“Deixo de pagar o aluguel pra poder comprar as coisas dentro de casa”: Exclusão socioeconômica contribui com endividamento de mulheres negras

Especialista aponta a importância de políticas de distribuição de renda para promover justiça econômica entre mulheres negras.
Edição:
Isadora Santos

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Mercado, feira, farmácia, conta d’água e luz, leite para as crianças, fralda, açougue, aluguel, dentre outros itens e serviços básicos, são alguns dos compromissos fixos que Adriana Menezes, 35, precisa pagar todo mês. “As despesas mais altas daqui são o aluguel, a água e a luz”, relata ela, que atualmente está desempregada e conta que os boletos de cobrança não param de chegar.

Moradora de Diadema, município da região metropolitana de São Paulo, Adriana vive com seus dois filhos — um de nove anos e outro de dois anos e três meses —, conta que precisa se “virar nos trinta” para fechar as contas no fim do mês. “Sou eu a responsável por organizar tudo, as contas, a casa”, destaca.

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Ela conta que em determinadas situações, precisa identificar qual a prioridade do momento. “Deixo de pagar o aluguel pra poder comprar as coisas dentro de casa e para meus filhos. Fico muito preocupada, sem saber como vou pagar o aluguel depois”, explica. 

“A responsabilidade fica toda nas minhas mãos, afinal, sou mãe solo de dois filhos. Tenho que organizar o que preciso comprar, porque tudo está muito caro, então deixo de comprar uma coisa para conseguir outra”. 

Adriana Menezes, dona de casa, mãe de duas crianças e moradora de Diadema, município localizado na região metropolitana de São Paulo.

Com os aumentos comuns de começo de ano, as contas ficam ainda mais pesadas. Para garantir que nada de essencial falte, diz que economizar cada centavo faz a diferença no orçamento. 

“Sempre no começo do ano costuma ser bem complicado. Cada ano que passa o pãozinho vai aumentando. Antes, a gente pagava 10 centavos na unidade e hoje um pão custa pelo menos 60 centavos. Está um absurdo e tem dia que eu passo um aperto enorme dentro de casa”, conta Adriana, que já atuou como ajudante geral em um restaurante industrial.

Ela conta que em 2023, período em que estava grávida, também estava desempregada. “No ano passado foi difícil de novo, pois tive alguns problemas com o aluguel aumentando, as coisas no mercado subindo, [é triste] ver o seu filho pedindo as coisas e não ter dinheiro pra comprar”, compartilha. 

Por morar perto dos serviços que fazem parte da sua rotina (mercado, creche, farmácia, dentre outros), diz que não costuma andar de transporte público com frequência. Segundo Adriana, o uso é esporádico, quando surge alguma necessidade, como, por exemplo, emergências que exigem levar os filhos ao hospital.

 “Quando vou levar as crianças ao médico, daí tenho que usar ônibus. A tarifa aumentou, de novo, para R$7,50. Caso algum dia eles fiquem doentes e eu não tenha esse valor para pagar o ônibus, já sei que terei que me virar e ver o que fazer.”

Adriana Menezes, dona de casa, mãe de duas crianças e moradora de Diadema, município localizado na região metropolitana de São Paulo.

Desde o dia 6 de janeiro, as tarifas do transporte público subiram em todo o Estado de São Paulo. Na capital, o bilhete do metrô e dos trens passou de R$ 5,20 para R$ 5,40, representando um aumento de 3,85%. Em Diadema, as linhas municipais, administradas pela empresa Suzantur, sofreram reajustes com valores subindo para R$ 4,50 no cartão SOU+Diadema (5,88% de aumento) e R$ 5,90 no dinheiro (7,28% de aumento). O vale-transporte foi reajustado para R$ 7,50. O novo valor é válido desde o dia 12 de janeiro de 2026.

Segundo relatório da Oxfam, o salário médio no Brasil, em 2022, foi de R$ 2.540, enquanto o custo médio do transporte público foi de R$ 4,80. Nesse período, quem recebia o salário médio e utilizava duas passagens por dia poderia comprometer cerca de 11% do orçamento mensal apenas com deslocamento. O problema mostrou-se ainda maior para quem vivia com um salário mínimo e para moradores de capitais e regiões metropolitanas, onde as tarifas costumam ser mais caras, com o custo do transporte podendo chegar a consumir de 15% até 20% da renda mensal.

