
{"id":2335,"date":"2022-05-03T13:26:08","date_gmt":"2022-05-03T16:26:08","guid":{"rendered":"https:\/\/beta.desenrolaenaomenrola.com.br\/2022\/05\/03\/atuar-na-periferia-me-trouxe-a-consciencia-de-desmistificar-que-terapia-e-coisa-de-bacana-diz-monica-miranda\/"},"modified":"2024-06-29T21:05:23","modified_gmt":"2024-06-30T00:05:23","slug":"atuar-na-periferia-me-trouxe-a-consciencia-de-desmistificar-que-terapia-e-coisa-de-bacana-diz-monica-miranda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/series\/atuar-na-periferia-me-trouxe-a-consciencia-de-desmistificar-que-terapia-e-coisa-de-bacana-diz-monica-miranda\/","title":{"rendered":"\u201cAtuar na periferia me trouxe a consci\u00eancia de desmistificar que terapia \u00e9 coisa de bacana\u201d, diz Monica Miranda"},"content":{"rendered":"<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p>Como a maioria da juventude perif\u00e9rica, M\u00f4nica Miranda enfrentou uma s\u00e9rie de desafios para se formar como psic\u00f3loga na universidade. Hoje, al\u00e9m do pr\u00f3prio neg\u00f3cio, ela realiza projetos sociais que promovem o cuidado da sa\u00fade mental da mulher nas periferias.&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"readmore\"><\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p>A trajet\u00f3ria da terapeuta M\u00f4nica Miranda,36, moradora do Jardim S\u00e3o Lu\u00eds, na Zona Sul de S\u00e3o Paulo, \u00e9 marcada por uma luta incans\u00e1vel em busca de qualifica\u00e7\u00e3o profissional e constru\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria cl\u00ednica de terapia. Ao se especializar em terapia psicossom\u00e1tica e desenvolvimento feminino, ela tamb\u00e9m criou o &#8220;C\u00edrculo de Amor &#8220;, projeto no qual atua como mediadora do grupo de terapia comunit\u00e1ria para mulheres.<\/p>\n<p>&#8220;O Bem Me Quero \u00e9 um projeto onde me re\u00fano com alguns parceiros, algumas colegas e n\u00f3s levamos pra dentro da comunidade as pr\u00e1ticas integrativas, com o objetivo de fomentar ainda mais a import\u00e2ncia da sa\u00fade mental, a fim de fomentar a import\u00e2ncia de rodas de conversa, palestras de sa\u00fade de forma geral e transtornos mentais&#8221;, afirma M\u00f4nica.<\/p>\n<p>A luta pelo direito de levar a sa\u00fade mental para dentro das periferias ainda est\u00e1 acontecendo. Mas atender as mulheres perif\u00e9ricas e priorizar esse p\u00fablico faz parte do prop\u00f3sito de Monica. &#8220;As mulheres ainda continuam sendo a maioria na busca por autoconhecimento. O esgotamento f\u00edsico, emocional e mental ainda alimentado pelo nosso sistema patriarcal e machista levou muitas delas a procurarem ajuda. Desde quest\u00f5es ligadas a relacionamentos abusivos \u00e0 novas perspectivas de vida e posi\u00e7\u00e3o social&#8221;, concluiu M\u00f4nica.<\/p>\n<p>A psic\u00f3loga atua em iniciativas sociais desde que se formou, mas conta que sempre foi interessada nessas pr\u00e1ticas e tenta sempre estar inserida e levar essas possibilidades para quem \u00e9 perif\u00e9rico.<\/p>\n<p>Segundo M\u00f4nica, 80% dos pacientes da sua cl\u00ednica s\u00e3o de origem perif\u00e9rica, e que ela juntamente com algumas colegas, fazem doa\u00e7\u00f5es de horas gratuitas e uma cota de atendimento com valor social.<\/p>\n<p><span>&#8220;Atuar e manter uma cl\u00ednica na regi\u00e3o da periferia me trouxe uma consci\u00eancia maior sobre a import\u00e2ncia de desmistificar a ideia de que terapia precisa ser cara e que \u00e9 coisa de &#8216;bacana'&#8221;, explica a psic\u00f3loga.