Entrevista

Ô, abram alas: a trajetória de mulheres negras que puxam sambas-enredo no carnaval

Edição:
Evelyn Vilhena

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Raquel Tobias, Grazzi Brasil e Elci Souza são referências de mulheres negras que conquistaram espaço como intérpretes nas escolas de samba.

 

 

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Elci Souza, Raquel Tobias e Grazzi Brasil. Fotos: Arquivo pessoal. Arte: Flávia Lopes

Mesmo com abordagens diversas, o carnaval ainda é um espaço em que as mulheres dificilmente têm representatividade quando o assunto é a voz. Presentes em várias alas das escolas, ainda são exceção nos principais microfones dos carros de som, como intérpretes.

Entre confetes e serpentinas, o machismo é uma alegoria ultrapassada, mas que ainda marca presença no cotidiano das mulheres. A cantora, compositora e intérprete Raquel Tobias, 50, afirma que o machismo nas escolas de samba é escancarado, e que assim como o patriarcado, “têm camadas como uma cebola, que com o tempo as mulheres vão retirando”.

“Minha mãe sempre cantou, ela até chegou fazer teste na era do rádio, mas aí vem a parte machista do meu pai, essa parte conservadora: ou você casa comigo, ou você vai seguir essa carreira. Então, minha mãe deixou a carreira.”

Raquel Tobias, cantora e compositora.

Raquel mora em Embu das Artes, região metropolitana de São Paulo e seus pais foram suas maiores influências na música. A mãe cantava sempre quando lavava roupa e o pai, após conhecer a igreja Adventista, começou a cantar em um quarteto.

Foi frequentando a igreja com seu pai que Raquel também deu seus primeiros passos na música, cantando no coral da igreja. No entanto, foi a ancestralidade despertada pela sua mãe que lhe guiou no decorrer de sua história.

“A referência vem de quando a minha mãe começou a levar a gente [ela e os irmãos] pras escolas de samba Nenê de Vila Matilde, Rosas de Ouro, em todas as escolas. Mas quando eu cheguei na Camisa Verde e Branco, quando eu vi o mestre Tobias, a bateria furiosa, eu falei ‘é aqui’. Aí me apaixonei pela Camisa Verde e Branco”, conta Raquel sobre seu contato com as escolas de samba desde muito cedo.

Apesar das dificuldades e do machismo presente que já lhe fez parar de cantar durante oito meses, Raquel atualmente canta na escola de samba Estrela do Terceiro Milênio, com sede no Grajaú, zona sul de São Paulo, e que no dia 18 de fevereiro de 2023, estreia no Grupo Especial de São Paulo.

A sambista explica sua paixão pela escola dizendo que por ser uma artista periférica se identifica com o fato da escola ser da comunidade, que ela viu crescer e acompanha desde que era um bloquinho de rua.

No carnaval de 2023, Raquel já passou pelo Sambódromo do Anhembi com a escola Brinco da Marquesa, é parte da ala musical da Estrela do Terceiro Milênio e também canta no Bloco Pagu, dia 21 de fevereiro.

A voz que atravessa estados 

Assim como Raquel Tobias, a cantora Grazzi Brasil também faz parte da ala musical da escola Estrela do Terceiro Milênio. Graziele canta desde os 13 anos, e hoje, aos 35 anos, faz parte da geração de mulheres no samba que buscam conquistar e ampliar espaços para outras intérpretes nas escolas de samba.

Grazzi nasceu no distrito do Rio Pequeno, zona oeste de São Paulo, na favela 1010. Ela conta que desde criança seu sonho era ser cantora, mas teve que dar uma pausa nesse processo aos 15 anos. “Eu tinha um sonho e tinha uma filha no braço”, conta. No entanto, aos 16 anos, após o nascimento da filha, ela retoma o desejo de ser cantora e desde então não parou mais.

