Me lembro que conheci o trabalho de Joyce Prado antes mesmo de conhecê-la, era 13 de maio de 2018 e alguém me mandou o link de um dos vídeos da websérie “Cartas de Maio”, onde ela, cineasta de um talento e sensibilidade profunda, costurava leituras de textos de pessoas de hoje para seus ancestrais escravizados no ano da efeméride dos 130 anos da abolição da escravatura.
Fui arrebatado pela sensibilidade do trabalho, pela força dos depoimentos, pela fotografia entre os escombros, ainda hoje revisitando para escrever esse texto sou pego pela força do projeto, inclusive pelas pequenas fraturas e questões técnicas, escombros do que somos.
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Fui atrás de saber quem era a cineasta, e pra minha surpresa na verdade eu já havia estado com ela em uma outra situação, porém a natureza do encontro não permitiu uma apresentação formal.
Era por volta de 2016 e uma série de cineastas negros e periféricos se organizava para uma manifestação audiovisual em repúdio à chachina dos jovens de Costa Barros no Rio de Janeiro, projetando dizeres na fachada do prédio da justiça federal na Praça Franklin Roosevelt, eu estava com meu projetor lançando as frases na empena cega e Joyce com os demais chamando palavras de ordem na praça cercada de policiais, nenhum de nós sabia, mas aquele momento seria o pontapé para uma articulação imensa que posteriormente ganharia o nome de APAN (Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro).
A verdade é que nossos caminhos se cruzaram e se cruzariam muitas outras vezes depois disso, pelo compromisso e pelo respeito que nossas pautas em comum nos envolviam, mas também em atividades outras diversas, como jurados no festival Super Off, como militantes na ocupação da Funarte, no Aparelha Luzia, nos encontros do vídeo popular e nos sets da vida, o respeito e o entendimento às diferenças sempre foi a tônica, mesmo sabendo das origens distintas, da diferença de percepção sobre a forma de se fazer cinema, sobre como lidar com a indústria, sempre compreendemos a importância da existência de um e de outro no seu campo de atuação audiovisual, e nos fortalecíamos sempre que possível.
Nosso último encontro foi numa dessas, em 2024, quando foi em casa gravar o podcast da Caramuja, e foi um barato tomar uma no quintal depois da entrevista, fumar “um” e conversar sobre as suas primeiras experiências fazendo videoclipes de bandas EMO, e toda sua vivência no universo do hardcore-punk, identificações que a humanidade complexa da artista transbordava.
Joyce foi e será sempre uma pessoa fundamental para se pensar cinema negro nessa cidade tão racista, machista e desigual.
Por isso hoje, para além de recuperar momentos importantes e afetivos, quero abrir um canal para que outros e mais novos cineastas falem de suas vivências contigo e digam algumas palavras que talvez você não tenha ouvido em vida, você ancestralizou de forma repentina, mas sua obra e sua postura seguem vivas na existência dos que seguem no Àiyé, hoje as cartas são para você!

São Paulo, 08 de fevereiro de 2026,
Oi, Joyce, como você está? Sei que é uma pergunta idiota, mas não saberia começar de outra maneira. Me lembro da vez que nos encontramos à propósito da gravação do episódio do podcast que apresentei “Na Bolinha Du Zóio”. Eu voltei de trem, precisava andar duas estações. Você também voltou de trem, mas no seu caso, você atravessaria a cidade.
Tenho nítida a memória de papear com você naquela estação no extremo sul de São Paulo. Por muitas vezes me perguntei se alguém que nos visse de longe poderia imaginar que uma grande personalidade do cinema e do ativismo negros paulistanos estava bem ali, esperando o trem. A verdade é que você sempre foi uma referência para mim, acho que isso se expressava na falta de traquejo com a qual eu me comportava quando te encontrava.
Para minha sorte, você sempre emanou uma tranquilidade tão profunda que apaziguava qualquer ansiedade. Por mais nervosa que eu ficasse ao seu lado, era fácil conversar com você. Uma mulher de tamanha dimensão, de repente, em duas palavras, se colocava à minha frente apenas como mais um ser humano. Isso é grandeza. Naquela estação conversamos sobre as rodas de samba aqui do Grajaú. Fizemos como duas boas brasileiras: combinamos de combinar de marcar. E não é que a senhora realmente apareceu?
