
{"id":2270,"date":"2022-04-14T17:04:03","date_gmt":"2022-04-14T20:04:03","guid":{"rendered":"https:\/\/beta.desenrolaenaomenrola.com.br\/2022\/04\/14\/lendo-escrevendo\/"},"modified":"2024-06-29T21:05:33","modified_gmt":"2024-06-30T00:05:33","slug":"lendo-escrevendo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/colunas\/lendo-escrevendo\/","title":{"rendered":"Lendo, escrevendo\u2026"},"content":{"rendered":"<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p>&nbsp;Minha chegada nesse terreiro sagrado de escritas perif\u00e9ricas. Licen\u00e7a povaria!<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"readmore\"><\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"image\" style=\"text-align: center;\">\n<div class=\"eb-image style-clear\">\n<div class=\"eb-image-figure is-responsive\">\n<p>\t\t\t\t<a class=\"eb-image-viewport eb-image-popup-button\" href=\"images\/p\/1038\/3-Arquvo-da-famlia.jpg\" title=\"Foto: Arquivo pessoal\"><\/a><\/p>\n<p><a class=\"eb-image-viewport eb-image-popup-button\" href=\"images\/p\/1038\/3-Arquvo-da-famlia.jpg\" title=\"Foto: Arquivo pessoal\"><br \/>\n<\/a><a class=\"eb-image-viewport eb-image-popup-button\" href=\"images\/p\/1038\/3-Arquvo-da-famlia.jpg\" title=\"Foto: Arquivo pessoal\">\t\t<\/a><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"eb-image-caption\">\n\t\t\t<span>Foto: Arquivo pessoal<\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p><span>Opr\u00ea! Ol\u00e1, voc\u00ea que est\u00e1 aqui pra desenrolar o papo no Desenrola e N\u00e3o Me Enrola\u2026 J\u00e1 pe\u00e7o desculpas se o texto t\u00e1 muito longo, t\u00e1? A inten\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 enrolar\u2026 Conto com tua paci\u00eancia e pe\u00e7o licen\u00e7a pra chegar.<\/span><\/p>\n<p>Meu nome \u00e9 Aloysio Letra e eu recentemente (na verdade, j\u00e1 h\u00e1 algum tempo) fui convidado pra escrever por aqui. Talvez eu escreva cr\u00f4nicas, textos de opini\u00e3o, textos sobre cultura, pol\u00edtica ou use este espa\u00e7o apenas pra me expressar como um articulador cultural de periferia que se permite ter uma &#8220;vis\u00e3o sobre o mundo&#8221;. Afinal, \u00e9 bom ter um espa\u00e7o coletivo pra poder escrevinhar\u2026<\/p>\n<p>Eu sou filho de Roberta, mineirinha de Muria\u00e9, filho de Aloisio, baiano de Nova Lage. Sou preto de grada\u00e7\u00e3o clara, hetero cis, me reivindico afro-ind\u00edgena, tenho uns quarenta e poucos anos, tenho o p\u00e9 chato, sou de capric\u00f3rnio (n\u00e3o me culpe), sou anti-racista, anti-sexista, anti-homotransfobia, anti-capacitista e sou morador de \u00c9ssep\u00ea no extremo Leste, l\u00e1 nas distintas e distantes terras dos Guaian\u00e1s (Pra quem usa trens da CPTM: Guaianases).<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"heading\">\n<h2>Esse \u00e9 tipo um texto de apresenta\u00e7\u00e3o, um flerte, para a gente se conhecer melhor e por isso resolvi escrever, porque ler e escrever foram se tornando importantes pra mim ao longo da minha vida.<\/h2>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p>Eu comecei a ler muito cedo. Minha m\u00e3e me alfabetizou l\u00e1 pelos 4 anos de idade porque na \u00e9poca tinha muito medo do analfabetismo (que nessa \u00e9poca era bem comum). Como meus pais sempre foram pobres e trabalhavam muito fora de casa, isso foi muito bom, porque eu tinha poucos brinquedos e o maior lance ent\u00e3o era usar a criatividade e a imagina\u00e7\u00e3o pra passar o tempo em casa. Lembro que li v\u00e1rios dos livros dos meus pais, mesmo sem entender muito, at\u00e9 depois ter acesso a livros de fato infantis. Parecia que aquelas vozes, as palavras novas e as figuras imagin\u00e1rias ficavam perambulando minha mente durante os dias. Eu lia r\u00f3tulo de embalagens, capas de discos de vinil, me imaginava outra pessoa, noutro lugar distante que n\u00e3o numa casa trancada ou num quarto pequeno e apertado.