
{"id":8443,"date":"2024-06-26T15:56:12","date_gmt":"2024-06-26T18:56:12","guid":{"rendered":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/?p=8443"},"modified":"2024-06-29T21:01:06","modified_gmt":"2024-06-30T00:01:06","slug":"o-caipira-tambem-e-periferico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/colunas\/o-caipira-tambem-e-periferico\/","title":{"rendered":"O caipira tamb\u00e9m \u00e9 perif\u00e9rico?"},"content":{"rendered":"\n<p>Qualquer pessoa de quebrada em algum momento da vida j\u00e1 ouviu da fam\u00edlia \u201cdeixa de ser caipira\u201d quando a timidez era grande em ambientes desconhecidos. Esse \u00e9 s\u00f3 um dos fragmentos de uma cultura que sobrevive estilha\u00e7ada entre becos e vielas, interiores e grandes centros, sustentando-se no meio urbano, na maioria dos casos, nos pequenos gestos, por isso \u00e9 preciso ver para al\u00e9m dos preconceitos e das estigmas sociais para reconhecer essa cultura em nosso cotidiano.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Pre\u00e2mbulo hist\u00f3rico<\/strong>&nbsp;<\/h2>\n\n\n\n<p>Antes de tudo se faz necess\u00e1rio dar alguns dados hist\u00f3ricos importantes sobre a realidade brasileira para que possamos ter dimens\u00e3o de como esse assunto \u00e9 parte fundante da forma\u00e7\u00e3o de nossa identidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira e talvez a mais importante \u00e9 que o Brasil foi um pa\u00eds de maioria rural at\u00e9 meados de 1950, ou seja, nos transformamos numa na\u00e7\u00e3o majoritariamente urbana apenas 62 anos depois que formalizamos a \u201caboli\u00e7\u00e3o da escravatura\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Outra informa\u00e7\u00e3o importante \u00e9 que at\u00e9 o in\u00edcio do s\u00e9culo 20 n\u00e3o t\u00ednhamos natal como hoje, e nossa maior festa popular era a Folia de Reis, que na maioria dos casos come\u00e7ava no dia 25 de dezembro e se estendia at\u00e9 o dia 06 de janeiro, com o ritual da cantoria de casa em casa e a b\u00ean\u00e7\u00e3o dos 3 reis magos, neste dia uma crian\u00e7a da cidade era escolhida para libertar um preso, era uma celebra\u00e7\u00e3o crist\u00e3 e tamb\u00e9m pag\u00e3.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria do Papai Noel vermelho e da \u00e1rvore nevada veio do norte, tradi\u00e7\u00e3o trazida pelos filhos do baronato tupiniquim que iam estudar na europa e achavam chique manter essa performance no calor tropical, mesmo n\u00e3o fazendo sentido algum. A publicidade tamb\u00e9m contribuiu com a mudan\u00e7a a n\u00edvel nacional, devido a uma campanha em larga escala da Coca-Cola em meados de 1920. \u00a0<\/p>\n\n\n\n<p><br>Entre os valores culturais importados pelos jovens ricos da elite brasileira, alguns outros bens de consumo e bugigangas tamb\u00e9m vinham na mala, a primeira c\u00e2mera filmadora e os primeiros aparelhos de proje\u00e7\u00e3o est\u00e3o entre estes objetos, sendo o jovem \u00edtalo-brasileiro Afonso Segretto o primeiro a produzir imagens da ba\u00eda de Guanabara em 1898, assim como realizar as primeiras sess\u00f5es de cinema na sala Paris no Rio, que passou a ser um ponto de encontro da sociedade carioca.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"322\" height=\"478\" src=\"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/Foto-Afonso_Segreto.webp\" alt=\"\" class=\"wp-image-8446\" srcset=\"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/Foto-Afonso_Segreto.webp 322w, https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/Foto-Afonso_Segreto-202x300.webp 202w, https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/Foto-Afonso_Segreto-150x223.webp 150w, https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/Foto-Afonso_Segreto-300x445.webp 300w\" sizes=\"(max-width: 322px) 100vw, 322px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Afonso Segreto<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Mas do que os primeiros filmes tratavam? Quem eram estes primeiros cineastas?