
{"id":2965,"date":"2023-03-13T13:00:58","date_gmt":"2023-03-13T16:00:58","guid":{"rendered":"https:\/\/beta.desenrolaenaomenrola.com.br\/2023\/03\/13\/quando-os-meninos-negros-morrem\/"},"modified":"2024-06-29T21:02:53","modified_gmt":"2024-06-30T00:02:53","slug":"quando-os-meninos-negros-morrem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/colunas\/quando-os-meninos-negros-morrem\/","title":{"rendered":"Quando os meninos negros morrem"},"content":{"rendered":"<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p>Voc\u00ea, homem negro, ame a si mesmo e a sua cultura. D\u00ea amor, respeite o tempo e \u00e0s pessoas que voc\u00ea ama e n\u00e3o permane\u00e7a onde te querem capataz.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"readmore\"><\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"image\" style=\"text-align: center;\">\n<div class=\"eb-image style-clear\">\n<div class=\"eb-image-figure is-responsive\">\n<p>\t\t\t\t<a class=\"eb-image-viewport eb-image-popup-button\" href=\"images\/p\/1223\/_D_A9716-1.jpg\" title=\"Ensaio Resgate de Cauane Oliveira (@baduona) e Renata Santos (@olhodeanubis), set. de 2020.\"><\/a><\/p>\n<p><a class=\"eb-image-viewport eb-image-popup-button\" href=\"images\/p\/1223\/_D_A9716-1.jpg\" title=\"Ensaio Resgate de Cauane Oliveira (@baduona) e Renata Santos (@olhodeanubis), set. de 2020.\"><br \/>\n<\/a><a class=\"eb-image-viewport eb-image-popup-button\" href=\"images\/p\/1223\/_D_A9716-1.jpg\" title=\"Ensaio Resgate de Cauane Oliveira (@baduona) e Renata Santos (@olhodeanubis), set. de 2020.\">\t\t<\/a><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"eb-image-caption\">\n\t\t\t<span>Ensaio Resgate de Cauane Oliveira (@baduona) e Renata Santos (@olhodeanubis), set. de 2020.<\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p><span>Se deparar com \u00edndices que denunciam a mortalidade e a degrada\u00e7\u00e3o da vida nas periferias n\u00e3o \u00e9 novidade, a morte ganha um peso \u00fanico quando contamos os n\u00fameros e procuramos o que eles significam.<\/span><\/p>\n<p>Um peso no corpo, uma dor no peito, acordar e descobrir que a realidade \u00e9 mais dura que o pesadelo. O trauma da perda \u00e9 uma marca que separa os que sonham com o futuro e os que buscam justi\u00e7a \u2013 ou que morrem aos poucos enquanto o tempo apaga as marcas de quem passou pela terra.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"heading\">\n<h3>\n\tEnt\u00e3o tenho pensado, por que os meninos negros morrem t\u00e3o cedo?<span>&nbsp;<\/span><\/h3>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p><span>Estou cada vez mais perto do fim da faixa et\u00e1ria das estat\u00edsticas de expectativas de mortalidade entre a juventude negra e tenho me perguntado, por que isso acontece?<\/span><\/p>\n<p>Podemos criar representa\u00e7\u00f5es das motiva\u00e7\u00f5es e efeitos que levam centenas de milhares de jovens de 14 \u00e0 29 anos a n\u00fameros expressivos de mortalidade. Da viol\u00eancia policial ao su\u00edcidio, da situa\u00e7\u00e3o de rua ao encarceramento, o homem negro \u00e9 o principal alvo &#8211; mesmo que essas viol\u00eancias acometam a popula\u00e7\u00e3o negra e perif\u00e9rica como um todo.<\/p>\n<p>Como exerc\u00edcio de reflex\u00e3o, vamos remontar parte dos problemas que sustentam esses acontecimentos at\u00e9 hoje e que tem origem no passado escravocrata.<\/p>\n<p>Quem nunca ouviu na escola, na rua, em espa\u00e7os p\u00fablicos de modo geral, um &#8220;educa\u00e7\u00e3o vem de casa&#8221; que atire a primeira pedra.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"heading\">\n<h2>\n\tA quest\u00e3o \u00e9 que a fam\u00edlia \u00e9 o pilar de diversos desafios e problemas que vamos experimentar durante a vida e tamb\u00e9m o lugar de busca por supera\u00e7\u00e3o, reden\u00e7\u00e3o e cura.