“Eu queria me enxergar nos meus alunos”: professora cria curso de inglês para romper barreiras sociais e raciais

Karina Santana conta fatores raciais e profissionais que a motivaram a criar o curso "Karina, Me Ensina", focado em pessoas negras e periféricas, que começou com 15 alunos e hoje já atende mais de 500 estudantes.
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Ronaldo Matos

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Em janeiro de 2021, a professora de inglês Karina Santana, 28, moradora da zona leste de São Paulo, criou o curso “Karina, Me Ensina”, para romper com a lógica de mercado da educação que torna o inglês um idioma acessível para pessoas brancas e de classe média, e distante de pessoas negras e periféricas.

Um dos diferenciais do curso tem esse propósito de impacto social: facilitar o acesso de inúmeras pessoas periféricas ao ensino de inglês, principalmente de mulheres negras como ela, que correspondem a 80% dos seus alunos.

“O inglês é elitizado no Brasil. E existe a visão de que quem o domina é superior. Nos sentimos inferiorizados porque achamos que deveríamos ter esse conhecimento, quando não é questão de querer, mas de ter condições financeiras para tal.

Karina Santana, professora de inglês e fundadora do “Karina, Me Ensina”.

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Batendo de frente com o racismo

Durante a trajetória profissional, Karina conta que, ao longo dos mais de 8 anos em que trabalhou em escolas bilíngues, pôde perceber de perto a diferença brusca entre a sua vida e a daqueles que frequentavam suas aulas, majoritariamente brancos e de classe média, sendo alvo inúmeras vezes de discriminação de raça e classe.

Ela lembra que a postura dos alunos brancos para promoção do racismo deixou marcas na sua trajetória profissional. “Uma vez eu recebi um sabonete de um aluno que, ao entregá-lo, disse que eu devia me lavar, porque eu era suja. Ao levar a questão para a diretoria, eu fui demitida.”

“O choque de realidade que eu vivenciava nas escolas atuando como professora era gritante”

Karina Santana, moradora da Zona Leste de São Paulo.

“Ninguém dizia abertamente que “inglês era coisa de rico e branco”, mas o choque de realidade que eu vivenciava nas escolas atuando como professora era gritante. Eu era sempre a única professora negra e já passei por várias situações de racismo, do velado ao escrachado”, revela Karina.

Além de enfrentar essas situações de racismo no ambiente de trabalho, a professora de inglês vivenciou outra forma de preconceito, desta vez, o alvo foi o seu filho caçula, que ela tinha acabado de dar luz, e nasceu com a Síndrome de Klippel-Trenaunay, uma doença que causa má formação dos ossos, varizes nas veias, manchas no rosto, entre outras complicações que impedem o bom desenvolvimento da criança.

Ao voltar da licença maternidade e informar à empresa sobre a condição de saúde do filho mais novo, que exige tratamento e acompanhamento contínuo, Karina foi demitida duas semanas após voltar ao trabalho, uma atitude antiética da empresa que vai contra a legislação trabalhista. Tais acontecimentos contribuíram para a professora dar novos rumos para sua vida profissional, adotando o empreendedorismo como uma tentativa de gerar renda.

“Eu não sonhava ser empreendedora, eu me tornei empreendedora por necessidade”.

Karina Santana, criadora do curso Karina, Me Ensina.

Ela sempre amou ser professora, mas o fato de encontrar vários desafios para se manter no mercado de trabalho, a levou a oferecer aulas de inglês por conta própria para um novo perfil de estudantes.

“Diferentemente do público que atendia nas escolas bilíngues, eu queria poder me enxergar nos meus alunos e que eles se enxergassem em mim também. Por isso, sempre tive comigo a ideia de ter um curso acessível, de baixo custo e que aproximasse as pessoas periféricas do inglês”, conta a empreendedora.

Inspirada em Paulo Freire

Karina é pedagoga com especialização em pedagogia freiriana, método criado por Paulo Freire que defende uma aprendizagem coletiva, prezando pela troca entre professor e aluno, a partir das realidades sociais e experiências dos estudantes, de modo que eles consigam enxergar sentido e motivação para aprender.

Desta forma, ela não oferece um curso só com valor acessível, mas com ensino humanizado, que busca entender o motivo real pelo qual as pessoas não conseguem aprender inglês, respeitando o tempo de cada um e fazendo com que tenham autoestima e segurança para se familiarizar com o idioma. 

“A Teacher Karina é acolhedora, divertida e gentil com todos, sempre nos incentivando a perder a vergonha de julgamento sobre a nossa pronúncia, nos deixando livres para responder perguntas em português quando temos dúvidas de como falar algo, tornando assim, as aulas em um espaço seguro em que podemos errar, aprender e evoluir”, explica Bianca Rodrigues, aluna do curso “Karina, Me Ensina”.

Bianca Rodrigues, publicitária e aluna do "Karina, Me Ensina". Foto: Arquivo pessoal.
Bianca Rodrigues, publicitária e aluna do “Karina, Me Ensina”. Foto: Arquivo pessoal.

“Antes das aulas da Teacher Karina, eu dependia totalmente do recurso de tradução do Google para compreender textos em inglês, inclusive no meu trabalho.”

Bianca Rodrigues, aluna do  curso Karina, Me Ensina.

Os conteúdos abordados nas aulas também recebem atenção especial, por possuírem um olhar crítico sobre o inglês e sua relação com a cultura norte-americana. Diferentemente das escolas tradicionais que vendem o idioma como sendo parte do “sonho americano”, ela tenta romper com essa ideia imperialista, focando na questão de oportunidades e acesso a lugares, seja para trabalhar, estudar ou viajar. 

Por isso, a proposta pedagógica não se limita à variação estadunidense e traz o sotaque queniano, indiano, além de trabalhar com música, arte e culturas negras, o que gera identificação com os alunos, fazendo com que se sintam mais à vontade para aprenderem e avançarem no idioma.

A aluna Bianca Rodrigues é formada em publicidade e atua como Social Media. Um dos principais impactos de aprendizagem do curso foi o desenvolvimento do gosto pela leitura de textos em inglês, habilidade fundamental na sua área de trabalho.

“Hoje já faço questão de ler cada texto em inglês e interpretar com calma o que li, partindo para tradução somente em caso de dúvidas específicas. O “Karina, Me Ensina” me incentiva a prestar mais atenção no inglês que está presente no meu dia a dia, a exercitar minha mente com frequência e a me desafiar cada vez mais no idioma”, compartilha Bianca.

Retornos positivos de alunas como a Bianca são comuns nas redes sociais da escola de inglês criada por Karina, com destaque para as publicações em seu perfil no Instagram, @teacher.professora, carro-chefe para atrair clientes, por engajar mais de 10 mil seguidores, fato que contribuiu para atingir a marca de 500 alunos.

“Fiz de tudo para formar minha primeira turma com 15 alunos. Postava todo dia sobre meu curso em grupos de Facebook voltados ao afro empreendedorismo. Mandava mensagem sobre as aulas para todos os contatos do meu WhatsApp e pedia para compartilharem com quem pudessem. Falava muito com todas as pessoas que conhecia. Como sou bastante comunicativa, acredito que isso tenha me ajudado no início”, finaliza Karina.

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