Um mês após sua passagem, você veio me visitar em sonho, me convidou para co-dirigir um filme seu. Me lembro de te ver trabalhando, de me silenciar diante da sua experiência no set, de me estimular com a confiança que você me passava. Você colocou a câmera nas minhas mãos, me orientou como posicionar a personagem. Não me recordo do tema, mas ainda vejo mulheres negras e um documentário.
Na saída do set você me arrastou para tomar uma cerveja, num bar onde se formava uma roda de samba bem encorpada. Danada! Não é que a senhora me levou para o samba mesmo? Eu, contando para mim, fico sem acreditar. Se não fosse a espiritualidade que nos acompanha, acharia que é papo de maluco. Ao mesmo tempo, me vejo perplexa de saber que, no meio de tantas pessoas que te admiravam e te respeitavam, você separou um tempo para mim. Foi estranho acordar. Tem sido estranho aceitar a vida sem você. A frase “muito jovem” fica ecoando na minha cabeça.
Mas eu sei porque você veio. Assisti seu curta no Encontro do Zózimo em 2024: “Mestra Anicide – Eu Ando Remando com o Tempo” e fiquei de comentar. Te encontrei na entrada do Cine Odeon, rodeada de um milhão de pessoas e, como já é do meu costume, indiquei que conversássemos em outro momento, quando você estivesse mais disponível.
Hoje eu vejo que, além de fugir da multidão, essa foi também uma estratégia de me permitir sentir o filme e elaborar alguma coisa. Esta foi nossa última conversa presencial. Ensaiei de mandar mensagem para falar minhas impressões, mas fiquei retraída ao pensar que minhas observações fossem bobas diante do trabalho. Mas a senhora realmente veio atrás (e aqui eu já estou rindo de nervoso).
Pois bem. Saiba que até hoje não tenho nenhuma análise extraordinária para fazer do filme. Na verdade, acho o trabalho de uma simplicidade assombrosa. E é aí que ele me pega. Mestra Anicide nos conta da origem do seu canto popular e da importância da preservação dessa manifestação cultural. Em seguida, acompanhamos a gravação do álbum no estúdio.
Se na primeira parte do filme a estrutura documental parece bastante tradicional, com uso estratégico de cabeças falantes, no qual a pessoa espectadora se concentra principalmente no conteúdo relatado, na segunda parte do filme, porém, nossa atenção é mobilizada pela forma. Mestra Anicide se senta no estúdio diante do microfone e canta cantiga após cantiga. Não há grandes elipses. Você nos obriga a assistir a gravação do álbum inteiro.
O ritmo do filme se arrasta a tal ponto que, num certo momento, nos perguntamos a razão de estarmos tanto tempo olhando a mesma ação. É isso. Mestra Anicide estava muito velhinha e tendo feito sua passagem, talvez o máximo de convivência que estabelecemos com essa ancestral foi o tempo que compartilhamos com ela no seu filme. Na saída do Cine Odeon, me recordo de encontrar colegas cineastas e escutar comentários insatisfeitos sobre o ritmo da obra, enquanto isso, o título do trabalho martelava na minha cabeça: “Eu Ando Remando com o Tempo”. É isso, é um filme sobre tempo, sobre percepção de tempo, a matéria-prima do cinema e meu maior motivo de incômodo criativo nos últimos anos.
Uma vez ouvi a psicóloga, Ligia Py, discursar sobre a finitude (precisei desses diálogos internos durante a pandemia), e houve uma afirmação dela que se impregnou à minha consciência: “a morte é uma ponte para uma vida com sentido”. Pensar sobre a morte naquele momento foi importante para que minha alma se preparasse para as perdas de 2025, para me dar conta de que nossa passagem tem prazo de validade, de que vida é tempo.