<\/p>\n<p>Na escola, dos primeiros anos eu era bem t\u00edmido, por v\u00e1rios motivos, dentre eles por mudar de escola muitas vezes por conta das diversas mudan\u00e7as de casa. A cada escola nova eu queria saber se tinha biblioteca ou um lugar pra pegar livros emprestados. Gostava muito de ler os livrinhos da s\u00e9rie Vaga-lume, muito comuns nessa \u00e9poca e que podiam ser achados da biblioteca at\u00e9 a banca de livros usados da feirinha de domingo. Eram livros muito legais, bem ilustrados e nesse tempo eu fiquei f\u00e3 de todos livros do Marcos Rey, com sua escrita cinematogr\u00e1fica e tamb\u00e9m era apaixonado pelo mundo imag\u00e9tico de &#8220;O Escaravelho do Diabo&#8221; (1974) e do maravilhoso &#8220;O caso da Borboleta At\u00edria&#8221; (1975), da mineira e premiad\u00edssima L\u00facia Machado de Almeida.&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"image\" style=\"text-align: center;\">\n<div class=\"eb-image style-clear\">\n<div class=\"eb-image-figure is-responsive\">\n<p>\t\t\t\t<a class=\"eb-image-viewport eb-image-popup-button\" href=\"images\/p\/1038\/Arquivo-pessoal.jpg\" title=\"Eu sou filho de Roberta, mineirinha de Muria\u00e9, filho de Aloisio, baiano de Nova Lage. Foto: Arquivo pessoal.\"><\/a><\/p>\n<p><a class=\"eb-image-viewport eb-image-popup-button\" href=\"images\/p\/1038\/Arquivo-pessoal.jpg\" title=\"Eu sou filho de Roberta, mineirinha de Muria\u00e9, filho de Aloisio, baiano de Nova Lage. Foto: Arquivo pessoal.\"><br \/>\n<\/a><a class=\"eb-image-viewport eb-image-popup-button\" href=\"images\/p\/1038\/Arquivo-pessoal.jpg\" title=\"Eu sou filho de Roberta, mineirinha de Muria\u00e9, filho de Aloisio, baiano de Nova Lage. Foto: Arquivo pessoal.\">\t\t\t\t\t<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/b2ap3_medium_Arquivo-pessoal.jpg\"><br \/>\n<\/a><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"eb-image-caption\">\n\t\t\t<span>Eu sou filho de Roberta, mineirinha de Muria\u00e9, filho de Aloisio, baiano de Nova Lage. Foto: Arquivo pessoal.<\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p><span>Minha fam\u00edlia n\u00e3o tinha grana, ent\u00e3o eu n\u00e3o tinha acesso a muitos gibis (hist\u00f3rias em quadrinhos). A maioria dos gibis que li na inf\u00e2ncia era quando ia ao dentista, e da\u00ed por causa dos gibis eu adorava ir no consult\u00f3rio da dentista no Jabaquara. L\u00e1 eu lia hist\u00f3rias da Disney, da Marvel e da DC Comics e s\u00f3 ficava meio cabreiro porque nas revistas de her\u00f3is tinha muita est\u00f3ria incompleta, hist\u00f3rias que precisavam de mais gibis pra saber o fim. Era a \u00e9poca do auge da editora Abril, que editava muito do que se lia de hist\u00f3ria em quadrinhos no Brasil.<\/span><\/p>\n<p>Da saudade que nascia entre cada visita ao dentista, nasceu a vontade de escrever e desenhar, e da\u00ed passei a criar minhas pr\u00f3prias est\u00f3rinhas, tirinhas, her\u00f3is pr\u00f3prios, personagens diversos. Era bem legal ter v\u00e1rios pap\u00e9is dobrados e colados, com est\u00f3rias pr\u00f3prias que ficavam cheirando a naftalina quando guardadas na gaveta das meias.