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Nosso cinema nasce caipira<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Entre os pioneiros do cinema brasileiro destacam-se dois caipiras, Humberto Mauro, que realizou o cl\u00e1ssico \u201cGanga Bruta&#8221; e o folclorista Corn\u00e9lio Pires, que em 1924 fez o filme \u201cBrasil Pitoresco\u201d. Uma viagem sobre o Brasil rural e os h\u00e1bitos das pessoas pobres dos diferentes biomas do pa\u00eds.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>De Tiet\u00ea &#8211; SP para Pernambuco, passando por v\u00e1rias paisagens com as lentes voltadas para as tradi\u00e7\u00f5es populares do Rio de Janeiro, Esp\u00edrito Santo, Bahia, Sergipe e Alagoas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Assim como a escrita de Corn\u00e9lio, suas imagens s\u00e3o carregadas de paix\u00e3o e respeito pelas pessoas do campo e suas artesanias, sua cultura e vida social. Este mesmo pesquisador foi respons\u00e1vel pela grava\u00e7\u00e3o fonogr\u00e1fica das primeiras duplas caipiras, sendo o revelador de uma tradi\u00e7\u00e3o at\u00e9 ent\u00e3o pouco divulgada pela ind\u00fastria musical da \u00e9poca.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<div><a href=\"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/Foto-Humberto-Mauro-1-1024x737.jpg\" class=\"td-modal-image\"><figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"737\" data-id=\"8449\" src=\"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/Foto-Humberto-Mauro-1-1024x737.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-8449\" srcset=\"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/Foto-Humberto-Mauro-1-1024x737.jpg 1024w, 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href=\"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/Foto-Cornelio-Pires-1.png\" class=\"td-modal-image\"><figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"621\" height=\"848\" data-id=\"8450\" src=\"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/Foto-Cornelio-Pires-1.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-8450\" srcset=\"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/Foto-Cornelio-Pires-1.png 621w, https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/Foto-Cornelio-Pires-1-220x300.png 220w, https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/Foto-Cornelio-Pires-1-150x205.png 150w, https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/Foto-Cornelio-Pires-1-300x410.png 300w\" sizes=\"(max-width: 621px) 100vw, 621px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong>Corn\u00e9lio Pires<\/strong><\/figcaption><\/figure><\/a><\/div>\n<\/figure>\n\n\n\n<p>O mineiro Humberto Mauro tamb\u00e9m fez registros importantes da cultura popular, revelando cantigas e folguedos caipiras, assim como os h\u00e1bitos das pessoas do interior de seu estado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>M\u00e1rio Peixoto \u00e9 outro importante nome que revelou em seu \u00fanico filme a paisagem caipira\/cai\u00e7ara. \u201cLimite\u201d de 1931 \u00e9 um romance experimental ambientado no litoral de Mangaratiba-RJ, provocando reflex\u00f5es sobre a passagem do tempo e a condi\u00e7\u00e3o humana.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o podemos esquecer tamb\u00e9m de Ozualdo Candeias, um caminhoneiro que adorava andar a cavalo e fazer filmes, dentre as v\u00e1rias pornochanchadas que rodou na boca do lixo, fez o celebre \u201cA Margem\u201d, e tamb\u00e9m em 1986, o cl\u00e1ssico \u201cAs belas da Billings\u201d, gravado nas margens da represa na regi\u00e3o do Graja\u00fa, periferia da zona sul paulistana.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"512\" height=\"768\" src=\"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/Foto-Ozualdo-Candeias.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-8451\" style=\"width:456px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/Foto-Ozualdo-Candeias.jpg 512w, https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/Foto-Ozualdo-Candeias-200x300.jpg 200w, https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/Foto-Ozualdo-Candeias-150x225.jpg 150w, https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/Foto-Ozualdo-Candeias-300x450.