“Fazemos com que as pessoas entendam a cultura surda”, diz criadora do projeto Libras Na Quebrada

Edição:
Ronaldo Matos

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Com 3 anos de atuação, o Libras Na Quebrada conta com mais de 10 pessoas na equipe, composta por educadores surdos e ouvintes.

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Oficina de Libras sendo mediada pela educadora Ananda Castilho, que inclusive foi aluna do projeto. (Foto: Acervo pessoal)

 O projeto Libras na Quebrada iniciou a primeira turma de oficinas gratuitas de língua de sinais de 2023, no primeiro sábado (05) do mês de março. O curso, que tem duração de quatro meses, acontece dentro da Casa de Cultura da Vila Guilherme pelo terceiro ano consecutivo. O espaço cultural, localizado na zona norte de São Paulo, já se tornou a sede fixa do projeto.

“Eu pensei: preciso fazer essa revolução. Porque às vezes na periferia tem o surdo, mas as pessoas chamam de ‘mudinho’, que é errado, ou de ‘doido’. Então a ideia do projeto é essa, a gente ensina libras mas a gente também conscientizar as pessoas, fazemos reflexões e fazemos com que as pessoas entendam a cultura surda”, explica Gyanny Vilanova, criadora do projeto Libras na Quebrada que moradora da Vila Maria, zona norte de São Paulo.

“O surdo é capaz de fazer qualquer coisa, estar em qualquer lugar e entender qualquer coisa”

Gyanny Vilanova, criadora do projeto Libras na Quebrada

O Libras na Quebrada é um projeto que nasceu a partir de um primeiro contato com uma pessoa surda que tinha dificuldades de comunicação, segundo Gyanny , a fundadora. (Foto: Acervo pessoal)

O propósito do Libras na Quebrada ajudou a transformar a vida profissional da enfermeira Fabiana Souza, 46, moradora do Brás, região central de São Paulo. Ela é aluna do projeto desde 2021 e relata como os aprendizados conquistados durante a formação agregaram valor a maneira de atender a população surda nos equipamentos públicos de saúde onde ela trabalha.

“Imagina uma pessoa que está precisando ser socorrida numa unidade de saúde, e a pessoa tenta expressar aquilo que ela está sentindo, uma dor, uma agitação ou qualquer outra coisa que não seja visível e ninguém conseguir entender, se hoje aparecer alguém para fazer os exames, eu consigo aos pouquinhos, conversar e fazer perguntas para uma pessoa surda”, exemplifica Fabiana, citando situações que podem acontecer no dia dia de trabalho.

“Eu consigo aos pouquinhos conversar e fazer perguntas para uma pessoa surda”

Fabiana Souza, enfermeira e aluno do projeto

Para realizar as oficinas e atender os mais de 20 alunos, o projeto conta com o apoio da Ananda Castilho, 2, que também mora na Vila Guilherme, zona norte de São Paulo. Antes de ser integrante da equipe pedagógica do projeto, ela foi aluna do curso, pois nasceu com uma pequena taxa de surdez, e considera o aprendizado de libras como uma necessidade social e fundamental para todas as pessoas.

“Sinto que minha responsabilidade como professora é desconstruir a cabeça dos meus alunos, mostrar que devemos sempre estar atentos ao nosso redor, ter empatia pelo próximo. Eu sempre falo pra eles que quando você entende o propósito da libras, do porquê você está aprendendo, quando você entende a importância da libras e de repassar esse conhecimento a frente, você se interessa e começa a mudar seus pensamentos”, reflete a educadora.

As oficinas do projeto têm a duração de aproximadamente quatro meses, e contam com o apoio de educadores surdos e ouvintes. (Foto: Acervo pessoal)

Gyanny, que é a criadora da iniciativa, conta que tudo começou em 2009, quando tinha 16 anos. Nesta época, ela trabalhava na Galeria do Rock, no centro de São Paulo, como vendedora. Ao sentir dificuldades para usar libras pela primeira vez para atender um jovem surdo, ela se sentiu curiosa para aprender a usar a língua de sinais e estimular outras pessoas a seguir esse caminho.

“Fiquei um tempo pensando em como elaborar o projeto, qual o foco, a missão e valores. Quando a gente começou era um pouco mais difícil achar curso de libras, era só pago, aí eu pensei em fazer um gratuito sem cobrar nada da galera, e na periferia tem muito espaço legal”, relata a criadora do projeto.

Após o período de idealização e estruturação do curso, as oficinas da primeira turma do Libras Na Quebrada começaram em 2020, no mês de fevereiro, mas, com a chegada da pandemia, todo o cronograma de atividades precisou ser pausado por um tempo indeterminado. 

“No centro já tem curso de libras, então eu quis pensar em ir para lugares que não têm”

Gyanny Vilanova, criadora do projeto Libras na Quebrada

O projeto Libras Na Quebrada não parou mesmo com a chegada da pandemia em 2020, as aulas aconteceram no formato online. (Foto/Reprodução: Acervo pessoal)

“A gente fez um mês de aula, veio a pandemia e tudo que eu estruturei pro presencial, como brincadeiras e dinâmicas foi por água abaixo e a gente teve que se reorganizar no online. Ficamos uns meses sem realizarmos as aulas, depois voltamos para o online”, explica Gyanny.

Entretanto, até hoje, a ideia do projeto é chegar em todas as quebradas, ensinar as linguagens de sinais mais usadas no cotidiano das pessoas. As oficinas duram quatro meses, em sua grande maioria são realizadas em encontros aos sábados, com turmas que tem em média 20 alunos.

“Quando eu iniciei o curso foi por curiosidade, quando eu fui começar a fazer e participar das aulas com professor surdo foi por amor, e depois conhecendo os surdos, eu peguei empatia. Então foi um passinho de cada vez. O surdo é capaz de fazer qualquer coisa, estar em qualquer lugar e entender qualquer coisa”, concluiu Gyanny.

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