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Por que falar de política é tão chato?

 Sabemos que política é tudo que se faz na cidade, política não é somente eleição, os três poderes ou debates exaustivos de quatro horas. Política é comprar um pão e perceber que está caro, é mandar os filhos estudarem, é usar o SUS. Somos seres políticos e fazemos política o tempo todo, então por quê falar disso é tão chato?
Lutas estudantis, 2018 - Foto: João Victor Santos

Ao fazer essa pergunta eu me recordo de toda minha trajetória dentro da política, e até do que isso mais tarde influenciou nas minhas decisões e em como eu me enxergava. Sabemos que política é tudo que se faz na cidade, política não é somente eleição, os três poderes ou debates exaustivos de quatro horas. Política é comprar um pão e perceber que está caro, é mandar os filhos estudarem, é usar o SUS. Somos seres políticos e fazemos política o tempo todo, então por quê falar disso é tão chato? Já ouvi essa pergunta muitas vezes... 

Mais recentemente andando de Uber eu conversava com o motorista, foi uma conversa incrível e que me dizia muitas coisas sobre a população trabalhadora, ele sabia que era errado até mesmo ter eleição numa pandemia, ele repetia as frases que transmitiam decepção, contava histórias sobre parlamentares que só causavam indignação e me perguntou se eu pensava que era possível fazer valer as leis, se era possível algum candidato realmente honrar seus deveres. 

É neste momento que eu quis ouvir mais, eu queria entender e compreender as dores de ser um trabalhador informal numa pandemia em meio às eleições, e era nítido que haviam muitas informações na cabeça dele que causavam confusão, que demonstravam uma imensa decepção e que o faziam não se sentir representado. Ele não é o único, neste 2⁰ turno tivemos um número enorme de votos nulos, brancos e abstenções totalizando mais de três milhões.

Então todas essas pessoas são horríveis? Eu não vejo assim. Me lembro muito bem que cresci em partido e isso me gerou mais tarde um certo distanciamento além de críticas que carrego até hoje, e nas primeiras vezes que eu expus o que pensava fui ferozmente atacada por pessoas que estavam defendendo seus partidos, de fato não existiu um diálogo e aqui quero deixar bem claro que não é sempre assim, contudo essas situações e esse olhar da população de que "político é tudo igual" não surge à toa, é uma construção e muitos anos de discurso, de desilusão e de sofrimento da classe trabalhadora.

A periferia sempre sofreu, sempre sangrou, sempre foi violentada e ela entende isso, mas disseram para nós que a meritocracia existe, também disseram que basta eu lutar. Nada é tão simples e na política é igual, ter conhecimento de como funciona sua vida te gera muitas dores, ardores e te dá um poder imenso. Graças aos anos em meio a política eu entendi muita coisa, eu dialoguei de muitas formas e pisei em lugares que nunca pisaria, essa é uma responsabilidade que decidi assumir.

Então falar de política é desgastante porque fomos ensinados a pensar que a política tá isolada, que a cidadania mora longe de nós e que parlamentar "só rouba". Falar de política é chato porque entendemos ela como algo à parte, como fruto de brigas e como fruto de profundas tristezas.

É possível mesmo assim construir diálogos?

Sim, durante aquela minha conversa numa viagem eu estava dialogando com outro trabalhador, eu não precisei de muita coisa pra isso e não houve nenhum tipo de briga durante...

A população quer viver, ela mesmo em meio a essa desesperança olha pro Estado e tenta acreditar, ela ainda quer e precisa falar. Somos nós que temos que ouvir os nossos, as nossas urgências. Nenhum trabalhador quer ou pensa em destruir o lugar onde mora votando em um representante sem pautas que contemplem ele, contudo somos obrigados a votar de quatro em quatro anos e até numa pandemia onde mais de 170 mil famílias perderam seus entes queridos o governo agiu de forma a privilegiar tudo para ocorrer a eleição, o trabalhador entende a briga de poderes e é isso que gera desilusão, é difícil acreditar que alguém realmente vá ser honesto.

O campo progressista teve uma votação expressiva na periferia, mesmo em meio a ataques, mesmo lutando contra poderosos, esse é o poder da população, esse é o poder dos nossos dialogando com os nossos. Não existe trabalhador burro, nenhum trabalhador aceitaria ser tratado como um bebê que não sabe de nada e nem deve! Essa eleição demonstra a força de dialogar, de olhar o outro, de construir. 

Quando pensei em batizar minha coluna de "PolitiKês" eu fiz isso pensando em todas as vezes que a política foi tratada na minha frente só como "politikês", sem sua essência, sem diálogo. Pensei em ressignificar memórias de que a política é algo isolado ou ruim e foram essas memórias afetivas que alimentaram esse texto hoje também.

É preciso compreender que os nossos não são nossos inimigos, é preciso saber que a união tem sim um preço, o preço de engolir a seco o ego, o preço de ceder, o preço de ouvir o que não quer, contudo essa pode ser a única forma de continuar uma trajetória linda que temos na periferia. Eu decidi escrever esse texto após as eleições porque sei que alguns agora comemoram e outros se entristecem, mas a periferia mostra sua força seja criando forças para ir votar mesmo em meio a uma pandemia, seja apenas sobrevivendo mesmo com a taxa de desemprego alta e com a morte que nos assombra.

Esse politikês não acaba nesse texto, essa é só mais uma das formas que a periferia encontrou de expressar sua voz e suas urgências. Falar de política é chato e desgastante porque nossa vida cotidiana é massacrante, mas na política mora muitas das esperanças e muitas mudanças, a transformação só pode ser coletiva e a mobilização depende do espírito Ubuntu que vive aqui. É nóis por nóis e sempre será!

"É necessário sempre acreditar que o sonho é possível
Que o céu é o limite e você, truta, é imbatível
Que o tempo ruim vai passar, é só uma fase
Que o sofrimento alimenta mais a sua coragem..."

Racionais MC's / A vida é desafio

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Comentários: 1

Celinda em Sexta, 04 Dezembro 2020 08:23

Que texto foda!

Que texto foda!
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Quarta, 16 Junho 2021

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