Dialogando ao Som do Vinil: encontros musicais unem memória e negritude na zona leste de SP

Através da audição de discos, embalado pelo samba, Tiganá Macedo homenageia e cria espaço de escuta que celebra a ancestralidade e produção artística negra.
Por:
Aline Macedo
Edição:
Evelyn Vilhena

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Uma agulha encosta no vinil e faz brotar memória, afeto e resistência. Desde 2019, a música tem sido a junção de diferentes pessoas que se reúnem todo último domingo do mês, no espaço Canto de Cultura Negra, localizado no bairro Guilhermina Esperança, na zona leste de São Paulo. Criado pelo Tiganá Macedo, o projeto Dialogando ao Som do Vinil apresenta a música como ferramenta de transformação, através da audição de discos de samba produzidos por artistas negros. 

O projeto nasce da vivência de Tiganá, que cresceu em uma casa onde a música sempre teve um papel sagrado. As rodas nos quintais, os almoços de domingo, as conversas atravessadas por canções, tudo isso moldou seu olhar sobre o mundo.

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“Lá em casa era muita música”, lembra Tiganá. “As casas se abriam, os vizinhos juntavam as famílias, preparavam o almoço e passavam o dia inteiro em resenha. Eu brincava com galho, fazia carrinho, mas tava sempre ouvindo tudo.”

Inspirado pelos pais, especialmente por sua mãe, Tiganá transformou essas lembranças em potência coletiva. Com o projeto, por meio do vinil, ele resgata histórias e promove encontros onde política, cultura, arte e ancestralidade caminham juntas.

Antes de qualquer samba, veio o exemplo. Os pais de Tiganá seguem afinando o tom da vida, firmeza, afeto e presença. Fotos João Santos

“Dialogando ao Som do Vinil é um evento feito por pessoas negras e para pessoas negras, e tem como proposta usar a música como um canal para refletir sobre identidade, negritude e pertencimento”, diz Tiganá.

A cada edição, um artista é escolhido para ser celebrado. No encontro do mês de junho, a homenageada foi Alcione.

Durante a audição, Tiganá propõe uma escuta atenta e crítica. O artista costura as músicas com histórias, vivências pessoais e reflexões sobre o papel social da arte. Para ele, canções como “Pedrinha da Cor” ou “A Loba” carregam mais do que melodia: são manifestações da força ancestral das mulheres negras que nos precederam.

“A música sempre esteve presente na minha construção como homem negro. Não só como entretenimento, mas como ferramenta política, social e espiritual. Alcione é uma dessas artistas que representam tudo isso”, afirma Tiganá.

De acordo com Tiganá, as escolhas dos artistas acontecem por meio de trocas: “eu procuro dialogar com pessoas que já fazem parte da caminhada de anos e que tem visões políticas progressivas e diáspora. E com pessoas mais novas para que eu dialogue com os tempos de hoje para não perder o fundamento e manter a chama acesa do agora”, diz o educador. 

Música, memória e política

Com uma curadoria delicada, ele debate política e ancestralidade, como quando se fala sobre conscientização racial, na música Pedrinha da Cor do álbum da Cor do Brasil em que Alcione fala sobre momentos de racismo em sofreu, mas também abre ali o diálogo e exalta a beleza negra e a diversidade da cultura afro brasileira.

É nesse momento que Tiganá mostra a música pra quem tá nas audições e convida todo mundo a contar como ela bate, onde pega, o que mexe por dentro.

Entre as memórias que atravessam sua relação com a música, ele relembra com carinho o primeiro grupo que marcou sua trajetória: o Fundo de Quintal. “Foi ali que tudo começou. Eu pegava o balde e tentava imitar o repique de mão, meu irmão pegava a frigideira como se fosse pandeiro. A gente ficava horas trancado no quarto, tocando, ouvindo rádio.”

A Transcontinental FM era uma referência. “Tinha um horário só de samba. A gente apertava o play no rack e ficava ouvindo em silêncio, tentando decifrar quem era o grupo, o nome da música, os detalhes. Foi ali, com uns 12 anos, que muita coisa se formou em mim.”

Mas as referências não estavam apenas no rádio. Elas vinham do quintal da avó, onde todo domingo era dia de encontro, afeto e tambor. “Minha avó sentava no quintal cercada de planta, meu tio Vadu pegava o balde e começava a tocar samba. Aí vinha minha mãe, meu tio Nezinho e virava festa. Era emoção, alegria, mas também tinha dor ali. E era essa mistura que ensinava”, relembra.

O Dialogando ao Som do Vinil é mais do que uma roda de conversa com música: é um espaço de reconexão com as raízes, de valorização da cultura negra e de reafirmação da identidade. Em um país que ainda apaga memórias e vozes negras, iniciativas como essa são respiros de resistência e cuidado. 

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