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 512px) 100vw, 512px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Ozualdo Candeias<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">T\u00e1, mas afinal quem s\u00e3o esses tais caipiras e o que estes sujeitos de S\u00e3o Paulo, Minas e Rio tem a ver com a periferia e os perif\u00e9ricos?&nbsp;<\/h3>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Agroboy, bandeirante, trabalhador do campo\u2026<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Talvez os dois maiores s\u00edmbolos da identidade nacional sejam o malandro do samba e o caipira dos interiores, n\u00e3o \u00e0 toa duas simbologias advindas das culturas de ro\u00e7a, em alguns lugares ligadas umbilicalmente, vide o samba de viola do rec\u00f4ncavo baiano, ou o cururu paulista, ambos parentes do samba de partido alto.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O cinema, os quadrinhos, a literatura e as artes pl\u00e1sticas trouxeram in\u00fameras representa\u00e7\u00f5es de grande abrang\u00eancia destes personagens, todas tem muito sucesso at\u00e9 hoje, e carregam de forma mais ou menos estereotipadas, v\u00e1rios elementos da identidade nacional.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Voc\u00ea deve lembrar do Z\u00e9 Carioca, do Chico Bento, da Carmen Miranda, do tio Barnab\u00e9, do Macuna\u00edma, do Jeca Tatu, da Iracema, entre outros.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A m\u00fasica sempre foi um marcador fundamental da nossa forma\u00e7\u00e3o como povo, o pesquisador Ivan Vilela, relatou em seu livro \u201cCantando a pr\u00f3pria hist\u00f3ria: m\u00fasica caipira e enraizamento\u201d que um processo importante da catequese dos jesu\u00edtas para com as popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas foi a m\u00fasica, em especial a m\u00fasica de viola, sejam as violas portuguesas ou as violas de buriti dos nativos, as can\u00e7\u00f5es desse projeto colonial foram fundamentais para a acultura\u00e7\u00e3o produzida nesse per\u00edodo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No cinema nacional alguns filmes contaram essa hist\u00f3ria, \u201cDesmundo\u201d de Alain Fresnot \u00e9 um deles e fala do processo das bandeiras e das primeiras cidades coloniais no Brasil.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O bandeirante \u00e9 o personagem central dessa narrativa, a escraviza\u00e7\u00e3o ind\u00edgena e os h\u00e1bitos culturais da urbe nascente. Outro filme importante \u00e9 o \u201cBrava gente brasileira\u201d, de L\u00facia Murat, que entre outras coisas mostra a complexidade do personagem bandeirante, que mesmo mesti\u00e7o de brancos e ind\u00edgenas era tamb\u00e9m quem favorecia a escraviza\u00e7\u00e3o e o estupro colonial.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que o caipira se transfigurou com o tempo e sofreu mudan\u00e7as da leitura redutora e preconceituosa desenvolvida por Monteiro Lobato.&nbsp;<\/h3>\n\n\n\n<p>Corn\u00e9lio Pires, j\u00e1 citado aqui, era uma das pessoas com um olhar mais respeitoso para as tradi\u00e7\u00f5es populares, em especial a cultura caipira.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Vendo toda a produ\u00e7\u00e3o de Mazzaropi e alguns filmes da Vera Cruz sobre as multifacetadas formas de ser caipira, era poss\u00edvel ver nas entrelinhas as presen\u00e7as de elementos da vida rural nas periferias do capital, lembro aqui do \u201cCorinthiano\u201d, e do \u201cJeca Tatu\u201d, filmes de Am\u00e1cio Mazzaropi, que revelam j\u00e1 na segunda metade do s\u00e9culo 20 a migra\u00e7\u00e3o dos interiores para a \u201ccidade grande\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Entre erros e acertos, Mazzaropi reformulou com compet\u00eancia os textos racistas e xen\u00f3fobos de Lobato, acrescentando seu olhar e sua capacidade dram\u00e1tica para dar humanidade \u00e0s gentes dos interiores.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Caipiras de quebrada<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Eu morei em diferentes periferias da zona sul de S\u00e3o Paulo, Jd. Herculano, Piraporinha, Rio Bonito, Jd Primavera, etc. Meu pai em nenhum destes lugares, por mais dura que fosse a paisagem, nunca abriu m\u00e3o de um fog\u00e3o de lenha, talvez voc\u00ea lendo esse texto tamb\u00e9m saiba dizer outra miudeza sobrevivente na sua fam\u00edlia das reminisc\u00eancias da tradi\u00e7\u00e3o. Uma pequena horta de fundo de quintal, uma paix\u00e3o por um radinho de pilha, o amor cotidiano pelos cachorros e demais cria\u00e7\u00f5es, a paix\u00e3o pela viola, sabedoria na constru\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica, etc.