
{"id":75,"date":"2020-07-20T03:00:00","date_gmt":"2020-07-20T06:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/beta.desenrolaenaomenrola.com.br\/2020\/07\/20\/moradora-do-grajau-usa-literatura-para-discutir-a-travestilidade-da-quebrada\/"},"modified":"2024-06-29T21:12:19","modified_gmt":"2024-06-30T00:12:19","slug":"moradora-do-grajau-usa-literatura-para-discutir-a-travestilidade-da-quebrada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/raizes-perifericas\/moradora-do-grajau-usa-literatura-para-discutir-a-travestilidade-da-quebrada\/","title":{"rendered":"Moradora do Graja\u00fa usa literatura para discutir a &#8216;travestilidade&#8217; da quebrada"},"content":{"rendered":"<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p>A partir da realiza\u00e7\u00e3o de encontros liter\u00e1rios, a produtora cultural Marcia Marci criou um espa\u00e7o afetivo, cultural e pol\u00edtico que mobiliza jovens moradores do Graja\u00fa e de outros bairros para de maneira sens\u00edvel e acolhedora debater g\u00eanero, sexualidade e a ideia de ocupar a cidade.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"readmore\"><\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p>O sonho de poder ocupar a cidade de dia, ocupar seu bairro em um momento que n\u00e3o fosse apenas de noite, moveu Marcia Marci, 30, produtora cultural, jornalista e moradora do Jardim Icara\u00ed, bairro do distrito do Graja\u00fa, na zona sul de S\u00e3o Paulo, a materializa\u00e7\u00e3o do Sarau Travas da Sul, uma iniciativa que segundo ela sempre foi seu sonho. &#8220;Para mim \u00e9 materializa\u00e7\u00e3o de um sonho, criar um cen\u00e1rio que \u00e9 poss\u00edvel de se habitar, que seja menos perigoso, que a gente possa falar sem ter receio ou medo de existir&#8221;.<\/p>\n<p>Ela explica que o anoitecer na periferia possui significados simb\u00f3licos quando se \u00e9 travesti na quebrada. &#8220;Muitas vezes eu me sinto segura s\u00f3 \u00e0 noite, s\u00f3 quero sair de noite, ent\u00e3o o sarau vem para tirar a gente da noite, dos guetos, e ocupar a cidade enquanto direito sendo uma trava, uma bicha, um gay, uma sapat\u00e3o, sendo o que quisermos ser&#8221;.<\/p>\n<p>Neste universo, Marci surge protagonizando a cria\u00e7\u00e3o de encontros liter\u00e1rios, como a realiza\u00e7\u00e3o do Sarau Travas da Sul, iniciativa que nasce para ser um espa\u00e7o para preservar e valorizar a liberdade de express\u00e3o e acolhimento da comunidade LGBTQI+, atrav\u00e9s da difus\u00e3o de trocas de afeto, viv\u00eancias pol\u00edticas e constru\u00e7\u00e3o de senso cr\u00edtico.<\/p>\n<p>&#8220;Eu quero que as pessoas venham aqui e mostrem seus trabalhos, sua arte e tamb\u00e9m trazer essas pessoas para serem produtoras culturais&#8221;, argumenta, enfatizando que esses espa\u00e7os coletivos como o Sarau Travas da Sul e o coletivo Coiote lhe ensinaram muito sobre brigas, respeito, cultivar os afetos e principalmente a celebrar a vida, de acordo com o que ela se identifica.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"image\" style=\"text-align: center;\">\n<div class=\"eb-image style-clear\">\n<div class=\"eb-image-figure is-responsive\">\n<p>\t\t\t\t\t<a class=\"eb-image-viewport\"><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/b2ap3_large_download.jpg\"><br \/>\n<\/a><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"eb-image-caption\">\n\t\t\t<span>Jovens participam do Sarau das Travas (Foto: Distrava Ok\u00ea)<\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p>O trabalho da produtora cultural vai al\u00e9m do movimento cultural, pol\u00edtico e afetivo com a comunidade LGBTQI+. Ela tamb\u00e9m est\u00e1 em busca de criar outros imagin\u00e1rios de vida, a partir da import\u00e2ncia de celebrar a identidade nesses espa\u00e7os coletivos.<\/p>\n<p>&#8220;Esse processo todo de trabalhar com a cultura, entender a articula\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rio, entender a comunidade do sexo dissidente acaba chegando ao sarau, nesse lugar de diversas linguagens e narrativas que s\u00e3o produzidas pela comunidade de sexo dissidente no geral&#8221;, conta ela.<\/p>\n<p>Marci lembra que o seu passado foi marcado por muitos atritos com a fam\u00edlia e com o bairro onde ela mora, mas que hoje, a cultura lhe possibilita outras leituras de mundo. &#8220;Tinha uma rela\u00e7\u00e3o muito dif\u00edcil com a minha fam\u00edlia, com meu territ\u00f3rio e comigo mesma, mas agora consigo viver e criar outras possibilidades, e sempre dialogando com a quebrada a quest\u00e3o da travestilidade, como essas discuss\u00f5es acontecem nas periferias, como \u00e9 entender que a travesti n\u00e3o \u00e9 trans, mas \u00e9 uma mulher e tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 cisg\u00eanera&#8221;.