“Acima de tudo eu luto”, afirma Cassis Guariniçara, mãe, artista e indígena

Edição:
Evelyn Vilhena

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Criador de uma rede de serviços que emprega pessoas marginalizadas pela sociedade, Cassis conta sobre os processos de reafirmação da sua identidade.

Nascido no Grajaú, zona sul de São Paulo, Cassis Guariniçara, 28, é multiartista, pessoa trans não binária e atuante na luta pelos direitos dos povos originários. O artista faz parte de uma associação multiétnica denominada “Wyka Kwara”, que reúne indígenas de todo o país.

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Pertencente do povo Kariri Xocó, originário da Bahia, Cassis conta que sua ancestralidade veio por parte do pai, Claudemiro Correia e dos avôs paternos, Maria Damiana e Agustinho Correia.

A oralidade, cultura e ancestralidade sempre foram presentes dentro da minha criação. A consequência da colonização é estar em contexto urbano, mas o indígena, ele é indígena em qualquer espaço, onde quer que ele esteja

expressa Cassis, sobre a relação com a família e origem.

Em 2014, ano em que passou a morar em uma ocupação artística, Cassis se conectou com diversas vivências e aprendizados, período que se desenvolveu como arte educador, performista e artista de rua.”Fui passar uns dias e acabei fazendo uma residência artística de 5 anos”, diz o artista sobre a sua mudança para ocupação Ouvidor 63, localizada no centro de São Paulo.

Na ocupação, que abriga mais de 120 artistas, mulheres, mães, pais, travestis e indígenas, Cassis ajudava nas obras que o prédio antigo necessitava, pois executava esse trabalho desde criança com seu pai, Claudemiro, que é mestre de obras.

Foi a partir dessa vivência que em 2020, o artista teve a ideia de fazer uma postagem no Facebook, em um grupo de mulheres, oferecendo serviços de reparos e obras, como pinturas. Com a demanda de trabalhos que apareceram, Cassis começou a recrutar os moradores para as reformas e criou uma rede de “esposas de aluguel”. 

Após a divulgação de seu trabalho no grupo “Feministrampos” muitas pessoas o procuraram para serviços de manutenções e reparos. Foto: arquivo pessoal

“É uma rede de formação. Hoje, eu consigo formar profissionais que são pessoas racializadas, travestis, pais, indígenas, negras e essas pessoas acabam oferecendo seus próprios serviços e não ficam dependentes de mim. Faço parte de um coletivo que me ajuda muito nisso, que é o ‘Colabirito“, relata.

Hoje a rede é uma das frentes de trabalho do Cassis, sendo sua principal fonte de renda, mas as demandas de obras variam conforme o mês, fazendo com que ele precise combinar outras atuações, como arte educador e também com malabarismo no farol.

Identidade  

Para Cassis, ser indígena e viver em uma capital metropolitana é um desafio diante dos preconceitos que ele já passou e estão ligados à colonização e ao embranquecimento.

“Pelo que eu sinto ocupando esse espaço é que só tem dois lados: ou você é visto como indígena na cidade só se você estiver com adornos, ou você estuda e cria uma articulação política para poder discutir sem reproduzir preconceitos”, diz.

Junto com a Associação Wyka Kwara, Cassis esteve no Acampamento Terra Livre 2022, em Brasília, que reuniu mais de 7 mil indígenas de todo o país para debater temas como demarcação de territórios, proteção contra invasores, interrupção da agenda anti-indígena e políticas de preservação ambiental.

Foto: Ellen Lima Wassu

“Nós fomos pro movimento porque é um dever dos povos originários. Eu fui como representante da coordenação de comunicação e acolhimento. Eu fui pra aprender, pra articular e fazer laços. Foi muito importante”, relata sobre a experiência no acampamento.

Atualmente, convivendo com pessoas indígenas e não indígenas, a situação mais marcante que ele passou foi durante o processo da vacinação contra a covid-19. Por ser indígena e sofrer de falência renal, se dirigiu para tomar a primeira dose da vacina e foi questionado por uma funcionária para saber se era mesmo “índia” e se havia algum documento que comprovasse sua “tribo”.

“Primeiro eu falei que ‘índia’ não existia, que índia tava na Índia. Só que tendo uma formação política eu fui e conversei com ela: ‘olha, por lei, você não pode me pedir documento que prove etnia ou raça, mas tá aqui a minha carteira da associação com reconhecimento e você pode também ir lá consultar o meu cadastro no SUS e ver que eu estou cadastrado desde sempre como pessoa indígena'”, argumenta.

Foto: Ellen Lima Wassu

Após essa situação, Cassis conta que os advogados da Associação Wyka Kwara começaram a elaborar um documento para a apresentação no momento da vacinação, pois outros indígenas em Belém do Pará estavam passando pela mesma situação.

Por mais que tenha sido uma experiência dolorosa, foi muito importante fazer parte desse processo, pois nós conseguimos mandar para outros estados e fazer essa ponte, porque existem indígenas em zonas rurais, em quilombos, e muitas as organizações nacionais indígenas aqui do Brasil não os reconhecem

conta.

Cassis durante o Acampamento Terra Livre 2022, em Brasília, que reuniu indígenas de todo o país. Foto: Ellen Lima Wassu

A afirmação como pessoa trans não binário também foi dolorido, pois conta que foi um processo de não reconhecimento durante certo período: “Eu cresci acreditando que eu era bissexual e depois lésbica. Com 16 anos eu me entendia como pansexual e entendi que a minha relação sempre foi com pessoas”, afirma.

“Hoje eu me entendo como trans não binário pangênero. Ou seja, eu me relaciono com pessoas e eu sou contra binário, tendo vários gêneros. Um dia eu performo feminilidade, outro dia eu posso ser andrógeno, no outro dia eu posso performar uma figura masculina”, conta Cassis sobre os processos que vem identificado há 4 anos e que segundo ele, envolve terapia e conversas com pessoas trans que passaram pelas mesmas experiências.

A gente tem uma figura estereotipada do corpo trans e eu penso que eu não preciso performar uma masculinidade ou uma feminilidade pra ser entendido, né?

afirma.

Entre trabalhos como arte educador, com a rede que criou de “esposas de aluguel”, atuante pela defesa dos povos originários, Cassis ainda precisa reafirmar a sua existência. “É realmente muito difícil. Mas eu resisto como mãe, como pessoa periférica, como indigenia. Eu resisto para ter uma moradia e para ter um prato de comida. E luto, acima de tudo eu luto”, finaliza.

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