Perdi um tio, perdi meu pai, perdemos você. Mãe Oxum me ensina que não há outro caminho a não ser para frente, por isso, lutamos para continuar apreciando o sabor da vida. Mas nem nas minhas abstrações mais ansiosas imaginaria que você me ensinaria tanto sobre o tempo. Muito jovem…
Pronto, finalmente te entrego a grande análise que prometi (risos). Para que tanto suspense, não é mesmo? E agora é agradecer, pelos momentos partilhados em vida e em sonho. Foi muito bom estar com você. Sempre. Eu agradeço pelo ensinamento doloroso, mas necessário, de que a vida pode acabar a qualquer momento e que não podemos temer nossa grandeza.
Conto com a sua luz sobre nossas cineastas, realizadoras, pesquisadoras, intelectuais, ativistas, mestras.
Você vai fazer falta por aqui, mulher, mas contamos com você daí. A missão não acaba, ela só muda.
Um beijo, Joyce, e bons trabalhos!
Natasha Rodrigues
(Pesquisadora e Cineasta do Grajaú-SP)

Para Joy
Joy, escrevo essa carta alguns dias depois de desembarcar em Luanda. Esse tempo aqui sem você ainda é tão novo, difícil de entender. Quando o avião aterrissou me vieram à cabeça tantos momentos, acho que queria saber o que você sentiria chegando aqui. Joy, você tinha tanta pressa.
Era bonito ver a forma que seus olhos brilhavam em fazer o que fosse necessário pelos nossos. Fazia eu me mover também. Sua pressa em ação era exatamente o oposto do que causava a qualquer um. Voz calma, segura, sempre me fez te perceber como um farol. Te ver chegar mais longe era conseguir enxergar o meu caminho indo mais longe também.
Alguns meses atrás estávamos juntos na Colômbia e lembro exatamente do momento que cheguei e te vi no saguão do hotel. Foi como encontrar minha irmã mais velha. Você me deu um abraço forte e confortável e mal sabíamos que esse seria um dos nossos últimos. Ao longo dos nossos dias por lá era notável o quanto você é referência pra gente no Brasil e fora dele. Este foi mais um dos encontros nos quais te ouvir por cinco minutos era como sair de uma aula de horas.
Aliás, falando em aula, você foi uma das minhas primeiras professoras nessa escola do cinema negro. O que sei hoje sobre tudo isso vem grande parte de você. Obrigado por abrir caminhos! Mas como eu disse, você sempre teve muita pressa. Pressa em transformar esse mundo em um lugar menos desigual, pressa em conquistar espaços negados aos nossos, pressa em poder contar as histórias que você tinha vontade (e sabemos que nisso você é mestra). Só não tinha entendido ainda que essa pressa também passava pelo seu tempo nesse plano. Ainda não consigo aceitar que a sua passagem se deu de forma tão repentina.
Escrever essa carta é um pouco um processo de lidar com essa perda, de tentar reunir minhas forças falando com você, porque sei que está presente.
Você está eternizada em cada um de nós que te amamos. Em cada filme que você deu de presente para esse mundo. Em todas as batalhas que você travou pra gente. Sua passagem por esse plano foi um presente, daqueles que a gente ganha e nunca mais esquece. Dos que a gente leva com a gente pra todo o sempre. Sempre ouvi dizer que os iniciados no mistério não morrem e é com essa certeza que sigo honrando toda sua trajetória que segue viva em mim, na sua obra e na história do nosso povo.
Te amo Joy, agora e sempre!
Well Amorim
(Cineasta – Maloka Filmes)

O cinema que você me ensinou
Há 11 anos, eu estava entrando em uma escola de cinema, ganhando meu primeiro edital e tendo a minha primeira consultoria de roteiro para documentário com você.
Lembro como se fosse hoje. Eu estava recebendo aquela chuva de ensinamentos sobre como construir e moldar o meu olhar e a minha linguagem cinematográfica. Cada palavra que você dizia valia ouro. Eu sabia que estava sendo muito abençoada naquele momento, não só pelo seu vasto conhecimento, mas também pela honra de poder ter te conhecido ali, pela grande conexão que criamos, pela construção da minha maior referência no cinema até hoje.
O seu cuidado com as palavras, a sua delicadeza e o seu enorme desejo de nos ver vencer e conquistar os nossos sonhos. Amiga, obrigada por acreditar tanto, mas tanto em mim, por me escutar e despejar uma cachoeira de cuidado e amor.
