
{"id":1878,"date":"2021-09-13T19:08:22","date_gmt":"2021-09-13T22:08:22","guid":{"rendered":"https:\/\/beta.desenrolaenaomenrola.com.br\/2021\/09\/13\/o-poder-do-ouvir-relato-de-algumas-horas-no-centro-de-sao-paulo\/"},"modified":"2024-06-29T21:06:51","modified_gmt":"2024-06-30T00:06:51","slug":"o-poder-do-ouvir-relato-de-algumas-horas-no-centro-de-sao-paulo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/colunas\/o-poder-do-ouvir-relato-de-algumas-horas-no-centro-de-sao-paulo\/","title":{"rendered":"O poder do ouvir: um relato de algumas horas no centro de S\u00e3o Paulo"},"content":{"rendered":"<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p>No dia 12 de agosto de 2021, novamente fiz algumas caminhadas no centro da cidade de S\u00e3o Paulo e n\u00e3o pude deixar de notar a presen\u00e7a da pol\u00edtica ao meu redor.&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"readmore\"><\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"image\" style=\"text-align: center;\">\n<div class=\"eb-image style-clear\">\n<div class=\"eb-image-figure is-responsive\">\n<p>\t\t\t\t<a class=\"eb-image-viewport eb-image-popup-button\" href=\"images\/p\/936\/Marcelo-Renda-rendaphoto.jpg\" title=\"Foto: Marcelo Renda @rendaphoto\"><\/a><\/p>\n<p><a class=\"eb-image-viewport eb-image-popup-button\" href=\"images\/p\/936\/Marcelo-Renda-rendaphoto.jpg\" title=\"Foto: Marcelo Renda @rendaphoto\"><br \/>\n<\/a><a class=\"eb-image-viewport eb-image-popup-button\" href=\"images\/p\/936\/Marcelo-Renda-rendaphoto.jpg\" title=\"Foto: Marcelo Renda @rendaphoto\">\t\t<\/a><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"eb-image-caption\">\n\t\t\t<span>Foto: Marcelo Renda @rendaphoto<\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p><span>No dia 12 de agosto de 2021, novamente fiz algumas caminhadas no centro da cidade de S\u00e3o Paulo e n\u00e3o pude deixar de notar a presen\u00e7a da pol\u00edtica ao meu redor. A fome gritava como eu nunca tinha visto, nem nos meus anos acompanhando projetos sociais e vivendo em um bairro pobre e sem acessos b\u00e1sicos.<\/span><\/p>\n<p>Lembro da primeira vez que vi a face mais dura da fome, eu tinha entre 11 e 12 anos, joguei um pote de sorvete no lixo, na mesma hora um senhor correu e pegou meu pote, eu sentia um misto de sensa\u00e7\u00f5es, mas eu j\u00e1 n\u00e3o entendia como em um pa\u00eds com tanta comida existiam pessoas comendo do lixo.<\/p>\n<p>No dia 12 de agosto n\u00e3o foi diferente, muitas fam\u00edlias na rua, muitas crian\u00e7as na Avenida Paulista em meio a um vento frio pedindo comida, essa era a S\u00e3o Paulo rica, o motor do Brasil, e como eu poderia me orgulhar de morar numa cidade com pol\u00edticas de austeridade t\u00e3o cru\u00e9is?<\/p>\n<p>Penso neste momento que essas pessoas j\u00e1 n\u00e3o eram pessoas, ao serem vistas morando na rua passam a ser vistas como monstruosidades, n\u00e3o s\u00e3o cidad\u00e3s dignas, um inc\u00f4modo e fedem como o lixo, poder\u00edamos passar por cima delas como se fossem parte da pr\u00f3pria rua e ningu\u00e9m choraria suas mortes.&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"heading\">\n<h2>Talvez neste exato momento voc\u00ea achou meu texto duro demais ou exagerado, mas a Prefeitura taca \u00e1gua nessas pessoas, confisca seus cobertores e os expulsa de locais onde dormem no frio, elas j\u00e1 s\u00e3o tratadas como eu descrevi, mas no Brasil tudo \u00e9 velado e a viol\u00eancia mora no nosso olhar.<span>&nbsp;<\/span><\/h2>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p><span>Em frente ao Carrefour da Pamplona vejo uma m\u00e3e e sua filha, uma cena in\u00e9dita para meus olhos, j\u00e1 que nunca havia visto algu\u00e9m pedir comida l\u00e1 apesar de frequentar h\u00e1 anos. A m\u00e3e pedia em voz baixa um miojo &#8220;daqueles que vem em pote mo\u00e7a&#8221; para ela comer com a filha, eu entrei no mercado atordoada em ver aquela cena e ser parte dela, procurei algo mais \u00fatil, tentei encontrar coisas mais saud\u00e1veis para comer na rua e que conseguissem gerar sensa\u00e7\u00e3o de saciedade, no fim, sabia que iria comprar o que a mo\u00e7a pediu, um miojo daqueles de pote, decidi comprar um bolo e uma bebida que crian\u00e7as costumam tomar.