<\/p>\n<p>Eu passava muito tempo sozinho em casa e a minha m\u00e3e lia e tinha algumas revistas, edi\u00e7\u00f5es da revista Cl\u00e1udia, revistas com guia de nomes pra se dar a beb\u00eas, revistas de receita, revista Veja, Veja S\u00e3o Paulo. Ficava muito curioso pra ler sobre as pessoas que via na TV: cantoras famosas, atrizes de novela e gostava de ler os textos de abertura das revistas, aquele texto que falava sobre o que cada mat\u00e9ria trazia pra aquela edi\u00e7\u00e3o que tinha o tema tal e que tinha como destaque a Fulana ou a Beltrana.<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s dessas revistas eu conhecia melhor a minha m\u00e3e, que muito trabalhava, em casa e fora dela, e que por isso tinha pouco tempo pra prosear, amar, se amar. Nossas conversas indiretas muitas vezes foram atrav\u00e9s da leitura das suas revistas. O que ela lia me falava muito sobre ela e as press\u00f5es que ela sofreu no s\u00e9culo 20.<\/p>\n<p>Vez em quando eu tamb\u00e9m emprestava as revistas da minha m\u00e3e ou os poucos gibis que tinha, para amigas da escola, em troca das revistas que elas liam, assim tamb\u00e9m lia de quando em quando as revistas Capricho, revistas sobre comportamento e algumas revistinhas de hor\u00f3scopo mesmo sem entender muita coisa.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   has-nested\" data-type=\"gallery\">\n<div class=\"eb-gallery\">\n<div class=\"eb-gallery-stage\" data-plupload-drop-element=\"\">\n<div class=\"eb-gallery-viewport\" style=\"left: -100%;\">\n<div class=\"eb-gallery-item\" data-id=\"g08622041303526493\" style=\"left: 0%;\">\n<div class=\"ebd-block  is-nested is-isolated  \" data-type=\"image\" style=\"text-align: center; width: 100%;\">\n<div class=\"eb-image is-fluid style-clear\">\n<div class=\"eb-image-figure is-responsive\" style=\"padding-top:56.25%;\">\n<p>\t\t\t\t\t<a class=\"eb-image-viewport\"><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/b2ap3_large_4-Arquvo-da-famlia.jpg\" style=\"width:45.789%;height:100%;top:0%;left:27.105%;\"><br \/>\n<\/a><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"eb-gallery-item active\" data-id=\"g006541546228306627\" style=\"left: 100%;\">\n<div class=\"ebd-block  is-nested is-isolated  \" data-type=\"image\" style=\"text-align: center; width: 100%;\">\n<div class=\"eb-image is-fluid style-clear\">\n<div class=\"eb-image-figure is-responsive\" style=\"padding-top:56.25%;\">\n<p>\t\t\t\t\t<a class=\"eb-image-viewport\"><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/b2ap3_large_2-Arquvo-da-famlia.jpg\" style=\"width:44.85%;height:100%;top:0%;left:27.575%;\"><br \/>\n<\/a><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"eb-gallery-button eb-gallery-next-button\">\n\t\t\t\t<i class=\"fa fa-chevron-right\"><\/i><\/div>\n<div class=\"eb-gallery-button eb-gallery-prev-button\">\n\t\t\t\t<i class=\"fa fa-chevron-left\"><\/i><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"eb-gallery-menu\">\n<div class=\"eb-gallery-menu-item\" data-id=\"g08622041303526493\">\n<div><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"eb-gallery-menu-item active\" data-id=\"g006541546228306627\">\n<div><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p><span>Meu pai e minha m\u00e3e liam jornais quando tinham grana. Quando cheguei a pr\u00e9-adolesc\u00eancia me interessei em ler de uma forma mais completa aqueles jornais. Antes eu s\u00f3 lia o caderno infantil que sa\u00eda periodicamente. Meu pai lia mais a Folha de S\u00e3o Paulo e aos finais de semana o Estad\u00e3o, vez em quando lia o Jornal da Tarde. Papai sempre comentava sobre o que lia e falava que a gente precisava se informar pra n\u00e3o ser alienado, com ele me habituei a acompanhar o jornalismo. Levava muita bronca por bagun\u00e7ar a ordem dos cadernos do jornal do meu pai. Pra mim era dif\u00edcil a organiza\u00e7\u00e3o daquele calhama\u00e7o de papel.