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Religião ou tradição: temores e vivências do paternar

Desde pequeno, meus pais não impuseram uma religião, pude conhecer o catolicismo, budismo, umbanda e até bruxaria, mas uma coisa eu percebia e não entendia nelas, uma necessidade de re-ligar.
Foto: Roger Cipó

Eis então uma família preta: desde pequeno, meus pais não impuseram uma religião, pude conhecer o catolicismo, budismo, umbanda e até bruxaria, mas uma coisa eu percebia e não entendia nelas, uma necessidade de re-ligar. A palavra religião vem do latim: religare, reconectar-se, ir de encontro com algo perdido, refazer um caminho…

Sempre me sentia conectado, ligado, tão integrado ao divino, nos meus sonhos, sensações, intuições e escutas. Fui até crismado, mas nunca entendi o culto da culpa e do pecado, da confissão, de ter alguém, homem, como minha conexão com o divino (se toda natureza à minha volta tinha como feminina).

Questionava o padre na igreja: se D'us é onipresente, onipotente e onisciente; se Ele está em tudo, é tudo e sabe de tudo, então Ele é cada partícula do universo, mesmo a lataria de um carro, então Ele sou eu, você, "o ar que eu respiro", como diria Alberto Caeiro: 

[...]Mas se D'us é as flores e as árvores

E os montes e sol e o luar,

Então acredito nele,

Então acredito nele a toda a hora,

E a minha vida é toda uma oração e uma missa,

E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.[...]

Alberto Caeiro

Então, mesmo quando vi e ainda hoje vejo pessoas tendo o Candomblé pra si como religião, isso não me acessa, não me mobiliza, pois meu entendimento, e a cada dia é maior, é de que estamos falando de uma tradição, um jeito de viver, um conhecimento oral, ancestral, passado de pessoa a pessoa, que permeia a forma como acorda, organiza sua casa, desenvolve seus pensamentos, se alimenta, se projeta no mundo; sendo esse um movimento de nutrição, de uma relação com o divino sagrada, profana, constante, entremeada, consciente e inconsciente.

A mão que se levanta na hora exata em que uma pedra é jogada pelo pneu de uma bicicleta, a pessoa que cruza seu caminho, lhe pedindo auxílio, bem naquele dia que irá tomar uma decisão ou fazer algo necessário.

Eu sou daqueles que acreditam que ando sempre com Exu, não só um pai, um guardião, mas um amigo, conselheiro, fiel em todos os momentos, orientando, resguardando, ensinando com todos os seus milênios de existência a nos movimentar sobre essa terra.

E mesmo dizendo isso e só depois de dizer tudo a cima, isso tem um peso, um peso que me faz refletir quase sempre: porque ronda um temor e uma imposição sobre o educar de nossas crianças na tradição de matriz africana?

Quando levo a cria pra dormir Oxum, Ogum, Exu e Iemanjá estão sempre presentes, nas cantigas, na intenção, na prosa com eles de que nutram, resguardem e orientem esse crescer. Dizem que Oxum acompanha todas as crianças até os 7 anos, que Exu, Ogum e Iemanjá, por toda nossas vidas.

Quando acordo é um conversar com as plantas, agradecer e pedir licença a Agé "ewe o ewassa". Quando o vento vem forte, sou desses que grita Eparrei Oyá, Oraieieo na chuva fina e em vários momentos de vitória, Kao meu pai, quando ronca o trovão no céu. E pode se ouvir Malik gritando junto, mas o que ele mais grita é Oxum, do seu jeito gostoso de ouvir… Oraieie o....

Mas aí tu pensa: como será a escola? Será que conseguirei dar estrutura pra ele tirar de letra? Não se abalar? Como a família vai lidar se assim fizer sentido pra ele seguir a vida?

Porque a norma que está posta é que o normal é ser cristão e o demais é escolha. Quantos casos absurdos de denúncia de maus tratos e cativeiro não ocorreram, desrespeitando o que deveria ser tão comum quanto espalitar os dentes… e nesse momento alguém grita: comum!?

Pois é. O que há de comum em nós de famílias pretas, tendo nossa matriz em África se orientar por preceitos e crenças colonizadoras, que antes de qualquer coisa matou para se fazer valer?

Ainda hoje o processo de genocídio dos povos originários é um projeto a todo vapor, pois talvez um estar ligado seja, pra quem entendeu, um lugar de outra relação com a terra, com todo o sistema que nos compõe, pois eu, nascido com Orixá, carrego em mim as rochas, a terra, as aguas, o ar e é simples pensar sobre isso. O alimento que minha mãe ingeriu, o ar que ela respirou, foi como esses elementos que chegaram em mim e permanecem em mim.

Então o que há de estranho em ensinar meu filho a reverenciar, amar e zelar as folhas, as águas, o ar, a terra e toda miríade de manifestações da natureza? Ensinar ele que a palavra dele, os atos dele e a forma com que ele irá caminhar na vida, irá a todo instante afetar a ele e ao meio. Ta aí a sociologia não é!? "Somos produto do meio."

Essa semana minha mãe chegou do mercado com as compras e lá estávamos em sua casa, depois de pular o muro, havia folhas de acelga em cima da mesa para guardar. Malik foi até o saquinho e beijou a folha. Outras vezes, ele pega uma folhinha e brinca de benzer, bem dizer, diriam que ele não entende, mas uma coisa, nesses dois movimentos ele entende: estamos falando de amor, estamos falando de carinho, zelo, cuidado, afeto, dengo, honrar. Pode não ter palavras ou a capacidade de expressá-las nesse momento, por completo, mas se alegra, sorri e expressa seu carinho.

Enfim, são tantos elementos que pela tradição só torna ainda mais graciosa a vida e nos ajuda a compreender.

Malik desde pequeno não gosta que mexa na cabeça dele, hoje já está mais aberto, mas ainda sim, lavar a cabeça dele no banho é um processo que tem de ser feito com muito cuidado e carinho, para que ele não se irrite, assuste ou se entristeça. E na tradição a cabeça é sagrada, não é mesmo qualquer um que pode tocá-la, e ver ele assim, em suas primeiras semanas e permanecer assim dois anos depois, me faz refletir e aprender todo dia. 

E com isso, com carinho, respeito e reverência eu banho esse rei, irmão, amigo de jornada que chamo às vezes de filho!

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Sexta, 24 Setembro 2021

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