Opinião

Salário: sobrevivência, falsa renda e dívida

Em seu primeiro artigo para o Desenrola, o economista, Júlio César Djéli, destaca a diferença entre salário e renda, como o crédito contribui para o endividamento da população mais pobre que carece de recursos financeiros.
Por:
Júlio Djéli César

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A coluna 1000 termos, 1000 temas tratará de desenrolar diversos assuntos do “economês”, aliando opinião e letramento. O objetivo é estreitar a relação da quebrada com o debate econômico e, assim, cumprir um papel tático de formação política. Este primeiro ensaio trata de mostrar por que salário e renda são coisas distintas – mas antes, um breve contexto:

  • Com um salário mínimo de R$ 1.518,00 – e dedução de 7,5% de INSS – temos que o orçamento doméstico de um trabalhador médio é estimado em R$ 1.404,15; e
  • Com a cesta básica custando R$ 1.285,92, quase a totalidade do salário (91,57%) está comprometida estritamente com as necessidades vitais básicas do trabalhador: comer e se manter limpo.

Dito isto, o que fazer quando quase todo o seu salário é consumido com gastos essenciais e ainda assim há aluguel e contas a pagar? Duas são as respostas possíveis: (1) quando não consegue pagar o que precisa com o salário que tem e há tempo disponível, busca-se um segundo trabalho, porém, quando não há tempo vago, (2) recorre-se ao crédito. Em ambas as circunstâncias, temos pontos relevantes a tratar:

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Salário não é renda e crédito é dívida.

No primeiro cenário, um segundo trabalho (fixo, temporário ou pontual) implica num segundo salário que pode ou não ser totalmente consumido. Quando isso acontece, o salário não se torna renda, já que todo o dinheiro foi gasto, não sobrou nada. Quando há um excedente, mas esse valor não foi investido, também não se torna renda, pois o dinheiro não rendeu, ele sobrou. Renda é dinheiro que rende. 

Quando há um excedente e esse excedente é investido, aí sim, o salário se torna renda. Por isso, salário não é renda, pois nem todo salário rende. Assim sendo, termos como “renda extra” não fazem sentido quando empregados ao salário de um “bico” temporário, por exemplo. Esse apontamento é importante porque “viver de renda” não é viver do trabalho, mas financiar seu custo de vida apenas com os rendimentos dos juros de investimentos realizados. Por esse motivo, quem vive de renda não trabalha, mas vive às custas do trabalho dos outros.

Nessa mesma toada, desvendemos o segundo cenário. O crédito por si só nada mais é do que “crer no que é dito”. Isto é, trata-se de um acordo em que o credor acredita que, no futuro, o tomador irá pagar pelo empréstimo e o tomador assume esse compromisso e tem obrigação de pagar. Mas qual a garantia do credor (aquele que acreditou) de que o tomador irá pagar? 

Antigamente se dava um fio da própria barba, em geral do bigode, como símbolo de honra, compromisso, retidão e idoneidade. Daí a origem de expressões como “esse negócio foi fechado no fio do bigode” ou “fulano é bigode”. Logo, o tomador está em dívida com o credor e, como esse credor poderia muito bem investir esse dinheiro, há um custo adicional nesse acordo, nessa transação, nessa troca: os juros. Os juros são o preço do dinheiro no tempo. Com isso, parte do tempo de trabalho do tomador fica comprometido com o pagamento tanto do valor emprestado como dos juros. 

Dada a atual conjuntura – com 81,2 milhões de brasileiros endividados segundo o Serasa (órgão referência na proteção ao crédito, com um extenso banco de dados do histórico de crédito dos consumidores brasileiros) – trataremos no próximo ensaio dos termos: dívida, juros rotativos e inadimplência.

Este é um conteúdo opinativo. O Desenrola e Não Me Enrola não modifica os conteúdos de seus colaboradores colunistas.

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