
{"id":96,"date":"2020-06-17T03:00:22","date_gmt":"2020-06-17T06:00:22","guid":{"rendered":"https:\/\/beta.desenrolaenaomenrola.com.br\/2020\/06\/17\/direitos-invisiveis-alem-da-covid-19-moradores-de-sapopemba-enfrentam-pandemia-de-desigualdades\/"},"modified":"2024-06-29T21:19:27","modified_gmt":"2024-06-30T00:19:27","slug":"direitos-invisiveis-alem-da-covid-19-moradores-de-sapopemba-enfrentam-pandemia-de-desigualdades","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/series\/direitos-invisiveis-alem-da-covid-19-moradores-de-sapopemba-enfrentam-pandemia-de-desigualdades\/","title":{"rendered":"Direitos invis\u00edveis: al\u00e9m da covid-19, moradores de Sapopemba enfrentam pandemia de desigualdades"},"content":{"rendered":"<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p>Na Fazenda da Juta, um dos bairros que fazem parte do distrito de Sapopemba, zona leste de S\u00e3o Paulo, moradores&nbsp;afirmam que a chegada de habitantes cresce cada vez mais e o poder p\u00fablico n\u00e3o faz nada para organizar a moradia dos novos moradores do territ\u00f3rio. Antes e durante a pandemia de coronav\u00edrus, a organiza\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria de luta por moradia surge como um dos \u00fanicos instrumentos democr\u00e1ticos e participativos capaz de oferecer \u00e0 popula\u00e7\u00e3o local uma orienta\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao desenvolvimento da vida no bairro.&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"readmore\"><\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p>A Fazenda Da Juta \u00e9 um bairro composto por 100 quadras, divididas em 3.318 lotes, onde vivem aproximadamente 5.000 fam\u00edlias, de acordo com a Subprefeitura de Sapopemba. Dentro do bairro existem v\u00e1rias \u00e1reas ocupadas, onde vivem os moradores que entrevistamos.<\/p>\n<p>Em uma dessas \u00e1reas h\u00e1 cerca de 300 fam\u00edlias, com cinco a seis membros no n\u00facleo familiar de acordo com Viviane Paulino, 46, l\u00edder comunit\u00e1ria do territ\u00f3rio. &#8220;Nas \u00e1reas ocupadas tem cerca de 300 fam\u00edlias de baixa renda de cinco a seis pessoas nas fam\u00edlias, que no momento est\u00e3o sem trabalho dependendo do nosso trabalho de arrecada\u00e7\u00e3o, e conscientiza\u00e7\u00e3o, pois muitas n\u00e3o conseguem estar o tempo todo em casa, ent\u00e3o a gente tenta ajudar as pessoas a ficarem de m\u00e1scaras, e tomarem as medidas poss\u00edveis&#8221;.<\/p>\n<p>Com mais de 21 mil habitantes por quilometro quadrado, a Subprefeitura de Sapopemba possui o maior indicador populacional entre todas as subprefeituras da zona leste de S\u00e3o Paulo, de acordo com dados do Censo de 2010. Dez anos depois de o estudo ser realizado, o cen\u00e1rio da pandemia de coronav\u00edrus exp\u00f5e a precariedade da manuten\u00e7\u00e3o de direitos essenciais b\u00e1sicos para os moradores da regi\u00e3o, como moradia, gera\u00e7\u00e3o de renda e trabalho, sa\u00fade e assist\u00eancia social ao idoso.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"note\">\n<div class=\"alert alert-info\" role=\"alert\">Com cerca de 50 bairros de m\u00faltiplas caracter\u00edsticas urbanas, o distrito de Sapopemba ganhou uma Subprefeitura pr\u00f3pria em 2013, para administrar servi\u00e7os sociais para mais de 284 mil habitantes que vivem no territ\u00f3rio, espalhados por mais de 13 quil\u00f4metros, a extens\u00e3o territorial do distrito.