Opinião

Quando os meninos negros morrem

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Você, homem negro, ame a si mesmo e a sua cultura. Dê amor, respeite o tempo e às pessoas que você ama e não permaneça onde te querem capataz.

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Ensaio Resgate de Cauane Oliveira (@baduona) e Renata Santos (@olhodeanubis), set. de 2020.

Se deparar com índices que denunciam a mortalidade e a degradação da vida nas periferias não é novidade, a morte ganha um peso único quando contamos os números e procuramos o que eles significam.

Um peso no corpo, uma dor no peito, acordar e descobrir que a realidade é mais dura que o pesadelo. O trauma da perda é uma marca que separa os que sonham com o futuro e os que buscam justiça – ou que morrem aos poucos enquanto o tempo apaga as marcas de quem passou pela terra.

Então tenho pensado, por que os meninos negros morrem tão cedo? 

Estou cada vez mais perto do fim da faixa etária das estatísticas de expectativas de mortalidade entre a juventude negra e tenho me perguntado, por que isso acontece?

Podemos criar representações das motivações e efeitos que levam centenas de milhares de jovens de 14 à 29 anos a números expressivos de mortalidade. Da violência policial ao suícidio, da situação de rua ao encarceramento, o homem negro é o principal alvo – mesmo que essas violências acometam a população negra e periférica como um todo.

Como exercício de reflexão, vamos remontar parte dos problemas que sustentam esses acontecimentos até hoje e que tem origem no passado escravocrata.

Quem nunca ouviu na escola, na rua, em espaços públicos de modo geral, um “educação vem de casa” que atire a primeira pedra.

A questão é que a família é o pilar de diversos desafios e problemas que vamos experimentar durante a vida e também o lugar de busca por superação, redenção e cura. 

Em diversas sociedades de origem não-brancas ou que não são de cultura ocidental cristã, podemos ver modelos diferentes de enxergar o papel da família.

Por exemplo, em comunidades de culturas indígenas e africanas, em que o papel da família é mais amplo do que o particular: está em relação com a preservação de modos de pensar, distribuir tarefas, organizar os papéis que todos devem desempenhar por idade, por vezes, gênero (de culturas matrilineares, híbridas ou mesmo não baseadas em modelos de gênero), na relação com o íntimo, o particular e o coletivo (a cultura, o grupo, a religião, a política).

Esse é o caso das culturas do povo Akan, de Gana, onde o poder é distribuído por mulheres, ou o povo Bribri, da Costa Rica, em que o direito de propriedade e de execução dos rituais sagrados são matrilineares.

Apesar de ser um fato de que a cultura brasileira está profundamente enraizada nas culturas africanas e indígenas, o modelo familiar que nos governa, das elites às favelas, é o modelo patriarcal escravista, tendo como pilar o homem branco e seu poder de posse.

É aqui que o resultado dessa equação homem branco e família patriarcal nos leva à uma espiral de problemas para a população negra e não-branca como um todo, sobretudo, obriga o homem negro a ser antagonicamente o contrário daquele que detém o poder ao mesmo tempo em que se obriga que ele seja o espelho de seu opressor.

Mas, que poder é esse? E por que é um poder?

Primeiro, imaginem que nos modelos de famílias que vimos antes, família e comunidade são quase sinônimos. Podemos ver isso presente nas periferias nos modos de cumprimentos ou “apelidos”, quando chamamos uns aos outros de “irmão”, “tia”, “tio” e etc.

Já no modelo patriarcal, o homem pensa o mundo a partir do particular. Então se a família pertence a ele, assim como um carro ou um boi, tudo onde ele projeta a família, ou seja, tudo onde ele gostaria de ver a si mesmo ou suas posses, deve corresponder a sua vontade.

Significa compartilhar privilégios do seu espaço particular estendido para instituições públicas (e privadas): um cargo, uma vantagem, favores. É estabelecer os inimigos que ameaçam seu espaço particular, seus aliados e os seus privilégios.

O homem negro, em busca de humanizar a si mesmo, desumaniza sua identidade, depara-se com a questão de seu sofrimento.

O amor que o humanizaria encontra barreiras para se edificar como parte fundamental da sua identidade, deformada pela busca de existir como “o outro”. E em tudo que busca, aqueles mais afundados na deformação de sua identidade, exercem força e violência contra si e seus semelhantes em nome daqueles que buscam extingui-los.

Os conflitos internos de cada grupo racial são sempre intensificados pelos conflitos urbanos. Então quem ocupa majoritariamente o poder, privilégios e propriedade, precisa buscar um suspeito padrão dos males para depositar todos os problemas da sociedade.

É aqui que nos encontramos numa encruzilhada de armadilhadas raciais para homens negros em busca de humanidade.

O que pode nos tornar seres humanos? 

Para o menino negro que se tornará um homem, reafirmar sua masculinidade passa pela busca do controle das pessoas, de suas relações e pela ostentação. Todo caminho é possível, do trabalho exaustivo em busca de ser “o provedor” e a submissão a situações de exploração absoluta característico do capitalismo ao crime como forma de exercer o poder através da força.

Então tudo que os meninos negros vivem entre homens se torna uma forma de provação de uma masculinidade que deforma sua identidade.

No trabalho é pegar mais peso do que deveria, na quebrada pode ser usar drogas muito cedo, no crime e na polícia é demonstrar frieza. Mas é principalmente a busca por tornar tudo uma posse, como um boi ou um carro. 

Nos ensinam, assim, a tratar nossas relações. Entretanto a diferença é que criam homens brancos para serem senhores e homens negros para serem capatazes.

Isso significa, de modo geral, que os homens negros são os principais alvos, porque querem fazer e ter tudo aquilo que homens brancos tem e fazem. Entretanto de modo mais intenso, porque o custo é maior e nós nos arriscamos mais ao ponto de perder tudo.

Enquanto o homem negro busca uma relação entre iguais com homens brancos, o homem branco busca impedí-lo e instrumentaliza seu extermínio.

Para viver, precisamos ter a oportunidade de estruturar melhor nossas famílias. Compartilhar o exercício de poder do particular ao coletivo. Barrar o crescimento precoce como prova de maturidade para reforçar os papéis de gênero.

E por fim ao medo branco de que nossa liberdade da herança colonial de família, comunidade, posse e cultura significa o fim da deles, isso não é sobre eles e sim sobre viver feliz.

Por último, a exaustão mental da busca inalcançável por ser “o outro”, para pôr fim aos desafios sociais, nos encaminha ao sofrimento, à depressão, ao que os africanos escravizados chamavam de banzo.

Esses sentimentos nos levam a crer que a única forma de expulsar os males que habitam o corpo negro é deixar de habitá-lo, seja pela descaracterização ou pelo suícidio. Só o amor por si mesmo, pela vida (e tratamento médico), pode ajudar a curar o banzo.

Você, homem negro, ame a si mesmo e a sua cultura. Dê amor, respeite o tempo e às pessoas que você ama e não permaneça onde te querem capataz.

Esse texto surgiu como uma reflexão sobre um amigo, que morreu assassinado, traficava e um dos seus sonhos era ter um fusca. Também é sobre mim e os homens que eu quis ser.

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