<\/span><\/p>\n<p>Nessa \u00e9poca, de tanto ler o que os &#8220;adultos s\u00e9rios&#8221; liam, eu peguei gosto por cr\u00f4nicas. Aquela escrita meio que conversava comigo, criava amigos imagin\u00e1rios, mas eu ainda n\u00e3o sentia como poderia algum dia escrever algo do tipo e em espa\u00e7os de destaque. Curtia muito o Bussunda, M\u00e1rio Prata e mais um bocado de coisa que eu n\u00e3o recordo muito bem. Sei que o gosto por cr\u00f4nica depois me levou a buscar livros de cr\u00f4nicas, colet\u00e2neas como a &#8220;Com\u00e9dias da Vida Privada&#8221; do Lu\u00eds Fernando Ver\u00edssimo, que mais tarde na escola chegamos a montar numa pe\u00e7a teatral.<\/p>\n<p>Do per\u00edodo da inf\u00e2ncia \u00e0 adolesc\u00eancia lembro de escrever muitas cartas. Cartas para amigos, garotas da escola, para irm\u00e3os que moravam distante (tenho 8 irm\u00e3os, 4 homens e 3 mulheres) e cartas pra minha m\u00e3e ou meu pai ap\u00f3s terem se separado, tempo em que eu vivia alternando minha morada, vezes morando com uma(um) ou com outra(o), de l\u00e1 pra c\u00e1.<\/p>\n<p>Eu lembro ainda da sensa\u00e7\u00e3o de passar horas escrevendo e reescrevendo as emo\u00e7\u00f5es e os sentimentos, as saudades e as vontades que me atravessavam nos dias, semanas e meses de dist\u00e2ncia entre uma carta e outra. Ainda tenho numa velha lata de panetone algumas dessas cartas, algumas que guardam ainda os cheiros das tintas de caneta colorida ou mesmo cheiro de perfumes que vez em quando coloc\u00e1vamos para transportar a pessoa para as nossas sensa\u00e7\u00f5es durante a escrita. Li e escrevi cartas com desenhos, com ingressos de shows colados com durex, cartas com ou como presentes, com fitas coloridas, com verdades e mentiras inofensivas, com indigna\u00e7\u00f5es de vez em quando.&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"image\" style=\"text-align: center;\">\n<div class=\"eb-image style-clear\">\n<div class=\"eb-image-figure is-responsive\">\n<p>\t\t\t\t<a class=\"eb-image-viewport eb-image-popup-button\" href=\"images\/p\/1038\/5-Felipe-Ribeiro.jpg\" title=\"Foto: Felipe Ribeiro\"><\/a><\/p>\n<p><a class=\"eb-image-viewport eb-image-popup-button\" href=\"images\/p\/1038\/5-Felipe-Ribeiro.jpg\" title=\"Foto: Felipe Ribeiro\"><br \/>\n<\/a><a class=\"eb-image-viewport eb-image-popup-button\" href=\"images\/p\/1038\/5-Felipe-Ribeiro.jpg\" title=\"Foto: Felipe Ribeiro\">\t\t\t\t\t<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/b2ap3_medium_5-Felipe-Ribeiro.jpg\"><br \/>\n<\/a><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"eb-image-caption\">\n\t\t\t<span>Foto: Felipe Ribeiro<\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p>Com vinte e poucos anos, na \u00e9poca casado com minha melhor amiga da escola, eu trabalhava numa f\u00e1brica de vidro em Itaquera e revezava meu tempo de folga e os hor\u00e1rios de almo\u00e7o lendo livros e gibis usados que eu comprava quando sobrava um troco. Ensaiava ter uma cole\u00e7\u00e3o de gibis do Wolverine. N\u00e3o sobrou uma s\u00f3 revista desse tempo.