<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p>H\u00e1 cinco anos morando na Fazenda da Juta, o comerciante ambulante Valdir Correia da Silva, 61, afirma que mesmo diante da escassez de servi\u00e7os p\u00fablicos na regi\u00e3o, a quantidade de novos habitantes cresce cada vez mais e que o poder p\u00fablico n\u00e3o faz nada a respeito.<\/p>\n<p>&#8220;Chega gente o tempo todo procurando lugar aqui, e s\u00f3 vai aumentando e aumentando as fam\u00edlias por aqui. E agora nesse momento \u00e9 que d\u00e1 pra ver que as casas n\u00e3o t\u00eam estruturas nenhuma para manter as pessoas em isolamento&#8221;, conta o morador.<\/p>\n<p>Por estar acima de 60 anos, o senhor Correia se enquadra no grupo de pessoas que est\u00e3o mais suscet\u00edveis a pegar a covid-19. &#8220;Eu, j\u00e1 sou do grupo de risco por ter mais de sessenta anos, mas vou te dizer que n\u00e3o d\u00e1 pra ficar o dia todo em casa n\u00e3o, eu moro em um barraco de madeira e venho para dormir s\u00f3, passo o dia fazendo bicos na rua&#8221;, relata.<\/p>\n<p>Ao descrever esse cen\u00e1rio, o senhor Correia descreve nitidamente as condi\u00e7\u00f5es de moradia, gera\u00e7\u00e3o de renda e exposi\u00e7\u00e3o ao cont\u00e1gio de covid-19, enfrentadas por ele e por outros moradores no territ\u00f3rio. Em paralelo a esses relatos da vida real, o boletim mais recente com dados de \u00f3bitos da Secretaria Municipal de Sa\u00fade de S\u00e3o Paulo apontou 245 mortes causadas pelo novo coronav\u00edrus na regi\u00e3o de Sapopemba, um aumento de 19% em rela\u00e7\u00e3o ao \u00faltimo comunicado oficial que apontava 205.<\/p>\n<p>&#8220;Estou sem trabalhar agora n\u00e9, porque eu trabalho como diarista, a\u00ed eu estou sobrevivendo com as cestas que eu recebo e com a ajuda do aux\u00edlio emergencial, mas ainda \u00e9 muito dif\u00edcil, porque eu moro com meus seis filhos num c\u00f4modo s\u00f3, n\u00e3o d\u00e1 pra ficar o tempo todo aqui com eles&#8221;, comenta&nbsp;Katia Cilene Dos Santos, 38, outra moradora da ocupa\u00e7\u00e3o Fazenda da Juta que \u00e9 diarista e est\u00e1 afastada neste momento do trabalho. Ela tamb\u00e9m denuncia a falta de amparo do Estado.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"heading\">\n<h3>&#8220;Caso eu venha a ser contaminado como \u00e9 que eu vou ter acesso ao tratamento?&#8221;<strong><br \/>\n<\/strong><\/h3>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p>Uma das preocupa\u00e7\u00f5es reveladas pelos moradores da Fazenda da Juta est\u00e1 baseada numa d\u00favida sobre o que vai acontecer com eles, caso sejam contaminados pelo novo coronav\u00edrus.&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;Tenho medo de ser contaminado, porque eu sei que na condi\u00e7\u00e3o que est\u00e1 todos os hospitais e do lugar de onde eu venho, caso eu venha a ser contaminado como \u00e9 que eu vou ter acesso ao tratamento? Sei que n\u00e3o vou ter, porque eles priorizam as pessoas mais ricas da cidade e que podem pagar&#8221;, desabafa Correia.<\/p>\n<p>Em meio a esse cen\u00e1rio de desconfian\u00e7a e incerteza em rela\u00e7\u00e3o ao suporte que os equipamentos p\u00fablicos de sa\u00fade dar\u00e3o aos moradores em caso de cont\u00e1gio, os hospitais municipais de S\u00e3o Paulo apresentam uma taxa de ocupa\u00e7\u00e3o das unidades de tratamento intenso (UTI) superior a 80%, de acordo com a Secretaria Municipal de Sa\u00fade.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 muito preocupante essa doen\u00e7a, me preocupa muito, porque a gente tem que ficar isolado, mas ao mesmo tempo a gente tem que sair para conseguir alguma coisa, e se pegar a doen\u00e7a? o que faz depois, eu tenho seis filhos, estou com muito medo&#8221;, ressalta K\u00e1tia, descrevendo o n\u00edvel de preocupa\u00e7\u00e3o que ela administra em rela\u00e7\u00e3o ao bem estar dos filhos.