REPORTAGEM Contextos Periféricos

“Ficam o dia inteiro sem máscara": o desafio de conscientizar alunos em escola pública de Osasco

Retorno às aulas presenciais de Osasco revela o desafio do ambiente escolar conscientizar alunos que já foram vacinados contra a Covid-19 sobre o uso de máscaras para evitar a proliferação da pandemia. 
Lucas tomou a 1ª dose da vacina da Pfizer na UBS perto de sua casa. (Foto: Monique Caroline)

Com a pandemia da Covid-19, as aulas no estado de São Paulo foram paralisadas a partir de março de 2020. O avanço da vacinação fez com que alunos do ensino médio como Lucas Fabiano, 17 anos, que estavam há mais de um ano estudando em casa e dependendo do auxílio da tecnologia, pudessem voltar ao colégio.

Lucas mora no Jardim Cipava, em Osasco, e as aulas na escola estadual Fanny Monzoni Santos, onde ele estuda, retornaram em agosto de 2021 com um modelo de revezamento. A turma é dividida em dois grupos: verde e amarelo, com uma média de 15 a 20 alunos cada um.

Em uma semana, o grupo amarelo vai à escola enquanto o grupo verde faz as lições pelo CMSP (Centro de Mídias da Educação de São Paulo), o site da prefeitura. E na semana seguinte, o grupo verde vai até a escola para ter acesso ao mesmo conteúdo que o grupo amarelo teve na semana anterior.

De acordo com Lucas, o início das aulas online foi bem complicado para os alunos, pois ninguém entendia como funcionava o CMSP.

"Antes de voltar às aulas, estava dando uma confusão na cabeça de todo mundo pra entrar no site e fazer as lições, mas quando o pessoal pegou o jeito de mexer no aplicativo e tau, ficou melhor fazer no aplicativo do que ir pra aula presencial"

enfatiza.

Mesmo sem perceber grandes diferenças do ensino remoto para o presencial, Bárbara Cristina, 24 anos, moradora do Jardim Cipava que convive com ele, relata que a volta dele para a escola e o contato com os outros estudantes foi um processo importante.

"Ele ficou animado sim, inclusive ele tem uma certa independência, quando é a semana de aula dele, ele vai sozinho sem ninguém ficar chamando", conta.

As aulas retornaram em agosto, mas Lucas se vacinou com a primeira dose da vacina da Pfizer na UBS José Guimarães de Abreu, no Jardim Cipava, apenas no mês seguinte.

"Eu percebi que ele ficou bem animado pra tomar a primeira dose, sempre me perguntava se eu sabia se tinha chegado na idade dele. Apesar dele não entender muito do assunto, ele tá bem atento às campanhas de vacina"

relata Bárbara.
Para Lucas, a vacina fez com que os colegas de classe perdessem o medo de sair: "Tem uns que querem se prevenir ainda. Mas tem muita gente saindo, indo pra festas, curtindo". (Foto: Monique Caroline)

Leticia Santos, agente de saúde popular e uma das idealizadoras do projeto Agente Popular de Saúde da Uneafro, analisa que, atualmente, a presença de jovens é predominante na fila de vacinação em relação às pessoas mais velhas, ela acredita que a principal motivação é a volta às aulas.

"Hoje a fila é bem maior com os jovens, tanto que mais velhos de 50 anos, estavam na fila para tomar a primeira dose. Os adolescentes a gente vê que eles estão mais empolgados pra tomar a vacina porque eles querem voltar pra escola, ficar dentro de casa mexeu com o emocional deles, muitos desenvolveram crises de ansiedade", conta.

Conscientização  

O projeto Agente Popular de Saúde da Uneafro, além de atuar mapeando e monitorando pessoas infectadas com a Covid-19 para oferecer amparo médico, alimentar e de higiene pessoal, também conta com uma importante frente na conscientização da doença.

Com um triciclo que receberam de doação, os agentes andam pelas ruas com uma caixa de som distribuindo panfletos e conversando com moradores sobre a prevenção do coronavírus.

Porém, eles percebem que nem sempre é o suficiente, pois a maioria dos estabelecimentos estão voltando a funcionar com 100% da capacidade antes do vírus ser erradicado, o que prejudica a conscientização. Leticia exemplifica a questão com os bailes funks que permanecem lotados na região.

"Dentro da quebrada, como a gente chega em um jovem e fala que ele não pode ir em um baile funk? Sendo que na televisão, o governo e o estado falam ao contrário, então a gente entra com a conscientização"

exprime.

Para Lucas, a sensação de que o vírus já foi erradicado ficou evidente quando ele retornou à escola após mais de um ano afastado e não sentiu que as medidas de proteção contra ao vírus, além do modelo híbrido, foram bem adotadas pelo colégio.

"Tá tendo álcool gel, o pessoal tá usando máscara, tá tendo um distanciamento de vez em quando, mas quando junta a sala, é um do lado do outro, não tem isso", expressa.

Ele conta que mesmo com o álcool em gel, apenas um aluno ou outro usa, e ele costuma ver alunos que ficam o dia inteiro sem máscara. "Pra mim tá tudo desorganizado por que é isso, tem 4 inspetoras na escola e as 4 não tão dando conta de um aluno, pra falar pra um aluno seguir as regras".

Para a agente de saúde, são muitos os fatores estruturais que levam os jovens e os moradores da periferia a não seguirem o isolamento social, não usarem máscara ou não procurarem pela vacinação, o que torna o trabalho de conscientização ainda mais importante.

"Com a falta de informação que tem dentro da quebrada, dentro da periferia… nós temos que levar para eles [a informação] e falar a mesma linguagem"

expõe.

Ambiente escolar 

Para Maria do Socorro, que trabalha na secretaria da escola Fanny Monzoni Santos, o problema está na dificuldade de conscientizar os alunos, e todas as outras pessoas, sobre os cuidados contra a Covid-19. De acordo com ela, existe álcool em gel espalhado nos corredores e a escola tem um estoque de máscaras de pano, caso algum aluno tenha esquecido ou perdido a máscara.

"Eles fazem igual aos adultos, saem sem máscara e não se preocupam com álcool, temos que ficar chamando a atenção. O aluno é reflexo dos pais, existe lógico aqueles que tentam burlar as regras, mas a maioria não", diz.


"Se falar que 100% [usam a máscara] estaríamos mentindo"

Maria do Socorro atua na secretaria de gestão pedagógica da escola Fanny Monzoni Santos, em Osasco.

Referente às inspetoras que não conseguem dar conta dos alunos, Maria diz que por serem muitos, e se o professor estiver na sala ou no corredor e não prestar atenção, o aluno aproveita para não colocar a máscara, fica usando-a no queixo.

A funcionária reconhece que não são todos os alunos que seguem os protocolos, mas segundo ela, a escola oferece as ferramentas de cuidado e se esforça para conversar com os jovens.

"Se falar que 100% [usam a máscara] estaríamos mentindo, mas a escola tem tudo. Tem o álcool, tem as máscaras, tem alguém sempre chamando atenção e até às vezes eles ficam bravos com a gente chamando a atenção", finaliza.

*Esta reportagem foi produzida com o apoio do Fundo de Resposta Rápida para a América Latina e o Caribe organizado pela Internews, Chicas Poderosas, Consejo de Redacción e Fundamedios. O conteúdo dos artigos aqui publicados é de responsabilidade exclusiva dos autores e não reflete necessariamente a opinião das organizações.  

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Sexta, 03 Dezembro 2021

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