Depois de alguns anos, você me fez um convite para participar da gravação da série “Cartas de Maio”. Eu nem sabia o que dizer. Estava muito feliz e honrada por estar em um projeto seu. Eu era muito jovem, ainda estava no início da minha carreira, mas, como sempre, isso nunca foi um impeditivo para você me enxergar como uma profissional, como uma pessoa capaz. Você colocou o som do seu projeto nas minhas mãos e confiou em mim, dando-me essa oportunidade de crescer e me desenvolver.
Rodamos pelo centro de São Paulo ouvindo histórias, conhecendo pessoas e nos conectando com a nossa própria história. Mas, naquele dia, o que mais me chamou a atenção foi a forma como você tratava a equipe, os entrevistados e a sua narrativa. Era uma verdadeira aula de cinema. Um cuidado, um carinho e uma direção calma e objetiva, que sabia exatamente o que estava buscando.
Eu aprendi muito. Não só sobre como gravar melhor ou operar os equipamentos, mas sobre que tipo de cinema eu quero fazer, que tipo de olhar eu quero construir, que tipo de histórias eu quero contar.
Eu nunca imaginei que, anos depois, você continuaria me escolhendo para fazer o som do seu primeiro longa. Eu estava em um turbilhão de felicidade. Como assim Joyce Prado me chamando para o seu filme? Como ela está me chamando para construir o som do seu filme?
Que privilégio foi sonhar Chico Rei com você. Vivemos dias memoráveis e divertidos, nos aproximando cada vez mais. Foram 15 dias em Ouro Preto buscando representações do Chico Rei, esse símbolo de luta, resistência e liderança do povo negro. Quinze dias nos perguntando se Chico Rei existiu ou não. Pra mim, você foi e sempre será a nossa representação do Chico Rei entre nós. Você fez história e ficou para a história, minha amiga.
Depois de Chico Rei, nos aproximamos ainda mais. Nos víamos quase todos os dias e conversávamos muito, sobre tudo. E, como você mesma dizia brincando, adorava que eu fosse geminiana e falasse muito. Eu te via como uma irmã mais velha, para quem eu sempre poderia recorrer para qualquer coisa, sabendo que seria acolhida. Te contei sobre o meu sonho de estudar Som na EICTV, em Cuba, e você me deu toda a força do mundo, porque esse também tinha sido um sonho seu.
Quando passei na escola, você enchia a boca para dizer que estava orgulhosa de mim e que eu seria a primeira mulher preta que você conhecia estudando Som. E dizia: “Vai, mas volta, porque nós precisamos de você aqui. O cinema precisa de você aqui.” Minha amiga, eu fui para Cuba, me formei e voltei. E fizemos o seu último filme, Calmon, um curta de ficção sobre uma história da sua família. Um filme íntimo, de ritmo calmo, mas potente e certeiro como você.
Fizemos um trabalho lindo juntas, amiga. Que prazer foi aquele dia em que criamos e pensamos o som de cada cena, e, nas pausas, você me contava as histórias da sua família. Mais uma vez, eu me sentia honrada por estar nesse processo criativo de mais uma obra sua, que me transformaria, como todas as outras.
Eu nunca imaginaria que essa seria a minha última contribuição com você em vida, que a nossa última conversa seria você me agradecendo pela entrega da master do som, que o seu último áudio seria você dizendo que amou muito. Ainda é difícil pensar que vou ver a estreia desse filme sem você, sem a pessoa que idealizou tudo aquilo, sem a minha maior referência do que é fazer cinema, sem a minha amiga.
A sua partida fez muito barulho. Foi um dia inconsolável. Todos, sem exceção, choraram a sua partida, pensaram em você e te homenagearam. Você impactou inúmeras vidas e empoderou diversas mulheres pretas no cinema. Você abriu caminhos. Você seguirá eterna no coração de cada pessoa que te conheceu.
Vá em paz amiga, Eu te amo muito.
Lyn Santos
(Cineasta e Sonoplasta)

Para ver Cartas de Maio: https://www.youtube.com/watch?v=uJh81um17pw
