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Um convite ao afeto: às vezes é bom poder se afetar

Este texto é um pouco diferente dos demais da coluna, ele irá falar sobre afetos, sobre a importância da construção afetiva.
Agnes junto com alunos e coordenadores da Ubuntu. Foto: Adimildo Martinho

Ao falar de afeto, o que vem em sua mente? Um abraço, talvez um beijo, alguém que você ama... afeto pode ser tudo isso, mas também ganha outros significados, afeto às vezes não é somente o contato físico, mas o falar, o se importar, o olhar para o outro e compreendê-lo.

No primeiro ano da universidade tive contato com Henri Wallon, um teórico importante e que coloca a afetividade como algo essencial para o desenvolvimento da criança. Naquele momento eu começo a concordar e a relembrar muitas coisas que vivi na escola, mas também a criar uma identidade sobre o que eu pensaria mais tarde a cerca da educação e o que me levaria a escrever esse breve texto.

De forma extremamente simplista usei Henri Wallon, mas o fato é que hoje a pauta dos afetos possíveis, da construção de identidade com afetos, entre outras, se tornaram mais comuns, e é fato, somos seres sociais e vivendo em sociedade criamos laços todos os dias, ao longo do tempo e da vida em meio a tanta desigualdade e problemáticas, tantos sustos, dores e tantas coisas que precisamos reprimir para seguir em frente perdemos nosso olhar afetivo para os 'outros', mas ser afetado não é ruim.

Afetar-se do outro, dos acontecimentos e das vivências não é negativo, mesmo que isso passe por sentimentos como raiva e tristeza, isso faz parte da construção das nossas relações e nos ensina sobre como poderíamos melhorar, mudar formas de falar, mudar gestos e demonstrar afetos de novas formas.

É fato que criar afetos possíveis dentro de alguns contextos é quase como correr na contramão da realidade, mas é um dos caminhos e podemos ousar tentar!

O afeto auxilia no nosso processo de autoestima, de construção do olhar e de desenvolvimento, negar isso é também perder momentos importantes e valiosos. 

Hoje, a produtividade é o motor das nossas vidas (estou escrevendo este texto me culpando por não ter feito mais coisas hoje, mas são minhas férias), essa vontade desesperadora de bater metas como se nossas vidas fossem corporações retira também a possibilidade (maravilhosa) de vivenciar afetos e de poder tocar o outro.

Afinal, dentro desse contexto precisamos ser egoístas de forma negativa, precisamos ser ambiciosos e viver dentro de constantes sustos sociais.

Mas por que falar e ter afeto é importante? 

Eu sempre digo uma frase que parece de efeito, mas faz parte da minha crença na vida e nas pessoas que é: a vida só é boa, porque existem pessoas comigo, sem as pessoas não existe beleza em viver.

Essa frase rodeia minha trajetória inteira, principalmente após a Rede Ubuntu-Educação Popular onde existe a valorização da coletividade e isso me renderia momentos inesquecíveis, que realmente não daria para descrever, a possibilidade da troca e de ser eu mesma em coletivo me ajudou e me fez acreditar que era possível.

Na Escola Comum eu sou salva em um dos piores momentos da minha vida, é lá que eu encontro jovens brilhantes, professores brilhantes e um ano que era um sonho, pensar política e juventude, pensar em construções partindo das juventudes de periferia seria algo único, minha maior marca foi quando a maravilhosa antropóloga Rosana Pinheiro-Machado escreveu uma dedicatória iniciada com "minha brilhante", após isso eu li essa dedicatória muitas vezes, eu acreditava e o culpado disso era o afeto. 

Turma piloto da Escola Comum

Já na universidade eu encontro muitas angústias e assim começo a fincar meu real pensamento sobre educação e é fazendo isso que chego até a Dra. Maria Carla Corrochano, professora na UFSCAR - Universidade Federal de São Carlos, e a pessoa que irá me auxiliar a traçar meu caminho mais recente, foi pesquisando com a Carla que aprendi e reafirmei crenças sobre o afeto, sobre a identidade, sobre a valorização das pessoas.

Sempre confiei ser possível fazer ciência, pesquisa e universidade acessível, que fosse acolhedora e que trabalhasse nossos afetos, afinal, pesquisar também relembra nossas dores, também passa por pessoas, também reafirma duras realidades. Ao realizar pesquisas que envolviam várias pessoas e que tinham uma ideia coletiva revejo afetos possíveis, e se fazem através da fala.

Poder falar, poder se expressar, ser ouvido, ser respeitado, criar hipóteses e ver que não estão corretas e passar pelo processo de questionamento me possibilitou relembrar e valorizar os afetos, eu não saberia dizer se estaria aqui hoje mais focada em educação se não tivesse acessado essas pessoas.

Não precisamos só relembrar que necessitamos de trocas, mas aprendermos a sermos abertos a elas, isso não precisa envolver afeto romântico, nem nada que talvez possa incomodar algumas pessoas por inúmeros motivos, mas ainda estamos nessa sociedade, ainda podemos olhar ao nosso redor e enxergar nossas realidades, o que mudou? O outro é menor que eu? Eu preciso ensinar algo para alguém? Quantas pessoas moram no meu bairro? Eu entendo essas territorialidades?

O afeto influencia no nosso desenvolvimento cognitivo e nos auxilia na construção dos laços, se afetar também é se permitir construir, é poder repassar isso para nossas crianças e jovens, é poder demonstrar ainda mais do espírito Ubuntu de coletividade que mora na periferia, uma herança ancestral africana e que pode ser o caminho para muitas das mudanças que buscamos.

Neste texto agradeço a todos que foram fontes de afeto e acolhimento para minha história, em especial agradeço a Rede Ubuntu – Educação Popular onde eu fui abraçada desde o primeiro dia em que pus meus pés lá.

Os afetos podem ser possíveis e dentro de contextos periféricos onde convivemos diversas vezes com variadas violências (inclusive do Estado que deveria nos amparar), precisamos construir e reconstruir nossas heranças ancestrais e laços de coletividade. Lutar só é possível em coletivo. Não se faz política sem as pessoas.

Ubuntu: a humanidade é o coração da unidade. Ubuntu, para nós, para os nossos e para todos os que virão depois de nós!  

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Quinta, 16 Setembro 2021

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