<\/span><\/p>\n<p>Assim que fui entregar as comidas para a m\u00e3e dela os olhos brilharam, ela sorriu, a m\u00e3e me pediu obrigada em voz baixa e eu tentei falar algo melhor antes de virar minhas costas para a fome. O aumento da popula\u00e7\u00e3o moradora de rua n\u00e3o eram os dados, estava no meu olhar, estava na minha frente e na frente de todos os cidad\u00e3os que entraram naquele Carrefour sem ouvir essa m\u00e3e,&nbsp;e eu n\u00e3o era melhor que eles.<\/p>\n<p>Um pouco mais a frente, entro em uma farm\u00e1cia onde h\u00e1 tr\u00eas crian\u00e7as na porta pedindo moedas, uma delas entra para comprar algumas coisas, dentre elas um pacote de fraldas que eu fiquei a noite inteira pensando para quem seria, para a m\u00e3e que estaria em outro lugar, para uma irm\u00e3, n\u00e3o sei, mas os cidad\u00e3os que se consideravam os verdadeiros donos do espa\u00e7o pareciam n\u00e3o estar confort\u00e1veis com aquela sujeira na farm\u00e1cia limpa, nada de moedas para o que nem \u00e9 considerado gente, era assim que eu acompanhava quieta aquela cena digna de um filme triste, mas n\u00e3o era sobre isso, era sobre a realidade.<\/p>\n<p>Os trabalhadores daquele local embora tamb\u00e9m um pouco incomodados olhavam com compadecimento. A pobreza tem v\u00e1rias nuances, mas n\u00f3s aprendemos, mesmo que de maneira err\u00f4nea, a nos importarmos. N\u00f3s pobres gostamos de dar comida, s\u00e3o heran\u00e7as ancestrais, apesar disso eles n\u00e3o podiam fazer muito j\u00e1 que ali era seu local de trabalho, assim eu saio de mais uma hist\u00f3ria, massacrada pela riqueza de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Agora enquanto espero um uber uma senhora passa me avisando para tomar cuidado pois&nbsp;estavam roubando: &#8220;acabei de ver uma menininha ser roubada, guarda o celular, eles t\u00e3o roubando, ela t\u00e1 chorando l\u00e1 em cima&#8221;. Como em poucas horas eu poderia estar vivenciando tantos tipos de viol\u00eancia? E por que eu era uma cidad\u00e3 digna at\u00e9 de aviso, mas aquelas crian\u00e7as n\u00e3o mereciam um olhar?<\/p>\n<p>Pensando nessas coisas eu entro no uber, o motorista era um rapaz jovem, boliviano que morava no Brasil h\u00e1 sete anos e durante aquela viagem n\u00f3s vamos conversar sobre as condi\u00e7\u00f5es horr\u00edveis de trabalho na uber e na informalidade.<\/p>\n<p>Ele me conta as dificuldades que estavam aumentando, eu vou dialogando com o que sei sobre trabalho e renda, ele me pergunta sobre algumas coisas do Brasil acerca de educa\u00e7\u00e3o e eu tento sair das minhas caixinhas de linguagens e utilizar formas simples de express\u00e3o para falar de temas grandes e complexos, dialogamos e vamos fazendo compara\u00e7\u00f5es de educa\u00e7\u00e3o na Bol\u00edvia e no Brasil, eu estava mesmo em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"quotes\">\n<blockquote class=\"eb-quote style-default\"><p>Ser empres\u00e1rio n\u00e3o d\u00e1, estudar nem pensar.<br \/>\nTem que trampar ou ripar para os irm\u00e3os sustentar<\/p>\n<p><cite>A Vida \u00e9 Desafio, m\u00fasica&nbsp;do&nbsp;Racionais Mc&#8217;s<\/cite><\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"image\" style=\"text-align: center;\">\n<div class=\"eb-image style-clear\">\n<div class=\"eb-image-figure is-responsive\">\n<p>\t\t\t\t<a class=\"eb-image-viewport eb-image-popup-button\" href=\"images\/p\/936\/Marcelo-Renda-rendaphoto-2.jpg\" title=\"Foto: Marcelo Renda @rendaphoto\"><\/a><\/p>\n<p><a class=\"eb-image-viewport eb-image-popup-button\" href=\"images\/p\/936\/Marcelo-Renda-rendaphoto-2.jpg\" title=\"Foto: Marcelo Renda @rendaphoto\"><br \/>\n<\/a><a class=\"eb-image-viewport eb-image-popup-button\" href=\"images\/p\/936\/Marcelo-Renda-rendaphoto-2.jpg\" title=\"Foto: Marcelo Renda @rendaphoto\">\t\t\t\t\t<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/b2ap3_medium_Marcelo-Renda-rendaphoto-2.jpg\"><br \/>\n<\/a><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"eb-image-caption\">\n\t\t\t<span>Foto: Marcelo Renda @rendaphoto<\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"heading\">\n<h3>Mas Agnes, eu n\u00e3o entendi. O que informalidade tem a ver com gente morando na rua?