<\/p>\n<p>Anos depois, durante a faculdade de R\u00e1dio e TV, me apaixonei por roteiros e por artistas que tinham o dom de criar imagens, paisagens e rimas visuais com as letras no papel. Adorava tamb\u00e9m os livros da Linda Seger, do Robert Mckee e os cursos de di\u00e1logo da \u00f3tima dialoguista Adriana Falc\u00e3o. Amei a escrita pra cinema!<\/p>\n<p>Durante muitos anos, apesar de imaginar, escrever, ler e sonhar, a verdade \u00e9 que fora das trocas de cartas do c\u00edrculo mais \u00edntimo, eu n\u00e3o tinha muito acesso a escritas de outras pessoas que como eu, pretas e de periferia, escreviam, liam, sonhavam. Isso mudou em 2007, quando fui no primeiro sarau, a convite de uma amiga, Mayara Penina (hoje jornalista no N\u00f3s, mulheres da periferia).<\/p>\n<p>Nessa \u00e9poca eu trabalhava num banco e a Mayara me convidou pro Politeama, um sarau numa regi\u00e3o central da cidade de S\u00e3o Paulo. Eu fiquei fascinado com aquela troca de material autoral, com as provoca\u00e7\u00f5es e incentivos para cria\u00e7\u00f5es coletivas, frescas ali na hora, mas tamb\u00e9m meio intrigado pra saber como isso se dava nas periferias. A partir da\u00ed comecei a procurar saraus de periferia na minha regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Em 2008, conheci o Sarau do Marginaliaria em S\u00e3o Miguel e atrav\u00e9s deles o pessoal do Sarau &#8220;O que dizem os umbigos?&#8221; no Itaim Paulista. Amor \u00e0 primeira vista! Samara Oliveira, Daniel Marques, Queila Rodrigues e muitas poetas me fizeram apaixonar pelas possibilidades coletivas dos saraus de periferia, e os saraus passaram ent\u00e3o a constituir tamb\u00e9m a minha forma\u00e7\u00e3o cultural e pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Nas escutas e leituras dos saraus comecei a ter acesso a outras &#8220;linhas editoriais&#8221;, outros sensos e olhares, agora mais livres do binarismo das editoras e redes de comunica\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica. Foi um respiro e nesse ponto em diante me permitiria me reconhecer ainda mais nas escritas das mulheres, homens e bixas de periferia, pessoas que queriam pra si, mais do que a sociedade as destinava.<\/p>\n<p>Bem, esse texto \u00e9 um pouco sobre como a leitura e escrita perpassou a minha vida e estar aqui escrevendo num espa\u00e7o de periferia, num portal de jornalismo atuante nas quebradas de \u00c9ssep\u00ea, \u00e9 um alento num tempo t\u00e3o violento, t\u00e3o indelicado, t\u00e3o cheio de guerras velhas e novas.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"heading\">\n<h2>Vez em quando escreverei por aqui sobre o que der na telha, \u00e0s vezes sobre indigna\u00e7\u00f5es, \u00e0s vezes sobre utopias vindas de quem sonha um mundo plural, po\u00e9tico e melhor pra todes.<span>&nbsp;<\/span><\/h2>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p>Agrade\u00e7o se voc\u00ea quiser comentar aqui, me escreve a\u00ed como a leitura e a escrita te tocou na sua vida, o que achou desse texto e por favor, se poss\u00edvel, visite os textos de mais colunistas daqui do Desenrola e N\u00e3o Me Enrola. At\u00e9 m\u00eas que vem! Sarav\u00e1 as mudan\u00e7as!<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp;Minha chegada nesse terreiro sagrado de escritas perif\u00e9ricas. Licen\u00e7a povaria! Foto: Arquivo pessoal Opr\u00ea! Ol\u00e1, voc\u00ea que est\u00e1 aqui pra desenrolar o papo no Desenrola e N\u00e3o Me Enrola\u2026 J\u00e1 pe\u00e7o desculpas se o texto t\u00e1 muito longo, t\u00e1? A inten\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 enrolar\u2026 Conto com tua paci\u00eancia e pe\u00e7o licen\u00e7a pra chegar. 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