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"heading\">\n<h3>\n\t<span>&nbsp;<\/span><strong>Territ\u00f3rio e identidade travesti<\/strong><\/h3>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p>Ao entender o contexto de ser travesti na quebrada, Marci usa v\u00e1rias linguagens e narrativas que atravessam a sua exist\u00eancia, para distribuir pelo Graja\u00fa e pelas periferias de S\u00e3o Paulo suas inquieta\u00e7\u00f5es, com sua escrita e sua fala, a fim de alcan\u00e7ar outras pessoas, pautada pela cria\u00e7\u00e3o de outras perspectivas sobre ser LGBTQI+ nas bordas da cidade.<\/p>\n<p>Ela tamb\u00e9m questiona o termo &#8216;trans&#8217; e devido \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o de narrativas, a produtora cultural ressalta que h\u00e1 uma necessidade de compartilhar conhecimento de forma coletiva no territ\u00f3rio e traduzir alguns conceitos ainda pouco difundidos na quebrada. &#8220;Como as pessoas falam essas narrativas nas periferias? Aprendi tudo isso e tento passar. Hoje eu sou uma mulher travesti no Graja\u00fa e me sinto muito mais segura aqui e nas quebradas de S\u00e3o Paulo do que no centro da cidade&#8221;.<\/p>\n<p>Marci explica que ser travesti n\u00e3o \u00e9 ser trans. Segundo ela, isso abarca transg\u00eaneridades, pois trans \u00e9 uma palavra que vem da Europa, desse sistema m\u00e9dico e jur\u00eddico para normatizar, falar o que \u00e9, e inclusive como tratar isso. &#8220;Eu me reconhe\u00e7o como travesti, me sinto bem como travesti, e me sinto bem como travesti no Graja\u00fa&#8221;.<\/p>\n<p>Para a produtora cultural, o direito \u00e0 cidade e principalmente o direito ao territ\u00f3rio \u00e9 algo distante na vida de muitos moradores da periferia que vive a rotina de correr do trabalho pra casa, e muitas vezes do trabalho para o lugar que estuda e s\u00f3 depois para casa. Ela acredita que essa rotina atrasou a constru\u00e7\u00e3o de sua identidade e ra\u00edzes, a partir do conv\u00edvio nas periferias do Graja\u00fa.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"quotes\">\n<blockquote class=\"eb-quote style-default\"><p>&#8220;Com uns dezoito ou vinte, comecei a estudar jornalismo e logo consegui um est\u00e1gio na \u00e1rea e eu ficava o dia inteiro fora. Nesta \u00e9poca comecei a estudar g\u00eanero, e eu me entendia enquanto homem gay. Minha sexualidade vem mais tarde e a minha identidade eu escondi de mim mesma por muito tempo&#8221;.<\/p>\n<p><cite>relembra.<\/cite><\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p>Ao entender o contexto de ser travesti na quebrada, Marci usa v\u00e1rias linguagens e narrativas que atravessam a sua exist\u00eancia, para distribuir pelo Graja\u00fa e pelas periferias de S\u00e3o Paulo suas inquieta\u00e7\u00f5es, com sua escrita e sua fala, a fim de alcan\u00e7ar outras pessoas, pautada pela cria\u00e7\u00e3o de outras perspectivas sobre ser LGBTQI+ nas bordas da cidade.<\/p>\n<p>Ela tamb\u00e9m questiona o termo &#8216;trans&#8217; e devido \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o de narrativas, a produtora cultural ressalta que h\u00e1 uma necessidade de compartilhar conhecimento de forma coletiva no territ\u00f3rio e traduzir alguns conceitos ainda pouco difundidos na quebrada. &#8220;Como as pessoas falam essas narrativas nas periferias? Aprendi tudo isso e tento passar. Hoje eu sou uma mulher travesti no Graja\u00fa e me sinto muito mais segura aqui e nas quebradas de S\u00e3o Paulo do que no centro da cidade&#8221;.<\/p>\n<p>Marci explica que ser travesti n\u00e3o \u00e9 ser trans. Segundo ela, isso abarca transg\u00eaneridades, pois trans \u00e9 uma palavra que vem da Europa, desse sistema m\u00e9dico e jur\u00eddico para normatizar, falar o que \u00e9, e inclusive como tratar isso. &#8220;Eu me reconhe\u00e7o como travesti, me sinto bem como travesti, e me sinto bem como travesti no Graja\u00fa&#8221;.<\/p>\n<p>Para a produtora cultural, o direito \u00e0 cidade e principalmente o direito ao territ\u00f3rio \u00e9 algo distante na vida de muitos moradores da periferia que vive a rotina de correr do trabalho pra casa, e muitas vezes do trabalho para o lugar que estuda e s\u00f3 depois para casa. Ela acredita que essa rotina atrasou a constru\u00e7\u00e3o de sua identidade e ra\u00edzes, a partir do conv\u00edvio nas periferias do Graja\u00fa.