<span>&nbsp;<\/span><\/h3>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p><span>Todos esses acontecimentos pautam trabalho, educa\u00e7\u00e3o, renda e acesso, todos dependem de pol\u00edticas p\u00fablicas que visem realmente construir um Estado com um foco para o povo e n\u00e3o para beneficiar o bolso de empres\u00e1rios brancos.<\/span><\/p>\n<p>As pessoas est\u00e3o na rua s\u00f3 por estarem? Uma vida decente garantida com in\u00fameros outros fatores atuantes n\u00e3o as fariam poder ter um teto? Nosso Estado tem deveres e eles est\u00e3o e s\u00e3o garantidos pela constitui\u00e7\u00e3o, mas o que vejo \u00e9 somente um Estado de direitos para ele mesmo. Ele pode nos matar, nos violentar, permitir trabalhos an\u00e1logos a escravid\u00e3o e ainda assim ser exaltado. A&nbsp;n\u00f3s resta a submiss\u00e3o, o desespero se amanh\u00e3 teremos o que comer ou seremos tratados como o fedor da cidade e a sujeira da rua.<\/p>\n<p>Tudo isso ocorrendo em meio a uma pandemia que j\u00e1 matou mais de 500 mil pessoas, mas infelizmente nossa popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o parar\u00e1 de morrer ap\u00f3s o controle da pandemia, pois n\u00e3o morreu somente por isso, nosso pa\u00eds negligenciou diversas pol\u00edticas poss\u00edveis em um pa\u00eds desigual e o governo de S\u00e3o Paulo tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Para ouvir precisamos primeiro trabalhar nosso olhar, ele precisa se distanciar do que acreditamos e enxergar a crueldade da realidade, onde estamos nela? Serei como o lixo no ch\u00e3o?&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No dia 12 de agosto de 2021, novamente fiz algumas caminhadas no centro da cidade de S\u00e3o Paulo e n\u00e3o pude deixar de notar a presen\u00e7a da pol\u00edtica ao meu redor.&nbsp; Foto: Marcelo Renda @rendaphoto No dia 12 de agosto de 2021, novamente fiz algumas caminhadas no centro da cidade de S\u00e3o Paulo e n\u00e3o [&hellip;]&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":19,"featured_media":1876,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[11],"tags":[79,130,333,280,214],"ppma_author":[146],"class_list":["post-1878","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-colunas","tag-colunas","tag-desigualdades-sociais","tag-fome","tag-fome-na-pandemia","tag-pandemia-de-covid-19"],"acf":[],"authors":[{"term_id":146,"user_id":19,"is_guest":0,"slug":"denme-col-7cattive-me","display_name":"Agnes Roldan","avatar_url":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/ede3655bacea8edb6f1f9fe0441dede275012e9717a5f61f7c1811cf45c942d2?s=96&d=mm&r=g","first_name":"Agnes","last_name":"Roldan","user_url":"http:\/\/","job_title":"","description":"<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/agnes.roldan.756\"><i><\/i> \/agnes.roldan.756<\/a>\r\n<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/rouxinol_roldan\"><i> <\/i> @rouxinol_roldan<\/a>\r\n\"Agnes Roldan, \u00e9 volunt\u00e1ria em organiza\u00e7\u00f5es do terceiro setor desde a adolesc\u00eancia, em 2017 foi aluna da Rede Ubuntu - Cursinhos Populares.\r\nEm 2018 entrou na gradua\u00e7\u00e3o em licenciatura em ci\u00eancias sociais, tamb\u00e9m participou da turma piloto da Escola Comum um projeto que reuniu jovens de periferia com intuito de fortalecer as lideran\u00e7as jovens na quebrada. Em 2019 retornou para Rede Ubuntu como coordenadora e atualmente coordena o Polo Santo Dias (Jardim \u00c2ngela) e o Polo Dona Edite (C\u00e9u Cap\u00e3o Redondo). \u00c9 uma das organizadoras do Sarau Apoema - Jardim \u00c2ngela.\""}],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1878","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/19"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1878"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1878\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3725,"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1878\/revisions\/3725"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1876"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1878"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1878"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1878"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/ppma_author?post=1878"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}