<span>&nbsp;<\/span><\/h2>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p>Em diversas sociedades de origem n\u00e3o-brancas ou que n\u00e3o s\u00e3o de cultura ocidental crist\u00e3, podemos ver modelos diferentes de enxergar o papel da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Por exemplo, em comunidades de culturas ind\u00edgenas e africanas, em que o papel da fam\u00edlia \u00e9 mais amplo do que o particular: est\u00e1 em rela\u00e7\u00e3o com a preserva\u00e7\u00e3o de modos de pensar, distribuir tarefas, organizar os pap\u00e9is que todos devem desempenhar por idade, por vezes, g\u00eanero (de culturas matrilineares, h\u00edbridas ou mesmo n\u00e3o baseadas em modelos de g\u00eanero), na rela\u00e7\u00e3o com o \u00edntimo, o particular e o coletivo (a cultura, o grupo, a religi\u00e3o, a pol\u00edtica).<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o caso das culturas do povo Akan, de Gana, onde o poder \u00e9 distribu\u00eddo por mulheres, ou o povo Bribri, da Costa Rica, em que o direito de propriedade e de execu\u00e7\u00e3o dos rituais sagrados s\u00e3o matrilineares.<\/p>\n<p>Apesar de ser um fato de que a cultura brasileira est\u00e1 profundamente enraizada nas culturas africanas e ind\u00edgenas, o modelo familiar que nos governa, das elites \u00e0s favelas, \u00e9 o modelo patriarcal escravista, tendo como pilar o homem branco e seu poder de posse.<\/p>\n<p>\u00c9 aqui que o resultado dessa equa\u00e7\u00e3o homem branco e fam\u00edlia patriarcal nos leva \u00e0 uma espiral de problemas para a popula\u00e7\u00e3o negra e n\u00e3o-branca como um todo, sobretudo, obriga o homem negro a ser antagonicamente o contr\u00e1rio daquele que det\u00e9m o poder ao mesmo tempo em que se obriga que ele seja o espelho de seu opressor.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"heading\">\n<h3>Mas, que poder \u00e9 esse? E por que \u00e9 um poder?<\/h3>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p><span>Primeiro, imaginem que nos modelos de fam\u00edlias que vimos antes, fam\u00edlia e comunidade s\u00e3o quase sin\u00f4nimos. Podemos ver isso presente nas periferias nos modos de cumprimentos ou &#8220;apelidos&#8221;, quando chamamos uns aos outros de &#8220;irm\u00e3o&#8221;, &#8220;tia&#8221;, &#8220;tio&#8221; e etc.<\/span><\/p>\n<p>J\u00e1 no modelo patriarcal, o homem pensa o mundo a partir do particular. Ent\u00e3o se a fam\u00edlia pertence a ele, assim como um carro ou um boi, tudo onde ele projeta a fam\u00edlia, ou seja, tudo onde ele gostaria de ver a si mesmo ou suas posses, deve corresponder a sua vontade.<\/p>\n<p>Significa compartilhar privil\u00e9gios do seu espa\u00e7o particular estendido para institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas (e privadas): um cargo, uma vantagem, favores. \u00c9 estabelecer os inimigos que amea\u00e7am seu espa\u00e7o particular, seus aliados e os seus privil\u00e9gios.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"heading\">\n<h2>\n\tO homem negro, em busca de humanizar a si mesmo, desumaniza sua identidade, depara-se com a quest\u00e3o de seu sofrimento.<\/h2>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p><span>O amor que o humanizaria encontra barreiras para se edificar como parte fundamental da sua identidade, deformada pela busca de existir como &#8220;o outro&#8221;. E em tudo que busca, aqueles mais afundados na deforma\u00e7\u00e3o de sua identidade, exercem for\u00e7a e viol\u00eancia contra si e seus semelhantes em nome daqueles que buscam extingui-los.<\/span><\/p>\n<p>Os conflitos internos de cada grupo racial s\u00e3o sempre intensificados pelos conflitos urbanos. Ent\u00e3o quem ocupa majoritariamente o poder, privil\u00e9gios e propriedade, precisa buscar um suspeito padr\u00e3o dos males para depositar todos os problemas da sociedade.<\/p>\n<p>\u00c9 aqui que nos encontramos numa encruzilhada de armadilhadas raciais para homens negros em busca de humanidade.