<\/p>\n\n\n\n<p>Ant\u00f4nio C\u00e2ndido que era um grande pesquisador da cultura caipira disse que com o roubo de terras no interior, a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria e a precariedade do emprego, muitos caipiras foram para as cidades, e com seu perfil, seu grupo \u00e9tnico e seus h\u00e1bitos culturais o lugar onde puderam estabelecer pouso foram as periferias.<\/p>\n\n\n\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 encontrou algum deles com certeza, tocando viol\u00e3o ou sanfona num buteco do bairro, num mutir\u00e3o de casas no fund\u00e3o, ou passando de charrete ou cavalo na rua onde mora. J\u00e1 se perguntou quem cria as galinhas que botam os ovos do carro do ovo?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Enfim, a lista \u00e9 longa, assim como os estere\u00f3tipos, amamos as festas juninas, mas n\u00e3o nos questionamos sobre a pintura do dente, a cal\u00e7a menor que a altura do corpo, os remendos de costura nas roupas, todas formas pejorativas advindas do peso da pobreza e das limita\u00e7\u00f5es provocadas pela mem\u00f3ria da colonialidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Este mesmo peso que apagou tamb\u00e9m a quest\u00e3o racial levantada em in\u00fameras m\u00fasicas das duplas pretas e pardas desde os anos 50, j\u00e1 ouviu \u201cPreto Velho\u201d de Ti\u00e3o Carreiro? Ouso dizer que foi o Negro Drama da \u00e9poca.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Falei tudo isso pra te dizer que tem um cinema caipira de quebrada sendo feito bem perto de voc\u00ea, mas muitas vezes voc\u00ea n\u00e3o chega a ficar sabendo.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Destaco aqui o curta \u201cAinda restar\u00e3o rob\u00f4s nas ruas do interior profundo\u201d, de Guilherme Ribeiro Xavier, filma\u00e7o gravado junto dos muleque zika de ro\u00e7a da cidade de Assis-SP, vencedor do grande pr\u00eamio do J\u00fari de 2022 no Festival Internacional de Curtas da Kinoforum.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe title=\"Ainda Restar\u00e3o Rob\u00f4s nas Ruas do Interior Profundo | TEASER\" width=\"800\" height=\"450\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/jlZ9HpFqGYY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p>Neste mesmo ano fiz um curta doc chamado \u201cSobre Pardinhos e Afrocaipiras\u201d lan\u00e7ado no festival In-Edit Brasil, parte desta minha pesquisa de muitos anos sobre o tema.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe title=\"Sobre Pardinhos e Afrocaipiras (filme completo)\" width=\"800\" height=\"450\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/rbwf_nniE5c?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p>Mote de uma importante leitura caipira do nosso cinema de quebrada, parte de um entendimento de quem somos que n\u00e3o aceita simplifica\u00e7\u00f5es e cobra uma vida que nos reconecte com nossas ra\u00edzes, sem nos congelar no tempo, vide Matuto S\/A e Gabeu, express\u00f5es da cultura caipira no Rap e no sertanejo (ou queernejo como diz o mesmo), inovando com os p\u00e9s na ancestralidade, pois ainda que o cimento tenha coberto quase tudo nas periferias, temos ainda o cora\u00e7\u00e3o, essa terra f\u00e9rtil sedenta por novas sementes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Acredite!<\/p>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\"><strong>Este \u00e9 um conte\u00fado opinativo. O Desenrola e N\u00e3o Me Enrola n\u00e3o modifica os conte\u00fados de seus colaboradores colunistas.<\/strong><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Qualquer pessoa de quebrada em algum momento da vida j\u00e1 ouviu da fam\u00edlia \u201cdeixa de ser caipira\u201d quando a timidez era grande em ambientes desconhecidos. 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