<\/span>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"image\" style=\"text-align: center;\">\n<div class=\"eb-image style-clear\">\n<div class=\"eb-image-figure is-responsive\">\n<p>\t\t\t\t\t<a class=\"eb-image-viewport\"><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/b2ap3_medium_imagem-8.jpeg\"><br \/>\n<\/a><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"eb-image-caption\">\n\t\t\t<span>Foto: Acervo pessoal<\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"heading\">\n<h3>A luta pela qualifica\u00e7\u00e3o<span><\/span><\/h3>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p>M\u00f4nica revela que enfrentou alguns obst\u00e1culos durante sua forma\u00e7\u00e3o profissional. Um dos principais problemas foi a falta de renda, situa\u00e7\u00e3o na qual, a levou a tomar a dif\u00edcil decis\u00e3o de escolher entre comer ou garantir o dinheiro da mensalidade da universidade.<\/p>\n<p>&#8220;Os desafios que eu encontrei durante a forma\u00e7\u00e3o, penso que n\u00e3o foram diferentes para a maioria de n\u00f3s que nascemos em fam\u00edlia pobre na comunidade. Falta de grana para pagar mensalidade, escolher entre comer o lanche no intervalo ou imprimir os artigos da aula seguinte, se adaptar \u00e0 rotina ma\u00e7ante de trabalhar oito horas por dia e ir para faculdade depois de um trajeto de duas horas de tr\u00e2nsito&#8221;, relembra a terapeuta.<\/p>\n<p>Mesmo com todo o apre\u00e7o pela \u00e1rea, M\u00f4nica n\u00e3o soube dizer o porqu\u00ea de ter escolhido a psicologia para estudar, tanto que com seus 12 anos j\u00e1 falava com clareza que iria ser psic\u00f3loga, mesmo sem entender ao certo o porqu\u00ea dessa certeza.<\/p>\n<p>Ela acredita que essa vontade pode estar ligada \u00e0 sua fam\u00edlia, que sempre esteve presente em a\u00e7\u00f5es sociais. A psic\u00f3loga sempre teve a certeza de que se formando nessa \u00e1rea, poderia contribuir ativamente e andar junto com seus irm\u00e3os, que s\u00e3o ativistas.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"image\" style=\"text-align: center;\">\n<div class=\"eb-image style-clear\">\n<div class=\"eb-image-figure is-responsive\">\n<p>\t\t\t\t\t<a class=\"eb-image-viewport\"><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/b2ap3_medium_M.jpeg\"><br \/>\n<\/a><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"eb-image-caption\">\n\t\t\t<span>Foto: Acervo pessoal<\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"quotes\">\n<blockquote class=\"eb-quote style-default\"><p>&#8220;Sempre foi uma vontade, n\u00e3o sei de onde. Eu sempre digo que foi a psicologia que me escolheu, n\u00e3o foi eu que escolhi. Mas eu cresci nesse ambiente, de acolher, de apoiar, de compartilhar, de se preocupar com o outro, talvez tenha vindo da\u00ed&#8221;<\/p>\n<p><cite> disse M\u00f4nica.<\/cite><\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p>&nbsp;<span>A terapeuta diz que come\u00e7ou sua faculdade tarde, pois era dif\u00edcil come\u00e7ar numa universidade assim que terminasse a escola, para isso precisaria de uma renda, ent\u00e3o seu primeiro pensamento no final do ensino m\u00e9dio, al\u00e9m de estudar, era de arrumar um emprego.<\/span><\/p>\n<p>Aos 14 anos, come\u00e7ou a trabalhar como vendedora numa loja de semij\u00f3ias, onde se manteve por aproximadamente seis anos, chegando at\u00e9 o cargo de gerente de vendas. E aos 20 anos resolveu se desligar, pois n\u00e3o iria ter como estudar trabalhando entre 12 e 14 horas por dia.<\/p>\n<p>&#8220;Entrei no mundo do empreendedorismo, fiz muitas coisas. Fui vender MaryKay, de porta em porta, sabe? Fiz uns cursos na \u00e1rea da beleza, eu ia fazer escova na mulherada da comunidade, comecei a trabalhar como cabeleireira, cheguei a vender bijuteria. Ent\u00e3o eu fui fazendo v\u00e1rias coisinhas assim&#8221;, recorda a terapeuta.<\/p>\n<p>Isso foi uma escolha de M\u00f4nica para que tivesse um pouco do seu tempo livre, para conseguir se dedicar de fato aos estudos, foi a\u00ed que ela decidiu ingressar na faculdade, ressaltando que a ajuda de sua irm\u00e3 foi de grande import\u00e2ncia na \u00e9poca, pois n\u00e3o tinha o dinheiro completo para pagar a matr\u00edcula e a mensalidade de uma vez.