A diademense faz parte de um grupo que é maioria no Brasil: mulheres negras, que representam 28,5% da população, ou seja, 60 milhões de pessoas.

No entanto, essas mulheres também demonstram habilidades que precisam desenvolver para lidar com esse cenário de desigualdade, para gerir e fazer render o dinheiro. A pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) de 2023, aponta que elas também são as mais preocupadas e empenhadas em quitar restrições no nome.

Até outubro de 2025, 79,5% das famílias brasileiras tinham algum tipo de dívida a vencer, o que representa o maior índice já registrado em toda a série histórica da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), realizada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), que analisou dados coletados em todas as capitais brasileiras e no Distrito Federal (DF), com aproximadamente 18 mil entrevistados. 

Apesar da alta, o levantamento apresentou uma desaceleração (0,6%) em comparação com o ano anterior (2024), que registrou 78,9% de devedores. Nesse contexto, vale ressaltar que a população negra é maioria no país, totalizando cerca de 112,7 milhões de pessoas (55,5% do total), conforme o Censo 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com os pardos representando 45,3% e os pretos, 10,2%. 

Considerando as famílias com débitos, 30,5% são consideradas inadimplentes (estão com pagamentos atrasados) e 13,2% afirmam que não terão condições de pagar as parcelas. 

Entre as dívidas mais comuns, o cartão de crédito lidera, presente em 85,1% dos casos. Seguido de carnês, citados por 16,2%, e as linhas de crédito pessoal, com 12,1%. Na sequência, aparecem os financiamentos de imóveis e carros, com 9,6%, o crédito especial, com 3,3%, e outras dívidas, com 2,6%.

Já o Mapa da Inadimplência e Negociação de Dívidas no Brasil (dez./2025) — relatório mensal divulgado pela Serasa — traz indicadores que mostram que o perfil das pessoas com o nome restrito é composto em 50,4% por mulheres com idades entre 41 e 60 anos. Na sequência, aparecem pessoas de 26 a 40 anos (33,8%) e, por fim, consumidores acima de 60 anos, que correspondem à 19,5%.

No caso de Adriana, o Bolsa Família — programa de transferência de renda do governo federal para famílias em situação de pobreza e extrema pobreza — é essencial enquanto ela está desempregada. 

“Recebo R$700,00 e com esse dinheiro pago a conta d’água, aluguel e luz, com desconto na energia que consegui no CRAS. Esse programa me ajuda muito. Consigo também comprar fralda, leite e fazer alguns bicos para complementar. Se não fosse o Bolsa Família, não sei o que seria”, conta.

Exclusão socioeconômica

Para a matemática, educadora financeira, bancária e pesquisadora sobre finanças com recorte racial e de gênero, Patrícia Marins, organização financeira não muda estrutura de desigualdade. 

“Existem limites estruturais muito claros. Segundo o IBGE, com base nos dados da PNAD Contínua de 2022, trabalhadores negros recebem, em média, cerca de 40% menos do que trabalhadores brancos no Brasil. Isso mostra que a desigualdade não nasce da forma como as pessoas organizam o dinheiro, mas da forma como a renda é distribuída.”

 Patrícia Marins é matemática, educadora financeira, bancária e pesquisadora sobre finanças com recorte de racial e de gênero.

Ao mesmo tempo, destaca que educação financeira tem um papel importante dentro do que está ao alcance da pessoa. “Ela não elimina desigualdade, mas ajuda a reduzir vulnerabilidades e ampliar autonomia.”

A pesquisadora, que atua com foco em mulheres negras, tem sua própria história como referência. “Cresci na periferia, sou filha de trabalhadora doméstica e vivi uma realidade onde o dinheiro era uma preocupação diária. A organização financeira não mudou o sistema, mas mudou minha relação com o dinheiro e ampliou minhas possibilidades.”

Segundo o IBGE, no Censo Demográfico de 2022, mulheres negras representam a maior parcela entre as chefes de família no Brasil. Ao mesmo tempo, a PNAD Contínua de 2022, mostra que elas concentram maiores índices de informalidade e menores salários. “Essa combinação gera uma sobrecarga financeira muito grande. Quando surge um imprevisto, muitas vezes o crédito acaba sendo o único caminho possível”, analisa. 

Patrícia ainda menciona que com a entrada de casas de apostas e jogos de azar digitais nas periferias, o crescimento das Bets no Brasil tem preocupado. “Para famílias com renda limitada, essas perdas podem comprometer gastos essenciais, pois o jogo chega com uma narrativa de ganho rápido, mas funciona dentro de uma lógica matemática que favorece a perda”.

