Reportagem

Sem trabalho e renda, moradores das periferias dependem do Bom Prato para se alimentar

Edição:
Ronaldo Matos

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Algumas unidades do serviço público não funcionam nos finais de semana. A medida tem impactado moradores que ficam dependentes de ações solidárias de vizinhos e organizações sociais.

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Unidades do Bom Prato nas periferias da zona sul de São Paulo só abrem de segunda-feira a sexta-feira. Foto: Patricia Santos

Como os preços dos alimentos estão aumentando cada vez mais, moradores das periferias de São Paulo deixam de ir ao mercado e feiras livres, por falta de dinheiro, e recorrem ao Bom Prato como alternativa para realizar refeições essenciais como café da manhã, almoço e jantar. Esse é o caso do senhor Antônio Inácio de Lima, 65, que vai todos os dias para almoçar e jantar na unidade do Bom Prato Capão Redondo, na zona sul de São Paulo.

O morador do Capão Redondo vive sozinho há 15 anos, desde o falecimento da esposa. Ele ainda não conseguiu se aposentar pelo fato da documentação estar incompleta. Neste momento, Lima está tentando reunir todos os documentos necessários, como a certidão de nascimento que se encontra em Pernambuco, estado onde nasceu. Enquanto isso, ele usa o pouco recurso que consegue com a ajuda de vizinhos e amigos para pagar as refeições no Bom Prato.

“O dinheiro que eu tenho é só para comer aqui. A minha salvação é essa, não tem outra coisa para mim. Se eu for comer em um bar por aí é R$ 20 ou R$ 30 no almoço, eu não tenho e a comida daqui é maravilhosa”

Antônio Inácio é morador do Capão Redondo, zona sul de São Paulo.

Custando R$ 1 real a cada refeição, e R$ 0,50 o café da manhã, o Bom Prato se tornou a principal alternativa viável para moradores das periferias que não tem condições de comprar alimentos ou pagar por refeições em estabelecimentos comerciais.

Sem renda e sem condições físicas para trabalhar, o senhor Antônio conta com a ajuda de vizinhos, que dão algumas moedas para ele conseguir comprar a comida no restaurante popular. Para suprir a necessidade do café da manhã, ele recebe o auxílio dos moradores a sua volta, que oferecem diariamente dois pães e o café preto. “Os vizinhos me dão algumas moedas pra comprar comida, eu não tenho renda nenhuma e também não consigo trabalhar, não tenho mais saúde pra isso.”, explica Antônio.

Nas unidades fixas, as refeições são servidas no próprio espaço e no jantar marmitas podem ser retiradas até as 18h. Foto: Patricia Santos

Renda insuficiente 

Segundo o DIEESE (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), a cesta básica em São Paulo no mês de julho custava cerca de R$ 777,01. Esse valor destinado à alimentação de uma família de quatro pessoas corresponde a 64% do salário mínimo.

A Constituição Federal Brasileira estabelece que o salário mínimo deve ser suficiente para suprir as necessidades e despesas da família com relação à alimentação, moradia, saúde, educação, vestuário, higiene e lazer.

No entanto, a realidade mostrada pelo estudo econômico do DIEESE mostra que o valor do salário necessário para cobrir essas e outras demandas de uma família com quatro pessoas, deveria ser de R$ 6.527,67, ou 5,39 vezes o valor atual do salário mínimo que é de R$ 1.212,00.

Os estudos do DIEESE tem forte conexão com a realidade vivida diariamente por Marcela Silva de Souza, 53, moradora do Capão Redondo, que tem apostado na atividade de catadora de recicláveis, como uma alternativa para gerar renda e conseguir levar alimentação para os 3 filhos e dois netos.

O preço dos alimentos nos mercados e feiras livres são incompatíveis com a realidade financeira vivida por Marcela e a família. O Bom Prato surge como a única solução de fácil acesso que permite a ela se organizar financeiramente.

“Em dias bons eu consigo fazer dinheiro suficiente pra dar comida pra todo mundo, mas tem dias que temos que dividir pra não faltar no dia seguinte”, conta a catadora de recicláveis, apontando que a cultura de dividir para não faltar já faz parte do cotidiano dos filhos e netos, que ainda são crianças.

Moradoes formam filas que dão a volta no quarteirão no Bom Prato do Capão Redondo.  Foto: Patricia Santos.

