Acreditar em nós mesmos também! 

Nunca fui uma estudante exímia, mas sei que muitos de vocês são infinitamente mais dedicados do que um dia já fui. Isso tudo para dizer que a saúde de vocês vem antes, que é preciso ter equilíbrio; não é fácil estudar e é por isso que já são vitoriosos!

Parabéns a todos, independentemente dos resultados. 

Este é um conteúdo opinativo. O Desenrola e Não Me Enrola não modifica os conteúdos de seus colaboradores colunistas.


ASSINE NOSSA NEWSLETTER

Cadastre seu e-mail e receba nossos informativos.