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Periferia, protagonismo nas eleições de SP

Nessas aventuras e desafios que o dia a dia apresenta, vou contar minha travessia como cocanditada no pleito político para vereança de São Paulo com o Coletivo mais direito a cidade.
Vila Cais, zona sul de São Paulo. Foto: @menino_do_drone

Fui convidada a compor esse coletivo com mais cinco nomes importantes em movimentos sociais pela cidade, Gil Marçal, Beto Custodio, Evaniza Rodrigues, Iracema Araujo e Rayssa Cortez, além do nosso candidato de urna Nabil Bonduki, que tem uma trajetória política importante para cidade, além de ser um urbanista renomado, com vários títulos importantes publicados.

Quem me conhece sabe que nunca fui filiada a nenhum partido, que meu ativismo sempre se deu por outros caminhos conectados com o movimento social e cultural da periferia sul, mas o momento político pedia uma ação. Talvez eu acreditasse que o fato de não haver renovação de candidaturas políticas tenha me colocado nesse pleito, mas o provável é que já estamos tão acostumados a concorrer na vida através de editais sociais e culturais para desenvolver as ações que acreditamos, que esse parecia um desafio familiar demais para não ser aceito.

Não foi fácil aprender esse caminho, pois no macro as ações que desenvolvemos tem pouca visibilidade, muito menos as ações desenvolvidas por mulheres. Continuei sendo mãe trabalhadora nesse processo, isso torna tudo muito cansativo. O Covid-19 também era um risco eminente e dificultou muito o trabalho de encontro e construção nas bases da cidade.

Conheci os cocandidatos na formação do coletivo, alguns eu conhecia por nome pela importância da sua militância na cidade, alguns eu já conhecia como Gil Marçal, meu amigo da juventude, e Nabil Bonduki, pelos seus projetos de lei como o VAI e suas campanhas em outros pleitos. Houve um grande encontro entre pessoas que militam em diversas áreas, mas que tem um compromisso ético na construção de políticas públicas para população.

São muitas mãos que constroem uma candidatura, comunicação, mobilização, finanças, parceiros, doadores, voluntários, tudo muito familiar para quem trabalha na área social, seus alicerces são bases construídas ao mesmo tempo em que as pessoas vão se conhecendo e se apropriando da proposta.

A possibilidade de trabalhar coletivamente pela cidade parecia uma aposta muito coerente, principalmente depois de anos atuando em coletivos. Sabemos que as periferias mostraram que essa é uma forma forte e potente de trabalho e aqui na zona sul foi esse o fermento que fez a cultura periférica tomar o destaque nas grandes mídias de forma nacional e internacional movimentando hoje a economia criativa das quebradas. Hoje olhamos a debilidade que os governos deixaram os artistas durante esse período de pandemia, isto não combina com o alcance social e político dessa produção, mas isso já é assunto para um novo texto.

Com novas propostas, além das que eu participei, outros coletivos também concorreram e foram eleitos, os que carregam de forma restrita pautas das lutas sociais, das mulheres, LGBTQIA+, Antirracismo, entre diversas outras pautas importantes e fundamentais, em um momento de corte de direitos promovido pelo governo Bolsonaro e validado por São Paulo e seus empresários políticos que estão vendendo a cidade. Foi um pleito político curto, uma corrida com a ideia de deixar evidente a necessidade de transformar o panorama político para melhorar a vida da população.

Nossa campanha foi sincera, bonita e com projetos reais para luta na câmara dos vereadores, mas as grandes bandeiras, a urgência das lutas sociais conectadas a imagem de um candidato majoritário forte, não possibilitou nossa eleição. A eleição do Bruno Covas anuncia mais alguns anos da falta de diálogo público, da privatização da cidade, entre outros problemas. Perdemos o pleito, mas não fomos derrotados, até porque, as bandeiras foram eleitas por outras chapas coletivas importantes, como o Quilombo Periférico, um projeto político importante na luta antirracista e pela melhoria de vida da população periférica.

Foi uma grande experiência conhecer a cidade de forma ampla, os coletivos que estão na luta política no dia a dia da cidade, como se constrói um candidato, uma candidatura, o papel do partido, o impacto de sua visão na candidatura.

Hoje, a Martinha, minha vizinha, me disse uma coisa muito interessante, "São Paulo é aquele vizinho que vive numa situação ruim de moradia, mas que passa todos os dias lustrando o carro, porque não compreende a situação precária que ele e sua família vivem, o que importa são as aparências".

Esse vizinho é São Paulo. Aparentemente cosmopolita, quando na verdade, o racismo e a xenofobia não combinam com a diversidade global. Moderno, que não respeita as escolhas de gênero e cultura da população. Trabalhador, que se rende a terceirização e sucateamento dos direitos trabalhistas. Cristão, que não tem resiliência pela pobreza, pelos sem teto, pelos moradores de rua, pelo genocídio do Estado e criminalização da pobreza. Essa caricatura grotesca paulistana tem sido mais respeitada em seu carro lustrado, do que aquele que luta, sem carro, pelo seu direito à moradia digna, pelos direitos trabalhistas e pela possibilidade de uma vida melhor para todos, todas e todes.

O pleito político de 2020 foi muito importante para a insurgência de novas formas de garantir o avanço político na luta por uma cidade melhor, por uma cidade para as mulheres, de uma metrópole antirracista, mas também ficou latente que temos muito o que lutar para conseguir vencer Bolsonaro e seus clones na eleição à presidência.

Pessoas acordadas para a urgência de uma renovação estrutural política, elegeram cidadãos periféricos de gênero e raça diversos, fincamos essas bandeiras na câmara dos vereadores, mesmo que ainda não conseguimos o cargo majoritário da cidade, conseguimos forças para construção dessa possibilidade. Fico feliz em ter, com o Coletivo Mais Direito à Cidade, feito muita gente sonhar, acreditar e ter esperança, mais de 16 mil sonhadores em tempos tão áridos e muitos outros milhões em nossa cidade com todas as candidaturas que acreditam no direito à cidade.

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Segunda, 12 Abril 2021

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