Editorial

Visibilizar e preservar a memória de existências periféricas: nosso jornalismo na prática rumo à efetivação de direitos

Em um país onde tantas vezes falam sobre as periferias sem escutá-las, o Desenrola e Não Me Enrola vem, há mais de uma década, construindo um projeto coletivo que desafia o olhar hegemônico e propõe novas formas de narrar o Brasil.
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Mais que um veículo de comunicação, o Desenrola é um arquivo vivo de memória, resistência e pertencimento. E neste Dia Internacional dos Direitos Humanos (10 de dezembro) lembramos da necessidade de reconhecer a memória como ferramenta de comunicação e como recurso para mobilizar pela efetivação de direitos. A data é, por si, um marco à lembrança para a coletividade global sobre a vigilância contínua pelo cumprimento dos compromissos assumidos pelos Estados no sentido dos direitos sociais, civis, políticos e ambientais. E para as reivindicações de participação coletiva quanto às demandas dos mais diversos grupos, em especial, os historicamente mais vulnerabilizados. 

Com tudo isso, nosso jornalismo periférico de soluções, impulsionado a garantir direitos, se propõe à escuta e ao afeto para revelar histórias que constroem o país de dentro para fora — histórias que não apenas informam, mas transformam.

Nas quebradas, as pessoas não são personagens: são autoras de suas trajetórias. O jornalismo periférico nasce desse direito de falar por si e disputar sentidos. Praticamos uma narrativa de presença — aquela que reconhece a potência, a criatividade e o trabalho comunitário que sustentam o cotidiano.

Essa prática, também cumpre uma função histórica: preservar a memória das populações negras, indígenas e das comunidades tradicionais que moldaram o país, mas raramente aparecem nos registros oficiais.

Vó Tutu, durante nossa reportagem, realizada em 2019 - Foto: Desenrola e Não Me Enrola
Vó Tutu, durante nossa reportagem, realizada em 2019 – Foto: Desenrola e Não Me Enrola

Entre tantas histórias, a de Vó Tutu, moradora da Brasilândia, na zona norte de São Paulo, sintetiza isso. Em nossa reportagem publicada em 2019, Vó Tutu aparece não apenas como personagem, mas como ancestral que articula redes de solidariedade e reinventa o sentido de política no cotidiano.

Assim como ela, tantas outras pessoas — como Tia Cida, de São Mateus, na zona leste — guardam o que o jornalista Adriano Sousa chama de “arquivos de território”: memórias orais, invisíveis nos arquivos oficiais, mas fundamentais para compreender a história real das cidades.

Tia Cida, matriarca do samba em São Mateus, zona leste de São Paulo. Foto: Divulgação

Registrar essas vozes é um ato político e de justiça narrativa. É afirmar que a história da cidade também se escreve nas casas construídas nos mutirões, nos muros pintados e nas estreitas vielas que abrigam “toda gente”.

O Desenrola e Não Me Enrola integra uma rede de coletivos que transforma a comunicação em política pública de memória. E o acesso à comunicação é direito. E também caminho para promoção dos demais direitos, por isso, mais do que noticiar, o jornalismo periférico atua como ponte entre passado e futuro, visibilizando saberes, conectando gerações e fortalecendo pertencimentos. O futuro das periferias se constrói quando essas vidas ganham espaço para serem contadas. Porque preservar a memória é preservar a existência — e cada reportagem do Desenrola e Não Me Enrola reafirma esse compromisso todos os dias.

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