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"heading\">\n<h2>&#8220;Meu sonho \u00e9 ter uma casa boa e pr\u00f3pria para meus filhos terem um cantinho deles&#8221;<\/h2>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p>O direito \u00e0 moradia digna foi reconhecido e implantado como condi\u00e7\u00e3o para dignidade da pessoa humana, desde 1948, com a Declara\u00e7\u00e3o Universal dos Direitos Humanos, foi reafirmado na Constitui\u00e7\u00e3o Federal de 1988 pela Emenda Constitucional n\u00ba 26\/00, em seu 6\u00ba artigo. Mas na pr\u00e1tica, ter uma casa pr\u00f3pria na periferia ainda \u00e9 um sonho para muita gente, inclusive os moradores da Fazenda da Juta.<\/p>\n<p>&#8220;Meu sonho \u00e9 ter uma casa boa e pr\u00f3pria para meus filhos terem um lar deles, cantinho deles, e a gente n\u00e3o ter que ficar dependendo das pessoas, e nem ficar passando por situa\u00e7\u00f5es que a gente n\u00e3o precisa passar. Meu sonho \u00e9 ter uma casa, e eu vou ter, tenho muita f\u00e9 em Deus que eu vou ter&#8221;, enfatiza a chefe de fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Para Valdir o sonho da casa pr\u00f3pria, tamb\u00e9m representa o desejo de poder voltar a conviver com os filhos. &#8220;Meu sonho \u00e9 uma casa minha, seria uma boa para mim, eu iria poder voltar a conviver com os meus filhos que vivem com a av\u00f3 deles agora, porque eu sou vi\u00favo e n\u00e3o d\u00e1 para morar comigo porque eu moro em um barraco de madeira&#8221;, explica o morador.<\/p>\n<p><strong data-redactor-tag=\"strong\" data-verified=\"redactor\">&#8220;As pol\u00edticas habitacionais n\u00e3o se limitam a constru\u00e7\u00e3o de quatro paredes e um teto para as pessoas morarem&#8221;<\/strong><\/p>\n<p>De acordo com o professor do Instituto das Cidades no Campus da Zona Leste da Universidade Federal de S\u00e3o Paulo (UNIFESP), Anderson Kazuo Nakano, as pol\u00edticas habitacionais envolvem diversas a\u00e7\u00f5es dentro do territ\u00f3rio e n\u00e3o s\u00f3 conceder uma moradia digna \u00e0s pessoas.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"quotes\">\n<blockquote class=\"eb-quote style-default\"><p>&#8220;As pol\u00edticas habitacionais n\u00e3o se limitam \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de quatro paredes e um teto para as pessoas morarem. As pol\u00edticas habitacionais devem ser entendidas como um conjunto com v\u00e1rios tipos de atendimentos que envolvem a urbaniza\u00e7\u00e3o de \u00e1reas urbanas prec\u00e1rias, a regulariza\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria de im\u00f3veis irregulares, a produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o de lotes urbanizados, o aluguel subsidiado para popula\u00e7\u00f5es de baixa renda em moradias do poder p\u00fablico ou de propriet\u00e1rios privados, a reforma de moradias existentes, o aproveitamento de edifica\u00e7\u00f5es e terrenos ociosos, dentre outras a\u00e7\u00f5es p\u00fablicas&#8221;<\/p>\n<p><cite>define Kazuo.