Uma pesquisa do Datafolha, divulgada em 2024, apontou que cerca de 15% dos brasileiros já fizeram apostas online, sendo que a maior parte relatou perdas financeiras. 

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Segundo a especialista, o racismo e a desigualdade social definem, juntos, limites claros sobre quem pode ou não usufruir de qualidade de vida. O funil se estreita ainda mais em momentos de maior instabilidade econômica. 

“São várias despesas que aumentam ao mesmo tempo. No início do ano, surgem despesas obrigatórias como material escolar, reajuste de transporte, energia e alimentação. Isso pressiona ainda mais o orçamento. O aumento do salário mínimo é importante, mas ele é rapidamente absorvido pela inflação dos itens básicos. Então o alívio existe, mas costuma ser limitado.”

Patrícia Marins é matemática, educadora financeira, bancária e pesquisadora sobre finanças com recorte de racial e de gênero.

Políticas públicas contribuem para a justiça econômica

Patrícia ressalta ainda que justiça econômica se faz com políticas públicas. Quebrar o preconceito contra benefícios e programas de transferência de renda faz parte deste caminho.

Programas de transferência de renda e subsídios em serviços essenciais têm impacto direto na redução da pobreza e na segurança alimentar das famílias. A creche pública, por exemplo, não é apenas uma política social, ela permite que mulheres ingressem ou permaneçam no mercado de trabalho.”

Patrícia Marins é matemática, educadora financeira, bancária e pesquisadora sobre finanças com recorte de racial e de gênero.

Adriana também destaca o papel da tarifa social de energia e do subsídio ao gás como auxílio para liberar parte do orçamento das famílias, que pode ser direcionado para suprir outras necessidades como alimentação, saúde e educação. “Essas políticas ajudam a reduzir desigualdades históricas”, lembra.

Patrícia indica caminhos práticos para aquela cidadã que têm direito, porém enfrenta dificuldades ou nunca acessou os subsídios. “O principal [passo] é manter o Cadastro Único atualizado. O Ministério do Desenvolvimento Social diz que ele é a porta de entrada para a maioria dos programas de transferência de renda no Brasil”, explica. 

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Ela também orienta as famílias a procurar o CRAS (Centro de Referência de Assistência Social) mais próximo do seu endereço, além de buscar informações em canais oficiais do governo.

Mesmo que o endividamento seja fruto de um problema estrutural maior, pensando em quem consegue, dentro do possível, se organizar, ela orienta sobre como regularizar dívidas e administrar a vida financeira sem cair em empréstimos abusivos. 

“O primeiro passo é entender para onde o dinheiro está indo. O cartão de crédito rotativo continua sendo uma das modalidades com juros mais altos do país. Depois disso, é essencial priorizar despesas básicas e buscar renegociação das dívidas com juros maiores. Hoje, existem programas que oferecem descontos importantes. Outro ponto fundamental é criar pequenas reservas financeiras”, orienta.

Em novembro de 2025, a Marcha das Mulheres Negras retomou a Brasília, reunindo mais de 300 mil pessoas, para reafirmar e reivindicar direitos. Dentre as principais pautas, está o Manifesto Econômico das Mulheres Negras, que discorre acerca de demandas socioeconômicas que acometem mulheres negras, impossibilitando o pleno bem-viver e qualidade de vida.

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A especialista, que esteve presente na Marcha das Mulheres Negras, lembrou que ver mulheres negras falando sobre dinheiro foi marcante. “Era impossível separar autonomia financeira de dignidade. Muitas mulheres relataram o quanto a falta de renda está diretamente ligada à permanência em situações de violência, à dificuldade de estudar ou até à impossibilidade de descansar”, afirma.

De acordo com a educadora financeira, sem emancipação e reparação histórica, será possível sonhar para além da lógica de sobrevivência. “As mulheres negras não querem apenas sobreviver, querem estabilidade, descanso, prosperidade e o direito de sonhar”, pontua. 

“Acredito que vivemos um momento de transição. Ainda existe uma luta urgente pela segurança financeira básica, mas também existe um despertar coletivo para ocupar espaços econômicos, produzir riqueza e mudar narrativas históricas que sempre colocaram mulheres negras no lugar da escassez”, finaliza.

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