Juventude trans e periférica busca representação no Congresso Nacional

Edição:
Evelyn Vilhena

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Recorde de candidaturas trans nas eleições de 2022, reacende a esperança da comunidade após quatro anos marcados por retrocessos e violências.

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Grupo protesta por direitos da população trans. Imagem: AFP

Segundo um levantamento feito pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), as candidaturas trans e travestis bateram recorde nestas eleições, com um aumento de 47% em relação a 2018. Ao todo, foram registradas pelo menos 78 candidaturas trans pelo Brasil, das quais 69 são de mulheres trans e travestis – em 2018 foram 52; homens trans representam 5 candidaturas – em 2018 foi 1 candidatura; e 4  são de pessoas não-binárias. 

Embora os números sejam pequenos, sobretudo quando comparado às mais de 28 mil candidaturas registradas na disputa eleitoral deste ano, eles correspondem a uma grande expectativa: fazer com que o Congresso Nacional – mais especificamente a Câmara dos Deputados – seja ocupado por pessoas trans e travestis.

Para a juventude trans e periférica da capital paulista, superar essa ausência de representatividade significa a possibilidade de construir instituições políticas que dialoguem com todas as camadas da sociedade e que realmente reflitam a pluralidade observada nas ruas e avenidas do país. 

“Eu quero ver na política pessoas iguais a mim, pessoas que a gente pode encontrar na rua de casa ou no mercadinho da esquina, sabe? Porque só quem conhece as nossas necessidades vai ser capaz de mudar um pouco as coisas”

compartilha Vênuz Capel, 23, ao mencionar que está priorizando candidaturas de pessoas trans, negras e de quebrada nas eleições deste ano.

Venuz morava em Santos, no maior aglomerado de palafitas da América Latina, e mudou-se recentemente para São Paulo. Imagem: Leasi Gomes

Vênuz é social media, mora em Ermelino Matarazzo, zona leste da capital paulista, se identifica como uma pessoa não-binária e explica que ver uma mulher trans ou travesti eleita é uma oportunidade de mudar a visão da sociedade e ressignificar os estigmas que atravessam a população trans e contribuem para que 90% tenha a prostituição como única fonte de renda e de subsistência.

“Seria muito importante implementar uma educação sobre diversidade nas escolas e nos serviços de saúde, porque, muitas vezes, a pessoa não é nem transfóbica, mas não tem acesso à informação, né?”, explica Vênuz ao falar sobre quais deveriam ser as prioridades do legislativo durante os próximos anos.

Em Itapevi, município da região metropolitana de São Paulo, o estudante de Gestão e Produção Cultural, Acân Odara, 21, diz que depois de dois anos caóticos de pandemia, ele finalmente está se sentindo otimista.

“A gente não tem o mínimo, mas se a gente tivesse, já mudaria muita coisa. Então é preciso ter esperança, porque se não a gente acaba vivendo num limbo, né?”

comenta Acân.

Nascido e crescido em Itaquera, zona leste de SP, atualmente Acân mora no município de Itapevi. Imagem: Acervo Pessoal

Essa é a primeira eleição da qual Acân participa, ele explica que ainda está indeciso sobre em quem votar, mas espera que as pessoas eleitas tenham sensibilidade para enfrentar as injustiças sociais que atravessam a população negra, trans e periférica.

“Porque a gente que movimenta esse sistema, mas viver no capitalismo é não ser valorizados da forma que deveríamos, né?”, reflete o estudante de Produção Cultural.

Do outro lado da cidade, há quase 60 quilômetros de Itapevi, Sanara Santos, jornalista, moradora do distrito de São Lucas, zona leste de São Paulo, diz que também está se sentindo confiante.

“Eu acredito que a gente tem a oportunidade de voltar a debater política de forma democrática, sabe? A gente passou os últimos quatro anos somente gritando: parem de nos matar”

comenta a jornalista.

Nascida e criada na Favela da Ilha, atualmente Sanara mora no distrito de São Lucas. Imagem: Reprodução Énois Conteúdo

Neste ano, os votos de Sanara já estão decididos. Ela explica que, desde as últimas eleições, tem priorizado candidaturas de mulheres negras e trans.

“Elas não pensam exclusivamente nelas e isso é algo que a gente não enxerga em nenhum candidato homem e branco. São lutas que fazem muito mais sentido no debate político do que as de um playboy que só entrou na política porque está preocupado com o comunismo”, pontua a comunicadora.

Com a possibilidade da eleição de uma mulher trans ou travesti para a Câmara dos Deputados, cresce também a expectativa de leis voltadas à comunidade, principalmente porque, até hoje, nenhum projeto de lei em benefício da comunidade LGBTQIA+ foi aprovado pelo Congresso Nacional – todos os direitos até então conquistados vieram por meio de decisões do judiciário.

“Tem muitos acessos que são negados para a gente por causa de onde a gente mora. Então acho que uma pessoa trans que venha de quebrada, entende isso, sabe? Nestas eleições, as minhas prioridades estão relacionadas à saúde trans, porque ultimamente é uma das coisas que mais me atravessam e que eu vejo pessoas passando também”, finaliza Vênuz. 

Este conteúdo foi produzido no âmbito do projeto Planeta Território, uma iniciativa da Território da Notícia com apoio do Instituto Clima e Sociedade para fomentar e distribuir informação de qualidade sobre a emergência climática, o contexto eleitoral e o impacto na população periférica por meio de totens digitais em estabelecimentos comerciais das periferias de São Paulo

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