Sua história no carnaval iniciou em 2014, gravando coral para disputa de samba-enredo. No ano seguinte, passa a fazer apoio nas disputas de samba-enredo da Vai Vai, em São Paulo, e seu grupo ganha por três anos seguidos.

“[Em] 2015, 2016, 2017 disputando, mas ainda de apoio, nada de frente”, explica, pois não era membro da escola, apenas disputava o samba, processo que ocorre entre grupos de sambistas para selecionar qual será o samba do ano. “Eu só disputava o samba e ia embora, não era de desfilar”, pontua Grazzi, que em 2017 é convidada para participar oficialmente da ala musical da escola e também grava o CD dividindo o samba-enredo. 

“Eu sou a primeira mulher da história do samba da Vai Vai. Em 2018, eu viro intérprete da Vai Vai, a primeira mulher na história [da escola].”

Grazzi Brasil, intérprete.

Entre tantas andanças, Grazzi também já foi intérprete da escola Paraíso do Tuiuti, no Rio de Janeiro, ela conta que “foi um momento histórico também, sendo uma mulher de São Paulo cantando no Rio de Janeiro é algo que praticamente não existe”.

Em 2022, Grazzi passa a ser intérprete da Estrela do Terceiro Milênio, onde ela também assina o samba-enredo intitulado “Ô, abram alas, elas vão passar”, que trata de empoderamento feminino e fez parte da vitória que garantiu a vaga da escola no Grupo Especial da Liga-SP pela primeira vez. Este ano, 2023, Grazzi segue desfilando como intérprete da Estrela do Terceiro Milênio e também desfilou na escola Deixa Falar em Belém, no Pará.

Paixão pelo carnaval desde a infância

Elci Souza, 40, moradora de Mogi das Cruzes, Alto Tietê, em São Paulo, percorreu uma longa trajetória até chegar a ser intérprete em uma escola de samba. Seu envolvimento com a música teve início aos 11 anos, quando começou a tocar teclado.

Hoje a cantora toca vários instrumentos, mas a sua paixão mesmo é cantar no carnaval. Paixão que tem desde criança quando ficava acordada assistindo os desfiles até a última escola sair da avenida.

“O carnaval me tem, eu não tenho o Carnaval. É uma coisa diferente que a gente chega a chorar. Sabe quando o sambista começa a cantar o hino e chora com aquela emoção? Então, eu sou assim”, afirma Elci sobre sua emoção de pertencer a esse movimento.

Sua maior inspiração quando criança era a tia, Regina Célia, que cantava, mas sempre era barrada nas apresentações principais. Situação que também já aconteceu com Elci quando tocava em roda de samba. 

“Eu tive mais preconceito em rodas de samba do que no carnaval. Toquei no grupo, o grupo ficou legalzinho, eu pensava ‘vamos fazer as turnês’, quando eu olhava o grupo estava no jornal e eu já tinha sido excluída e não sabia”. 

Elci Souza, cantora e intérprete na Unidos de Santa Bárbara. 

Além de enfrentar obstáculos por ser mulher, Elci também é afetada por outras camadas por ser uma pessoa LGBTQIAP+. “Eu falo da classe LGBTQIA+ porque tem muita gente boa, que canta muito bem, mas por conta do preconceito não conseguem. É como eu costumo falar: tem que dar oportunidade. Gay, lésbica, trans, todo mundo tem o direito de fazer o que quer”, afirma Elci.

Atualmente, Elci é intérprete da escola de samba Unidos de Santa Bárbara, que desfilou dia 11 de fevereiro, no Grupo de Acesso 2 da Liga-SP, e também atua na ala musical da Mocidade Unida da Mooca, que entra na avenida domingo, dia 19 de fevereiro. A intérprete afirma que é muito acolhida nas comunidades das escolas e que nunca teve nenhum tipo de discriminação em nenhuma das escolas.

No fim das contas, independente de qual seja a trajetória de cada uma das sambistas, as mulheres seguem lutando por espaço e querem ser respeitadas, seja carnaval ou não.

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