Racismo

Gaza sangra. Mas é o corpo branco que comove

A presença de Greta obrigou o mundo a olhar para Gaza, mas só porque o corpo dela é branco.
Por:
Shisleni de Oliveira
Edição:
Aline Macedo

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A presença de Greta Thunberg garantiu mais cobertura midiática à interceptação do barco com comida para Gaza, em águas internacionais, do que as fotos de crianças chorando de fome.

Eu tinha planejado outro tema neste mês, mas a vida se impõe, e decidi falar sobre Gaza. Não vou fazer aqui um histórico da ocupação da Palestina, você me desculpe,  mas sugiro esta série de cinco vídeos da Sabrina Fernandes, que explica esse processo muito melhor do que eu conseguiria.

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Imagino que você também esteja vivendo um bombardeio de informações sobre isso. Se não estiver, talvez precise ajustar seu algoritmo.

Vamos ao resumo: Um barco, com um grupo de doze ativistas de diversos países, entre eles, um brasileiro, tentou chegar à Palestina por via marítima, levando uma quantidade simbólica de alimentos, incluindo leite em pó e fórmula para bebês.


Mas foi interceptado, em águas internacionais, pelo exército israelense antes de chegar a Gaza. O grupo queria mostrar, ao vivo, que Israel está usando a fome e a sede como armas de guerra, ao impedir qualquer ajuda humanitária de chegar ao povo palestino.

Diante da magnitude do que acontece na Palestina desde a ocupação, há mais de 70 anos, e que se agravou desde 2023, a gente poderia achar que o “Iate de Selfies”, como o nomeou o governo de Israel, não era uma ação de muito impacto, mas foi.

Só o fato de o governo de um país em guerra se dar ao trabalho de inventar um apelido para ridicularizar a ação nas redes sociais, quando teria sido relativamente simples afundar o barco ou fazer desaparecer as pessoas, já diz bastante coisa.

Mas por que essa ação chama mais atenção do que os números ou as imagens de crianças sofrendo?

Ou do que as manifestações que juntam milhares de pessoas em todo o mundo?

Manifestações ocorrem, inclusive dentro de Israel, com israelenses pedindo cessar-fogo. Por que um barco com apenas doze pessoas chama mais atenção do que a Marcha Global para Gaza, com mais de quatro mil pessoas tentando chegar por terra à fronteira de Gaza com o Egito?

Bom, Greta Thunberg, famosa ativista ambiental sueca de 23 anos, uma das tripulantes do barco, ao ser perguntada por que o mundo fecha os olhos para o genocídio em Gaza, respondeu: por causa do racismo.

Por conta da presença de Greta, e de todo o privilégio branco que seu corpo carrega, a viagem teve que ser noticiada em jornais do mundo todo.

A interceptação do barco em águas internacionais e a deportação da tripulação tiveram que ser manchetes. Houve coletiva de imprensa no aeroporto.

Não era possível deixar “em branco” qualquer coisa que acontecesse com o barco em que Greta Thunberg estava. Isso impediu, inclusive, que ele fosse bombardeado.

Não é exagero. Escolas e hospitais em Gaza foram, sim, bombardeados. Militantes contra o genocídio na Palestina estão presos dentro e fora de Israel. Greta sabe disso.

Um governo violento, tão desesperado para se manter no poder quanto o de Benjamin Netanyahu, não teria pensado trinta segundos em simplesmente explodir esse barco no meio do mar — se isso não fosse causar uma dor de cabeça maior do que “apenas” prender e, em seguida, deportar a tripulação.

Greta não precisa do meu aplauso para continuar sendo a europeia-branca-ativista-estrela-heroicizada que ela é desde os 16 anos.

Seu nome é, e vai continuar sendo, usado como foi: para garantir que o mundo olhasse para uma quase minúscula demonstração do que está acontecendo em Gaza.

Cerca de duas mil pessoas israelenses estão entre mortas ou reféns desde o ataque do Hamas a Israel, em 2023.

Depois disso, e supostamente por conta disso, mais de 60 mil palestinos foram mortos, entre os quais 14 mil crianças.

Cerca de 1,9 milhão de pessoas foram deslocadas, o que corresponde a quase 80% da população de Gaza. O massacre de Israel sobre o povo palestino é genocídio, é limpeza étnica.

Não há como minimizar isso, em nome de uma suposta ponderação antiestrelismo, ou, muito menos, sob qualquer argumento que defenda “olhar os dois lados”.

No fim,Greta tem razão. A resposta “simples” é racismo. E ela não faz mais do que sua obrigação ao usar a visibilidade que tem para chamar atenção para isso.

Pra terminar: dentro do tema principal desta coluna, Justiça Reprodutiva — como foi pensada pelas mulheres negras, também se defende o direito de criar suas crianças sem medo da violência. É um movimento antigenocida.

Entre as diversas vertentes da esquerda judaica, existe um movimento que reconhece a ocupação israelense em território palestino como neocolonialismo, e defende o êxodo total — o que é um tema delicado e doloroso para o povo judeu, historicamente perseguido e forçado a migrar.

Hoje, o governo israelense é acusado, inclusive por parte de sua própria população, de ter deixado de procurar pessoas sequestradas pelo Hamas, porque, ao serem encontradas, deixariam de ser justificativa para a guerra.

A mãe de uma jovem israelense sequestrada pelo Hamas em 2023 disse recentemente no congresso em Israel:

“Eu preciso vir aqui implorar para vocês trazerem de volta a minha filha, que o Estado de Israel abandonou?
Se eu pudesse escolher, não viveria neste país.
Aconselharia minha filha a pegar tudo o que ela ama e deixar este país.
Este é meu conselho para as novas gerações.”

Que conselhos as mães palestinas gostariam de dar às suas novas gerações?

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