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c0s vezes eu estava com fome, mas eu precisava tirar a xerox dos artigos para a aula do outro dia, e eu pensava: ou compro o lanche, como uma coxinha, ou eu imprimo os artigos&#8221; conta a terapeuta.<\/p>\n<p>M\u00f4nica se formou, e ap\u00f3s a gradua\u00e7\u00e3o se especializou em terapia psicossom\u00e1tica, depois disso conseguiu um trabalho numa cl\u00ednica de atendimento para conv\u00eanio de sa\u00fade, de modo terceirizado, contratada como pessoa jur\u00eddica. Ela ficou trabalhando neste local por um ano e atendia quase 100 pacientes no total, e mesmo sendo corrido e muito cansativo, foi um trabalho que trouxe muita experi\u00eancia para ela, principalmente porque atendia muitas pessoas em situa\u00e7\u00f5es totalmente diferentes, isso gerou experi\u00eancia em diversos casos.<\/p>\n<p>&#8220;Me trouxe muita experi\u00eancia, mas era um trabalho escravo, era um neg\u00f3cio &#8216;desuman\u00edssimo&#8217;, na \u00e9poca eu acho que eu ganhava oito reais por atendimento, \u00e9 o que a maioria das cl\u00ednicas acabam fazendo. Acho que isso melhorou durante a pandemia, onde entenderam a import\u00e2ncia da atua\u00e7\u00e3o do psic\u00f3logo na sa\u00fade&#8221;, explica.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"heading\">\n<h3>A volta por cima<span><\/span><\/h3>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p>Ap\u00f3s passar por essa experi\u00eancia profissional numa cl\u00ednica terceirizada, M\u00f4nica refletiu sobre o seu futuro e entendeu que aquela rotina estava desgastando sua sa\u00fade f\u00edsica e principalmente a sa\u00fade mental, e analisando isso, ela decidiu sair desse emprego, e quando isso aconteceu, seus pacientes perceberam a mudan\u00e7a e entraram em contato com ela para saber se os atendimentos poderiam continuar, mesmo que por fora.<\/p>\n<p>&#8220;A demanda de trabalho era muito grande, eram 12 horas seguidas sem parar. Por isso decidi sair, como \u00e9 que eu iria falar de sa\u00fade mental ficando doente?&#8221;, questiona M\u00f4nica.<\/p>\n<p>Logo ap\u00f3s esse epis\u00f3dio na vida profissional, um amigo antigo de M\u00f4nica cedeu uma parte de um consult\u00f3rio, para ela utilizar num valor de aluguel em conta. A partir deste momento, seus clientes antigos continuaram fazendo o tratamento com ela, indicando os seus trabalhos para outras pessoas, com isso, a terapeuta alcan\u00e7ou uma estabilidade tanto na experi\u00eancia como psic\u00f3loga, quanto na quantidade de clientes que tinham sido fidelizados.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"image\" style=\"text-align: center;\">\n<div class=\"eb-image style-clear\">\n<div class=\"eb-image-figure is-responsive\">\n<p>\t\t\t\t\t<a class=\"eb-image-viewport\"><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/b2ap3_medium_imagem-9.jpeg\"><br \/>\n<\/a><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"eb-image-caption\">\n\t\t\t<span>Foto: Acervo pessoal<\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p>Mesmo passando a trabalhar no seu pr\u00f3prio neg\u00f3cio, ela optou por atender pacientes com dificuldades socioecon\u00f4micas, cobrando um valor social, abaixo do mercado, por cada sess\u00e3o realizada.<\/p>\n<p>M\u00f4nica considera que atuar em territ\u00f3rios de popula\u00e7\u00e3o perif\u00e9rica ensinou e fez com que ela transformasse seus pensamentos dentro da psicologia e de como ela deve chegar at\u00e9 essas pessoas.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como a maioria da juventude perif\u00e9rica, M\u00f4nica Miranda enfrentou uma s\u00e9rie de desafios para se formar como psic\u00f3loga na universidade. 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