Violência doméstica: romper padrões também é um ato ancestral

Olhar para a história, escutar a ancestralidade e fazer escolhas conscientes pode salvar vidas.

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“Não fui livre enquanto alguma mulher não o fosse, mesmo quando suas correntes eram muito diferentes das minhas.” (Audre Lorde)

Olá, meus queridos leitores. Retorno para mais uma sessão, abrindo os trabalhos de 2026, agradecendo por mais um ano de oportunidades e caminhos abertos.

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Inicio com um tema amplamente debatido pelas mídias e por campanhas de enfrentamento ao feminicídio. Algo que, infelizmente, nunca foi novidade para nós, mulheres, sobretudo quando atravessadas pelo recorte racial. Essa pauta me convoca a uma reflexão que venho construindo aqui com vocês: o resgate ancestral e a forma como as questões psicológicas nos atravessam no presente.

É preciso costurar o agora com uma história de perversidade construída contra os corpos femininos, especialmente os corpos das mulheres pretas. 

Lamento profundamente que ainda não compreendamos, de forma plena, os direitos humanos básicos: o direito de viver com liberdade de escolha. Ainda hoje, vidas são retiradas pela ideia de poder que alguém acredita ter sobre o corpo e a vida do outro.

Confesso que sinto iniciar o ano com este tema. Gostaria de falar apenas de assuntos leves e felizes. Mas a vida que nos atravessa e atravessa tantas mulheres, não nos permite esquecer.

O que proponho aqui é compreender, a partir de um contexto histórico, ancestral e psicológico, por que tantas mulheres permanecem em situações de risco e vulnerabilidade em relacionamentos tóxicos e violentos, mesmo diante de alertas evidentes.

Homens e mulheres são atingidos pela violência de maneiras diferentes. Enquanto os homens tendem a ser vítimas de violências praticadas majoritariamente no espaço público, as mulheres sofrem, cotidianamente, com um fenômeno que se manifesta dentro de seus próprios lares, na maioria das vezes praticado por companheiros ou familiares.

A Política Nacional de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres nos oferece um marco importante para compreender essa realidade. Ela reconhece que a violência contra as mulheres se manifesta de múltiplas formas, doméstica, psicológica, física, moral, patrimonial, sexual e atravessa todas as classes sociais, raças, idades e territórios. 

No entanto, ela se agrava quando combinada às desigualdades de gênero, raça e classe, historicamente construídas em uma sociedade patriarcal e racista.

Mais do que um conjunto de casos isolados, trata-se de um fenômeno estrutural e relacional, sustentado por relações desiguais de poder entre homens e mulheres. Por isso, a violência contra as mulheres deve ser compreendida como uma violação dos direitos humanos, exigindo não apenas punição, mas também prevenção, proteção, responsabilização e cuidado.

No campo da saúde mental, essa violência nem sempre se apresenta de forma explícita. No espaço terapêutico, tenho observado homens utilizando estratégias cada vez mais sutis de controle: manipulações emocionais, ameaças veladas, inversão de culpa e responsabilização da mulher pelo sofrimento do outro. 

Muitas vezes, essas práticas também atingem mulheres maduras e experientes, produzindo confusão psíquica, medo, perda de autoestima e fragmentação da identidade. O destino, porém, é o mesmo: a violência doméstica.

Seguimos, assim, sendo responsabilizadas pelo outro. Um outro que, de forma cruel e desumana, apenas muda a estratégia de dominação.

Diante disso, a pergunta que se impõe é: como nós, mulheres contemporâneas, podemos interromper esse ciclo e enfrentar os números alarmantes de violência e feminicídio?

Acredito que o caminho passa por olhar para trás sem repetir. 

Honrar a história de nossas mães e avós não significa reproduzir seus silêncios, mas aprender com eles. É preciso nos trazer para o centro da questão e perguntar: quais são os meus desejos? Para onde este relacionamento me conduz? O que estou repetindo a partir das minhas faltas e dores não cuidadas?

Nossas ancestrais — mulheres que viveram dores profundas e violências extremas — não desejaram esse destino para nós. Lutaram para que pudéssemos nos libertar do jugo que obrigava mulheres pretas a carregar o mundo nas costas enquanto eram silenciadas e invisibilizadas.

O culto afrobrasileiro tem histórias que mostram às Yabás (divindades femininas) que enfrentaram a opressão, se unindo e criando a sociedade Elekô (descrita em outro artigo aqui). São Deusas guerreiras que mostraram o quanto o lugar do feminino era de cuidado, mas também de fertilidade, amor próprio e de possibilidades de cura e o respeito às mulheres.


Se hoje temos escolhas, que possamos fazê-las assumindo responsabilidade não pelo outro, mas por nós mesmas, por nossas vidas e pelas histórias que precisam ser transformadas e curadas.

A dor, a perda da autoestima e a falta de autonomia podem e devem ser cuidadas por profissionais da saúde mental. Existem redes, políticas públicas e caminhos possíveis.

No Núcleo Obará, tenho acompanhado mulheres que chegam marcadas pelo medo, pela culpa e pelo silenciamento. O trabalho terapêutico, aliado aos saberes ancestrais e ao cuidado coletivo, tem mostrado que reconstruir a própria história é possível quando a mulher deixa de carregar sozinha a responsabilidade pela violência que sofreu.

Quebrar padrões exige consciência, escuta interna e escolhas coerentes com a vida que desejamos sustentar. Romper o silêncio também é um gesto de amor-próprio, de cuidado coletivo e de ancestralidade viva. Quando uma mulher escolhe viver, ela honra não apenas a si mesma, mas todas aquelas que vieram antes e não puderam escolher.

Saiba onde denunciar situações de violência contra a mulher:

Para emergências, disque 190 para chamar a Polícia Militar.

Pelo número 180, fale com a Central de Atendimento à Mulher, do Ministério das Mulheres.

Este é um conteúdo opinativo. O Desenrola e Não Me Enrola não modifica os conteúdos de seus colaboradores colunistas.

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