<\/p>\n<p>&#8220;Com uns dezoito ou vinte, comecei a estudar jornalismo e logo consegui um est\u00e1gio na \u00e1rea e eu ficava o dia inteiro fora. Nesta \u00e9poca comecei a estudar g\u00eanero, e eu me entendia enquanto homem gay. Minha sexualidade vem mais tarde e a minha identidade eu escondi de mim mesma por muito tempo&#8221;, relembra.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"image\" style=\"text-align: center;\">\n<div class=\"eb-image style-clear\">\n<div class=\"eb-image-figure is-responsive\">\n<p>\t\t\t\t\t<a class=\"eb-image-viewport\"><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/b2ap3_large_c052fc94fe1163149d12381b6b01e5dd.jpg\"><br \/>\n<\/a><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"eb-image-caption\">\n\t\t\t<span>Marcia Marci \u00e9 uma das criadoras do Sarau Travas da Sul, realizado no Graja\u00fa, zona sul de S\u00e3o Paulo. (Foto: Ric Galego)<\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p>A articuladora cultural conta que come\u00e7ou a viajar pelo Brasil com o coletivo Coiote, fazendo atividades de literatura libert\u00e1ria, lendo textos e causando discuss\u00f5es sobre g\u00eanero, feminismo e educa\u00e7\u00e3o e nesse processo ela consegue se desprender do padr\u00e3o do g\u00eanero masculino e se reconhecer como Marci, uma mulher travesti.<\/p>\n<p>&#8220;Comecei a viajar com o pessoal do Coletivo Coiote, trabalhando com a leitura e discuss\u00e3o de textos libert\u00e1rios, fazendo fanzine e tudo. A\u00ed nesse per\u00edodo foi quando me percebi saindo do padr\u00e3o desse g\u00eanero, quando eu usei saia, quando eu me questionei enquanto homem&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Este processo trouxe v\u00e1rias mem\u00f3rias de sua inf\u00e2ncia quando ela j\u00e1 sentia que n\u00e3o queria ser o menino que todos enxergavam nela. &#8220;Eu me lembrei de quando eu ganhei cueca no meu anivers\u00e1rio de crian\u00e7a. Eu chorei muito, muito, muito, e as pessoas preocupadas, perguntando por que eu tava chorando e eu dizendo que queria ganhar tudo menos uma cueca&#8221;.<\/p>\n<p>A partir do momento que se abandona essa identidade masculina, ela come\u00e7a a se ver como uma mulher travesti e n\u00e3o uma pessoa trans, relatando que trans \u00e9 uma palavra trazida da Europa, usada para normalizar os corpos. &#8220;\u00c9 importante deixar claro que n\u00e3o me reconhe\u00e7o como uma mulher trans, mas sim como travesti, porque existe um apagamento da identidade travesti, assim como as &#8216;Muxes&#8217; no M\u00e9xico s\u00e3o identidades n\u00e3o cisg\u00eaneras. As travestis s\u00e3o identidades n\u00e3o cisg\u00eanera, ent\u00e3o quando a palavra trans vem \u00e9 pra colonizar um corpo n\u00e3o cisg\u00eanero&#8221;, conclui.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A partir da realiza\u00e7\u00e3o de encontros liter\u00e1rios, a produtora cultural Marcia Marci criou um espa\u00e7o afetivo, cultural e pol\u00edtico que mobiliza jovens moradores do Graja\u00fa e de outros bairros para de maneira sens\u00edvel e acolhedora debater g\u00eanero, sexualidade e a ideia de ocupar a cidade. 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Em 2018 ela se formou em Pr\u00e1ticas Jornal\u00edsticas Nas Periferias pelo programa de forma\u00e7\u00e3o Voc\u00ea Rep\u00f3rter da Periferia. Ela atua em seu territ\u00f3rio com projetos de participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, como o Cursinho Livre Cl\u00e1udia Silva Ferreira. Por meio da escrita, ela est\u00e1 aprendendo a ser cientista social fazendo jornalismo de quebrada."}],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/75","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=75"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/75\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3677,"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/75\/revisions\/3677"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/73"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=75"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=75"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=75"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/ppma_author?post=75"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}