Se durante o dia os paulistanos já enfrentam diversos perrengues no transporte, para quem precisa transitar pela cidade de madrugada, seja trabalhando ou se divertindo, a coisa pode complicar.
Depois de um certo horário, a principal pergunta feita é: será que consigo voltar para casa? Para muitos, mesmo vivendo na cidade conhecida por ser “a que nunca dorme”, a resposta é não.
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Ainda que a capital forneça uma modalidade de transporte noturno há cerca de dez anos, que funciona de 0h às 04h com 150 linhas, não faltam relatos de pessoas que passam por perrengues ou precisam esperar até o amanhecer para conseguir voltar ao lar.
Os motivos são diversos. Um deles é a falta de informação. Tem gente que não sabe da existência da rede noturna, onde pode encontrar informações ou até onde ela funciona ou não na cidade.
Pensando nisso, o Desenrola selecionou alguns pontos importantes para quem precisa ou quer saber mais sobre essa modalidade de transporte na cidade.

O que é e como funciona?
A linha noturna é a rede de ônibus da madrugada, que funciona das 0h às 04h. Ao todo são 150 linhas. Horários e trajetos podem ser achados no site da SPTrans, na busca pela Rede de Ônibus da Madrugada. Acesse o link aqui. Informes em tempo real também podem ser vistos no Google Maps e outros aplicativos de GPS.
A modalidade foi criada em 2015, sob a então gestão de Fernando Haddad, por intermédio da Secretaria Municipal de Transportes. A pesquisa de seu projeto piloto mostrou que 78% dos passageiros nos seus seis primeiros meses o usaram para ir ao trabalho.
A cobertura da malha viária comparada ao tamanho da cidade, que tem cerca de 12 milhões de habitantes, é uma questão levantada por especialistas.
Embora o alcance do transporte noturno tenha crescido a passos tímidos nos últimos dez anos, apenas 65,8% da cidade é atendida por linhas de ônibus noturnos, segundo o Relatório Integrado da Administração da SpTrans de 2024.
As maiores regiões de atendimento são Centro e Norte 1 (76,3% e 75,3% respectivamente), seguidas pelas regiões Leste 1 (69,7%), Leste 2 (68,5%), Oeste (68,1%), Norte 2 (63,1%).
A Zona Sul apresenta a menor cobertura da rede noturna: a região Sul 1 tem 60,1% da sua área atendida e a Sul 2 tem menos de 50%, por ter o distrito de Marsilac, sendo o único da capital sem linhas noturnas – além de ter números baixos nas linhas diurnas.
Como o transporte noturno impacta na vida do paulistano?
De acordo com Ricardo Barbosa da Silva, coordenador do grupo Rede Mobilidade Periferias e professor de geografia no Instituto das Cidades, no Campus Zona Leste da Unifesp, a ausência do serviço de transporte público noturno dificulta, ou mesmo inviabiliza, o acesso a oportunidades de trabalho e estudo.
Para ele, a população mais impactada é negra e periférica, que dependem majoritariamente do transporte coletivo. “Isso aprofunda desigualdades e reforça uma das dimensões da chamada segregação espaço-temporal”, diz.
“O transporte é constitucionalmente um direito social. E um serviço de qualidade no período noturno é essencial para que todos possam voltar para casa com dignidade, sejam periféricos ou não. No entanto, as pessoas das periferias dependem mais desse serviço e, por isso, vivenciam uma cidadania incompleta. Alguns têm mais direito de se conectar pela cidade do que outros. Isso precisa mudar com urgência.” – Ricardo Barbosa da Silva, coordenador do grupo Rede Mobilidade Periferias

E a segurança para chegar em casa?
Ao longo da última década também houve uma diminuição de passageiros no transporte noturno. Em 2019, a modalidade tinha uma média de 900 mil usuários mensais. Ano passado, a média mensal foi de 450 mil, de acordo com a SPTrans.
Questionado se uma das motivações para essa queda é a segurança dos passageiros, Ricardo aponta que a desconfiança está enraizada no cidadão paulistano, mas que acredita que esse cenário pode ter mudanças, se houver investimento.
“Para muitos, o transporte noturno causa, à primeira vista, uma sensação de insegurança e o temor de violência e assédio. No entanto, a ampliação de seu uso, acompanhada de fiscalização e políticas de educação, pode reverter esse cenário, sem prejuízo a um serviço que é essencial”, diz.
Para garantir a segurança de parte dos passageiros, a lei 16.490, desde 2016, assegura que, a partir das 22h às 5h, mulheres, idosos e pessoas com deficiências podem pedir ao motorista descer fora do ponto de ônibus em um local seguro de sua escolha dentro da rota da linha.

Para proteção nos pontos noturnos há também o projeto Abrigo Amigo, que existe desde 2023. O projeto traz alguns pontos inteligentes conectados à internet que contam com câmeras de alta resolução, microfones, alto-falantes e atendimento remoto por chamada de vídeo entre 20h e 5h, assegurando a proteção de quem está esperando, sendo possível até mesmo ligar para o SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência), a Guarda Civil Metropolitana ou a Polícia Militar.