<\/cite><\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p>O professor tamb\u00e9m pontua a quest\u00e3o de que muitas pol\u00edticas p\u00fablicas que chegam ao territ\u00f3rio n\u00e3o t\u00eam continuidade. &#8220;Outro problema em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 presen\u00e7a das pol\u00edticas p\u00fablicas, urbanas e habitacionais, em territ\u00f3rios das periferias \u00e9 a descontinuidade no tempo e no espa\u00e7o. Isso significa que aquelas pol\u00edticas sofrem com interrup\u00e7\u00f5es e n\u00e3o resolvem os problemas estruturais que exigem a\u00e7\u00f5es de m\u00e9dios e longos prazos que levam d\u00e9cadas. Significa tamb\u00e9m que v\u00e1rias daquelas pol\u00edticas p\u00fablicas, urbanas e habitacionais, n\u00e3o abrangem a totalidades dos territ\u00f3rios perif\u00e9ricos&#8221;.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"heading\">\n<h2>&#8220;N\u00e3o funciona impor o isolamento social onde os servi\u00e7os sociais b\u00e1sicos possuem mau funcionamento&#8221;<\/h2>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p>Kazuo afirma que n\u00e3o funciona impor o isolamento social sem pensar nas pessoas que vivem em moradias prec\u00e1rias e superlotadas. &#8220;N\u00e3o funciona impor o isolamento social em moradias inadequadas, insalubres, superlotadas, prec\u00e1rias e desconfort\u00e1veis, localizadas em bairros onde os servi\u00e7os, equipamentos e infra-estruturas urbanas e sociais b\u00e1sicas s\u00e3o insuficientes e possuem mal funcionamento.&#8221;<\/p>\n<p>Ele destaca que a chegada da pandemia do Covid 19 no Brasil mostrou a perversidade das desigualdades sociais. &#8220;A chegada da pandemia no Brasil, nas cidades brasileiras, mostrou a perversidade das desigualdades socioespaciais estruturais que formam as nossas cidades&#8221;.<\/p>\n<p>Segundo o professor, o Brasil n\u00e3o consegue como sociedade, garantir os recursos b\u00e1sicos necess\u00e1rios para que a popula\u00e7\u00e3o de baixa renda possa enfrentar com resili\u00eancia esse momento de crise profunda e os graves impactos da pandemia.<\/p>\n<p>Ele finaliza fazendo uma reflex\u00e3o sobre a quest\u00e3o do sonho da casa pr\u00f3pria est\u00e1 ligada a uma constru\u00e7\u00e3o capitalista de propriedade privada. &#8220;\u00c9 preciso refletir criticamente sobre essa id\u00e9ia do &#8216;sonho da casa pr\u00f3pria&#8217; porque ela \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica forjada historicamente ao longo do s\u00e9culo XX para refor\u00e7ar a ideia da moradia como propriedade privada individualizada e, portanto, como uma mercadoria transform\u00e1vel em capital privado que se sobrep\u00f5e \u00e0 id\u00e9ia da moradia como direito social&#8221;.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"quotes\">\n<blockquote class=\"eb-quote style-default\"><p>&#8220;Creio que a quest\u00e3o mais importante \u00e9 como efetivar o direito \u00e0 moradia digna e adequada, principalmente para aqueles que n\u00e3o possuem poder econ\u00f4mico para acessar essa moradia, frente \u00e0 especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria e no mercado de alugu\u00e9is residenciais&#8221;.<\/p>\n<p><cite>finaliza o professor.<\/cite><\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na Fazenda da Juta, um dos bairros que fazem parte do distrito de Sapopemba, zona leste de S\u00e3o Paulo, moradores&nbsp;afirmam que a chegada de habitantes cresce cada vez mais e o poder p\u00fablico n\u00e3o faz nada para organizar a moradia dos novos moradores do territ\u00f3rio. 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Em 2018 ela se formou em Pr\u00e1ticas Jornal\u00edsticas Nas Periferias pelo programa de forma\u00e7\u00e3o Voc\u00ea Rep\u00f3rter da Periferia. Ela atua em seu territ\u00f3rio com projetos de participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, como o Cursinho Livre Cl\u00e1udia Silva Ferreira. 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