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“Trabalhar com crianças é também construir o passado delas”, afirma educadora Geisah Paula

Edição:
Evelyn Vilhena

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Através da arte educação, a assistente social Geisah Paula, dialoga com crianças e adolescentes sobre gênero, sexualidade, autoestima e sonhos como ferramenta de transformação.

A vontade de atuar com arte e educação levou a assistente social Geisah Paula Ribeiro, 31, a descobrir formas lúdicas e utilizar a comunicação não violenta para trabalhar a autoestima e confiança em crianças e adolescentes da quebrada através de um centro de convivência localizado no bairro Santa Maria, em Osasco, região metropolitana de São Paulo.

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Geisah é moradora da Vila Dalva, bairro localizado no distrito do Rio Pequeno, zona oeste de São Paulo, mas sua história começa a cerca de 100km da cidade de São Paulo, lá em Itú, município onde a assistente social nasceu. Ela conta que sua trajetória levou seu olhar para a educação e o desejo de transformar realidades.

“Eu me leio como uma pessoa fruto de um relacionamento interracial que teve e passou por processos de racismo suficientes para ter me adoecido. Violências de gênero, raça, classe, sexualidade, e isso tudo me fez entender a vida como uma busca de devolver pra comunidade”, afirma Geisah, que desenvolve trabalhos com cerâmica, aquarela, artesanato, e encontrou na arte uma forma de combater as opressões vividas e ressignificar sua existência. 

“Eu cresci em um ambiente que a autoestima não foi construída em mim, eu tive que ter ela destruída primeiro para entender que eu precisava dela, e o que eu estou fazendo é alimentar a autoestima das crianças. O que estou executando como trabalho é algo de libertação, entender nosso espírito mesmo”, aponta a arte educadora.

Desde 2017, Geisah atua com arte educação discutindo autoestima, gênero e sexualidade no Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos. Ela pontua que ao trabalhar com crianças é necessário entender que não são mini adultos e que possuem a própria lógica. “O próprio estado de ser, e você precisa adequar aquilo que está tentando levar para ela de uma maneira que faça sentido”, aponta.

Geisah conta também que enxerga a arte como ferramenta de ensino que engaja as crianças e adolescentes. “Compreendendo que a arte, símbolos, representações e imagens são úteis, comecei a perceber que as crianças são grandes artistas. Na verdade, foram eles que me disseram isso”. 

 Território e referências

 A arte educadora observa que as referências que busca apresentar às crianças e adolescentes geram o impacto deles se abrirem, conseguirem falar como estão e o que estão sentindo.

“A gente consegue com que uma criança chegue na atividade dizendo que ser LGBT é pecado, e saía falando que aprendeu que deve respeitar todas as pessoas independente da sua sexualidade”, conta Geisah.

Quando se mudou de Itu em 2013, Geisah foi morar no Jardim Macedônia, zona sul de São Paulo, ela afirma que espaços de literatura e poesia nas periferias contribuíram na reconstrução de sua autoestima e confiança.

“Tinha tudo ali, indo nos roles de poesia como o sarau do binho, e indo pra faculdade todo dia, comecei a ir na batalha da Dominação no metrô São Bento, um lugar que frequentei por mais de um ano, comecei a escrever e foi uma experiência muito louca. Me olhei, me reconstruí nesses espaços e com a arte”

Para a artista, as referências apresentadas para a juventude podem representar transformação e mudança de caminho. “O que foi importante pra mim foram as referências que eu pude ter contato, então eu trabalho assim. Vou levar referências de artistas, de pessoas que somem na vivência deles, como o Chavoso da Usp, o Quebradinha, para que de alguma maneira seja uma memória que venham acessar no futuro”, afirma.  

Agente política 

Geisah afirma que o sucateamento na educação adoece quem está atuando e quer realizar melhorias.”Recentemente fizemos a finalização de uma atividade que falava de cidadania atuante. As crianças escreveram um projeto de melhoria para escola, eles querem fazer, eles querem atuar, eles querem propor, mas nunca são e vão ser chamados pela escola para fazer isso junto”, coloca. 

“O processo de escolarização das crianças é uma vivência com o desafeto. A experiência delas é com o não abraço, com o não incentivo, é com o não acreditar”

A assistente social conta que se enxerga como uma agente política, e isso significa estar exposta. “Contar para você das minhas experiências, meus traumas, das coisas que eu passei, é eu me expor, e você expor a sociedade para um adolescente, eles vão poder comparar, será que eu sou mais parecida com quem [das pessoas] quem eles convivem?”.

Essa construção de repertório político e social se faz presente na metodologia que a artista utiliza. Ela aponta que quando adultos se mostram para crianças um ser humano em evolução, a relação se constrói a partir de um novo lugar.

“Você não é o adulto que sabe de tudo e que vai dizer o que eles tem que fazer, você também está aprendendo, você é igual eu, com mais experiência”, pontua sobre a educação se tornar mais verdadeira e fluída ao se colocar como alguém que acerta e erra. 

“Quando você leva a sério uma pessoa que é infantilizada, ela se sente confiante para falar o que sente e pensa”

Para a assistente social a comunicação é a chave para várias mudanças. “Se a gente transformar a forma que falamos com essas crianças, vamos transformar as crianças e interromper o ciclo da violência”, finaliza.

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