Opinião

O conhecimento a serviço da periferia: repensando o papel da ciência

A periferia sempre foi objeto de estudos das universidades. Geralmente com interesses acadêmicos, mas raramente conhecem de fato os desafios e problemas da periferia.

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Eu sustento que a única finalidade da ciência está em aliviar a canseira da existência humana.

Bertold Brecht

A periferia sempre foi objeto de estudos das universidades. Muitos intelectuais e pesquisadores que olham esse lugar como local de estudo, muitas vezes com olhares de especialistas em pobreza, geralmente com interesses acadêmicos, mas raramente conhecem de fato os desafios e problemas da periferia.

É preciso repensar essa lógica, é necessário inverter os interesses!

As pesquisas precisam estar a serviço da classe trabalhadora, ou como diz Bertold Brecht, devem aliviar a canseira da existência humana.

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Foi justamente o que vi no último primeiro de abril de 2023 no I Encontro de Jovens Pesquisadoras(es) de M’Boi Mirim e Campo Limpo, organizado pelo Fórum de Pesquisadores de M’Boi Mirim.

Reunidos no Centro de Direitos Humanos e Educação Popular (CDHEP), dezenas de pesquisadores (estudantes da graduação, pós-graduandos, professores da rede pública de ensino e professores universitários) partilham suas pesquisas e reflexões sobre tantas questões que afligem o povo periférico, em especial os da zona sul.

O encontro foi promovido pelo Fórum de Pesquisadoras(es) de M’Boi Mirim em parceria com o (CEDHEP) e a Sociedade Santos Mártires.

A riqueza do evento se deu pelo protagonismo de pesquisadores periféricos, agindo como sujeitos periféricos para usar o conceito do sociólogo Tiarajú D’Andrea, apropriando dos conhecimentos e colocando-os a serviço da periferia.

Foi muito potente e esperançoso ver que muitos jovens periféricos estão atravessando a ponte para estudar, mas não abandonam a periferia, muito mais que isso, estão estudando as periferias por suas lentes e subjetividades periféricas e, construindo assim, narrativas sobre suas vidas, seus lugares, seus fazeres, e desta forma, construindo conhecimentos engajados, que são instrumentos de mudança e podem servir de bases para políticas públicas.

Os trabalhos apresentados no encontro trataram de uma grande diversidade de temas que afetam e são relevantes para as periferias, como cultura e equipamentos culturais, acesso à saúde, assistência social e as famílias, habitação e moradias em áreas de risco, gênero e as lutas e dores das mulheres, memória e resistência, meio ambiente e racismo.

Alguns trabalhos me chamaram a atenção, mas por conta dos limites do espaço cito apenas alguns.

A pesquisa apresentada pela Cláudia de Souza Vieira dos Santos, mulher, negra, mãe e educadora social, apresentou um trabalho sobre as mães de filhos com deficiências, com objetivo de mostrar a luta e as dores dessas mulheres, que não são fortes o tempo todo, ao contrário estão “sempre exaustas e cansadas”.

Na mesma linha, a jovem Ingryd Boyek, trouxe reflexões de uma pesquisa sobre a escuta ativa como uma estratégia de intervenção e fortalecimento de vínculos com famílias de crianças e adolescentes atendidos em equipamentos de assistência social do território, que mostrou as potencialidades da escuta ativa para enfrentamento de conflitos cotidianos de muitos indivíduos periféricos.

Já Erika Alves Bueno, apresentou questões relacionadas às políticas de enfrentamento a violência contra a mulher em Taboão da Serra e Itapecerica da Serra. Aqui as pesquisas mostram um compromisso e a preocupação com as mulheres, que como bem sabemos, são arrimos de muitas famílias periféricas.

O povo preto também apareceu nas pesquisas da Tatiane de Matos Araújo e do Lucas Santos Pereira, a primeira trouxe uma pesquisa sobre a baixa circulação de idosos pretos e pardos em espaços de lazer e cultura, resultantes das condições precárias de trabalho e da extensão da idade no mundo do trabalho, ou do ofício de avó/avô, bem como pela falta de estrutura desses espaços públicos para idosos, ou seja, pela falta de políticas públicas nas periferias para idosos. Já o Lucas trouxe à baila reflexões sobre saúde e masculinidade Preta. Ambas as pesquisas falaram de racismo e de direitos negados ao povo preto.

A cultura periférica também foi discutida em alguns dos trabalhos apresentados no encontro. 

Thiago Andrade Gonçalves está estudando a apropriação e os usos do território periférico pela Feira Literária da Zona Sul (FELIZS), com objetivo de “contribuir com subsídios para a elaboração de políticas públicas e para as ações dos próprios coletivos reunidos na FELIZS”, nas palavras do jovem, que percorre 2 horas para chegar na universidade (UNIFESP), que fica na zona leste.

Enquanto Ana Clara da Silva, estuda as (des)continuidade das políticas públicas culturais da Casa de Cultura do M’Boi Mirim, frente às mudanças/transição de gestão do espaço, a fim de compreender como as ações políticas-administrativas impactam na dinâmica e manutenção do espaço.

Essas são algumas das pesquisas apresentadas neste I Encontro de Jovens Pesquisadoras(es) de M’Boi Mirim e Campo Limpo. Outros trabalhos que também foram discutidos, vale a pena buscar os anais do encontro ou mesmo participar dos próximos encontros do Fórum de Pesquisadoras(es) de M’Boi Mirim, que estão sendo realizados de maneira remota.

Acreditamos que encontros como esses precisam ser intensificados, que a ciência deve ser instrumento da classe trabalhadora e que contribua para acabar com as dores que atingem o povo periférico, mas que também coloquem em relevo as lutas e relações culturais e políticas que emergem nas periferias.

Com certeza padre Jaime Crowe, que fez a passagem em fevereiro de 2023, estaria feliz com essa iniciativa. Ele foi um grande entusiasta de uma universidade aqui na zona sul e um grande defensor de pesquisas que contribuíssem para mudar a vida do povo periférico e não apenas para aumentar o currículo de pesquisadores do outro lado da ponte. 

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