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"heading\">\n<h3>O que pode nos tornar seres humanos?<span>&nbsp;<\/span><\/h3>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p>Para o menino negro que se tornar\u00e1 um homem, reafirmar sua masculinidade passa pela busca do controle das pessoas, de suas rela\u00e7\u00f5es e pela ostenta\u00e7\u00e3o. Todo caminho \u00e9 poss\u00edvel, do trabalho exaustivo em busca de ser &#8220;o provedor&#8221; e a submiss\u00e3o a situa\u00e7\u00f5es de explora\u00e7\u00e3o absoluta caracter\u00edstico do capitalismo ao crime como forma de exercer o poder atrav\u00e9s da for\u00e7a.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o tudo que os meninos negros vivem entre homens se torna uma forma de prova\u00e7\u00e3o de uma masculinidade que deforma sua identidade.<\/p>\n<p>No trabalho \u00e9 pegar mais peso do que deveria, na quebrada pode ser usar drogas muito cedo, no crime e na pol\u00edcia \u00e9 demonstrar frieza. Mas \u00e9 principalmente a busca por tornar tudo uma posse, como um boi ou um carro.&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"heading\">\n<h2>Nos ensinam, assim, a tratar nossas rela\u00e7\u00f5es. Entretanto a diferen\u00e7a \u00e9 que criam homens brancos para serem senhores e homens negros para serem capatazes.<\/h2>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p>Isso significa, de modo geral, que os homens negros s\u00e3o os principais alvos, porque querem fazer e ter tudo aquilo que homens brancos tem e fazem. Entretanto de modo mais intenso, porque o custo \u00e9 maior e n\u00f3s nos arriscamos mais ao ponto de perder tudo.<\/p>\n<p>Enquanto o homem negro busca uma rela\u00e7\u00e3o entre iguais com homens brancos, o homem branco busca imped\u00ed-lo e instrumentaliza seu&nbsp;exterm\u00ednio.<\/p>\n<p>Para viver, precisamos ter a oportunidade de estruturar melhor nossas fam\u00edlias. Compartilhar o exerc\u00edcio de poder do particular ao coletivo. Barrar o crescimento precoce como prova de maturidade para refor\u00e7ar os pap\u00e9is de g\u00eanero.<\/p>\n<p>E por fim ao medo branco de que nossa liberdade da heran\u00e7a colonial de fam\u00edlia, comunidade, posse e cultura significa o fim da deles, isso n\u00e3o \u00e9 sobre eles e sim sobre viver feliz.<\/p>\n<p>Por \u00faltimo, a exaust\u00e3o mental da busca inalcan\u00e7\u00e1vel por ser &#8220;o outro&#8221;, para p\u00f4r fim aos desafios sociais, nos encaminha ao sofrimento, \u00e0 depress\u00e3o, ao que os africanos escravizados chamavam de banzo.<\/p>\n<p>Esses sentimentos nos levam a crer que a \u00fanica forma de expulsar os males que habitam o corpo negro \u00e9 deixar de habit\u00e1-lo, seja pela descaracteriza\u00e7\u00e3o ou pelo su\u00edcidio. S\u00f3 o amor por si mesmo, pela vida (e tratamento m\u00e9dico), pode ajudar a curar o banzo.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"heading\">\n<h2>Voc\u00ea, homem negro, ame a si mesmo e a sua cultura. D\u00ea amor, respeite o tempo e \u00e0s pessoas que voc\u00ea ama e n\u00e3o permane\u00e7a onde te querem capataz.<\/h2>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p>Esse texto surgiu como uma reflex\u00e3o sobre um amigo, que morreu assassinado, traficava e um dos seus sonhos era ter um fusca. Tamb\u00e9m \u00e9 sobre mim e os homens que eu quis ser.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voc\u00ea, homem negro, ame a si mesmo e a sua cultura. D\u00ea amor, respeite o tempo e \u00e0s pessoas que voc\u00ea ama e n\u00e3o permane\u00e7a onde te querem capataz. Ensaio Resgate de Cauane Oliveira (@baduona) e Renata Santos (@olhodeanubis), set. de 2020. 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Tamb\u00e9m atua como pesquisador, articulador pol\u00edtico no Instituto de Refer\u00eancia Negra Peregum e comp\u00f5e a Coordena\u00e7\u00e3o Colegiada do AfroPresen\u00e7a. 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