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Rede de bancos comunitários cria moeda digital para comércios das periferias

Visando fomentar o fortalecimento da economia local, a Rede Paulista de Bancos Comunitários investe em tecnologia para modernizar sistema de atuação dentro das periferias e favelas
Empreendedora exibe adesivo que informa o e-dinheiro como forma de pagamento digital (Foto: Rede Paulista de bancos comunitários)

"Banco comunitário é uma associação de pessoas que se juntam para criar alternativas ao sistema financeiro tradicional", explica Hamilton Mendes, 58, coordenador da Rede Paulista dos Bancos Comunitários. A iniciativa de consolidar a atuação de uma rede faz parte de um movimento de bancos comunitários que visa investir na digitalização de serviços para fortalecer a atuação dessas organizações nas periferias e favelas.

Hamilton destaca a importância de criar um sistema financeiro alternativo, mesmo ciente que já existe o sistema tradicional. "O sistema financeiro está baseado no lucro, então tudo que você faz em um banco sempre gera lucro ao banqueiro. O problema dos bancos é que eles concentram o maior poder político e econômico que o país tem".

O coordenador da Rede de Bancos Comunitários enfatiza que o objetivo dos bancos populares geridos por moradores, por meio de uma associação é a ativação e circulação de renda em bairros de favelas e periferias.

Segundo ele, o sistema financeiro alternativo visa beneficiar e atender as necessidades dos moradores de acordos com suas condições socioeconômicas. "O banco comunitário pode emitir uma moeda local, essa é uma das ferramentas que o banco comunitário utiliza, além dos juros baixíssimos de 0 a 2 %, quando emprestam dinheiro a alguém", afirma.

Hamilton complementa que o banco comunitário pode contribuir para uma desburocratização no acesso ao empréstimo, ofertando baixas taxas de juros em relação ao sistema financeiro tradicional. Ela ainda ressalta sobre a estratégia de emitir sua própria moeda para ativar a economia local.

"Fazer com que essa atividade econômica do bairro gere dinheiro para o bairro, você só pode usar essa moeda social para o bairro, isso fortalece a economia local".

Moeda digital

Em busca de modernizar o sistema de atuação e gestão dos bancos comunitários, a Rede criou uma moeda eletrônica que atua com a mesma lógica da moeda social. "A gente criou um sistema de pagamento alternativo pelo celular, e por isso a gente deu o nome de e-dinheiro, para usar esse pagamento na comunidade através do celular, pois é mais seguro e higiênico, então é preciso aprender a usar o e-dinheiro no celular, ele é um sistema muito prático", descreve Hamilton, apontando as soluções de pagamento que a rede busca oferecer por meio dos bancos comunitátios, para agilizar e democratizar os pagamentos via celular com menos encargos e taxas de juros.

"isso ajuda muita gente, tanto no consumo, pra você comprar uma comida, comprar um gás de cozinha, comprar alguma coisa que você precisa com urgência, como também para você montar seu próprio negócio cooperativo ou negócio individual, para você montar uma lojinha na sua casa, ou um brechó, uma costura, ou uma loja de bolo, ou produzir e vender marmitex", diz o coordenador, citando uma série de serviços e produtos que podem ser consumidos ou desenvolvidos com o apoio de empréstimoa do banco comunitário.

Junto com a solução do e-dinheiro, a rede de bancos comunitários apresenta também a e-vaquinha, uma vaquinha eletrônica que recebe doações, por meio da moeda social eletrônica, sendo a única plataforma existente no Brasil, que oferece esse tipo de operação de financiamento coletivo.

Outra ação da rede de bancos comunitários é a e-lojinha, loja virtual que vende produtos de comerciantes dos territórios onde atuam organizações de bancos comunitários e que aceitam como forma de pagamento a moeda social.


"O conjunto desses instrumentos e ferramentas é no sentido de fortalecer o uso da moeda eletrônica, é fantástico a gente ter um sistema de pagamento pra usar por internet, ao mesmo tempo que tem um sistema de compra pela internet, que no período da pandemia é muito importante", conta o coordenador.

 Um dos projetos da rede é um curso de capacitação totalmente online que a própria organização vem desenvolvendo para formar pessoas para montar um banco comunitários. A formação possui conteúdos organizados em módulos, onde cada aula tem uma duração média de três horas.

"A gente vai fazer esse primeiro esforço para levar essa formação, a fim de incentivar e apoiar essas formações em suas comunidades, que pode ser eventualmente uma formação presencial, mas também procurando uma solução para essa dificuldade de inclusão digital que é um problema muito sério", Conta Hamilton sobre suas expectativa com a capacitação de futuros proprietários de banco comunitários.

Ele não esquecendo o problema do acesso ao mundo digital dentro dos territórios periféricos. "Eu acho que nós temos que pensar nessa solução juntos, inclusive usando os bancos comunitários como uma forma de financiamento de antenas de distribuição de sinal, de compra coletiva para sinais de telefonia para oferecer gratuitamente para os estudantes, essa é a natureza do banco comunitário, essa deve ser a tendência dos bancos comunitários da periferia", avalia.

O maior público são as mulheres chefes de família

"Atualmente o pedido de crédito tem sido a nossa maior procura devido ao aumento de desemprego, as pessoas de alguma forma necessitam fazer algo para manter a família. E o maior público são as mulheres chefes de família", conta Maria do Carmo Rodrigues, 67, coordenadora do Banco Tonato, localizado no Jardim Tonato, na periferia do município de Carapicuíba.

Marica do Carmo mora no mesmo bairro onde atua dentro de um banco comunitário. Durante a pandemia, ela sentiu o crescimento pela procura de crédito na região e a redução do fundo de reservar financeiras do banco. "Aumentou a procura de crédito, mas também diminuiu o fundo, como a gente tá sem fazer nenhum evento ficou mais difícil o fundo e as mulheres é quem procura mais", relata Rodrigues. Ela conta que antes da pandemia, a maior parte da renda que compõe o fundo da organização vinha de eventos feitos no território de maneira, e esse recurso é utilizado principalmente para realização de empréstimos.

Maria do Carmo explica como é o processo de avaliação e aprovação de empréstimo no banco comunitário. "Essa pessoa vem e nos procura, ai o agente de crédito vai lá na casa dela para fazer uma avaliação, depois dessa avaliação o agente de crédito tem um grupo que se chama Kak, aí a gente passa essa ficha pra esse grupo para eles avaliarem se a gente deve passar esse crédito para pessoa ou não".

Mesmo com um processo fácil para aprovação de crédito, a alta demanda impediu o banco de atender todos os moradores do território que o procuraram, essa situação gerou a necessidade de criar um sorteio para destinar o empréstimo aos moradores.

Os valores dos empréstimos normalmente giram em torno de 100  a 300 reais. "A maior finalidade é para comprar materiais para iniciar seu próprio negócio com venda de bolo ou salgados. Em alguns casos são pedidos para comprar o gás ou alimento", revela a coordenadora.

Para Maria do Carmo, a modernização proposta pela Rede de Bancos Comunitários vai aumentar a possibilidade de os bancos aumentarem a sua receita e fortalecer o seu fundo de empréstimos. "Além de ajudar na divulgação também vai aumentar o fundo, e dá para a gente atender um maior número de famílias que vai procurar os bancos comunitários", conclui. 

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Quarta, 16 Junho 2021

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