Expediente do Bom Prato 

Segundo a Secretaria de Desenvolvimento Social (SEDS) do Estado de São Paulo, durante a pandemia de Covid-19, o Programa de Segurança Alimentar Bom Prato teve um aumento de 23,1% na distribuição de refeições. Entre 2020 e 2021, foram distribuídas mais de 78 milhões de refeições. Já nos anos de 2017 a 2019, o programa distribuiu 63 milhões de refeições.

Atualmente são servidas mais de 114 mil refeições por dia nas 83 unidades do Bom Prato. Dessas, 22 unidades estão localizadas em endereços fixos e outras dez estão em unidades móveis na cidade de São Paulo. As unidades do programa de segurança alimentar localizadas na 25 de Março, Brás, Campos Elíseos, Guaianazes, Lapa e São Mateus, abrem sete dias por semana.

No entanto, as demais unidades instaladas em endereços fixos das regiões norte e sual do municipio atendem de segunda-feira a sexta-feira. Esse expediente não considera a demanda da população local que precisa se alimentar no sábado e domingo. Desta forma, o senhor Antônio e a Marcela são afetados diretamente pelo fechamento destas unidades.

“Chega sexta-feira eu pego duas marmitas: uma pra jantar e uma pra comer no sábado. No domingo os vizinhos me dão comida, com fome eu não fico, graças a Deus e a eles, mas seria bom se abrisse no domingo, não ia ficar dependendo só deles pra comer”

Antônio Inácio tem 65 anos, mas não é aposentado e não tem renda fixa.

No caso da Marcela, mesmo pegando duas marmitas (o limite permitido por vez), ainda é pouco para alimentar seis pessoas por mais dois dias. “Já cheguei a ir até Santo Amaro pegando carona nos ônibus pra pegar marmita, mas é muito difícil, nem todo motorista quer dar carona”, relata.

A periferia no combate à fome 

Marisa Mateus (de verde), e as cozinheiras do Cozinheiras da OnG O Amor Agradece do Núcleo Carumbé que servem servem todos os domingo cerca de 250 marmitas aos moradores do bairro. Foto: divulgação.

 Marisa Mateus, 64, é moradora do Jardim Carumbé, bairro localizado na Brasilândia, zona norte de São Paulo. Ela atua como coordenadora do Núcleo Carumbé da organização social “O Amor Agradece”, que entrega marmitas aos domingos para moradores da Ocupação Nova Carumbé.

A organização existe há quatro anos, mas o Núcleo Carumbé, responsável pela distribuição de refeições, surgiu durante a pandemia de Covid-19, mesmo período no qual o Bom Prato teve um aumento considerável na distribuição de refeições.

“Em abril de 2021 eu recebi uma ligação de uma amiga, dizendo que um grupo que distribuía marmitas estava precisando de um carro para fazer o recolhe. Eu disse que poderia, sim fazer, mas distribuiria aqui na minha comunidade, pois temos uma ocupação de moradia em situação de vulnerabilidade. Assim conheci a Rute Correia, que é coordenadora da ONG “O Amor agradece.”, relembra.

Em 2021, a pedido de Rute Correia, Marisa passou a cozinhar junto com as irmãs e vizinhas do bairro onde mora, e hoje somam juntas dez cozinheiras e algumas ajudantes no coletivo. Elas cozinham em suas casas e o projeto recolhe e distribui na região.

As quentinhas são preparadas nas casas das cozinheiras que são voluntárias e retiradas por integrantes do núcleo para distribuição. Foto: Marisa Mateus.

“Hoje são 250 marmitas distribuídas para aqueles que estão na fila todos os domingos. O critério para distribuirmos nesta região é a proximidade. A comida chega quentinha ao nosso público.”,

Marisa Mateus, coordenadora do Núcleo Carumbé, localizado na Brasilândia, zona norte de São Paulo.

O Bom Prato localizado na Brasilândia também funciona de segunda-feira a sexta-feira, com isso, os moradores do territórios ficam vulneráveis com a falta de alimentação nos finais de semana, fato que reforça a importância da atuação da organização social na região.

Segundo a SEDS, as unidades do Bom Prato que funcionam aos fins de semana são definidas de acordo com a demanda de usuários da região. “A frequência de abertura e funcionamento das 83 unidades do Bom Prato são determinadas através de um mapeamento de demanda. Há três opções de abertura que atendem a frequência dos clientes e pessoas em situação de rua em seus diferentes territórios do estado: segunda-feira a sexta-feira, segunda a sábado, e segunda a domingo.”, explica a secretaria de governo do estado. 

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